Tem atualmente 65 anos e os grandes mistérios da humanidade, a par da aviação, são a sua verdadeira paixão. Nascido na aldeia de Almofala, em Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, foi em Vila Nova da Barquinha que cresceu, localidade para onde veio residir com a família, após o pai ter sido colocado na antiga Base Aérea 3.
Após a partida do pai para a Guerra do Ultramar, na década de 60, regressou à aldeia com a mãe e por lá se manteve até completar a primeira classe. Regressa à sua “terra adotiva” com cerca de 7 anos, onde ainda hoje continua a viver e de onde recorda uma infância repleta de peripécias.
Licenciado e mestre em Gestão, José Alberto Janeiro é gestor de empresas e um verdadeiro apaixonado por tudo aquilo que é o espaço aéreo. Foi paraquedista e, mais recentemente, tornou-se piloto de aeronaves ultraligeiras. A vida veio colocar-lhe uma pausa na aviação ao descobrir o diagnóstico da doença renal poliquística, que havia herdado do pai e do avô e que o obriga a fazer hemodiálise, três vezes por semana, em sessões de 4 horas e 10 minutos.
A paixão pelos livros e pelos mistérios da vida, que descobriu ainda em tenra idade, levaram-no a enveredar pelo domínio da escrita, sendo já o autor de três obras. Após sugestão dos médicos que o acompanhavam para que ocupasse o tempo de tratamento a ler livros ou a ver televisão, José Janeiro optou pela escrita e foi assim que surgiu o seu recém-editado XIII Luas.
O mediotejo.net esteve à conversa com o autor que recuou ao passado e recordou a sua infância e desvendou alguns dos enigmas que se escondem por entre as páginas deste livro.
De que forma descreveria a sua infância?
Eu vou-lhe só mostrar uma coisa, não se impressione… Sabe o que foi isto? Foi a minha mãe que me partiu o dente (risos). Já não está cá, coitada. Ela dizia “vai estudar José Alberto”… o José Alberto não gostava de estudar. “Vai estudar José Alberto, vai estudar José Alberto” e eu dizia “já vou, já vou”, até que ela sai com o chinelo, como todas as mães na altura. Eu fui a correr para a secretária para estudar e ela dá-me um calduço e quando me dá o calduço, eu bato com o dente na secretária e portanto aquilo ficou…
Depois tenho esta cicatriz… houve uma cheia na Barquinha, ficou por lá um barco preso onde é hoje o parque e eu decidi que queria andar de barco. Fui para o local onde estavam as canas… Tinha sempre um canivete no bolso e fui para lá cortar uma cana grossa para poder puxar o barco. O que é que acontece? Cortei o dedo (contra entre risos). Com toda a franqueza, tive uma infância fantástica, eu acho que uma vida fantástica… vivi entre a aldeia e Vila Nova da Barquinha. Na aldeia com todo aquele contacto, andar de burro, de carroça… Andar livre era fantástico.
É também neste período que desperta para a leitura? Ou esta surge mais tarde na sua vida?
Quando era mais espigadote, a minha avó perguntava-me porque é que eu lia muitos livros. “Estás sempre a ler, dás cabo da vista”, dizia. Porque eu ia aqui à Biblioteca da Barquinha, carregava uma catrefada de livros e depois íamos para a aldeia. Naqueles serões não havia televisão, eu entretia-me a ler… também ouvia aquelas histórias horrorosas, dos meus avós, das minhas tias, com os lobisomens, aquelas histórias fantasmagóricas e então quando eu ia para a parte de cima para dormir, tapava a cabeça com um lençol (risos). De facto, a aldeia era fantástica na altura e eu adorava ir para lá. Andava sempre carregado de livros para ler lá.
Depois, mais tarde, os meus amigos davam-me aqueles livros da coleção da Bertrand das capas negras nos meus aniversários, já não tenho um único, que eram “Os Enigmas de Todos os Tempos” e eu devorava aquilo tudo. Agora já não tenho nenhum, fui emprestando e desapareceu tudo. Tinha a coleção toda, por isso já se está a ver que nessa altura já havia uma apetência pelos mistérios.

Esta paixão pelos mistérios leva-o também a desenvolver uma apetência pelos chamados mistérios da vida e pela forma como o mundo foi criado, não é verdade?
O que é que acontece? Eu tive de cumprir todo o “by the book” do catolicismo. Era fundamental que isso acontecesse, ainda que para o meu pai fosse completamente indiferente, para a minha mãe não era. Fiz do batismo até ao crisma, mas com 20 e poucos anos eu comecei a perceber que isto não fazia sentido. Sou licenciado e mestre em Gestão, portanto não tinha nada a ver com a profissão, tinha a ver apenas e só com a curiosidade. É engraçado, eu começo a questionar uma série de coisas de que me ia apercebendo, primeiro dentro da religião católica e mais tarde pelas outras. Na altura eu era sócio do Clube de Leitores e tropeço num livro que eu aconselho toda a gente a ler… “E a Bíblia tinha razão”, é o nome do livro. O livro não é tão grosso como o meu, terá umas 300/400 páginas e com muita surpresa minha, li aquela história toda numa noite, não dormi. Não dormi e começou-me a despertar o interesse sobre toda esta envolvente das religiões e como é que isto funcionava e etc. Passo seguinte: li a Bíblia. Passo seguinte: encontrei uma tradução do Alcorão e li o Alcorão. Depois comecei a ler todo um conjunto de livros relacionados com este mistério da religião e culminou com esta brincadeira.
Começa a interessar-se pelas religiões e quando é que decide aplicar o conhecimento recolhido na forma de livro?
Primeiro comecei a dar algumas conferências na Fnac sobre a Bíblia enquanto documento histórico, em que houve algum entusiasmo no meio daquilo. Isto foi em Matosinhos, porque eu vivi no Porto e as pessoas começaram a ficar entusiasmadas. Depois começaram a dizer “porque é que não escreves um livro?”. Pensei “deixa-me cá ver como é que isso faz”. Por defeito profissional, achei que devia planear a escrita do livro e ainda hoje é assim que escrevo. Achei que devia planear a escrita do livro e foi isso que fiz, planeei os capítulos, o que devia constar… todo aquele processo e assim apareceu o “Afinal onde é que está Deus?”. É um livro que teve alguma venda, não foi nenhum sucesso. A edição era muito pequena, também tive de a pagar, mas teve algum sucesso porque na prática ele foi vendido.
Entretanto, estive algum tempo sem escrever. Quer dizer, escrevia alguns artigos profissionais para alguns jornais, cheguei a escrever algumas coisas para o Expresso e agora, por brincadeira, escrevo para o Notícias de Almeirim, que é de um amigo meu.
Publicada a primeira obra, iniciou a escrita do “Sexto Livro do Profeta”?
Eu comecei a perceber que tinha uma data de coisas… tinha ido de férias para a Tailândia e para a Indonésia e então, como são muitas horas, comecei no avião a escrever o “Sexto Livro do Profeta”, que no fundo é aquilo que eu acho que é a história de Moisés escrita por ele próprio ainda que, com toda a honestidade, hajam muitas dúvidas se Moisés existiu, mas isso é outra conversa. Tenta ser um romance histórico com uma parte que eu lhe chamo “Extratextos” que explica cada um dos passos que possa estar no corpo do livro, quando é verdade ou quando é ficção.
Após a escrita do “Sexto Livro do Profeta” veio um período de pausa relativamente à produção literária. Foi por conta do diagnóstico que veio a receber mais tarde?
Depois a partir daí, eu não parei só na religião católica, muçulmana, judaísmo, continuei também pelo hindu, etc. Depois tentei perceber as mitologias que existiam à volta das outras culturas, das outras religiões e confesso que não parei. Ou melhor, eu parei bastante tempo porque isto já foi escrito há muito tempo… parei por falta de tempo, porque tinha uma profissão um bocado complexa, cheguei a ter empresas minhas, a ser diretor de uma multinacional, instalei o Centro Tecnológico da Têxtil de Famalicão, portanto, comecei a não ter tempo e aquilo parou um bocadinho até à desgraça.
Eu já sabia, desde os 35 anos, que ia bater ali com a cabeça (risos). Que ia bater com a cabeça numa clínica de hemodiálise, porque isto é uma doença hereditária, o meu pai tinha esta doença, o meu avô agora entendemos porque é que ele caiu para o lado muito cedo, ele caiu pura e simplesmente para o lado. Portanto, na altura não havia diálise e quando descobriram ao meu pai foi quando ele passou à reserva territorial da tropa, já praticamente no final da carreira. É-lhe descoberta a doença renal poliquística.

De que forma é que recebeu o seu diagnóstico?
Ele telefona-me e diz: “olha vai fazer o exame para saberes se tens”. Fui fazer e claro, existia. Existia, portanto, eu sabia que isto gradualmente ia ter problemas e que ia parar.
Como é que lidou com essa reviravolta na sua vida?
O que é que eu decidi? Entrar na desbunda. E o que é entrar na desbunda? É fazer o que me apeteceu. Comecei por fazer vela, de uma maneira um bocado parva, mas hilariante… Eu tenho um conjunto de amigos de infância que são todos filhos únicos e nós tratamo-nos quase como irmãos. Depois de eu vir de Luanda com os meus pais, estávamos lá no 25 de abril, ficámos amigos por causa do tabaco (risos). Isto é engraçado. Na altura fumava-se… Ficámos amigos, criámos um grupo e até irmos para a universidade e mesmo depois. Fizemos toda a porcaria que se possa imaginar, um dia vou contar essa história, de todas as coisas que fizemos e que são pura e simplesmente hilariantes. Então, de repente um deles liga-me e diz-me “deves-me 50 contos”. E eu “devo-te como, o que é que aconteceu?”. E ele diz-me “olha é assim, eu quero ir fazer um curso de vela, como não quero ir sozinho, inscrevi-te também, agora pagas”. Foi assim que eu fui fazer vela. Depois fiz parte da tripulação de uns barcos que fomos tendo. Ele agora continua a fazer o mesmo, lamentavelmente eu não posso.
E quando é que descobre a paixão pelos céus e se aventura no paraquedismo?
Depois disso achei que isto de andar na água era um bocado complicado, um gajo molhava-se e comecei a fazer outra coisa. O meu pai depois passou da Base Aérea 3 para os Paraquedistas, sempre vivi no meio de aviões e de paraquedistas. Quando era miúdo o meu pai levava-me para a Base Aérea e depois metiam-me dentro dos aviões. Então o que é que acontece? Acontece que fiz o curso de paraquedismo, em Espinho. Andei para aí a saltar. Entretanto comecei a ficar surdo, fui ter com um dos amigos de infância que é um otorrino e disse-me que tinha de acabar com isso. Comecei a pensar como é que haveria de me divertir mais, para além das viagens que fazia.

E é aí que se torna piloto de aeronaves?
Num belo sábado, levantei-me cedinho e fui direto ao aeródromo de Espinho, porque eu já o conhecia mais ou menos e sabia que havia uma nova classe de aviação, que eram os ultraligeiros. Fui fazer o brevet de ultraligeiros e desde essa data mantive-me ativo. Cheguei a ter um avião dessa classe, mais uns amigos. Comprámos aquilo em kit e andámos durante um ano a montar o avião. E então, desgraça total…
Antes de fazer diálise, quando eu ia fazer a renovação médica ao Hospital da Força Aérea, a Lisboa, a médica já me dizia, “você tem uma insuficiência renal moderada, vou-lhe só dar por 6 meses a licença”. Portanto, a cada 6 meses eu ia lá, até que acabaram os 6 meses quando eu comecei a fazer a hemodiálise. Ou seja, a licença continua válida, mas como a avaliação médica não está válida, não há licença de pilotagem. Isso foi a maior desgraça que me aconteceu. Tenho de me controlar para não chorar porque, sinceramente, é a coisa mais espetacular que se pode fazer na vida, na minha opinião.
Há alguma memória aérea que o marque particularmente?
Tive uma paragem de motor quando vinha de Espinho para Ponte de Sor, para um encontro, um Fly In. Tive uma paragem de motor a 6000 pés de altitude à vertical de Aveiro que foi hilariante, apesar de tudo (risos). Foi hilariante porque eu tinha acabado de fazer a manutenção com um amigo e houve um tubo de refrigeração que saltou, talvez mal apertado. Às vezes esses erros são chatos, pagam-se caros normalmente. Este não foi caro porque, na verdade, ainda estou aqui e aterrei em segurança novamente em Espinho sem qualquer problema.
Mais tarde inicia a diálise, qual foi a maior dificuldade? Manter-se ocupado durante o tempo de tratamento?
Sim, entretanto vou fazer diálise, completamente desorientado. Isto não dói, mas é uma prisão total. Eu antigamente pensava e ia-me embora. Agora para ir para o Porto tenho de pensar. Faço às segundas, quartas e sextas. Nessa altura o meu médico disse-me uma coisa muito interessante e já o meu nefrologista me tinha dito o mesmo. Incentivaram-me a fazer qualquer coisa, a ler um livro, porque são 4 horas e 10 minutos. “Lê livros, faz qualquer coisa, também lá tens a televisão”, disseram-me. E inicialmente o que é que eu fiz? Li o “Sapiens” e o “Homo Deus” e pensei “dizem que isto é um bestseller” e achei o livro, eu não quero ter falsa modéstia, mas achei o livro um bocado básico quase. Pensei “se calhar consigo fazer uma coisa engraçada” e comecei a planear este livro, para escrever durante a hemodiálise.

Desde o planeamento até ao resultado final, foi um processo que o ocupou ao longo de quanto tempo?
Então andei um ano, mais ou menos, a escrever e a investigar. Primeiro fiz tal como nos outros, planeei o livro, defini 13 temas que me pareceu que seriam os temas que na prática influenciaram a humanidade, que eu considerei desde a existência do Homo Sapiens… comecei a planear cada um dos temas e depois comecei a escrever, sempre dentro do período da hemodiálise. Eu já estou meio reformado, oficialmente vou ficar a partir de maio deste ano. Nos intervalos da hemodiálise, nos dias livres, fazia pequenas investigações, mas não escrevia, para me manter ocupado durante a diálise.
Arranjaram-me uma mesinha, coloco lá o computador e com esta mão direita escrevo, porque a outra está impossibilitada porque está ligada à máquina. Foi o que aconteceu, escrevi este livro. Durante aproximadamente um ano.
Como descreveria o XIII Luas?
Eu vou-lhe responder de uma forma muito engraçada. A descrição está na contracapa. Esta contracapa estava-me a dar conta da cabeça, quando me pediram para fazer este texto… porque, de facto, a primeira coisa que as pessoas fazem é lê-la. Então eu andava desesperado para tentar perceber como é que haveria de escrever, num espaço curto, o que o livro contaria. Um dia acordei às cinco da manhã com a ideia toda na cabeça. Fui para o computador e fiz este texto que aqui está. O que é que isto quer dizer no fundo? Há um conjunto de coisas que todos nós damos como certas, a escrita, a própria existência da religião, tudo isso é dado como certo porque as pessoas de alguma maneira estão habituadas a lidar com essas situações. Mas como é que isto surgiu? Surgiu assim do nada? Que influências é que isto teve? O que eu tento aqui explicar é precisamente como isto surgiu.
Eu não quero ser pretensioso, mas eu fiz isto com a filosofia de ser uma enciclopédia com estes 13 temas, para quem se interesse por estas coisas, que são muitas vezes os mistérios da vida. Não é como é que o rio cai para o mar, mas sim como é que realmente as coisas foram evoluindo desde há 250 mil anos. Houve coisas que eu propositadamente não coloquei aqui porque se não, em vez de 528 páginas, o livro teria 800 ou 900 páginas, que é o que possivelmente vai acontecer no próximo. Há coisas que eu só abordei superficialmente.
É uma obra que procura, então, explicar a origem do Universo dos diferentes “pontos de vista”?
Sim, além de tudo aquilo que se sabe sobre o que é o Universo, sobre o que se acredita que seja a origem da vida, incluindo a criacionista, inclui todas as mitologias que se sabe que existem. Depois há uma coisa muito engraçada que é o comparativo entre o que diz a ciência com a Teoria do Big Bang e o que diz os Genesis sobre a criação do mundo. Isso não quer dizer que eu acredito em Deus, pelo contrário, quer apenas dizer que isto é um mistério para mim.
O livro fala de cada um dos temas, tentar levar ao pormenor possível, com espaço razoável para que o livro não se transformasse de repente de 500 em 1000 páginas. Eu tive de gerir um pouco isso, tive de fazer alguns resumos, digamos assim, daquilo que foram os temas tratados. Em resumo, isto procura algo muito simples, procura aquilo que é a parte final do que diz a contracapa. Quantas vezes já nos perguntámos sobre a origem daquilo que agora damos como certo? O que sabemos sobre a origem da vida? Já notou a fascinante coincidência entre o Genesis e a Teoria do Big Bang e o que compreendemos sobre os marcos cruciais da evolução humana? Como surgiram as diversas religiões? E Deus, essa entidade invisível, como se manifestou na história da humanidade? São temas como a religiosidade, as próprias guerras, o universo, o dinheiro, a evolução, onde tentei abordar a primeira manifestação de escrita, a primeira arte rupestre, etc.

Embora trate de temas que podemos designar de mais “complexos”, é um livro que procura ser acessível a todas as pessoas, não é verdade?
No XIII Luas adotei o mesmo princípio de “Extratextos”, tal como no anterior. A minha ideia era tentar que a leitura fosse o mais excitante possível. Não é nenhum romance, é um livro de não ficção e então qual era a ideia? Eu digo, com piada, que a minha mãe conseguisse ler, que tem a terceira classe. Não é desprestigiar os leitores, é só entenderem qual o tipo de leitura que possa estar aqui subjacente. Porque se não, o que acontecia é que as pessoas começavam a ler um livro deste género e achavam maçudo, porque podiam não estar familiarizados com alguns dos temas e não entendem. Haverá outros que sim, os historiadores e por aí fora. Agora, digamos, isto não está direcionado para um povo científico, está direcionado para qualquer pessoa que queira ler e que se interesse por estes temas.
Quais foram as dificuldades com que se deparou ao longo do processo, foi mesmo do ponto de vista da publicação?
Sim, foi. Da escrita eu levei isto mais ou menos de forma pacífica. Os temas iam sendo esquematizados, algumas coisas que não soubesse, ou um detalhe que não me lembrasse tirava notas nos dias da não diálise, para escrever nos dias da diálise, porque recusava-me a escrever nos dias da não diálise para poder estar ocupado nos restantes. Depois foi o problema da publicação, que é sempre um problema grave, porque lê-se cada vez menos livros, pelo que eu entendo. Entreguei isto talvez a umas 10 ou 12 editoras, muito em bruto, ainda que com uma primeira revisão. Eu queria que o livro fosse perfeito e então fui fazendo algumas revisões, após terminar e durante a diálise. Descobri alguns erros parvos, porque escrever só com uma mão é um bocado complicado. Depois eu sou uma nódoa a fazer a pontuação, dei umas revisões e enviei em bruto para uma série de editoras. Tive umas a pedirem-me 5000 euros para fazer a publicação, outras 2000, outras 1000 e tal. Com a editora Atlântico eu já tinha trabalhado. Eles fazem umas antologias com alguma frequência, têm um grupo de pessoas a quem pedem textos e eu tinha muitos textos já nessas antologias.
Na altura pedi à editora para avaliar a possibilidade da edição e disseram-me que não podiam, de maneira nenhuma, editar um livro desta dimensão em expensas próprias, como é óbvio. No entanto, se conseguisse vender 300 cópias, o próximo livro seria gratuito. O que é que eu decidi fazer? Decidi fazer um crowdfunding, fazer a pré-venda do livro. Coloquei o valor de 20 euros e enviei aquilo para toda a gente, amigos, conhecidos, etc. Cerca de dois meses depois consegui reunir todo o dinheiro que necessitava, ainda que um amigo meu da aviação que tem uma empresa, me disse que se passasse um contrato de mecenato, pagaria o restante do livro. Entreguei o valor do crowdfunding à editora, ele entregou o valor remanescente e fizemos a edição. Optei pela Atlântico porque havia o compromisso de colocar no Brasil, Angola e Cabo Verde, onde eles têm delegações. Para mim isso era agradável.

E a versão final, correspondeu às suas expectativas?
Com toda a franqueza, a editora portou-se muito bem. A capa eu pedi a um amigo meu, ele fez esta capa, e depois a editora fez a correção do texto. A seguir foi a paginação, que foi um horror, porque de facto tinha ido muito em bruto para a editora.
As imagens que constam não são as que estavam, porque havia o problema dos direitos de autor. Então pedi a esse meu amigo que me fizesse também as imagens. Ficaram lindíssimas, mas a editora colocou a preto e branco, por uma questão económica. Fiquei passado… ao menos que me tivessem pedido um pouco mais de dinheiro para meter isto a cores. As imagens a cores são qualquer coisa de extraordinário.
A paginação foi um processo moroso. Iniciou-se na penúltima semana de dezembro, em que me enviam a primeira prova e vinha cheia de erros. Fiquei doente, porque deu-me uma trabalheira imensa corrigir os erros todos. Aí já não foi só na diálise, foi a toda a hora e a todo o minuto. Depois foi para aí umas 10 vezes para trás porque vinha com erros e espero ter visto todos. Às vezes tinha pouco tempo para responder.
Quando é que decide enveredar pela política e surge a sua ligação ao CHEGA?
Sim, tive ligado à política, já é passado. Ainda ontem recebi uma chamada, porque eu ofereci um livro ao André Ventura e ligaram-me em nome dele a agradecer. Achei muito simpático, não estava à espera.
Eu a determinada altura fiquei chateado. Aliás, acho que o CHEGA é um partido de revolta, se quiser. Então fiquei chateado com tudo isto, era votante da extrema-esquerda e fiquei completamente chateado com a política. Aparece o André Ventura com uma postura completamente diferente. As pessoas dizem que ele diz aquilo que as pessoas dizem no café. Se calhar… mas não vejo grande mal nisso, demonstra apenas a revolta das pessoas. Fui o líder da concelhia de Vila Nova da Barquinha. Até fazer diálise eu garantia a distrital e ao André Ventura, numa conversa que tivemos todos, garanti-lhe que manteria o meu ativismo, entre aspas, porque nunca foi um ativismo muito grande. É engraçado que nós na Barquinha nem conseguimos fazer uma concelhia em condições, porque não temos militantes suficientes, mas ficámos em segundo lugar nas últimas eleições e a 190 votos do PS, mas não consigo movimentar nada aqui. A política surge assim, até por causa do Rui Santos, que fez a capa, que já era militante do partido, juntamente com a Manuela Estêvão, que é de Santarém. A partir daí convenceram-me.
Chegou mesmo a candidatar-se à Câmara Municipal de Mação…
Havia uma estratégia nas últimas eleições autárquicas, que deveríamos estar em todos os concelhos. Começaram-me a apertar para ir para a Mação e eu pensei “não conheço nada de Mação, isto vai ser uma bronca”. Mas fui-me desenrascando naquilo que podia, tive uma votaçãozita, cerca de 200 votos, sem saber como… foi uma estratégia aqui da distrital para ir a todo o lado, não houve nenhum interesse, sabíamos que não ia acontecer nada ali. Pronto, foi assim que surgiu.
Atualmente, encontra-se na lista de espera para o transplante renal. Que implicações é que acarreta para o seu dia a dia?
Eu tenho muitas limitações, que para mim são fundamentais porque, acima de tudo, eu quero manter-me na lista de transplante. No pós transplante eu tenho que continuar a portar-me bem, porque se não é um órgão deitado ao lixo e depois é um problema também para mim… porque eu volto a ter a prisão. Por essa razão eu não estou minimamente interessado em não ter o transplante e para isso eu tenho de estar direitinho. As minhas análises têm de estar sempre direitinhas e o meu peso sempre certo. São estas todas as limitações.

Limitações a que um órgão compatível poderia vir a colocar um fim…
Obviamente… é claro que teria regras a cumprir. O meu problema não é cumprir essas regras, eu hoje em dia já as cumpro para efeitos de diálise e para que isto corra bem. As regras que venham a seguir, sejam elas quais forem, são muito mais suportáveis do que estar preso aqui na Barquinha. Por exemplo, para ir ver a minha filha ao Porto eu tenho que pensar. A minha filha mais nova muitas vezes diz-me “pai vem cá almoçar comigo” e eu não vou. Ou melhor, de vez em quando vou, comendo sushi que é aquilo que mais ou menos é neutro, dentro disto tudo.
Já tem alguma nova obra nos planos?
Sim, é mais aprofundada dentro do género. O título do livro é “Os Deuses que vieram de longe” e depois com um parêntesis por baixo “E como são adorados”. Estou a explorar essa possibilidade. Estou parado no terceiro capítulo, a tentar perceber como continuar. Esta problemática impressiona-me e deixa-me pensativo. Há uma série de mistérios que eu fui de um a um no primeiro capítulo, que terá cerca de 200 páginas. Estou a equacionar se colocarei em dois volumes… estou a equacionar muita coisa.
É isto, vou-me continuar a divertir e depois vou prometer aos meus amigos de infância que vou descobrir-lhes a careca toda mas isso é lá mais para a frente, quando estiver mais velhote (risos).
Há alguém a quem gostasse de deixar um agradecimento?
Sem ser aos contribuidores do crowdfunding, a esses claramente… sem eles eu não conseguiria fazer o livro. Ao homem da capa e das imagens, ao Rui Santos e depois à Rita da editora e ao Vasco que me aturou para caraças (risos). O Vasco aturou-me muito, a minha má disposição e tudo, mas ele sempre com uma paciência…


Sonhos e desejos para o futuro?
O único sonho que eu tenho neste momento é sair da hemodiálise. É triste de dizer, mas eu tenho de ter a pessoa certa a morrer. Isto é triste. Não quero doador em vida, já tive opções mas não quero, nem pensar. Eu acho que bateria mal se entretanto o outro rim da pessoa que me doou tivesse algum problema. Isso para mim está fora de questão, prefiro continuar a fazer hemodiálise até ao fim da minha vida e por essa razão doador em vida não. A única esperança que eu tenho neste momento é que haja um transplante com alguma brevidade, normalmente a média são dois anos ou dois anos e meio. Estou a fazer dois anos de lista de espera. Se se cumprir esse “by the book” será até final do ano e claro, gostaria de volta a voar. Posso realmente recuperar o brevet depois do transplante.
Qual consideraria ser o seu lema de vida?
Leonardo da Vinci, “compreender é o mais belo dos prazeres”. Não tenho dúvidas, continuará a ser sempre, até ao fim da minha vida. Talvez me esteja a imaginar num sítio qualquer, já velhinho, a tentar entender aquilo que não entendo.

Boa Noite, gostaria de comprar teu Livro XIII Luas e não consigo encontrar em lugar algum. Estou fraco em pesquisas ou estas a esconder a obra.
Pode me auxiliar nessa busca?