“Uma obra deste género terá com certeza impactos ecológicos graves, portanto, se o próprio açude de Abrantes já tem impactos ecológicos na migração das espécies piscícolas e todas as espécies são afetadas por uma barreira no rio, este em Constância também o terá, num percurso que ainda não tinha açudes entre Constância e Abrantes”, disse hoje à Lusa o porta-voz do movimento, com sede em Vila Nova da Barquinha.
Segundo Paulo Constantino, “qualquer açude que seja feito a jusante de Abrantes irá retirar o espaço ao que restava do rio Tejo livre que ainda corria até Lisboa”, tendo apontado aos “impactos negativos” que a subida do nível da água na zona de Constância poderá criar” na região.
“Criando uma albufeira com certeza que terá impactos na zona da praia fluvial de Constância, terá impactos para as descidas de canoa no resto do rio selvagem, desde a barragem do Castelo de Bode, no rio Zêzere e, portanto, estes são os primeiros impactos, os ecológicos e os da atividade de lazer e da atividade lúdica desportiva e de natureza, que terão impactos certos”, afirmou.
O proTEJO alertou hoje que o período de discussão pública para a construção do açude no rio Tejo abriu a 2 de dezembro, no portal Participa [participa.pt], e que decorre até dia 15 de janeiro, no âmbito do Estudo da Valorização dos Recursos Hídricos para a Agricultura no Vale do Tejo e Oeste.
“Este açude faz parte do estudo de valorização dos recursos hídricos do Vale do Tejo que foi ordenado pelo Governo anterior, no âmbito do lançamento da ideia do Projeto Tejo, que previa a construção de quatro novos açudes e duas barragens de Abrantes até Lisboa, de 20 em 20 km, e este estudo foi lançado agora a consulta pública”, enquadrou Constantino.
Para o dirigente, “aquilo que numa primeira vista parece sair do estudo é, efetivamente, a construção de um primeiro açude em Constância Norte, que é chamado de ‘Constância Norte’ e que será a jusante da foz do rio Zêzere no rio Tejo, portanto, localizado na zona da Praia do Ribatejo e que irá criar uma albufeira para assegurar a água que vai ser distribuída pela margem sul e pela margem norte do Tejo até à zona do Oeste, através de canais”.
ÁUDIO | PAULO CONSTANTINO, MOVIMENTO PELO TEJO – PROTEJO:
De acordo com o divulgado no portal Participa, este estudo compreende “o aproveitamento hidroagrícola, as disponibilidades em solo e água, e a suas conceções técnicas, adaptadas, equitativas e economicamente e ambientalmente sustentáveis” e considera “a questão dos fins múltiplos, a produção de energia, o abastecimento de água, a defesa contra cheias, a regularização de caudais ou a navegação, a questão da racionalidade da eficiência e da sustentabilidade técnica, a questão do ambiente e as questões financeira, social, económica e de desenvolvimento regional e nacional”.

“Como vamos utilizar a água? Como vamos gerir os recursos hídricos existentes? Como vamos compatibilizar a conservação e valorização de recursos hídricos com as necessidades? Como vamos integrar as duas componentes, superficial e subterrânea, do ciclo hidrológico?”, são questões que enquadram a consulta pública promovida pela Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural.
Para o movimento proTEJO, que rejeita a construção de novos açudes e barragens no rio Tejo, o estudo “estabelece bem as prioridades”, tendo feito notar “pressões para que se comecem pelas infraestruturas sem se repensar na redução das perdas e na eficiência” do uso, e que “prejudicam a parte ecológica, prejudicam as espécies, e prejudicam a biodiversidade, fundamentais à nossa vida e à vida de todos os seres”.
Paulo Constantino disse ainda que o proTEJO “apela sempre à participação dos cidadãos nestes processos, porque vão ser eles os diretamente afetados, nomeadamente também através das instituições que os representam, neste caso com maior prioridade para os municípios de Vila Nova da Barquinha e de Constância”, onde o futuro açude poderá ser construído.
“Que se pronunciem sobre estas soluções, que pensem se em termos de biodiversidade, em termos das questões ecológicas e em termos daquilo que consideram prioritário e estratégico para os seus concelhos, se consideram que vale a pena apoiar estes projetos e que exijam que sejam estudadas as alternativas aos mesmos, porque existem muitas alternativas, nomeadamente na eficiência do uso da água, na redução das perdas do uso da água, que podem ser implementadas muitas vezes muito mais baratas, muito mais económicas e muito mais ecológicas”, concluiu.
