O presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém alertou hoje que o Médio Tejo atravessa uma “fase muito complicada”, conjugando os efeitos da tempestade Kristin com a previsão de pluviosidade elevada e a subida dos caudais dos rios, num cenário que classificou como “uma simbiose perfeita de calamidade”.
No comando sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, em Praia do Ribatejo (Vila Nova da Barqunha), Manuel Jorge Valamatos referiu que, depois do “rasto de destruição” deixado pela tempestade nas redes elétricas, sistemas de água, comunicações, habitações e edifícios públicos, a previsão de chuva intensa para as próximas duas semanas agrava o risco, com solos saturados e níveis elevados no Tejo, Zêzere e respetivos afluentes.

Também o comandante sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, David Lobato, explicou que o dispositivo está a trabalhar “em duas frentes”: a norte da região, ainda a lidar com os efeitos diretos da tempestade em concelhos como Ourém, Ferreira do Zêzere, Mação, Tomar, Torres Novas, Sardoal e Abrantes, e a sul, com o problema das cheias nas zonas ribeirinhas.
Segundo o responsável, os corpos de bombeiros dos concelhos mais expostos acompanham a situação “hora a hora”, em articulação com os serviços municipais e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), monitorizando as descargas das barragens, nomeadamente Castelo do Bode e Fratel, que têm alternado libertações de água para criar capacidade de encaixe face à chuva prevista.
O caudal do Tejo na estação de Almourol encontra-se “pouco acima dos 3.500 metros cúbicos por segundo”, prevendo-se uma “estabilização, mas não uma descida” nos próximos dias, sendo a coordenação com entidades espanholas considerada determinante para evitar agravamentos.
David Lobato admitiu ser “previsível” a necessidade de evacuar algumas zonas ribeirinhas caso a situação se agrave, assegurando que já existem estruturas de retaguarda preparadas, em articulação com a Segurança Social e os municípios, para acolher populações, caso necessário.

ÁUDIO | DAVID LOBATO, COMANDANTE PROTEÇÃO CIVIL MÉDIO TEJO:
Entre 28 de janeiro e 2 de fevereiro, o sub-comando do Médio Tejo registou 1.014 ocorrências nos 11 municípios da sub-região, mobilizando 4.385 operacionais e 1.457 veículos.
A maioria das situações esteve relacionada com quedas de árvores (522), danos em redes elétricas (88) e quedas de elementos de construção (73), com maior incidência em Torres Novas, Ourém e Tomar.
Segundo informação divulgada hoje pela Comissão Distrital de Proteção Civil, encontram-se ativos 11 planos municipais de emergência no Médio Tejo e foi reforçada a monitorização permanente da subida dos leitos dos rios, no âmbito da ativação do Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil, que garante mecanismos de coordenação reforçados a nível nacional.
Manuel Jorge Valamatos adiantou ainda que, no concelho de Abrantes, “ainda há dezenas de habitações sem energia” e destacou a campanha de recolha de lonas e telhas a decorrer no estaleiro municipal e nas juntas de freguesia, destinada a apoiar populações afetadas no concelho e em territórios vizinhos.

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE PROTEÇÃO CIVIL DISTRITAL:
O território mantém-se sob um quadro de exceção, com a situação de calamidade prolongada até 8 de fevereiro, vários planos municipais ativados e o Plano Especial de Emergência para Cheias na Bacia do Tejo em nível amarelo, mantendo-se a vigilância sobre vários pontos críticos do rio e afluentes.
Apesar do cenário, os responsáveis sublinham que não houve vítimas mortais a registar na sub-região e apelam à população para manter comportamentos de autoproteção, numa fase em que a recuperação “vai demorar tempo” e em que, como referiu David Lobato, “não temos a capacidade de controlar a natureza”.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
C/LUSA
