“É um regresso a uma normalidade relativa. Há muitos problemas a resolver, nas ruas, nas infraestruturas públicas e nas telecomunicações, e a recuperação social e empresarial vai levar meses”, disse o presidente da Câmara, Bruno Gomes, acrescentando que os prejuízos em habitações, empresas e florestas podem rondar os 200 milhões de euros e que a reconstrução completa poderá prolongar-se por mais de um ano.
“eu acredito que para o concelho voltar à quase totalidade da normalidade precisamos aqui de um ano. De qualquer modo, temos 99,9% das habitações com energia, situações pontuais, algumas com dimensão técnica maior, a nível de telecomunicações estamos com problemas maiores, temos uma operadora, a MEO, que está com mais dificuldade em restabelecer a totalidade das telecomunicações e dados e depois a questão da fibra que temos praticamente só na vila. Isso é também aqui uma dificuldade muito grande para a nossa comunidade e também para as empresas, porque hoje em dia necessita muito de uma ligação estável à internet para conseguir trabalhar. De resto, os trabalhos de limpeza de ruas, de qualificação de infraestruturas públicas continuam a acontecer. dando prioridade àquilo que é a necessidade imediata, mas são trabalhos morosos e que implicam o tempo. Mas passado um mês estamos com resiliência, com muito empenho e muito determinados em continuar este caminho”, indicando um fenómeno “devastador”.
“Foi de facto aqui uma intempérie com uma dimensão como não imaginava que pudesse acontecer, porque foram milhares de casas que ficaram danificadas, um conjunto alargado de pessoas que ficaram desalojadas e que tiveram que ser deslocadas e uma perda muito grande a vários níveis naquilo que são os ativos deste concelho, as suas empresas tiveram também aqui grandes constrangimentos e prejuízos. A fauna e a floresta também é um património imensurável e que demorará décadas a voltar a restabelecer-se”, declarou.
À entrada da vila, os danos causados pela tempestade impressionam. Centenas de árvores partidas ou dobradas, postes de eletricidade retorcidos e sinalética derrubada marcam as estradas.

Nas ruas, os moradores retomam o quotidiano, mas cada gesto revela a presença do desastre: cacos de telha no chão, telhados com lonas, desvios de trânsito, comércio e serviços tentando normalizar a atividade e muitos funcionários municipais munidos de pás, vassouras e motosserras.




À medida que nos afastamos de uma vila em reconstrução, a devastação revela-se também nas casas, nos gestos e nas memórias das famílias. No interior do concelho, na aldeia de Meneixas, Fátima Marques recorda as dificuldades das mais de três semanas sem eletricidade, especialmente por causa do aparelho de apneia do sono do marido.
“Foi muito complicado ver tudo a ser arrancado pelo vento. Sem luz, não conseguíamos usar o aparelho dele, o que tornou as noites ainda mais assustadoras. A falta de eletricidade deixou marcas profundas em toda a família, sobretudo nas crianças”, explica, lembrando os momentos de tensão e medo dentro de casa.

Em Sobreiras, Joaquim Henriques ainda queima restos de árvores levados pelo vento, recordando a noite em que o temporal foi tão forte que até um cão foi transportado pelo ar e veio parar á sua porta. “Foi assustador, nem consigo imaginar algo assim de novo”, confessa, enquanto remove os destroços do quintal.

Na Aldeia dos Gagos, onde vivem pouco mais de 20 pessoas, Fátima Simões mostra a casa ainda coberta com lonas, onde ela, o marido e o filho passaram semanas sem electricidade e onde a tempestade arrancou todo o telhado.
“Foi para esquecer. Só pensávamos que íamos morrer dentro de casa, com o vento a arrastar tudo à nossa volta e sem forma de nos ligarmos a ninguém. Os primeiros dias foram de puro desespero, mas a solidariedade dos vizinhos e da Câmara ajudou-nos a encontrar alguma segurança e esperança. Mas ainda hoje, quando o vento sopra, sentimos medo”, recorda, lembrando cada noite em claro e a ansiedade constante que marcou aquele período.

Patrícia Gomes, vereadora da Ação Social e Políticas Humanas da Câmara de Ferreira do Zêzere, esteve sempre muito próxima das pessoas, tendo aludido ao grande número de pedidos de auxílio recebidos pela autarquia.
“Nós tivemos realmente muitas sinalizações, ultrapassam os 4 mil pedidos de ajuda. Alguns mais sérios, outros não tanto, felizmente. Mas há uma marca muito grande que ficou nas pessoas, especialmente psicologicamente. Hoje em dia, muitas pessoas, de várias idades, nos abordam a chorar. Não pelos estragos concretos, mas pelo que sofreram, pelo medo que tiveram, pelos dias que ficaram sem energia. Muitas crianças até ficam com receio, ouvem um vento ou alguma coisa e entram em pânico”, explica, lembrando os momentos de tensão e medo.
“As equipas de ação social acompanham neste momento 379 famílias, um número que ainda cresce. O apoio é prolongado e abrange alimentação, reconstrução de habitações, candidaturas a apoios do Estado e também acompanhamento psicológico. Nesta última área sentimos limitações: os técnicos do município são insuficientes e pedimos ajuda à Ordem dos Psicólogos, porque as pessoas realmente precisam de apoio”, acrescentou, emocionada.

A vereadora recordou casos concretos que a comoveram: “Vi pessoas que no primeiro dia pareciam bem, mas poucos dias depois estavam muito fragilizadas. Há medo do vento, medo do que aconteceu. Esta marca ficou nas pessoas de todas as idades, e isso ainda é mais preocupante”, notou, tendo apontado ainda a dimensão social da tempestade:
“Muitos bens que as famílias conservavam, como produtos da época de produção, ficaram destruídos. Situações já frágeis tornaram-se ainda mais difíceis, e temos procurado garantir acompanhamento contínuo e solidário. Foram dias complicados e é difícil ver tanto sofrimento, mas o município vai continuar a acompanhar todas as pessoas, ninguém ficará para trás. Vamos, todos juntos, ultrapassar isto”, afirmou.
No centro da vila, a indústria é uma parte essencial da recuperação. Ferreira do Zêzere, conhecida como a Capital do Ovo, viu vários pavilhões industriais danificados, alguns com telhados arrancados e produção interrompida.

Bruno Gomes explica que as empresas do setor, bem como fábricas de madeira como a Casa Bang Wood, com 25 funcionários, foram fortemente afetadas, mas retomam a atividade gradualmente.
Manuel Gonçalves, proprietário da empresa, descreve o impacto devastador: a fábrica destruída, máquinas danificadas e produção paralisada por dois a três meses, sem seguro para cobrir perdas que estimou em mais de meio milhão de euros. O filho, André, lembra o choque ao chegar ao concelho e ver árvores, casas e pavilhões destruídos, e a necessidade de “pôr mãos à obra” para erguer a fábrica novamente, mesmo sem grandes expectativas de apoio externo.


Enquanto nos deslocamos para a Aldeia dos Gagos, no meio de um pinhal, um técnico da Visabeira trabalha sozinho num carro de operações para restabelecer comunicações numa aldeia isolada.
Desde 30 de janeiro, quando foi possível entrar no terreno, coordena a reparação de cabos e postes e calcula 2.500 a 3.000 postes caídos ou partidos, num trabalho que poderá prolongar-se até ao final do ano.
A cada passo, a devastação revela-se: postes provisoriamente presos, fios soltos, linhas de energia e dados reconstruídas aos poucos.

O cenário remete para a passagem de um mini tornado em 2010, mas Kristin atingiu, desta vez, todo o concelho, numa área de cerca de 400 km².
O coordenador municipal da Proteção Civil, Pedro Mendes, lembra que a resposta inicial exigiu socorro e salvamento permanente durante 19 dias e que a recuperação ainda é urgente e prolongada. Equipamentos satélite e maquinaria pesada foram essenciais para abrir vias e restabelecer comunicações, permitindo lidar com milhares de árvores caídas.
“Foi um desafio enorme e está ainda a ser. A resposta inicial envolveu todos e conforme é sabido o nível de afetação que houve do nosso território. Infelizmente por um lado, mas felizmente já tínhamos algumas experiências anteriores, nomeadamente do tornado de 2010. Aqui em termos de capacidade de destruição foi semelhante, simplesmente na altura foi um corredor, digamos assim, de 400 a 500 metros de largura, e agora tivemos o concelho todo atingido. E, portanto, tinha-nos dado aqui alguma experiência nesse aspecto, mas foi um desafio enorme. Tivemos uma fase mais crítica durante cerca de 19 dias, em que estivemos permanentemente no terreno com todos os envolvidos do concelho e de fora e agora continua uma fase que não é muito habitual e que neste tipo de ocorrências, por vezes, tende a ser esquecida. Nós tivemos aquilo que é o ciclo do desastre em que acontece e fazemos o socorro e salvamento, normalmente é relativamente curto ou rápido, mesmo nos grandes incêndios estamos a falar de uma semana, na pior das hipóteses, e agora tivemos essa fase muito ampliada e vamos ter uma fase de recuperação que ainda é muito urgente ou de reposição de algumas condições que se vai prolongar no tempo por meses, Portanto, temos aqui uma tarefa longa para gerir e ajudar a coordenar com os diversos serviços e com as diversas entidades”.

Pedro Mendes disse estar, entretanto, já a pensar no outro problema que é o verão e os incêndios. “Temos que antecipar muita coisa, porque não podemos andar só a correr atrás do problema. Esta tempestade foi uma surpresa, não o evento, mas a amplitude do evento. Portanto, tínhamos sido avisados que vinha aí um problema de ventos intensos, divulgá-lo também, mas ninguém esperava esta intensidade e esta amplitude. Agora, o que podemos ter no verão, nós temos essa percepção e essa realidade e, portanto, vamos ter que nos preparar minimamente para responder a esses novos desafios”, alertou.
O presidente da Câmara, Bruno Gomes disse que a recuperação do território tem sido lenta e que a autarquia e muitos munícipes sentiram-se, nos primeiros dias, praticamente abandonados pelas autoridades e pelos responsáveis pelas infraestruturas críticas, perante a força da tempestade.
“O impacto foi brutal e, durante semanas, a sensação de isolamento e vulnerabilidade era enorme. Muitas pessoas não sabiam como iriam conseguir retomar a vida e nós sem capacidade para resolver questões como retoma de energia e de comunicações”, lembrou.

Para o autarca, esta experiência evidencia a “necessidade de reflexão sobre as vulnerabilidades do interior”, o planeamento de infraestruturas críticas, e a urgência de maior capacidade de resposta nacional em situações extremas.
“Eu entendo que as entidades nacionais, as empresas que têm a gestão das infraestruturas críticas, têm que ter mais planeamento e têm que ter noção que é necessário ter uma capacidade de resposta muito mais robusta para estas situações, porque elas vão acontecer com maior regularidade e com uma dimensão cada vez maior. Eu acho que isso é um exercício que essas empresas vão ter que ter, mas sobretudo o Governo tem que também legislar para que haja essa obrigatoriedade”, afirmou.
“Tivemos aqui alguma apatia naquilo que é a relação entre um conjunto de entidades nacionais que poderiam ter dado uma resposta mais célere. Há de facto aqui muito a pensar, muito a planear e muito também a exercitar, que é outra coisa que eu acho que é muito importante. Não podemos deixar que situações assim apanhem o interior desprevenido. A lição que fica é que precisamos de estar melhor preparados, com mais solidariedade e planeamento, para proteger quem aqui vive”, declarou.

“Com muito pragmatismo, eu percebi que a gestão de uma ocorrência destas, naquilo que são os seus patamares e tabuleiros, joga-se também, ou jogou-se muito, neste patamar mediático, e compreendo que Leiria tem um conjunto muito maior de população. Agora, nós também temos um conjunto de características que nos deveria obrigar a olhar para este território com uma atenção maior”, afirmou, tendo indicado uma sensação de abandono.
“Nós sentimos isso… Desde o início fui eu que iniciei os contactos com o governo, não foi o contrário, não estou a colocar em causa aquilo que foi essa comunicação, que aconteceu sempre, mas precisávamos de ter aqui um conjunto de governantes mais cedo e um conjunto de respostas mais robustas por parte das empresas, das infraestruturas críticas, também muito mais célere”, alertou.
“Eu ando há décadas a ouvir que vamos apoiar o interior, vamos criar condições para fixar pessoas, mas essas condições, maioritariamente, são tratadas pelos municípios. Quer dizer, eu não me recordo de nenhuma medida que, de facto, marque a diferença e equilibre este país mais para o interior. Até a questão do aeroporto que poderia ter ficado em Santarém e vinha aqui revolucionar a zona Centro do país… Não houve essa coragem para o fazer. Portanto, nós temos que passar das palavras para as ações. E até ao momento, e com o maior respeito que eu tenho por todos os sucessivos governos, até ao momento não tivemos ainda uma resposta clara naquilo que é uma necessidade de equilibrar este país, naquilo que é a relação interior-litoral”, afirmou Bruno Gomes.
Pelo menos 18 pessoas morreram em Portugal entre janeiro e fevereiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
c/LUSA
