Ivo Querido Santos nasceu, em Tomar, a 30 de janeiro de 1967. É licenciado em Literaturas Modernas com pós-graduação em Ciências da Educação e Línguas, pela Universidade Clássica de Lisboa, mas optou por uma vida preenchida no Desporto, nomeadamente como presidente do centenário Sporting Clube de Tomar. Foi vereador na Câmara Municipal de Tomar, em Regime de Permanência, de 2001 a 2005 e mais tarde de 2008 a 2009, assumindo as competências por subdelegação nos pelouros de Serviços Urbanos, Mercados Municipais, Serviços Médico-Veterinários; Metrologia; Novas Tecnologias, Turismo, Juventude, Biblioteca e Publicações Municipais. Assumiu ainda o cargo de chefe de gabinete do então presidente da Câmara Municipal de Tomar, António Paiva. É casado e tem quatro filhos.
mediotejo.net – Quem é Ivo Querido Santos?
Ivo Santos – É uma pessoa perfeitamente normal com um percurso de vida com altos e baixos, como todas as pessoas, mas que sempre tentou não pensar unicamente no individual. Sempre com a preocupação de fazer parte da sociedade onde está inserido, com a preocupação do próximo e dar o seu pequeno contributo. Todos nós temos uma meta ou um papel na passagem por esta realidade e devemos dar o nosso pequeno contributo, não por sermos muito bons ou por sermos diferentes mas para termos a consciência do outro. Acho muito importante! Foi isso que me levou, desde muito novo, a fazer parte do movimento associativo. Em Tomar fiz parte da associação cultural Canto Firme, estive na direção alguns anos. Antes tinha feito parte de movimentos associativos quer no ensino secundário quer na universidade. Senti-me sempre bem, no sentido de ter aprendido, de ter usufruído dessa realidade, acho que me tornei melhor pessoa por fazer parte do coletivo. Fui elemento da comissão central de duas Festas dos Tabuleiros e essa convivência com o outro, com as nossas tradições, com a nossa forma de estar, tornaram-me melhor pessoa, numa autocrítica que faço do meu percurso. As coisas também me conduziram, desde muito novo, numa dimensão política que nunca excluí, porque acho importante.
Hoje em dia temos uma perspetiva critica daquilo que é a nossa condição cívica na sociedade. Ainda me lembro de haver uma disciplina no ensino secundário que era Introdução à Política, algo que se perdeu, e essa própria disciplina, ao fazer parte do currículo, levantava uma série de questões que talvez hoje em dia não existam. E por ter uma irmã mais velha com quem partilhava muita informação, achei que era importante; fazer parte do grupo. Ainda sou do tempo de haver RJA na faculdade, da participação, da mobilização, sempre achei que fazia parte da nossa vida. Algo que está esquecido ou não é uma realidade tão pertinente.
E na sequência disso conduziu-se para a realidade de ser vereador a tempo inteiro na Câmara Municipal, de ter responsabilidades naquilo que é o coletivo municipal, de passar a ter uma diferente visão sobre as coisas, nomeadamente passar pelos sítios e sentir o que falta fazer. Estar numa Câmara com competências delegadas, ou neste caso subdelegadas, passa-se a ter uma perspetiva da realidade completamente diferente, com as ruas limpas, com o caixote do lixo, ouvir as pessoas…
É diferente ser um cidadão que integra o executivo de ser um cidadão que nunca passou por esse trabalho?
Depende de cada realidade concelhia. Nos municípios mais pequenos existe uma proximidade muito maior em relação ao cidadão, em relação ao concidadão, e as pessoas têm uma maior facilidade em abordar os políticos. Isso poderá ser um bocadinho violador da privacidade de cada um de nós, em relação ao seu dia a dia , mas também torna essa relação muito mais presente. É impossível sair na rua sem que as pessoas nos coloquem os seus problemas, que também são os meus problemas, ou os nossos problemas.
E isso acontecia-lhe muito?
Muito! Lembro-me dos meus filhos pequenos e dizerem “oh pai vais sempre a cumprimentar as pessoas e vais sempre a parar e a dialogar”. Acaba por ser um pouco invasor daquilo que é a privacidade mas eu compreendi isso e nunca mais vi a realidade da mesma forma. Por exemplo, vim do parque de estacionamento até ao hotel [Vila Galé Collection Tomar, onde realizamos a nossa entrevista] e venho a reparar nos detalhes; ou da calçada ou das ruas não estarem devidamente limpas, ou do edifício que deveria estar pintado, ou seja, apesar de já não estar na Câmara há mais de dez anos sinto-a como algo meu.
Mas também tem a ver com uma questão familiar: o meu pai foi funcionário da Câmara Municipal, nos últimos anos era chefe de divisão da área administrativa e da área financeira. Era uma segunda casa, às vezes ia para a Câmara com o meu pai, brinquei muito na Câmara. A partir desse momento passou a existir uma relação umbilical que não é treinada nem pensada, mas é uma realidade. Atualmente o gabinete do presidente era o gabinete do meu pai, portanto até o cheiro da madeira é o mesmo.


Como é que um homem licenciado em Literaturas Modernas tem uma carreira ligada ao Desporto? De que forma iniciou a sua carreira desportiva?
Fui atleta do Sporting de Tomar, pratiquei badminton e basquetebol, modalidades que hoje já não existem no clube, e estive na base da criação de um grupo que, na altura, eram os Leões de Tomar apesar de não ser sportinguista fui membro fundador.
Não é sportinguista, então qual é o seu clube?
Sou do Benfica, no futebol. De resto sou dos clubes de Tomar. Também tenho uma forte relação com o União de Tomar porque o meu pai foi diretor do clube muitos anos e desde pequeno que acompanhava o União de Tomar para todo o lado. O nosso fim-de-semana era a acompanhar o União de Tomar. Portanto o desporto está na minha vida desde sempre. Mas, em miúdo, quando me perguntavam, era do União e do Sporting de Tomar. Só sou do Benfica a partir dos meus 20 anos, quando fui para a faculdade, em Lisboa. E depois da minha passagem pela Câmara e de ter optado estar mais dedicado aos meus projetos pessoais, lançaram-me o desafio para o Sporting Clube de Tomar.
Na altura fiquei um pouco na dúvida até que ponto poderia ser uma mais valia mas acabou por ser uma realidade. Um clube com um grande passado, já tinha sido centenário quando entrei para a direção, e agarrei essa realidade com uma equipa – não pode ser só o presidente – e que possibilitou aquilo que hoje é o Sporting de Tomar. Lembro-me que quando entrei a equipa de hóquei estava na segunda divisão, as coisas eram muito pequeninas, jogávamos no Jácome Ratton e não no Pavilhão Municipal. Dá-me um certo gozo olhar para trás e sentir que tivemos um pequeno papel para transformar a realidade atual.
Tal como acho importante todas as pessoas terem uma experiência na área política, também acho fundamental uma experiência na área associativa, seja ela cultural ou desportiva, fazer parte de uma IPSS, ter um desafio, criar as condições. No caso do desporto – de alta competição – é mais difícil, porque podemos criar toda a estrutura e toda a envolvência mas depois no final é a bola entrar ou não entrar; se entrar é um sucesso se não entrar somos todos uns idiotas.
Caminhamos numa linha muito difícil de percorrer, mas fico satisfeito por ter feito um trabalho satisfatório e por aqueles que me sucederam – após a minha saída voluntária – terem continuado esse trabalho. Não estou nada arrependido da minha passagem pelo Sporting de Tomar, dei muito mas também recebi muito.
Mas o associativismo implica perder individualmente– essencialmente tempo – para dar, em prol do coletivo, dos outros?
Verdadeiramente não se perde. Nunca senti isso. Quando saí da Câmara, designadamente quando saí de chefe de gabinete do presidente António Paiva, a minha família não concordou. Foi uma decisão autónoma, achei que o meu percurso precisava de uma pausa. E há um ano quando saí do Sporting de Tomar, a primeira resistência que tive chegou da minha mulher e dos meus filhos, não queriam que saísse. Porque acham que o meu equilíbrio, enquanto pessoa, depende muito da minha participação ativa na sociedade. Ir para casa e deixar de ter aquela ‘loucura’ na minha agenda poderia ser prejudicial.

O desporto automóvel também faz parte da sua vida.
Sempre foi mais do que uma paixão, uma segunda vida. Se pudesse, a dado momento, poderia ter caminhado para essa realidade, numa vertente ainda mais profissional mas a vida não me levou por esse caminho. Hoje em dia não é um escape, é um gosto enorme que tenho na competição automóvel. Gosto daquilo que faço, sou extremamente organizado, sou disciplinado, faço ginásio a pensar na competição automóvel porque já não sou uma criança e tenho de pensar numa melhor preparação física e mental.
Gosto do desafio, do meio, gosto da sensação de ter uma prova, de a preparar, de treinar. É uma sensação indescritível. Quando estou nas provas esqueço tudo o resto; para mim o mundo é aquele momento, o carro, a estrada, os buracos ou a velocidade, a vertigem. Uma coisa inexplicável. Só as pessoas que fazem competição automóvel é que percebem isso. Naquele momento não se pode pensar em mais nada.
Só pensei uma vez, numa carreira com mais de 10 anos, em algo extra competição. Foi por causa do Sporting de Tomar, ao mesmo tempo estávamos a disputar um jogo importantíssimo, de acesso à 1ª divisão, e senti-me tão mal que tive a partir daí de mudar a minha disciplina mental. Porque estava numa competição muito exigente e ao mesmo tempo estava preocupado se as bolas entravam ou não entravam. Tudo aquilo provocou uma situação de quase colapso físico e psicológico. Não consegui falar, de tanta emoção.
Portanto, é o hóquei patins o seu desporto favorito ou é nos ralis em Todo o Terreno que se completa?
São coisas diferentes. Porque o desporto sou eu, o carro, o meu piloto. Sou eu que controlo. O hóquei patins, no desporto me geral ou nos clubes da minha terra é uma dimensão diferente, é o sentir que fazemos parte, é o emblema, aquelas coisas que se transmitem. O emblema é aquilo que nós somos. Já não sou presidente mas vou com a clube muitas vezes, no autocarro. Não está relacionado com ser ou não presidente, tem a ver com ser adepto e a minha cor é aquela, a minha cor é a cor de Tomar.


Mas gostava de ser presidente, ou pelo menos de integrar o União de Tomar, ou não?
Uma vez falei sobre essa realidade a um jornalista e foi mal interpretado. Passou da gravação para a escrita e soou mal, sendo primeira página do ‘Cidade de Tomar’. O que disse e repito é o seguinte: cresci a ver o União de Tomar, desde pequeno com 4 ou 5 anos, a acompanhar o meu pai. Ia para o futebol de manhã ver os juniores e ficava até ao fim do dia a ver os seniores, e via os escalões todos. A primeira vez que andei de avião fui ver o União de Tomar a Faro. E a segunda à Madeira, para jogarmos com o Marítimo. Lembro-me que o União de Tomar desceu da 1ª para a 2ª divisão no último jogo, no Montijo, que perdemos 5-0.
O meu pai, como diretor, nos últimos anos de vida disse-me que gostava que tivesse sido presidente do União de Tomar. Foi isto que disse ao Jorge Ramos. Foi transformado em algo que não disse: “tenho como uma missão ser presidente do União de Tomar”. Era na altura presidente do Sporting de Tomar, colocam-me esta questão em junho e o meu pai tinha morrido no dia 13 de abril, naturalmente falo do assunto com alguma emoção. Não quero ser presidente de nada! Disse que o meu pai tinha esse sonho e logicamente é uma porta que não fecho tal como não fecho porta nenhuma, em relação a nada.
E são clubes rivais?
Na sua génese, são! O Sporting de Tomar era um clube de futebol, disputava com o União de Tomar. Por isso, é a primeira filial do Sporting Clube de Portugal, e o União de Tomar era filial do Belenenses. Havia cinco clubes de futebol em Tomar. Mais tarde, nos anos 1960, o Sporting de Tomar enveredou pelo hóquei patins como modalidade rainha dentro do clube. Mas sim, dizia que era do União de Tomar, era normal!
O Eusébio esteve em minha casa algumas vezes, embora estivesse cá pouco tempo, de novembro a março do ano seguinte. Quem esteve em Tomar mais tempo foi o António Simões, um jogador do Benfica. Ou seja, as pessoas não podem dizer que ando em bicos de pés. Não ando em bicos de pés nenhuns! Aliás o meu comprometimento com o Sporting de Tomar está cumprido; fui presidente durante 8 anos, fiz o meu papel, a atual direção, no fundo, era a minha direção. Em relação ao futuro logo se vê.

Ou seja, a possibilidade de ser presidente do Sporting Clube de Tomar surgiu por convite, não foi portanto uma candidatura espontânea?
As forças vivas de Tomar falaram comigo, quase como uma imposição, do género: tens de ser presidente do Sporting Clube de Tomar! Nomeadamente, na altura, a presidência da Câmara, empresários, o [Instituto] Politécnico. Senti que havia espaço para trabalharmos a esse nível, com um projeto interessante. Não fui eu que quis ser presidente. Nada disso! Tenho muita coisa para fazer a nível pessoal, além de ser técnico superior do Instituto do Emprego e Formação Profissional – na altura ainda não era a tempo inteiro -, sou empresário em nome individual e sou consultor do JGCS Investments. E depois tinha os filhos a crescer e a estudar e não era naquele momento a minha opção, mas agarrei a ideia. Aliás, à época foi o presidente de então, que é o presidente atual, a primeira pessoa a vir falar comigo, e depois veio a Câmara e outras forças vivas de Tomar. Acabei por aceitar e ainda bem que aceitei porque gostei imenso de estar no Sporting de Tomar.
E o seu envolvimento na política? Nomeadamente como vereador na Câmara Municipal de Tomar, não decorreu do desporto, o desporto é que decorreu desse cargo político.
É verdade. Ir para a Câmara decorre do movimento e participação na sociedade no mundo associativo, também decorre de alguma intervenção em termos de comunicação social, em múltiplos artigos de opinião, uma participação cívica. A minha entrada na política poderia ter acontecido muito mais cedo, poderia ter entrado na política logo aos 25 ou 26 anos. Acabei a faculdade aos 21 anos e vim logo para Tomar e comecei a trabalhar. Não quis ficar em Lisboa. A primeira vez que dou aulas é em Tomar na antiga Escola Secundária nº 3 que já não existe – Tomar tinha tantos alunos que havia a Jácome Ratton, o Liceu e a Secundária nº 3 nas antigas instalações do Colégio Nuno Álvares. Portanto, uma coisa decorre da outra e surge naturalmente.
Tal como na política, em dado momento, era visto como uma espécie de delfim do António Paiva, era visto como o futuro, mas as coisas não caminharam para aí. Não vale a pena lutar contra os elementos. Aquilo que era expectável no seio do PSD a dado momento, de um dia ser presidente da Câmara, acabou por não acontecer.
Mas envolveu-se como independente ou era, ou é, militante do PSD?
Na época era militante do PSD. Já não sou há muitos anos, mas fui por esse caminho. E as pessoas falavam comigo dizendo que seria candidato à Câmara pelo PSD e isso não aconteceu, acho que as opções no terreno foram ótimas e ficámos por aí.
É uma porta encerrada?
Nunca podemos dizer que é. Não gosto de portas encerradas porque ainda sou novo, tenho muitos objetivos pela frente e não é uma porta completamente fechada, o regresso à política ativa. Fui para vereador da Câmara muito novo, poderia ter ido, como disse aos 25 ou 26 anos, até por outra força partidária como independente, mas as coisas acabaram por não ir por aí e ainda bem porque não tinha maturidade suficiente. Acho que quando entro na Câmara ainda era demasiado novo. Sou adepto do modelo francês, no sentido do ‘maire’, quase um senador. Ou seja, a política para ser bem exercida – não tenho nada contra os jovens que são importantíssimos, pela sua vontade de mudar, pelo conflito de geracional que existe permanentemente e vai existir sempre, pelas novas visões do mundo – a figura do autarca necessita de uma paz de espírito, tranquilidade, de uma postura diferente perante a realidade que só se obtém com a idade.
Neste momento, apesar de ter um filho adolescente, sinto que tenho mais espaço para isso, fruto da minha vivência, da minha experiência, das minhas vitórias mas sobretudo das minhas derrotas, levam a ter uma perspetiva e uma noção de que conseguia fazer bem. Porque é impossível estar preparado para ser autarca com 20 ou 30 anos. É espaço para outras realidades, para outros desafios. O desafio de autarca precisa de muita coisa para além daquilo que é a vontade e do desafio propício e natural de quando se é mais jovem. E por isso num sistema democrático muito mais avançado e alicerçado do que o nosso, nomeadamente o francês, existe um modelo dos ‘maire’ em que a maioria são pessoas com mais de 60 anos.
É uma pessoa que sabe e que gosta e que não precisa da política para ficar bem na vida. Que é outra coisa que atualmente… os populismos surgem muito daí. As pessoas têm a noção que os políticos estão na política como forma de substituir a sua profissão, e isso é extremamente negativo.
Não sente que tem acontecido?
Sinto que estamos a caminhar para essa ideia e essa ideia quando estiver alicerçada vai criar um problema: aqueles que hoje são os populistas estarão no poder. E isso é extremamente negativo. Tem de haver espaço para as pessoas terem a consciência que têm de regressar à política, têm de dar o seu contributo para ser diferente. Falei do modelo francês mas o modelo alemão é igual, nos países escandinavos é igual. As pessoas estão na política não para se servirem mas para servir. E isso é mais natural – embora possa não acontecer em todos os casos – quando se está bem com a vida, já com a tranquilidade, com um percurso profissional, com a solidez ou estabilidade financeira e não ser políticos, que estão na política, porque cá fora não teriam sucesso. Estão na política não porque precisam dela mas porque querem, porque sentem o seu contributo.
Quando estava na política, por ser jovem, disse coisas à época… não digo erradas, mas próprias de um político jovem. Uma vez disse assim: “mais valia pegar em todos os presidentes de Junta do meu concelho e levá-los lá fora a ver uma realidade diferente do que por vezes fazer investimentos que não servem para nada em cada uma das freguesias”. E isto pode ser visto como alguém que tem a mania que é superior. É verdade, ter mundo é muito importante, conhecer outras culturas é fundamental.
Mas quem pensa e tem coragem de expressar verbalmente é quase crucificado. Porque é que as escolas não fazem um investimento maior na literatura, na pintura, na música? Porque é que nós todos não contribuímos para isso, para criar cidadãos melhores? Temos novos desafios pela frente, temos uma cidade cada vez mais multicultural, temos outras proveniências, alunos brasileiros, pessoas de países asiáticos, etc, e precisamos de mundo para responder a essas realidades e acho que a figura do político com outra visão é importante.

Agora que falou na sua cidade como a vê e, já que estamos na quadra natalícia e de novo ano, que prenda gostaria que Tomar recebesse?
O principal desafio que Tomar tem neste momento é extremamente difícil. Por um lado, não querer ser igual aos outros concelhos da região do Médio Tejo e do Centro do País, e por outro, apostar naquilo que o diferencia. E por vezes parece que queremos os dois mundos e isso é impossível. Tomar não tem dimensão nem tem massa crítica para agarrar as duas realidades. Não podemos ser ao mesmo tempo industriais e turísticos. Não podemos ser um polo de desenvolvimento em várias áreas. Temos de apostar em duas ou três áreas muito específicas.
E acha que é isso que está a acontecer? Ou seja, há em Tomar uma tendência para a abrangência de áreas?
Receio que uma certa linha política seja alterada pela vontade de agarrar diferentes áreas… somos uma democracia muito jovem, temos uma cultura democrática ainda com muitos problemas e somos muito influenciados por aquilo que o vizinho do lado faz. Por um lado, temos uma visão muito de ‘capelinha’ de cada um dos concelhos, e por outro somos muito influenciados pelos concelhos que nos são mais próximos. Lembro-me há uns anos, não havia concelho nenhum que, em cada uma das freguesias, quisesse pelo menos uma piscina de curta dimensão coberta, uns tanques. Hoje em dia, a maior parte dessa realidade, nos concelhos aqui à volta, está fechada. Temos muitos centros de dia, muitas associações, cada uma com uma cozinha, com um pavilhão, um polivalente, para nada.
Defende que deveria haver um trabalho mais coordenado e conjunto?
Sim. Claramente. E na altura estive na Resitejo e outro tipo de associações supra municipais mas sempre tive a noção que havia um conflito de interesses entre o individual, neste caso o concelhio, e o que era o supra concelhio. No caso de Tomar, por vezes não percebo qual é o caminho. Não estou criticar. Há espaço para o debate de ideias e devemos todos olhar para o mesmo objetivo. Orgulho-me de ter feito parte de executivos onde todos os vereadores tinham pelouros, ou em Regime de Permanência ou outro tipo de regime, mas todos tinham responsabilidades políticas. Acho fundamental partilhar o poder. Essa coisa de agarrar o poder, ser só nosso, não ser dos outros não pode funcionar em concelhos tão pequenos como o nosso. Temos de trabalhar em conjunto. Há espaço para o debate, e ainda bem, a democracia é isso mesmo diferentes ideias, e há espaço para o trabalho, do dia a dia.
Nos meus últimos anos de Câmara precisava de outro tipo de desafio, achava que era uma coisa monótona, praticamente estava tudo feito, daquilo que era preciso fazer naquele momento. Não havia massa crítica para ir mais além. Mas senti que, nos últimos anos, foram dados passos importantíssimos para o futuro do coletivo. Importa pensar o futuro não na lógica de ter mais população ou muitos mais investimentos mas fazer bem ou melhorar aquilo que já existe.
Na sua opinião qual poderia ser o caminho?
Uma aposta na realidade de Tomar. É um marco em termos culturais, um marco na região e um polo de desenvolvimento em termos de cultura e saber, nomeadamente de ensino, e temos de ir por aí. O futuro é a fruição e o saber. Temos uma realidade em Tomar que são os novos nómadas digitais, uma enorme população de estrangeiros em Tomar. Eu próprio dei aulas de português a estrangeiros em regime de voluntariado, estive nos primeiros momentos dessa realidade. Temos milhares de estrangeiros a residir neste concelho, que escolheram como sua primeira habitação. Porquê? Porque as pessoas gostam de estar aqui, no Centro do País, com a proximidade a Lisboa. É nisto que tem de se investir e não tentar fazer réplicas de polos de distribuição alimentar ou outro tipo de realidades, porque Tomar não é isso.
Quando era adolescente sempre tive a noção que as pessoas, aqui à volta, olhavam para Tomar e para os tomarenses de uma forma… não digo desconfiada mas… sentia isso, porque joguei em Torres Novas, Entroncamento, Sardoal, Alferrarede, Abrantes, Santarém, Cartaxo. Não era por sermos importantes mas por terem inveja de Tomar e isso, a dado momento, provocou que ficasse para trás no desenvolvimento.
O último hospital [do Centro Hospitalar do Médio Tejo] foi o nosso, as acessibilidades só existiram porque à época os governantes do PSD, nomeadamente o tão odiado Miguel Relvas, fez pressão para A13 e o IC9, com este traçado estranhíssimo – eu estive na discussão do traçado – é uma coisa que é profundamente aberrante, sem uma ligação direta à A1, mas tudo isso foi arrancado a ferros.
O Polis de Tomar, no governo do Partido Socialista – também estive nesse processo, nomeadamente à época com o ministro do Ambiente, o engenheiro Sócrates –, conseguir foi a mesma coisa que ir numa autoestrada e vir os carros de frente porque as pessoas olhavam para Tomar como se não precisasse e estávamos muito longe dos centros de decisão. Isso ajudou que Tomar, a dado momento do seu percurso, ficasse um bocadinho para trás. Quase que parecia que éramos persona non grata. Tomar não precisava de desenvolvimento, não precisava de emprego, não precisava de nada. Já tinha tudo, no entendimento dos decisores em Lisboa e também na região.
Hoje em dia está um bocadinho alterado devido à nossa realidade política, basta ver quem é o líder distrital do Partido Socialista. Basta ver outras realidades no seio do PSD, se bem que o PSD hoje em dia em Tomar é o que é.

E que prenda?
Gostava que Tomar recebesse algo que era importante, o reconhecimento por parte do Estado português da importância cultural da Festa dos Tabuleiros, como elemento diferenciador. Ou seja, ser Património Imaterial, porque ainda não está devidamente assinado. Temos património, o conjunto do Convento de Cristo e Castelo Templário é Património da Humanidade, mas a Festa dos Tabuleiros pela diferença e não existir outra festa igual do mundo, deveria ser Património Imaterial da Humanidade. Falta esse passo. Estão a ser dados passos muito importantes, mas essa seria a prenda perfeita que Tomar mereceria.
E o País, como vê o atual cenário político?
O País preocupa-me muito. Tenciono continuar aqui a viver. Tenho quatro filhos, três são gestores. Um deles trabalha no Bloomberg em Londres, mas curiosamente está num departamento que o obriga a estar na Península Ibérica, a minha filha é auditora no BNP Paribas, neste momento está em Lisboa mas brevemente irá para Barcelona, o outro meu filho trabalha na Sotheby’s, também inglesa. O que sinto é que os jovens mais qualificados não ficam em Portugal.
Nesse cenário, por onde passa o futuro de Portugal?
Por não baixar os braços e criar verdadeiras condições – financeiras – para que os jovens permaneçam no País. É um grande desígnio da próxima geração, senão, por um lado, temos uma população muito qualificada cuja maioria sai do País, e por outro lado temos falta de mão de obra que origina recorrer à imigração. Por exemplo, dou formação profissional a formandos de outros países e o equilíbrio entre o ensino regular e o ensino profissional é quase 50%. Na Alemanha há mais alunos na escola profissional do que na escola regular, em Portugal é o contrário, e claro que depois não temos mão de obra.
Ou seja, olha o País com preocupação…
Vejo com muita preocupação, mas mais que preocupação, um desafio para as gerações futuras. Preocupa-me um certo populismo perigosíssimo. É impossível contrariar algumas daquelas ideias, quando mais são difundidas, propagadas e repetidas por pessoas inteligentes. É impossível contrapor o discurso argumentativo de um populista, forçosamente temos de dizer: o tipo tem razão. Esse é um problema.
Vi a tomada de posse do novo presidente da Argentina, que escreveu no livro de honra o que escreveu [viva la libertad, carajo]. É o contraponto de tudo aquilo que aprendemos nos manuais de filosofia, sociologia. É um novo tipo de populismo que, logicamente, não traz nada de positivo, as pessoas vão-se arrepender. Veja-se a realidade na Holanda, onde a média da população vive acima da média na realidade europeia. Vejo um estranho populismo também na Hungria, que tem razões culturais e de transmissão dos valores do antigo bloco de Leste, o norte da Europa também a querer sair da União Europeia. Aliás, a União Europeia é um modelo político que está gasto e que vai terminar. As fronteiras vão voltar a existir. A não circulação de pessoas e bens vai ser uma realidade a muito curto prazo. Tudo caminha para isso, ainda esta semana [a entrevista foi realizada a 13 de dezembro de 2023] ouvimos que o novo organismo que substituiu o SEF não consegue controlar quem entra em Portugal.
Se nos períodos da noite e fins de semana não há controle de quem entra e sai de Portugal, está tudo dito! A Europa é o modelo da democracia, da tolerância, do respeito pelo ambiente. A Europa é que respeita, temos normas para tudo, transpomos diretivas europeias para legislação nacional quase imediatamente. No entanto, Greta Thunberg, por exemplo, fala como se fossemos os criminosos, quando somos os respeitadores. Os criminosos são os Estados Unidos, a China, a Índia, os países em vias de desenvolvimento. O modelo está aqui, o equilíbrio é aqui.
A União Europeia também teve um importante papel na preservação da paz…
É verdade! Mas a paz não é natural ao ser humano. Acho que o ser humano é naturalmente conflituoso. A paz é algo muito ténue. Temos de conviver com isso e há os interesses que se sobrepõem, mas até a esse nível, quer queiramos quer não, a Europa é sempre o farol e sempre tentou resolver os seus problemas internos. O que aconteceu no final da Segunda Guerra Mundial é atípico, mesmo o reconstrução do centro da Europa, um dia quando houver mais distância, as pessoas vão ter a consciência do que foi; de não ter água, não ter luz, não ter estradas e as pessoas conseguirem recuperar, e os ódios terem de alguma forma deixado de existir.
É um otimista?
Sou otimista em relação ao futuro. Vão havendo novos desafios para as novas gerações… mas uma questão que não conseguiremos ultrapassar nos próximos 40 ou 50 anos é que multiculturalismo continuará a existir no espaço europeu no atual modelo, que é de receber. É um desafio muito grande; porque ao receber pessoas com outro tipo de cultura, com outra visão do mundo, há dois fenómenos; da aculturação ou da adaptação. São desafios que com certeza vão ser resolvidos, se houver uma estrutura sólida da democracia.
Os populismos estão condenados, os extremismos têm uma vida muito curta, sejam de direita ou de esquerda. Sou um social democrata convicto, com uma consciência cívica muito grande e um respeito em relação aos demais acima da média, seja ele quem seja. Tenho o máximo de respeito por todas as pessoas.

Falando do Sporting de Tomar, clube centenário e que está na primeira divisão nacional de hóquei em patins. Após a sua tomada de posse como presidente do Clube, o que mudou e o que conseguiu implementar?
Basicamente passámos do amadorismo ao profissionalismo. Não só a questão de termos jogadores profissionais mas termos um modelo profissional. Se for agora ao pavilhão, estão a treinar de manhã. Criar condições para que isto seja possível é um paradigma diferente. Sair do pavilhão Jácome Ratton e passar a jogar no pavilhão municipal, no centro da cidade, ter sponsors que consigam criar esta nova realidade, tornar-nos mais exigentes connosco próprios, saímos daquele estigma de ser pequenino, tudo isto é sobretudo uma questão de mentalidade. E posso ter a mentalidade e todas as boas intenções, mas se não tiver uma estrutura financeira que o permita, será um projeto nado-morto.
Foi preciso criar a estrutura que possibilita que neste momento tenhamos esta realidade. E mais uma vez não querer agarrar tudo; especializar no hóquei patins e na patinagem artística, porque os outros fazem um bom trabalho. Não é dispersar recursos, Tomar tem boas equipas disto e daquilo, de outras modalidades, excelentes associações, não vale a pena estar em conflito, importa, sim, trabalhar.
Qual foi exatamente o seu papel no Sporting Clube de Tomar?
Definir metas. Definir objetivos. O objetivo era disputar uma Liga Europeia em seis anos. Partimos de uma segunda divisão. Ao fim de três anos estávamos a disputar um Liga Europeia. Depois tivemos uma descida de divisão inesperada, mas no ano seguinte voltámos à primeira divisão e neste momento é esta realidade. Como adepto sinto-me orgulhoso. E outros ficaram com este barco para continuar porque o meu trabalho terminou. Se as bolas não tivessem entrado, não tínhamos alcançado os objetivos mas a estrutura está lá. Ter uma equipa profissional – não por ganhar muito dinheiro mas porque vêm para cá com a intenção de valorizar e ao valorizarem-se, valorizam o clube. Temos uma equipa diretiva estável, temos uma equipa técnica de excelência. Tudo isto são os condimentos para fazer o que fazem hoje.
Portanto, foi necessário dinheiro…
Foi necessário criar condições financeiras, resolver o passivo que existia à época, pagar a quem se devia. E ter o trabalho de andar a bater às portas e fazer as pessoas acreditarem no nosso projeto, que é o trabalho mais difícil. Por exemplo, chegar a um Politécnico e convencer que sejam nossos parceiros, fazer um protocolo de colaboração, ir ao Município e querer que seja assumidamente projeto do Município, responsabilização, arranjar parceiros de fora, nomeadamente empresas de dimensão nacional e outras agarram o projeto do Sporting de Tomar. Convencer as pessoas e mostrar resultados. Trabalhar muito em termos de comunicação, não tínhamos presença em redes sociais feita por uma equipa profissional como hoje em dia temos, e as pessoas são remuneradas para isso. É lógico que têm de ser remuneradas, não vejo ninguém trabalhar de borla. Ter um website, falar com os nossos associados nas novas formas tecnológicas, simples de fazer, as pessoas vestirem a sua camisola. Antigamente não havia uma camisola do Sporting de Tomar.
Este tipo de coisas que parecem tão simples, se não forem conseguidas não é um clube do século XXI, é uma coisa do passado ou sem expressão. E depois a outro nível; fazer parte da associações de clubes, da Federação, ir às reuniões, discutir, intervir, ser chato, para nos respeitarem e para sermos respeitados. E este trabalho tem de ser feito, seja no hóquei em patins, seja no futebol, no andebol ou basquetebol. As pessoas estando convencidas é o primeiro passo. Depois temos de ter uma equipa técnica, bons jogadores, que acreditem no projeto e que se queiram valorizar. Assim as coisas surgem naturalmente Hoje em dia o Sporting Clube de Tomar tem a maior assistência, em média, em Portugal. Para mim é um motivo de orgulho.


A certa altura, o presidente Ivo Querido Santos, após três mandatos e mais de 8 anos consecutivos, mudou de ideias e decidiu sair, em 2022. Quais foram as razões da demissão?
Senti que já não havia espaço para mim. Algum cansaço das pessoas em relação a mim. Deixei de sentir do Município, nomeadamente da Câmara política. Dito de uma forma muito clara: não quis que aqueles que estiveram na origem da minha ida para o Sporting de Tomar se mostrassem cansados de mim. Ao se mostrarem cansados de mim, da minha presença, da minha chateação permanente, temi que fosse prejudicial para o próprio clube, ou seja, a minha saída foi benéfica para o clube. Ao aparecerem outras caras, outras pessoas, pedindo o mesmo que eu pedia, por não haver aquele fenómeno do cansaço, passaram a ser melhor recebidas e passaram a atender o telefone, passaram a ter reuniões quase como no passado.
Tem de haver algum desprendimento. Foi essa a verdadeira razão de sair do Sporting de Tomar; senti que as pessoas estavam cansadas de me ter como presidente. Não quis que a minha permanência, quase vista como: já cá está há tempo demais – fui o presidente nestes 100 anos de história que esteve mais anos consecutivos à frente do clube – pudesse ser prejudicial ao Sporting de Tomar. Associado a isso alguma desmotivação pessoal, fruto também de episódios da minha vida pessoal, nomeadamente a perda do meu pai. Esse cansaço tem de ser visto com naturalidade.
A sua saída não esteve relacionada com o facto do clube não ter reunido os apoios suficientes para estar presente nas competições europeias?
Na altura foi um dos motivos, porque a partir do momento em que os meus parceiros deixaram de dialogar comigo, de reunir, de discutir, senti que talvez, se eu saísse, os apoios naturais que tinham sido assumidos pudessem continuar a existir e felizmente isso sucedeu. Este ano estão novamente nas competições europeias, e muito bem! Mas a dado momento senti que o telefone deixou de ser atendido e quando isso sucede temos de pensar porquê. Somos nós que perdemos o encanto? Então o melhor é dar o lugar a outros. Senti que o meu vice-presidente, e presidente atual, talvez tivesse esse espaço de manobra.
Ou seja, ao nível financeiro, os embates com a falta de receitas, que atingem os clubes, ou o Sporting de Tomar nunca sofreu tais problemas?
Não. Eu próprio saí prejudicado com a minha saída. Mas aquilo que deixei no clube, deixei no clube. Em termos financeiros foi negativo porque tinha verbas adiantadas que permaneceram no clube, não tenciono ser ressarcido porque acho normal um presidente em alguns momentos ter de responder àquilo que são as solicitações e as urgências.
Ao nível de condições, o clube está bem servido?
Está muito bem servido. Neste momento é um clube modelo. Neste momento o Sporting Clube de Tomar, em termos de hóquei em patins, seja na realidade competitiva dos seniores seja nas secções juvenis, é visto como um clube modelo. Como modelo de formação e um modelo de organização de um clube da nossa dimensão. Aquilo que ambicionava para o clube está concretizado. Agora os outros que venham com outros objetivos. E cá estarei para apoiar.
É no Pavilhão Jácome Ratton que o clube tem a sua sede social mas, como disse, joga no Pavilhão Municipal. Seria preferível ter casa própria?
Se estivesse no clube talvez fosse um projeto a médio prazo. Gostaria de ter um espaço para isso. Mas tinha de ser financeiramente bem organizado. É um investimento grande mas para o qual existe alguma linha de financiamento, mas tinha de ser bem discutido, não poderia ser a decisão de uma pessoa, tinha de ser a decisão de um coletivo. Talvez fosse um caminho, mas não quero condicionar aquelas que serão as opções de quem lá está e de quem lá estará. Mas sim, é sempre uma possibilidade ter o seu espaço próprio… um pavilhão, um centro. Talvez fosse um projeto bem interessante. Cheguei a pensar nisso e a minha direção sabe disso, cheguei a colocar isso como um caminho e uma forma de receita. As pessoas também diziam ser impossível termos um autocarro e nós temos. Bem sei que são volumes de investimento diferentes mas não podemos ficar agarrados à impossibilidade; existindo avançamos, não existindo é um projeto que fica em banho-maria.
Portanto, no caso do Sporting de Tomar podemos falar em porta fechada?
Dificilmente voltarei um dia. Já lá estive. Estou satisfeito com a minha passagem pelo clube e acho que está bem entregue e as pessoas que estão à frente do clube merecem todo o meu respeito e reconhecimento e falar-se nisso neste momento até seria contra natura. Temos é de apoiar e não criar divisão e não criar cisões. Podem contar comigo, não só como adepto mas como apoiante das decisões, mesmo que não concorde com elas porque estou cá para fazer parte do coletivo.

Que ou quais cargos sociais ou de intervenção social ocupa hoje em Tomar?
Atualmente não tenho nenhuma intervenção pública. Achei que devia fazer uma pausa. Não faço parte de nenhum órgão de nenhuma associação, de nenhum clube, em termos políticos não sou filiado, nada! Achei que era importante, de quando em vez, parar e ter outras prioridades; familiar, profissional, dar tempo ao tempo, crescer enquanto pessoa, ler, passear ou viajar. Dar tempo a mim. Acho que é importante, sempre naquela lógica de crescer enquanto pessoa. É o que estou a fazer neste momento. Sei que sou visto por muitas pessoas para muitos cargos mas não contribuo nada para isso. Reservo-me a ver, a analisar, a ter a minha opinião, dar o meu contributo, e pronto.
Foi também por isso que se desfiliou do PSD ou teve outra razão?
Sim. Desfiliei-me do PSD porque achei que já não fazia sentido. Quando as pessoas deixam de acreditar nos projetos, deixam de fazer parte deles. É como a vida pessoal. A dado momento não me revia naquilo que era a liderança do partido, nem na linha política que era a linha do PSD e achei que era a altura de sair. Continuo a ser social democrata, está nas minhas convicções, faz parte da minha maneira de ser mas escuso de ter um cartão, é uma coisa acessória.
Desse seu trabalho público, do qual mais se orgulha?
Orgulho-me das coisas pequeninas; o sorriso, do cumprimento na rua, de passarem por mim e saberem o meu nome, por dizerem que fui importante no percurso deles e delas, que os pais gostavam muito de mim, que fui um bom professor, um bom diretor de turma, um bom formador. Isso é que tem valor! Tudo o resto, o reconhecimento, as estátuas… isso depois passa. Não há imortais e não há insubstituíveis. Uma vez disse à ex-presidente de Câmara, e ela durante algum tempo repetiu, que: mais importante do que ser presidente de Câmara ou de ser vereador é quando as pessoas deixam de exercer o cargo, serem respeitadas.
No poder são só salamaleques, quando estás num cargo de alguma importância ou de projeção é fácil serem teus amigos, é fácil as pessoas prestarem-te vassalagem – quase nesse sentido -, mas o mais importante é a seguir. E a seguir é o respeito, o sorriso, o afeto, isso é que é importante, o resto não tem importância rigorosamente nenhuma. Quem acha o contrário, um dia vai ter a consciência que é isso que conta.
O seu tempo livre dedica-o a quê ou a quem?
Dedico-o basicamente ao meu filho mais novo, que tem 13 anos, um adolescente como todos os adolescentes com as suas vicissitudes. À família, à casa e aos meus projetos. Vejo-me de repente a gostar de recuperar móveis antigos, de ler o que me faltava ler, de ir a exposições, de ir a concertos, de sair por vezes sem destino. Apesar de tudo o que fizer, o relógio continua a contar e não tenho tempo para fazer tudo aquilo que ambicionava fazer. Mas já que tenho tempo e que tenho saúde e ainda algum rigor e disciplina mental, aproveito o tempo da melhor forma possível. Tenho a noção que o tempo é finito. É isso que pretendo fazer. Continuar a ter projetos, continuar a ser um cidadão do mundo e continuar a fazer aquilo de que me orgulhe.
O que é que ainda tem para fazer?
Muita coisa. É impossível uma pessoa com a minha idade ter a perceção que já fez tudo porque seria extremamente negativo. Aliás, hoje em dia em que nos reformamos aos 66 anos e 8 meses, não me vejo sem projetos. Gosto muito do que faço, sou técnico superior do IEFP, dou formação profissional, gosto imenso dos meus grupos, com os seus problemas e com as suas idiossincrasias. Gosto do que faço no privado, de ter a agenda um bocadinho cheia. Mas falta fazer muita coisa, assim a vida permita.
