O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

Fernando Manuel dos Santos Freire nasceu em Oleiros, no dia 1 de fevereiro de 1960. Filho de gente pobre, pai mineiro e mãe agricultora, veio ao mundo como o mais novo de três irmãos. Após terminar a quarta-classe, com 11 anos, foi frequentar o Seminário de Beja. Mais tarde, devido à precária saúde do pai, trabalhou como funcionário comercial numa padaria e numa loja de eletrodomésticos. Depois surgiu o serviço militar na Força Aérea e “aterrou” em Tancos, a 5 de janeiro de 1981, tendo sido colocado no AT1. Formou-se no Curso de Sargentos, em 1985, enquanto continuava os estudos, terminando o 12º ano, em Vila Franca de Xira. Posteriormente, entrou para a Faculdade de Direito, em Lisboa. Já licenciado realizou uma pós-graduação em Estudos Europeus. Dominando bem o Direito Administrativo, um coronel reformado, que tinha sido promotor no Ministério Público nos tribunais militares, convidou-o para uma Sociedade de Advogados, e ainda tem escritório em Lisboa, “com 800 processos” por concluir, diz. Saiu da Força Aérea, em 2004, com 35 anos e um dia. Está reformado da Força Aérea e do Cofre de Previdência de Solicitadores e Advogados. Em 2009 abraçou a política devido a um convite do, então, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Miguel Pombeiro. Foi vereador da Educação e da Cultura. Em 2013 venceu as eleições para a Câmara, pelo Partido Socialista, estando agora a terminar o seu terceiro e último mandato. É casado com uma professora e tem um filho.

Este é o seu último mandato, em 2025 não poderá recandidatar-se. Fica até ao final do mandato?

Fico! Quando somos eleitos por sufrágio direto e universal tem de haver confiança. Os pactos são para cumprir, como diz o lema em latim pacta sunt servanda. Se temos um programa e uma estratégia, nomeadamente em termos eleitorais, uma promessa ao cidadão que nos vai eleger, que provavelmente não é do nosso partido, mas conhece a pessoa, e nestes meios isto é muito intenso, seria uma deslealdade. O meu objetivo é cumprir o mandato até ao fim.

E depois o que se vai seguir na sua vida?

Não tenho planos. E não estou preocupado com isso. A bem da verdade, aprendemos que em política nunca se deve dizer nunca. Estou reformado da Caixa Geral de Aposentações desde 2009, estou reformado do Cofre de Previdência de Solicitadores e Advogados desde o dia 1 de março de 2025. Ainda lá não chegámos, mas já recebi a notificação que foi deferido o pedido. Tenho muita coisa para fazer; tenho muita coisa para ler, muita coisa para escrever e, se me quiser entreter, tenho 800 processos no escritório em Lisboa para dissecar… parece-me que não vou lá, mas pronto! É muito mais fácil, na atitude de conforto, porque a reforma deve ser muito interessante. Estou reformado há 15 anos, mas nunca estive parado, sempre a trabalhar. Vou aproveitar para escrever sobre a História de Vila Nova da Barquinha. Também escrevo alguns artigos para jornais, nomeadamente para o mediotejo.net. Devido à investigação histórica que faço, vou ter de ir para os arquivos e dissecar alguns livros, atas e aqueles papeis que, de facto, têm ciência. Nunca gostei de misturar o cargo com uma situação que pode, eventualmente, ser pessoal.

A História é uma das suas paixões, não é verdade?

Sim, sem dúvida. A investigação histórica, particularmente local, porque entendo que não há muita gente a escrever sobre isso. Sou administrador de um blog da minha terra, porque a gente também é de onde nasce, com umas fotografias antigas e é espetacular. As pessoas, nomeadamente as novas gerações, não se interessam muito pelas coisas, mas depois quando começo a contar histórias – tenho grande facilidade em escrever pela minha formação católico-religiosa no Seminário, tínhamos uma doutrina espartana, e depois com o curso de Direito, temos mesmo de saber porque temos de fazer alegações e conclusões sintéticas. Gosto de História, nomeadamente de Vila Nova da Barquinha. Felizmente o sr. Roldão fez uma investigação muito boa, sobre alguma História de Vila Nova da Barquinha.

Tenho alguns amigos na área da História como o Luís Pedro Batista, do Entroncamento, ou a Manuela Poitout. Vamos trocando informações. Acho que isto do conhecimento é muito importante ser partilhado e não guardar para nós próprios. Escrevo já na revista Nova Augusta, na revista Zahara, escrevo em Oleiros, no mediotejo.net. Haverá certamente muita coisa para escrever. Em termos de raciocínio, vou continuar a produzir conhecimento.

Não tem, portanto, ambição de trabalhar em cargos governativos ou ser candidato a câmaras de outros municípios? E mais tarde regressar?

Não tenho, nenhuma. Já tive convites para ser candidato a câmaras municipais, recusei liminarmente. Não faz sentido nenhum. Nem faz sentido, eticamente, ser por exemplo presidente da Assembleia Municipal da Barquinha. Não devo estar a supervisionar, a fiscalizar, atos que eu pratiquei. É a minha maneira de ser. Os juristas também têm, por vezes, uns princípios muito ortodoxos.

 Porque escolheu esta vida de autarca? Como é que chegou à Câmara?

Nunca pensei! Venho para a política aos 49 anos e 9 meses, ou seja, quase aos 50 anos. Como sabe, o estatuto militar não permite filiações partidárias, proibido pelo artigo 31 da Lei de Defesa Nacional, tendo em conta, nomeadamente, o princípio da independência e para não politizarmos… consequência da Revolução do 25 de Abril e da Constituição que surgiu nessa sequência. Vim para a política porque, na altura, em 2009, o Miguel Pombeiro me convidou, estava eu a exercer advocacia em pleno, quando ganhava dinheiro – e ganhava-se muito dinheiro na advocacia. Mas tinha um grande problema; ir e vir todos os dias, ou seja, a grande advocacia acontece nos escritórios em Lisboa, os grandes clientes estão em Lisboa – tenho escritório na Baixa -, mas era um desgaste significativo. Embora o comboio permita facilitar uma leitura, um convívio entre as pessoas, onde se criaram relações de amizade – todos os anos pelo Natal fazemos um encontro. Agora quando entro em Lisboa sinto-me desconfortável.

Por que razão nunca foi viver para Lisboa optando por ficar na Barquinha?

Porque sou um homem do campo. Como disse, tenho muitas reservas em entrar em Lisboa, neste momento. Muito movimento, muita agitação, faz-me muita confusão. Sou um homem que gosta de conhecer os campos, de passear nas ribeiras, de fotografar. Quando vou para a minha casa de xisto, em Oleiros, às 7h00 já estou fora da cama e a passear, para ver os animais, ouvir os pássaros, apanhar cogumelos, ver os ribeiros, o contacto com a natureza, por isso Lisboa, nem pensar! É bom para trabalhar, porque é aí que temos clientela, em termos jurídicos, mas para viver, não. São estes anti stresses que criamos, que nos criam algumas afetividades e alguns carinhos e em certa altura da vida já podemos selecionar.

Portanto chegou à Câmara através do Miguel Pombeiro, mas o que o motivou?

Em primeiro lugar o projeto que me apresentou. Na altura, para me cativar, havia um processo complicado de uma fundação, que acompanhei, em que os órgãos sociais tinham sido destituídos por problemas complicadíssimos e depois até foram condenados com processos-crime. Chamou-me para me convidar para a sua equipa, e falou-me em projetos de Cultura, para o Parque, e havia ainda a possibilidade de auferirmos um terço da nossa pensão de reforma, além do salário de vereador. Mas com uma lei superveniente à minha entrada, de José Sócrates, em 2010, os políticos deixaram de poder auferir esse rendimento. Portanto, foi essencialmente com o projeto cultural que me cativou, de entrega, da própria sociedade e de partilha de conhecimento. Sempre fui muito social, gosto deste contacto com as pessoas, tem muito a ver com a origem da terra, dos contactos sociais, aliás, se há coisa que me faz confusão é a falta de contactos sociais dos políticos.

Começou aí um trabalho conjunto…

Exato. Para mim Miguel Pombeiro tem uma visão magnífica da política. Foi ele que virou esta terra de patas para o ar, com um projeto de transformar um caixote do lixo, onde toda a gente despejava tudo, num magnífico Parque de Arte Contemporânea. Essa visão estratégica permitiu-me mais tarde, em 2016, implementar um projeto de regeneração urbana. As casas estavam todas a cair, como estão em todas as vilas do interior. Começámos na zona do Intermarché, depois as avenidas, tudo… em 10 anos o que se conseguiu edificar, está relacionado com o projeto, do convite de confiança, de Miguel Pombeiro. E daquilo que se chama responsabilidade social. Temos de escolher para a política aqueles que gostam da política e que não se aproveitam da política. Como disse não vim das Jotas nem de outras situações. Venho do mundo do trabalho. Mas vejo que isto vai mudar, porque os bons políticos – e não estou a dizer que sou bom político – devem ser remunerados em conformidade e não podem arriscar o seu património pessoal em projetos, sociais e gerais, para o bem comum. E isso não acontece na política.

A lei de limitação de mandatos para mim está correta, na política tem de ser rodar, as pessoas não podem permanecer nos cargos tanto tempo, mas também não pode haver promiscuidades como aquelas recentes, em que se faz uma lei para um determinado tipo de titular. Isso é inadmissível em política! E depois dá origem objetivamente a situações de populismos e forças políticas que se alavancam com situações que são maus exemplos da política. Há pessoas que estão na política para se servir da política.

Está a referir-se à polémica com Hélder Rosalino, indicado para secretário-geral do Governo, e à alteração à lei para permitir um salário superior ao do primeiro-ministro?

Exatamente. Mas não é só no PSD, também no governo do Partido Socialista existiram casos semelhantes. Os governos, não os tipifico por partido A, B ou C. São maus exemplos da política que devem ser, de uma vez por todas, erradicados, sob pena de termos um populismo crescente como acontece em todo o mundo. Não há honestidade e isto também tem muito a ver com a participação das pessoas.

Ou seja, continuamos a ter uma democracia representativa, mas já não uma democracia participativa?

Exatamente. A participação das pessoas é quase nula. Porque se criaram núcleos de proteção muito rígidos que não permitem a participação de todos, e isso é mau. As coisas têm de ser discutidas, é evidente que nunca se pode chegar a consensos, mas na altura de decidir, para isso, existe o líder.

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

Como comenta o facto de logo após o 25 de Abril, existindo uma grande percentagem de analfabetos no País, houve uma grande participação democrática, com a criação de cooperativas, assembleias nas fábricas, comissões de moradores, enfim, as pessoas eram interventivas, queriam participar no processo de democratização, e atualmente, passados 50 anos, com uma sociedade mais escolarizada, mais informada, quiçá mais culta, deixaram de querer participar no processo político.

Não sei se são mais cultas, esse adjetivo é muito forte. O grande problema são os princípios e os valores, o grande problema é que a sociedade inverteu-se. O 25 de Abril de 1974 é o rebentar da panela, era impossível numa Europa, onde todos já tinham dado independência às suas “colónias”, aos seus estados africanos, Portugal mantar-se como o líder do império. Era uma utopia! Aliás bem retratado no livro de António de Spínola ‘Portugal e o futuro’. Houve de facto um caldo em que as pessoas participavam e se interessavam pela política. Tenho um tio que não foi deputado porque não aceitou ser deputado, e tinha a quarta classe, um homem extremamente culto. Esta questão da política, nos portugueses relaxou muito, é um problema complexo. Porque houve participação e de repente as pessoas começaram a desinteressar-se pela política, ou seja, a não ter apetência para a política. Alguns exemplos não foram dignos, nomeadamente alguns atos políticos, mas também uma questão muito importante que depois tem reflexos nas coletividades, nas associações, o bem comum, a partilha. As pessoas começaram a ser egoístas, no seu ser, e nota-se muito bem aquando da tentativa de conseguirmos pessoas para as coletividades. Sou sócio quase de todas e sou dirigente de várias associações, como da Santa Casa e do Sporting Clube Barquinhense. 

Portanto é sportinguista?

Sou, mas não é por isso. Por acaso, aqui a direção do Sporting eram todos do Benfica, menos eu, o que é incrível. Ou seja, as pessoas viraram-se muito para o seu “eu” em detrimento da comunidade e da comunhão, e isso é visível a partir dos anos 1990. Há de facto um processo egocentrista, relacionado com valores que foram transmitidos, provavelmente pelos seus progenitores. As pessoas começaram-se a encolher e a pensar muito no seu umbigo, para utilizar a gíria popular. Não foi o que aconteceu comigo em 2009, como disse até vim perder dinheiro, mas isso não conta. O que conta é a dedicação às causas, com espírito de luta e com espírito de missão e é isso que continuo a ter e terei até final do mandato.

Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida?

Sem dúvida! Eu tinha prometido várias coisas, nomeadamente na área das IPSS, da habitação, da regeneração urbana, da cultura, da arte, dos impostos municipais, do aeroporto de Tancos, das empresas e da mobilidade entre concelhos limítrofes. Estão todas cumpridas à exceção do aeroporto de Tancos, mas continuo na luta. Queremos mas, às vezes, temos grandes condicionamentos pelo tempo e pelos atos políticos que regem esta nossa administração pública e estes governos, dos quais alguns do meu partido. Mas a qualidade de vida é pública e notória. Desde logo pelos projetos de Cultura e Arte implementados no território, embora o meu amor seja a Educação. Por exemplo, com a criação do Centro de Estudos de Arte Contemporânea, com aulas de pintura, desenho, teatro, marionetas, cerâmica (parceria com o IPT e Fundação EDP), exposições permanentes com a Fundação EDP e ultimamente a sua coleção privada. Isto é um privilégio! Às vezes não é fazer as coisas, é permanecerem no tempo. Neste momento estamos com o projeto Esculturas no Parque, em princípio vamos avançar com mais duas esculturas. Outro exemplo são as palestras aos sábados, os ateliers livres para crianças no CEAC, Conversas Arte & Imagem que acontecem desde 2019, o projeto Arte Pública, em que distribuímos Arte nas freguesias, por exemplo uma escultura de Vhils na Atalaia, de Manuel João Vieira na Moita do Norte. Na música noites de Jazz, na Tuna e no Parque desde 2018, Encontros de Cultura Popular do Ribatejo, o ZezereArts, o projeto Caminhos, o Programa Volver. Não foi por falta de chamamento que não dei Arte às pessoas. É fundamental e hoje identificam a Barquinha como terra de Cultura, e isso é muito bom.

Vou-lhe fazer uma inconfidência, mas António Costa, no Natal de 2023, veio visitar o nosso Parque de Escultura Contemporânea de Almourol, já encontrei o dono da SIC a passear no Parque, completamente anónimos. Também é muito importante a questão das infraestruturas, nomeadamente uma das nossas apostas foi o saneamento básico, não havia na freguesia de Praia do Ribatejo. Um problema complicadíssimo e conseguimos construir a ETAR em 2016. Em 2018 instalámos o sistema de drenagem de águas residuais em Madeiras, Casal dos Pintainhos e em 2024 foi o saneamento das Limeiras e Matos. O saneamento básico é fundamental para a qualidade de vida das populações. Com o que está projetado para a zona Norte de Atalaia, faltam duas ou três ruas, espero que este ano aconteça, ficamos com 97% de saneamento básico no nosso concelho. De facto, é um número muito bonito. Construímos, em 2014, o Pavilhão Desportivo Municipal, o nosso Centro Náutico que tem agora todo o seu desenvolvimento em termos de equipamentos, as antigas escolas reconvertidas, nomeadamente a da Atalaia reconvertida em centro comunitário, com danças de salão, ioga e biblioteca, a escola da Barquinha em Galeria de Arte, o Ninho de Empresas no centro da vila, com 20 empresas, está esgotado, entre muitos outros exemplos. Agora com dinheiro do PRR vamos dotar o Centro Cultural de cinema.

E que leitura faz da escola ter inscrições sempre no limite da capacidade, nos últimos anos?

Na escola temos 1200 alunos, não há mais capacidade de resposta, em termos racionais deveria ter 700 ou 750 no máximo. É evidente que temos muita afluência do concelho vizinho, 30% dos alunos são oriundos da cidade do Entroncamento. Arrisco-me a dizer que temos o parque escolar mais requalificado e mais moderno do País.

Qual a razão dessa escolha?

Ofertas diferenciadas e qualidade de ensino. Devemos ser o único estabelecimento de ensino da região que tem dentro da própria escola laboratórios de ciência. Os pais vão à escola, ao fim-de-semana, às atividades Ciência do Café, Ciência do Paraquedismo, ou seja, estamos sempre a fazer conferências sobre esta temática. Temos recursos do Ministério da Educação, nesta área funcional, e estamos a pagar três trabalhadores. É um esforço sobremaneira do Município para que tenhamos escola a tempo inteiro. Em Vila Nova da Barquinha temos escola aberta das 7h30 às 18h30, com atividades extracurriculares e ATL, tal como os outros municípios, mas de facto temos qualidade no ensino. A melhor visibilidade é a afluência, os pais andam muito atentos e selecionam. Por outro lado, temos vários projetos inovadores como da Gulbenkian, que resultou na rádio Dona Maria, que ainda existe. Muito se deve ao Projeto de Inovação Pedagógica, o chamado PIP, dos seis concelhos em Portugal, Barquinha foi dos escolhidos, porque é uma referência para a Educação. Isto também se deve à excelente parceria que temos com a direção da escola.

Fernando Freire foi reeleito presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, em 2017, com 54,99% dos votos. Foto: DR

Mas como projeto ‘charneira’ considera o urbanismo, não é verdade?

O projeto de requalificação urbana. Tínhamos casas completamente degradadas, a certa altura tivemos 36 imóveis em recuperação na baixa de Vila Nova da Barquinha. A estratégia passou por delimitação de zonas de Áreas de Recuperação Urbana, em 2014, quando havia programas de apoio à recuperação de habitações degradadas. Considerámos a Atalaia, a Praia, Tancos e a Barquinha. Em 2015 iniciámos conversas sobre regeneração e reabilitação urbana, em todas as freguesias. Atendimento personalizado. As pessoas aderiram porque também lhes interessava.

Entre 2012 e 2015 conseguia comprar uma casa no centro da Barquinha por 15 mil ou 20 mil euros. Agora não consegue por menos de 80 ou 100 mil euros. Houve alteração dos planos de pormenor, de Barquinha e de Tancos, com um regulamento municipal para a habitação, para manter a traça.

Esses investimentos exigiram dinheiro, como é que fez esse “milagre” orçamental?

Recorri muito a fundos comunitários. Vivemos numa zona de baixa densidade populacional e não se fazem milagres. Herdei uma dívida de cinco milhões de euros e neste momento tenho uma dívida de 700 mil euros. Quando sair, provavelmente, a dívida ficará nos 200 ou 300 mil euros. Mas faz-se com ponderação, com noites mal dormidas, indo a todos os lados, não pedindo esmola, mas lutando. Tenho uma equipa de gabinete, de apoio, dedicada, tendo vários técnicos dedicados. Celebrei dois acordos coletivos de trabalho, um em 2015 e outro em 2022, com os trabalhadores. Temos de ter maneira de acarinhar os trabalhadores, de motivar as equipas.

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

Temos assistido a presidentes de câmara saírem antes do final do mandato, renunciam para assumirem outros cargos e colocarem na presidência aquele que poderá ser considerado o seu prolongamento, normalmente o vice-presidente. O que pensa dessa estratégia política? Acha que aos olhos do eleitor é uma estratégia censurável?

Poderá ser. Eu não o faria, mas respeito quem tenha essa opção. Mas seguindo o princípio da democracia do 25 de Abril, acho que os presidentes de Câmara devem ser escolhidos no sítio próprio e não ser uma situação dinástica. Deve ser a própria comissão política a escolher e a eleger, tem de haver estruturas internas e haver discussão. Não faz sentido nenhum! A questão da indicação? Percebo que seja uma estratégia de visibilidade e é lícito. A questão da ética e do que é legal dá uma biblioteca. 

O vereador Manuel Mourato foi nomeado vice-presidente em dezembro. Porquê essa nomeação?

O presidente tem de ter sempre um substituto, não pode parar. A Marina está grávida com uma gravidez de risco e só virá lá para setembro. Não posso estar quase um ano sem vice-presidente, ainda por cima com os procedimentos que estão a decorrer, porque fechámos o quadro Portugal 2020, como sabe a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo teve um prémio pela execução, executámos tudo e por isso tivemos um prémio de mais 300 mil euros.  

Será o candidato a presidente da Câmara pelo PS, na Barquinha?

Não sei. É a Comissão Política Concelhia que tem a competência, que é inalienável. Eu tenho um voto entre 21 pares. Nesta altura ainda não há candidato do PS, a Comissão Política pode decidir até março e a Nacional até pode revogar a respetiva indicação, porque não é um ato vinculativo, mas meramente opinativo. O Mourato está a começar agora a tempo inteiro. Mas é uma possibilidade entre várias possibilidades. Sinceramente, uma grande possibilidade, senão não o tinha escolhido para vice-presidente.

Como estão as contas do Município, deixa uma boa herança financeira?

Deixo. Não posso dizer quanto tenho neste momento em caixa, mas andará muito perto dos quatro milhões de euros. O tempo reza o ato, aproveitámos os quadros comunitários e tivemos milhões no investimento turístico. Miguel Pombeiro deixou uma dívida de 5 milhões de euros, mas deixou de forma que a Câmara fosse sustentável. Em 2017 é que saímos do Plano de Ajustamento Financeiro e tivemos uma regra rígida que implementei, que foi o princípio da estabilidade dos impostos, não mudei os impostos durante os meus mandatos. Por muitas obras públicas, por muito investimento, tivemos, na presidência de Miguel Pombeiro, uma asfixia financeira que obrigou a recorrer ao Plano de Ajustamento Financeiro, e eu fiz parte dessa equipa. Saímos do Plano e faz parte do passado.

Comemorações da Batalha de La Lys em Vila Nova da Barquinha. Créditos Pérsio Basso

Qual é a herança de que se orgulha? Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?

A herança de que me orgulho é da regeneração urbana, sem dúvida! E também da Educação, ou seja, pela maneira como somos acarinhados em ternos regionais e internacionais. E orgulho-me essencialmente da Zona Industrial. Deu muito trabalho, implicou a criação de um regulamento próprio. Houve uma altura em que tínhamos lá cinco empresas e neste momento são 20 empresas instaladas. E a Central do Pego veio trazer-nos investimentos perto de 30 milhões de euros. Nomeadamente a José Neves & CA Lda que já está a funcionar, na área do cartão, a Vedamisto Lda que vai entrar agora, o projeto está aprovado e já estão em obra, uma unidade de fabrico de painéis de vedação, e a EMI – Modular Facade, Lda que também vai entrar agora, com um investimento de 15 milhões de euros, também na construção modular. Orgulho-me de facto da expansão porque foi um processo complexo, tínhamos vários problemas, nomeadamente da falta de água, que está resolvido, tínhamos a questão do preço por metro quadrado, que estava a 21 euros e reverteu para 7 euros o metro quadrado, e o princípio do tratamento mais privilegiado; não há nenhum empresário que entre na Câmara Municipal que não se sente à mesa com o presidente.

É o princípio da confiança. Os investimentos que tenho na Zona Industrial foram os empresários que passaram a palavra uns aos outros. Isto implica total disponibilidade, não há horas, nem fins de semana. E também conseguir requalificar todos os monumentos nacional, quer o Castelo de Almourol, quer a Igreja da Atalaia, quer os terrenos do Trilho Panorâmico do Tejo. Há uma que gostaria de realizar, mas já não vou conseguir; o Bio Park.

Na realidade, o concelho atrai alguns projetos de grande fôlego ao nível do turismo, mas que acabaram por não se concretizar, como o Galaxy Park, ou mais recentemente, o Bio Park. Qual é o ponto de situação?

O projeto do Bio Park foi debatido na última Assembleia Municipal com toda a lealdade, toda a gente opinou e toda a gente disse de sua justiça. A confirmar-se os dados que nos trouxeram, documentos de fundos financeiros, de depósitos à ordem de 15 milhões de euros, estamos a confirmar a veracidade desses dados, foi aquilo que os deputados municipais me pediram. Se se confirmarem, o projeto do Bio Park é para avançar. O projeto Galaxy Park, eu ainda cá não estava, será de 2005. Não se vai concretizar.

Uma antevisão do que poderá ser o Bioparque em Vila Nova Barquinha. Foto: DR

E qual foi o problema para o qual encontrou solução, que lhe deu maior satisfação?

Não tive muitos problemas. Só um que consegui ultrapassar, a questão da instalação do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil, que foi público e notório. Houve a intenção que fosse para a Sertã, mas consegui chamar, quem de direito, à razão e à colação, das situações objetivas. Ou seja, da importância estratégica do Polígono de Tancos, da sua centralidade, também no âmbito de Proteção Civil, a gestão em termos estratégicos. Foi o processo mais complicado que tive, mas foi resolvido através do diálogo político.

Nestes três mandatos como presidente de Câmara, nestes 12 anos portanto, qual foi a maior dificuldade?

Como disse a recuperação da Igreja Matriz e do Castelo de Almourol. De facto, as relações da administração central com a administração local, por vezes, pautam-se de grandes dificuldades. É transversal a todos. Pedidos de parecer, situações que não resolvem, depois à última da hora sim e não. É muito complicado gerir com estas entidades e quando precisamos de um acelerador processual… vejamos o que aconteceu no quadro do Portugal 2020. Porque há prazos, a CCDR Centro está sempre a pedir execução, depois não temos um parecer. Para avançar sem o parecer e se o parecer não vem, a responsabilidade financeira é do presidente da Câmara? Às vezes avançamos sem pareceres, aconteceu comigo.

Mas é um risco. Por isso defendia há pouco que a lei deveria ser alterada nesse sentido.

Exatamente. Mas a requalificação da Igreja da Atalaia correu muito bem, mesmo com todos os problemas. Na questão da iluminação, estava previsto no projeto colocar no solo a iluminação da fachada, da obra de João de Castilho, nomeadamente o arco de cruzeiro, renascentista, muito célebre, designadamente em termos de construção e de escultura em Portugal, e não me deixaram fazer isso. Tivemos de meter um candeeiro do outro lado da rua. Mas repare na incongruência, se for ao Palácio de Vila Viçosa, estão no chão. E coloca esta questão junto das entidades e não tem resposta. É o seu poder discricionário. Outro exemplo: tinha orçamentado a pintura interior da Igreja da Atalaia que é monumento nacional. Disseram-me que não podia ser pintada. Insisti, insisti e já tinha passado o prazo, alguém da DGPC foi lá e disse: Isto pintado por dentro é que ficava bem! E foi pintada. Temos lá uma coluna, que neste momento está cintada, estou à espera de um estudo geológico há 14 anos. É muito complicado.

Com a grave crise no Serviço Nacional de Saúde, ao nível dos profissionais e do investimento, como tem sido a questão dos cuidados de saúde primários no concelho, pacífica ou uma dor de cabeça? Não há nesta área também uma responsabilidade dos autarcas?

A competência da Saúde é exclusivamente da administração central. A administração local da Saúde instalou, na antiga sede da Junta de Freguesia, a UCC Almourol, em 2015 cedeu uma viatura, em 2022 cedeu outra viatura, em 2024 gabinete de saúde oral, e com muita pressão, devo ter sido dos últimos autarcas a aceitar a Saúde. Falei com o sr. ministro e tenho uma cláusula contratual do final do contrato que, até 2026, posso denunciar a transferência de competências na área da Saúde; e de facto temos os assistentes operacionais, mais nada. Todo o resto é gestão da ULS e dos órgãos dependentes do Ministério da Saúde. Mas as pessoas vêm ter com o presidente da Câmara. Não temos médicos, nomeadamente não temos médicos nas Extensões de Saúde da Atalaia, da Praia e das Limeiras. Neste momento existem quatro médicos em Vila Nova da Barquinha. As pessoas das freguesias têm de vir à vila. Temos uma vantagem: no concelho não há muita distância das freguesias para o Centro de Saúde. Da Barquinha à Atalaia são 2 ou 3 km, até Tancos são 12 km, até à Praia do Ribatejo são 12 km. Porém, vejo com grande preocupação o futuro do SNS. O relatório que foi sujeito à Assembleia Municipal revela o estado de todos os concelhos em relação a médicos de família e médicos na comunidade e é muito preocupante. É geral e é de todos. No concurso, os médicos que entraram já cá estavam em prestação de serviços.

Estamos a caminhar para um sistema de seguros ou similares. Quem tiver capacidade financeira para se alocar a entidades privadas pode ter saúde, está “safo”, e o termo é este mesmo. Quem não tiver, será muito complicado. E não é por acaso que estão a aparecer na nossa região unidades hospitalares a procurar terrenos, dentro em breve, em Torres Novas, vai abrir um privado. Estão a crescer as entidades privadas para substituir o Serviço Nacional de Saúde.

No seu concelho já há procura de terrenos para instalação de unidades de Saúde privadas?

Sim. Tem a ver com a centralidade. E não é só no meu. É um indicador, não tenho dúvida! O futuro é este porque a administração central da Saúde não está a dar resposta ou não quer dar, o que é outra questão.

O presidente acredita em quê: que a administração central não consegue devido à mudança demográfica, nomeadamente por uma população mais envelhecida a necessitar de mais cuidados de saúde e há menos médicos no setor público pela preferência pelo privado/estrangeiro, devido às condições e remunerações de trabalho? Ou há uma deriva ideológica, política, intencional para privatizar a Saúde?

Não sei. Mas é uma questão pertinente. O que posso dizer é que a Ordem dos Médicos é um grande lobby. Temos de arranjar soluções alternativas e os governos servem para isso. Na Força Aérea os pilotos custam milhares e milhares de euros, mas têm um acordo, ou seja, há um tempo de serviço mínimo para cumprir.

Mas relativamente aos médicos há quem defenda ser inconstitucional, tendo em conta as restantes profissões.

Altere-se as leis! São mutáveis. O grande problema nacional é precisamente esse, ou seja, as pessoas só têm direitos, não têm deveres. A sociedade tem deveres e deveres éticos! Não podemos assistir a uma coisa destas e ficar estagnados. Então e os direitos dos doentes? O direito à Saúde é um bem fundamental. Há vidas em perigo. Tem de haver alguém que decida em termos políticos, tem de se adaptar aos tempos. Não pode ser assim! A questão é se há interesse nisso: provavelmente há grandes grupos de interesse. Os lóbis funcionam ou não?

Então, passados estes anos, a delegação de competências foi ou não um presente envenenado?

Como disse, devo ser dos únicos presidentes de Câmara em Portugal que tem uma cláusula de rescisão, até 2026. Por isso, comigo não há presentes envenenados: ou se cumpre ou não se cumpre. Não tem problema nenhum, está lá a cláusula, é acioná-la! Venham outra vez tomar conta dos respetivos estabelecimentos de Saúde. Tive muitas dificuldades em aceitar essa delegação de competências, telefonou-me o ministro, o assessor do ministro, a tentar convencer o presidente da Câmara da Barquinha, do bom que seria esta delegação de competências. Fui dos últimos a aceitar. Continuo a dizer que não é boa solução, de facto não resulta. E depois tinham precários para integrar na administração pública. São os tais presentes envenenados. De facto, isso acontece e não é fácil trabalhar assim. Mas as populações também têm de ter carinho, ou seja, não posso qual D. Quixote de La Mancha ir contra moinhos. Temos de ter alguma parcimónia a questão da Saúde porque o que interessa é o atendimento que é feito às populações.

E relativamente às outras áreas, na delegação de competências?

Correu tudo muito bem. Quer na Educação, que já assumimos desde 2009, quer na Ação Social, também está a correr bem. 

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

Acha que a região tem falta de investimento público ou aquele que merece?

Não. Tem muita falta de investimento público. Os grandes centros urbanos estão concentrados no litoral. E onde estão os grandes investimentos do PRR? No litoral. Esses instrumentos de que estamos a falar, de equilíbrio ou aceleradores de desenvolvimento, estão a verificar-se em zonas que não estas do interior. Ou seja, a 30 ou 40 quilómetros de Lisboa tudo é interior. Houve um governo que ainda tentou descentralizar. Eu descentralizava tudo, todos os ministérios saíam de Lisboa. Está tudo centralizado em Lisboa, não pode ser! O investimento que é feito junto do mar é pornográfico, enquanto as periferias levam rebuçados. E Barquinha não é dos piores, com o Fundo de Transição Justa conseguimos 30 milhões de euros, mas ainda tentaram levar o investimento para a região de Aveiro, como se a Central Termoelétrica do Pego tivesse a ver alguma coisa com aquela região. Outro problema é não criação de regiões.

Então é um defensor da regionalização?

Claro! Já deveria ter sido há 30 anos. Tal como aconteceu noutros países. Só assim se pode responsabilizar os autarcas e os políticos que estão na região. Os de Lisboa estão muito longe, às vezes nem nos atendem. Os autarcas querem ter uma entrevista com quem de direito e não têm agenda. Ou seja, a questão da proximidade na política é fundamental para a resolução do problema, porque quem não sente não é filho de boa gente. Sou um acérrimo defensor das regiões não por causa da criação dos cargos políticos, aliás Portugal é o país da União Europeia que não tem regiões. Por causa do centralismo; centralizar, centralizar. Então façam duas regiões: o litoral e o interior e depois dividam o bolo ao meio. É uma afronta!

E no seu território onde deveria ser a aposta da administração central?

Em infraestruturas abandonadas, como o aeródromo de Tancos. Na ligação da Atalaia até Almeirim. Dois exemplos paradigmáticos de como a administração central é paralisante e não resolve. Na ligação da ponte de Barquinha e de Constância, que liga a duas estradas nacionais. No aeródromo qualquer dia nem os militares lá podem treinar. Qualquer dia os paraquedistas, que precisam, nomeadamente da Força Aérea que vêm de Sintra, para os respetivos voos, para os saltos, qualquer dia não podem lá voar. Nos exercícios os alemães já recusam vir com os aviões para aterrar em Tancos. Os coisas estão contempladas no Plano Nacional de Investimentos, mas depois não passam do papel. A ponte de Constância já esteve no PNI quantos anos? 30 anos! Não pode ser.

Ao nível das questões de saneamento básico, acesso à internet, à educação, desporto e cultura, o concelho desenvolve-se de forma harmoniosa ou há freguesias a carecer de investimentos estruturais?

Não. Tem havido uma preocupação de equilíbrio. A Zona Industrial está colocada num local, o Parque Desportivo Municipal está numa freguesia, a piscina já está noutra freguesia. Houve aqui um princípio do equilíbrio para ter um todo. De facto, há duas freguesias, Barquinha e Atalaia, que pela sua centralidade e proximidade, quer à ferrovia quer aos nós rodoviários, têm uma apetência para o crescimento mais intensivo. Por outro lado, Tancos é magnífico e está a ter procura, nomeadamente com as novas construções. Entraram vários projetos na Câmara Municipal. Também há procura intensiva na Praia do Ribatejo, o que também me alegra. Um autarca deve-se preocupar com todos.

Na sua opinião porque é que a coesão territorial não avança ao ponto de tornar o País mais igualitário. É falta de vontade, de capacidade ou de competência?

Na Barquinha não noto tanto essa desigualdade, mas vou muita vez à minha terra natal, Oleiros, e vias de comunicação não existem. Eu também fui um dos que saiu, com pena, mas de facto não há coesão. A última estrada que ainda atenuou a desigualdade foi construída em 2010, de Sertã a Oleiros demoravam quase uma hora, e estamos a falar de 30 quilómetros. Tem de haver vontade política. Lembra-se do discurso do sr. Presidente da República aquando dos incêndios de 2017; temos de descentralizar. E a realidade de hoje, está descentralizado? E os governos; temos de dar mais voz ao interior, mas tem havido descentralização, tem havido coesão? A minha resposta é não. O melhor que saiu do 25 de Abril, para além da liberdade e da liberdade de expressão, são as autarquias locais. Não falo de partidos políticos porque tenho amigos em todos os partidos políticos desde a esquerda à direita. E muito se deve à entrega dos autarcas, também aos de freguesia. Portanto, não há vontade política, que passa essencialmente, como disse, pela criação de regiões.  

A questão das portagens na A23 e A13 eram consideradas um entrave ao desenvolvimento económico. Como viu a abolição das portagens nestas ex-SCUTS ao fim de 13 anos?

Aleluia! Quem lutou pelas portagens não sei, mas devemos ser a única autarquia que intentou uma ação contra o Estado Português por causa das portagens. Ainda com o falecido dr. José Amaral, na altura através de uma ação popular que fizemos. Ainda por cima com a injustiça que existia desde as portagens na A1 até Abrantes, quando sabíamos que era uma IP6. Depois uma coisa que nunca percebi que foi a criação de um pórtico de 5 cêntimos à entrada da Atalaia e depois passados 300 ou 400 metros estava outro pórtico. Pórticos seletivos, parece que foram plantados. E por outro lado, a discriminação do preço das portagens face às regiões de grande densidade. Quanto é que pagava de Lisboa a Torres Novas? O mesmo troço, na A23, pagava o dobro. E perante esta injustiça lutámos. Isso é que é coesão territorial; a abolição das portagens. São vários os caminhos, esse é um. Quando começamos esta luta em 2010, já era tarde!

Acha que a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo podia ter um papel mais reivindicativo, ou não tem porque todos os presidentes de Câmara são eleitos pelos partidos do poder: PS e PSD?

Não. Não vejo as coisas assim. Aliás, bem reivindicativos são. Foi um privilégio trabalhar com todos. Lealdade, interesses da região, interesses dos seus concelhos, abnegação no discurso, na palavra e nos atos. Em questões complexas, como esta última questão do açude, nunca deixei de ter solidariedade de qualquer um deles, de que partido fosse, e isso é bom. Se querem substituir as regiões pelas Comunidades Intermunicipais, que seja, deem competências às Comunidades Intermunicipais, o importante é que nós façamos acontecer na nossa região e nos nossos concelhos e as populações se sintam bem, que possam viver com qualidade de vida, leia-se saúde e bem-estar e também com Cultura e Educação. Dando condições para que não se afastem para regiões de grande densidade populacional onde a criminalidade aumenta, o respeito pelo próximo não existe. Que haja humanidade.

Mas é nas regiões de grande densidade populacional que estão os empregos.

Sim. Esse é um grande problema que temos de resolver. Temos de criar outras medidas. Por isso falava na descentralização, designadamente dos ministérios, a propósito da coesão. Venham trabalhar para o interior, venham saber quanto a vida custa. A propósito do carbono… quem é que dá oxigénio a esta gente toda? Quem é que dá água a Lisboa? Nós. E compramos a água mais cara que Lisboa? Como é que é possível, se a água vai daqui para Lisboa? Estamos aquase a pagar o dobro do preço da água. Coesão é não fazer uma concessão nomeadamente a uma EPAL ou a uma grande multinacional, empresas para onde muitos políticos vão. E coesão é permitir que a CIMT e as suas entidades de exploração de água e se saneamento consigam captar a água em Castelo de Bode para servir as suas populações.

Fernando Freire, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha. Foto: mediotejo.net

Na região, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição na oposição, como por exemplo o PCP, o BE ou o CDS. Como é a relação, no que toca à gestão do Município, com a nova realidade de vereadores de movimentos independentes ou de partidos extremistas como o Chega? Como vão ser as eleições autárquicas de 2025?

Na Barquinha não há eleitos de movimentos independentes. Vão ser complicadas. As redes sociais deram voz a algum descontentamento, por algumas asneiras praticadas pelos governos, digam-se autárquicos e nacionais. Essencialmente por erros dos partidos políticos governantes. Algumas pessoas não exercem o contraditório, por isso parecem verdades absolutas, dão o dito por não dito, depois conseguem fazer uma pirueta como bons políticos que são. Mas vejo com alguma preocupação aquilo que a raça humana é capaz de fazer, quando vejo interferência política dos donos do mundo quer na Alemanha, quer na Finlândia, quer na Noruega, quer também em França. É muito complexo; alguém que julga que sabe tudo, depois critica tudo, e não dar direito ao contraditório. Vejo com alguma preocupação a ascensão de partidos extremistas, nomeadamente de extrema-direita. No populismo existe a ofensa, existe o rebentar de uma sociedade que deu o que deu na Segunda Guerra Mundial, nomeadamente com Hitler, começou precisamente pela perseguição ao Partido Comunista e por aí adiante. A História ensina-nos muita coisa, temos de estar atentos. As pessoas não gostam de ler e não gostam de sonhar, e ler é fundamental para sonharmos com um mundo mais humano, mais tolerante e entendermos o mundo.

Na Assembleia Municipal de Barquinha há dois eleitos do Chega, e é verdade que estiveram em silêncio durante quatro anos; não lhes conheço nenhuma ideia, nenhuma proposta, nenhum debate ideológico, houve uma intervenção durante quatro anos. Aguardemos serenamente o que aí vem, mas certamente não será boa coisa. São os sinais dos tempos e tenho a sensação de que poderão conquistar algumas câmaras.

Acha que marginalizar a extrema-direita é bom ou mau para o sistema político?

Acho que é mau. Tem de ser no combate, no dia a dia, cara a cara, confrontar. Temos aqui um senhor que era líder do Chega que gostava muito de provocar e fazia comunicados na imprensa e sempre levou direito de resposta do presidente da Câmara. Se não há resposta fica a verdade dele. A democracia é exercer o contraditório, é dizer aquilo que pensamos, é fundamental!

Convidaria alguns dos vereadores da oposição para trabalhar consigo?

Sim. O meu sócio é de um partido que não é o meu, a mulher do meu sócio foi vereadora da Câmara Municipal de Lisboa de um partido que não é o meu. Para dar um exemplo concreto de que sei trabalhar com todas as equipas, assessores parlamentares dos vários partidos políticos são meus amigos, quer da esquerda quer da direita. Sempre fui um homem de liberdade, de tolerância, de debate olhos nos olhos. Cada um tem a sua ideia, temos de respeitar. É um princípio de educação que me deram os meus pais, por isso não tenho problema nenhum em confiar em outras pessoas. Às vezes são melhores as pessoas da oposição do que são as do próprio partido.

Que critica lhe merece a classe política do concelho?

Não tenho críticas nenhumas. Tive sempre mandatos sossegados, calmos, à exceção daqueles casos pontuais com esse líder e agora com a nova corrente do Chega, não tive problemas com ninguém, pelo contrário. Uma das coisas que implementei na Câmara Municipal foi o princípio da transparência dos atos administrativos, que é fundamental nos dias que correm na democracia participativa: todos tomarem parte da decisão.

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

A região do Médio Tejo tem recebido, cada vez mais, maior número de imigrantes. No seu concelho, tem esses números? E o que pensa deste multiculturalismo?

Não tenho números. Tenho da Zona Industrial. De resto não tenho números porque não compete à Câmara um processo de fiscalização, estamos a falar de direito privado puro e duro, enquanto direito fundamental. Temos o Gabinete de Apoio ao Imigrante e não temos tido atendimentos nenhuns. Verifico existir uma comunidade de brasileiros. Na escola há alunos estrangeiros, japoneses, chineses, brasileiros. Mas como 30% dos alunos são do Entroncamento corta alguma análise. Qual a origem? Nunca perguntei. Importa que a escola corra bem, que haja inclusão. Porém, na Zona Industrial, para trabalhar no chão de fábrica, só há estrangeiros. Isto tem de ser dito, ou seja, é tudo muito lindo, abrem as empresas, mas depois é só escritórios, ou direções, ou contabilistas. A fábrica de colchões está a produzir 700 colchões dia para exportação, poucos são os operários nacionais. Há outra empresa, a Vivid Foods, tem 140 funcionários, 90% são brasileiros. Quem trabalha no chão de fábrica é de facto pessoal não nacional.

Como se ultrapassa esta questão?

Provavelmente pagando melhor a essas pessoas. E muito foi feito para o aumento do salário mínimo nacional, foi uma grande luta, mas na agricultura não estou a ver interesse dos portugueses, a não ser casos pontuais para trabalhar “nos nervos da terra”, como gosto de dizer. À exceção do presidente da Câmara que também gosta de cultivar as suas hortaliças.

A habitação é um problema nacional e Barquinha é o segundo município do País onde mais subiu o preço das habitações. Sobre a Estratégia Local de Habitação, sente-se satisfeito com o trabalho realizado nesta área? Pode ou não correr o risco da habitação a custos acessíveis não ser uma realidade, quer pelo valor de construção estabelecido pelo IHRU quer pela falta de mão de obra, de empresas que se candidatem aos concursos públicos?

Sim, é a lei da oferta e da procura. Como disse na regeneração urbana houve aqui um trabalho magnífico. A procura também se deve à oferta de serviços públicos. A primeira Loja do Cidadão do distrito de Santarém foi na Barquinha, em 2010, deve-se também ao Miguel Pombeiro, com uma visão muito estratégica. As acessibilidades… tudo isto foi estudado e nada acontece por acaso. Agora vê-se os preços das casas a crescer, mas as pessoas procuram qualidade de vida, um maior confronto. Os dados surpreenderam-me, apesar de já saber que havia muita procura. Relativamente à construção de habitação a preços acessíveis vai ser uma realidade; temos a candidatura aprovada para 12 fogos, já cedemos um terreno ao IHRU por escritura, vai ser junto da Santa Casa da Misericórdia da Barquinha, está a andar e vamos concretizar o projeto. Mas sou muito pragmático e não gosto de antecipar cenários. Se houver falta de mão-de-obra a solução é aumentar o preço. Ou seja, há o financiamento por parte do IHRU e depois terá de haver o financiamento restante.

Quem estiver cá e quiser continuar a fazer o arrendamento acessível terá de suportar sempre 200 ou 300 mil euros, já não é novidade! O preço dos materiais disparou, não há volta a dar, e há uma grande possibilidade dos concursos ficarem desertos. As coisas pioraram muito desde a pandemia; no meu mandato tive duas dores de cabeça: a troika e a pandemia… até fui arguido na pandemia.

Momentos particularmente difíceis…

Foram. Mas também foi o tempo em que pudemos ser humanos. Acho que as pessoas já se esqueceram disso. Durante a pandemia não estive um dia em casa, estive sempre na Câmara. Como sabe os presidentes de Câmara são os homens da Proteção Civil; levando coisas às pessoas, passando declarações… muita gente mora no Entroncamento, mas tem os pais idosos nas aldeias. Foi um privilégio servir Portugal, não só a nossa comunidade, num tempo de pandemia. Fui arguido porque andava na rua. Tive azar: denunciei um lar ilegal, a administração central não fez o seu papel, leia-se a inspeção geral da Segurança Social, e a primeira morte em Portugal foi precisamente em Vila Nova da Barquinha. Alguém entendeu que eu era um excelente arguido, aliás o presidente da Câmara é sempre um excelente arguido, ou candidato a excelente arguido. Já fui três vezes. Em 50 anos antes de vir para a Câmara nunca tinha sido.

Como explica que a Barquinha seja dos poucos municípios do Médio Tejo a manter e até a aumentar o número de habitantes?

Tem a ver com a centralidade, um território que é atravessado por duas autoestradas e tem aqui ao lado a ferrovia é apetecível. Face aos últimos censos, Barquinha diminuiu a população em mais de 3%. A seguir ao Entroncamento fomos o concelho que perdeu menos população. E neste momento estamos a subir 10% desde os últimos censos; subimos de 7035 para 7787. Esta subida demográfica deve-se essencialmente à capacidade de atração, da requalificação urbana, da construção de duas urbanizações. Há de facto muitas procura em Vila Nova da Barquinha que depois tem reflexo no disparar dos preços da habitação. E tem outro fator, muita gente do Entroncamento vem morar para aqui, devido à proximidade dos meios de transporte, das acessibilidades e essencialmente à qualidade de vida.

As pessoas gostam da Barquinha porque estão no meio rural, têm o seu quintal, estão perto de tudo, vão ao cinema a Torres Novas, ao cinema a Tomar, vão ao hospital, aos supermercados. Também tivemos o cuidado de abrir um supermercado aqui em 2014. As pessoas sentem-se bem aqui.

Castelo de Almourol, Vila Nova da Barquinha. Foto: DR

E o turismo, o concelho tem sabido posicionar-se em termos turísticos? A Rota dos Templários tem sido bem aproveitada? Os Caminhos de Fátima? Os Caminhos de Santiago? O castelo de Almourol? A canoagem no Tejo?

Sim. Em 2013 criamos o Posto de Turismo. Nesse mesmo ano criámos o Festival Kuri Kuri para crianças e pais, em 2014 fizemos uma intervenção na Torre e musealização do Castelo de Almourol, tivemos a equipa do canal História em Almourol, recuperação da Igreja Matriz de Moita do Norte e da Atalaia. Também em 2014 criação do Centro de Convívio e Albergue em Tancos. No alojamento passámos de vinte e poucas camas para 150 camas, neste momento. Em 2013 tínhamos 25 camas, em 2018 já tínhamos 125. Eventos gastronómicos, como o mês do sável e da lampreia e o à mesa com o azeite.

No turismo militar fomos pioneiros, depois teve grande influência com o IPT (Instituto Politécnico de Tomar). Este ano na BTL pela primeira vez vamos ter um stand próprio, com o Castelo de Almourol feito em cartão, por uma empresa da Barquinha.

Portanto é um defensor turismo militar?

Claro. Tem grandes potencialidades. A região do Médio Tejo foi a escolhida pelo governo, a par de Lisboa e Elvas, como zona piloto para implementar um conjunto de circuitos e itinerários no segmento do Turismo Militar. A marca Turismo Militar já está criada e registada pelo governo. O turismo é fundamental para a região, e só defensor de projetos reginais, não sou muito das capelinhas; o projeto Templários é para Ferreira do Zêzere, Tomar e Vila Nova da Barquinha.

Mas ainda há muito para fazer. Como é que pode evoluir?

Há sempre coisas para fazer. Mas não gostaria de condicionar quem vem a seguir. Acho que não o devo fazer, é uma questão ética.

Assinatura de um protocolo pelo Exército Português, através do RE1, o seu Comandante, Coronel de Engenharia, Leonel José Mendes Martins, cujos poderes de representação foram conferidos por despacho do Chefe do Estado-Maior do Exército e pelo Município de Vila Nova da Barquinha. Foto: CM Barquinha

Falando de militares, qual a importância da forte presença de quartéis militares no concelho e relação estratégica, como a reconversão da antiga Base Aérea nº 3 para uso misto, civil e militar, e recente anuência do Exército à pretensão da CIMT?

Sim, tem sido uma luta. També do Exército, aliás do Ministério da Defesa. Há um parecer do Ministério da Defesa que se compromete com a autorização conjunta daquele equipamento e infraestrutura. A relação é umbilical, temos três unidades militares; as tropas paraquedistas, a engenharia e a brigada de ação rápida. É estruturante, até pela qualidade e pelos meios altamente qualificados que dispõe para o território e para a nação. Aqui também se fazem, tal como em Santa Margarida, a circunstância e preparação das forças multinacionais de intervenção no âmbito da ONU. O presidente da Câmara também tem o grato privilégio de participar nesses exercícios, também de ser agente local de participação. Muitas vezes está o Centro Cultural cercado de carros de combate. É a vida que já nos habituámos desde 1866, quando foi criado o Polígono Militar de Tancos. Faz parte da própria génese de Vila Nova da Barquinha ser militar, por isso a questão do Turismo Militar. Sendo que, com mais de 30 anos de vida militar das Forças Armadas, tenho grande proximidade, pela maneira de ser, pela maneira de estar, pelos princípios e valores que eles defendem e que também defendo. E pelos símbolos nacionais como: a pátria, a bandeira, o hino se identifica com a minha maneira de ser e de estar, numa democracia que se quer participativa.

Em 2017, 42% dos nossos eleitores era pessoal ligado à administração do Estado, onde se contam os militares, ou administração indireta do Estado, onde se contam, nomeadamente, as empresas participadas, como a CP. É muita gente. Significa que temos de os tratar com carinho. E acho que é para continuar, pelo menos as relações são excelentes.

E por falar no rio, ao nível do Tejo, espinha dorsal do município e raiz identitária, ao nível patrimonial, gastronómico e económico. Quais os principais desafios que o mesmo enfrenta, e como vê o estudo em curso para a construção de um novo açude no Tejo, na zona de Praia do Ribatejo?

É do piorzinho que já vi na vida. Em relação ao açude têm o desplante de dizer que me consultaram. O parecer diz que foi consultada Câmara Municipal da Barquinha. Mentira! Não foi nada consultada. É a primeira vez que oiço falar no açude que liga a margem do concelho de Vila Nova da Barquinha ao concelho de Constância. Mas anda tudo doido? A primeira coisa que têm de fazer é perguntar aos autarcas, mal ou bem são representantes do povo. Constância fica sem praia fluvial, com a zona ribeirinha alagada e foram investidos milhões de euros. Barquinha fica sem o Trilho panorâmico do Tejo. Ficamos com um lago para descarregar a celulose. Os pescadores não conseguem pescar, o sável, a lampreia, a enguia, savelha… não sobem a montante. Quem fez o estudo não conhece o território; começa a descarregar a ETAR industriais para o lago. Mas é o que temos. Como é possível? Quem estuda sabe que os resíduos têm de circular. E alguém fez um estudo das aves? Ali onde querem fazer o açude, precisamente, estão centenas de cegonhas.

Foi feito num gabinete em Lisboa. Não faz sentido nenhum. Nem sei de quem foi a ideia peregrina, mas cá estaremos para lutar. Quando foi da poluição do Tejo estive no Terreiro do Paço, na primeira linha com um cartaz, serei novamente a primeira pessoa a estar na linha da frente: pelo Tejo tudo!

Refere-se a toda aquela problemática da poluição do nosso maior rio. Qual a razão da ainda inexistência de caudais ecológicos?

Sim. Também estive em Vila Velha de Rodão. Esse é um problema de critérios nacionais, um problema de negociação, um problema nacional. Toda a gente fala de caudais ecológicos, mas ninguém concluiu a barragem do Alvito. Estamos dependentes de fatores externos. Quando um país não se preocupa em criar recursos próprios, no sentido de abastecer com caudais mínimos, e está à espera de Espanha, a coisa está complicada. Espanha não vai prescindir nomeadamente da liberdade da água; é o ouro do século XXI. Mas no século XX já se falava, só que as pessoas não leem, não sabem. Cada vez mais vão fazer transvases para outras zonas, para desviar a água. As espécies piscícolas que faziam o chamado ascenso, que era subir para a desova – já o ano passado tivemos problemas com a lampreia –, vão desaparecer. Todas as espécies autóctones (e as migrantes) tendem em desaparecer. De facto, não há água no rio. E também não temos uma gestão de barragens em conformidade, temos uma gestão económica da água. Só libertam água quando a água está cara. A água que dá energia hídrica. É aí que a Bolsa de Valores de Wall Street funciona dizendo para vender ou não as ações. Felizmente já 60% da energia consumida em Portugal é eólica.

Há uma evolução em termos ambientais significativos. É um bom indício. Se tivermos um reforço quer da capacidade eólica quer da capacidade dos fotovoltaicos, temos grandes possibilidades de voltar a ter essas correntes, caudais ecológicos que são saudáveis para a fauna e para a flora.

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, eleito pelo PS. Créditos: Pérsio Basso/CMVNB

Acredita que o turismo pode ser a tábua de salvação dos territórios do interior ou não faz a diferença, nomeadamente em termos de emprego?

Não chega. O turismo tende a valorizar-se, tem sido feito um trabalho magnífico na própria região pelo Turismo de Portugal, com aumentos significativos, com qualidade, com aposta significativa, mas não chega. No turismo há situações precárias; a ocupação é precária, é temporal, não é perene. E vê-se as dificuldades que os empresários têm para arranjar mão-de-obra quer na restauração quer depois nos alojamentos. Tem picos, mas depois como fica o resto do ano? Temos de caldear também o turismo com investimento, de grandes infraestruturas, grandes empresas e temos de criar as condições ideais para se instalarem no interior. Só criando riqueza tal como existe junto do mar, com grandes unidades de produção. E temos condições para o fazer.

Ao nível industrial, com muitas empresas interessadas em instalarem-se na Barquinha, o parque de empresas está lotado, qual a resposta que vai dar à atual procura de terrenos?

Já prevemos no ITI (Investimento Territorial Integrado) a duplicação da Zona Industrial. Está previsto dois milhões de euros. Temos neste momento 1 milhão e cem mil euros para a expansão da Zona Industrial, mas podemos ir buscar 2 milhões de euros, em termos de investimento. Teremos de adjudicar o projeto este ano. E 2027 é já amanhã. Temos 3 anos para demostrar aquilo que valemos. Ofereço-me para ajudar o meu sucessor ou sucessora, se precisar dos meus préstimos.

Tendo o complexo militar de Tancos no seu concelho, é defensor de um aeroporto civil no território?

Sim. Há dois meses, estivemos a falar com o sr. ministro das Infraestruturas, aguardamos autorização para que se concretize, temos interesse de investidores estrangeiros. É uma matéria muito sensível, porque estamos também a falar da questão militar, tem de ser articulado com os militares, quer com o Estado Maior do Exército, que é o detentor desta escritura, quer com o Ministério da Defesa, estamos a trabalhar na CIMT, temos projetos nesta área. O nosso projeto aponta para 16 aeronaves dia, e a questão de mercadorias que muito importaria para o território. Mas essencialmente para os militares, porque se não houver ali a conservação e manutenção da pista, deixa de ser útil para as tropas paraquedistas. A casa mãe das tropas paraquedistas sempre foi em Tancos. Não tenho dúvidas, que mais dia menos dia, vamos ter a requalificação da pista.

Deixar uma infraestrutura daquelas ao abandono, é um crime de lesa-pátria. Mas os lóbis funcionam; fui a Bruxelas, em 2018, a uma reunião, e na altura disseram-me: Tancos, esquece! O aeroporto vai para Alcochete. Quando surgiu a proposta de Santarém – perdemos algum fôlego, para não estar a prejudicar até porque também está na região – eu disse isso. Na verdade, já estava decidido, há muito tempo.

Na educação, que leitura faz da aposta no CIEC – Centro Integrado de Educação em Ciências – que assinalou este mês 12 anos na Barquinha?

É ouvir o que dizem os professores, o que diz a Universidade de Aveiro. É um projeto pioneiro, único, em Portugal. Começou há 12 anos um desafio que soubemos acreditar. Na altura era vereador da Educação e foi um dos motivos que levou a que o Miguel me convencesse a vir para este cargo. Depois do projeto implementado quais foram as opções finais dos alunos? Aumentou o número de alunos nas áreas das ciências, nas escolhas finais de acesso à universidade, dos alunos que frequentaram os estabelecimentos de ensino em Vila Nova da Barquinha. Um crescimento entre 5% a 10% nessas áreas, segundo o estudo que foi feito e apresentado em público. Significa que a oferta, a qualidade do ensino, dá os seus frutos. Desde pequeninos que começam a colocar problemas. Também é importante, também se aprende em sociedade; nós problematizarmos e termos respostas.

Arrepende-se de alguma coisa? Se fosse hoje fazia tudo de novo?

Não. Tudo ponderado. Tenho uma máxima de vida: “a nossa consciência é um juiz infalível quando não a assassinamos”, de Honoré de Balzac. Uma frase que aprendi no banco do Seminário. Fazemos um exame de consciência, há alturas da vida em que temos de decidir, bem ou mal. Voltar atrás? Não. A água só passa debaixo da ponte uma vez.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 Comments

  1. Foi com enorme gosto que li a entrevista do Dr. Fernando Freire, meu conterrâneo das serranias de Oleiros, meu ilustre colega e mui digno Presidente da Câmara Municipal de VN da Barquinha.
    Deliciei-me com as suas palavras reveladoras de um autarca muito experiente, humanista, um homem de cultura e de ação dedicado à melhoria das condições de vida das populações do seu município. Um exemplo de autarca que honra todos os autarcas.
    Estou particularmente em acordo com ele acerca das suas reflexões sobre a falta de coesão entre o litoral, os grandes centros urbanos e o interior do país. Estamos provavelmente a sair de um período de várias décadas de fundos comunitários – isto não vai durar sempre – e o que daí resulta, em matéria de coesão territorial, deveria envergonhar vários governos que privilegiam e elegem o mercado dos votos como único “deus” a que se dedicam.
    Que, mesmo arredado das lides autárquicas, não lhe falte a coragem e a força para agir e denunciar as injustiças que bem identificou na sua notável e corajosa entrevista.

  2. É sempre um prazer e um acrescento de cultura ouvir ou ler o que escreve este meu conterrâneo que prezo como amigo. Ao longo dos últimos anos temos trocado escritos e conversas e, cada vez mais ,sou levado a considerar Fernando Freire um homem Bom, Culto, Altruísta e duma sabedoria imensa. Que bom sabê-lo satisfeito com o trabalho desenvolvido na Câmara de Vila Nova da Barquinha e evidenciar ainda tanta vontade de trabalhar para os outros e para a Cultura Histórica das nossas terras e das nossas gentes. Obrigado Fernando Freire !!!

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