A dor crónica é um problema de saúde pública, a nível mundial. Em Portugal tem um grave impacto na qualidade de vida, e afeta uma em cada três pessoas. A propósito do Dia Nacional de Luta Contra a Dor, que se assinala a 20 de outubro, fomos entrevistar a médica Raquel de Sousa Almeida, especialista em Medicina Interna e responsável pela Consulta da Dor do Hospital CUF Santarém, que nos deixa o alerta: é preciso tratar a dor crónica, encarando-a como uma doença e não apenas como um sintoma.
No início deste ano foi criada a Consulta da Dor, no Hospital CUF Santarém. Que motivos levaram a que se tornasse necessário criá-la? Há muitas pessoas na região que sofrem de dor?
O estilo de vida atual e o envelhecimento da população nacional, da qual Santarém não é exceção, levam ao aumento da prevalência de doenças crónicas e de condições de saúde frequentemente associadas à dor crónica. A abertura desta consulta surgiu para dar resposta a esta crescente necessidade de cuidados específicos e personalizados a estes doentes, com o objetivo de melhorar a sua qualidade de vida.
Existem diferentes tipos de dor. Qual é a diferença entre dor aguda e dor crónica?
A dor aguda é um sintoma, que funciona como um sinal de alarme para uma lesão. É, habitualmente, uma dor de grande intensidade, mas temporária, que diminui à medida que a sua causa vai sendo tratada. Por sua vez, a dor crónica é uma dor que se torna persistente ou recorrente, durante, pelo menos, 3 a 6 meses, mantendo-se para além da cura da lesão que lhe deu origem, ou que existe sem lesão aparente. Provoca stress contínuo e pode causar incapacidade física, funcional e psíquica, alterações no padrão de sono, sensação de cansaço, diminuição de apetite, dificuldade de concentração e isolamento social, com um inevitável impacto negativo na qualidade de vida. A contrário da dor aguda, a dor crónica deve ser encarada como uma doença e não apenas como um sintoma.
“O sofrimento e a dor persistente não devem ser normalizados, nem encarados como uma fatalidade. Existem estratégias capazes de prevenir e controlar a dor.”
Raquel de Sousa Almeida, especialista em Medicina Interna
Quais são as causas mais comuns de dor crónica e que tipo de casos têm sido mais frequentemente referenciados para a Consulta da Dor do Hospital CUF Santarém?
A dor crónica pode ter várias causas. Pode desenvolver-se no contexto de uma doença oncológica ou do seu tratamento; pode ocorrer após um traumatismo ou cirurgia; ser consequência de uma infecção, como o herpes zoster (vulgarmente conhecida como “zona”) ou de uma doença crónica, como a diabetes mellitus; pode, também, ter uma causa muscular, ortopédica ou reumatológica; ou não ter causa identificável, como no caso da fibromialgia. As queixas musculoesqueléticas são aquelas que têm levado mais doentes a procurarem a nossa consulta, em particular, casos de dor lombar, cervical, na anca ou nos joelhos, sem indicação cirúrgica ou que persistiu após uma cirurgia.
É possível distinguir zonas do corpo mais suscetíveis à dor crónica?
Sim, sabe-se que a região lombar é uma das áreas mais afectadas pela dor crónica, seguida dos membros inferiores, nomeadamente, os joelhos e a anca, membros superiores, ombros, região cervical e face, por esta ordem.
A causa da dor nem sempre tem cura. Tendo isto em conta, qual é o objetivo do tratamento da dor crónica?
O objetivo da abordagem à dor crónica é melhorar a qualidade de vida e a capacidade funcional do doente, através da redução da intensidade da dor. A dor é considerada uma experiência subjetiva, sendo a sua intensidade e outras características variáveis de pessoa para pessoa. Esta perceção vai depender da experiência de cada um e não pode ser medida ou quantificada diretamente por outra pessoa ou por instrumentos de medição. Assim, a dor requer uma abordagem multidisciplinar individualizada, que pode envolver medicamentos, mas também exercícios de reabilitação, avaliação nutricional, técnicas mais invasivas, intervenções psicológicas, técnicas de relaxamento, entre outros.
“O objetivo da abordagem à dor crónica é melhorar a qualidade de vida e a capacidade funcional do doente. O trabalho em equipa multidisciplinar e adaptado às necessidades de cada doente é fundamental.”
Raquel de Sousa Almeida, especialista em Medicina Interna
Que especialidades estão envolvidas especificamente no tratamento da dor crónica, no Hospital CUF Santarém?
Sendo a dor multidimensional e subjetiva, o trabalho em equipa multidisciplinar e adaptado às necessidades de cada doente é fundamental. Muitas vezes, os doentes chegam à Consulta da Dor do Hospital CUF Santarém através de especialidades como a Medicina Geral e Familiar, Neurocirurgia, Ortopedia, Cirurgia Geral ou a Oncologia. A referenciação entre as várias áreas médicas e cirúrgicas e a colaboração de diversos profissionais de saúde, como enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas, permite-nos desenvolver um plano personalizado eficaz para o controlo da dor.
Porque é importante o diagnóstico e o tratamento precoces da dor?
O diagnóstico precoce da causa da dor permite uma intervenção atempada e mais eficaz, com maior probabilidade de se conseguir restaurar a funcionalidade e melhorar significativamente a qualidade de vida do doente. Além disso, permite evitar complicações, como a sensibilização do sistema nervoso, que pode levar uma dor aguda a tornar-se, progressivamente, crónica. O sofrimento e a dor persistente não devem ser normalizados, nem encarados como uma fatalidade. Existem estratégias capazes de prevenir e controlar a dor, nas diferentes situações clínicas e fases de vida do doente.

