Foto: Abílio Branco

Os comboios guardam histórias só suas, dia após dia, anos atrás de anos, milhares de vidas que, ocasional ou diariamente ali são transportadas entre estações, de um ponto para o outro da vida.

Os comboios percorrem Portugal em todos os sentidos, em muitas direções, e raramente param. Só em situações extremas, já se sabe, entre os fogos do verão e as cheias e derrocadas no inverno. Ou em caso de um acidente. Os comboios só param quando as linhas são atingidas de alguma forma, que raramente é boa. Fora isso é vê-los a transportar gente, tanta gente, tanta história.

Dos meus anos de comboio entre Mação e Lisboa guardo também as minhas memórias, horas e horas de camaradagem, de amizade e de partilha que ali se viveram. A maioria são episódios cómicos e felizes, daqueles que ficam em nós para o resto da vida. Foram tempos francamente bons.

O meu vizinho Abílio Branco, agora reformado e de regresso a Mação, é um acérrimo e raro conhecedor destas máquinas valentes que há anos ligam terras, permitem outras vidas, levam o interior ao litoral, e não só. 

Todas as semanas recebo pelo menos uma partilha de uma destas máquinas que gosta de fotografar e registar: que máquina, a que horas, origem e destino e, mais importante, quantos apitos na sua passagem, nomeadamente, na nossa estação (agora apeadeiro, mas sempre Estação) de Alvega-Ortiga. Fala-me desta paixão, partilhada por tantos amigos siderodromófilos (ou, como diz, os tais maluquinhos dos comboios).

Em casa, ou onde quer que esteja, recebo mensagens e imagens fantásticas, de um mundo que nos passa ao lado, sempre na linha, e que me deixam mais rica, como esta: “Espécie em vias de extinção, última da série 1960 ( 13 unidades de 1979) , bela donzela diesel, com sonoro espetacular, locomotiva Medway ( ex-CP ) Bombardier canadiana nr 1964, tracionando o comboio nr.50531, vagões His com pasta papel para exportação , nr.50530, Ródão/Entroncamento @ Alfândega-Ortiga, 18 novembro 2025, 10,21pm, 3 lindos (a)pitos. Aparição rara por estas paragens, quiçá a derradeira…”.

Compreendem que na quinta-feira, dia 5 de fevereiro de 2026, com o Tejo a encher e a ameaçar chegar à Estação, eu já sabia que ia receber fotografias. Nunca falha, este meu vizinho.

Só que conseguiu surpreender-me mais do que o costume. Não só enviou as deste ano, como teve a amabilidade de partilhar uma memória fantástica, quase com meio século.

Foi em 1979 que a região sofreu uma das maiores cheias de que há memória, mas em 1978 também houve cheias que apanharam linhas. Em tantos locais, a linha do comboio acompanha os rios – como a linha do Douro acompanha o rio homónimo, a nossa Linha da Beira Baixa acompanha o rio Tejo em grande parte do seu percurso.

Em fevereiro de 1978, o meu vizinho Abílio vivia no Entroncamento e apanhava todos os dias o comboio para Santa Apolónia, trabalhava em Lisboa. Saía do Entroncamento às 7 da manhã e chegava a Santa Apolónia às 8h35. Mas nesse fevereiro, há 48 anos, num desses dias em que apanhou o comboio que ia de Tomar rumo a Lisboa, depararam-se entre Torres Novas e Mato Miranda com muita água na linha. Foi o último comboio que ali passou naquele dia, e já a arriscar.

O maquinista hesitou e parou, antes de avançar. Lá seguiu, com o comboio cheio de gente, o que fez lentamente, cheio de cuidados.

Fizeram aquele troço cheio de água muito, muito devagar. E começaram a ver, nos sobreiros e azinheiras, coelhos que para ali subiram, a par da subida da água, e assim se resguardavam.

Conta o vizinho Abílio que o comboio ia tão devagar que dava para descer, caminhar na água, e voltar a entrar. E alguns houve que foram às árvores rodeadas de água e “pescaram” coelhos das árvores como, de resto, fotografou e me enviou numa generosa partilha das suas memórias dos comboios.

Os comboios guardam histórias só suas. Na verdade, guardam muitas memórias de muita gente. Esta é realmente peculiar: o registo de um dia, num mês e num ano específicos, em que de comboio, rasgando as águas, homens “pescaram” coelhos nas árvores.

Nota final: um abraço grande a todos os que têm as suas vidas afetadas pelas cheias. 

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação. Licenciada em Sociologia, trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é.

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