Em choque e absolutamente devastados. É assim que familiares e amigos próximos dos pais de Cláudio Valente, o homem de 48 anos que é acusado de ter assassinado o físico Nuno Loureiro, em Boston, e outras duas pessoas na Universidade de Brown, na semana passada, descreveram ao nosso jornal o estado em que se encontra o casal do Entroncamento, perante as notícias envolvendo o seu filho único – e de quem nada sabiam há muitos anos.
Ninguém consegue explicar neste momento o que terá acontecido com Cláudio depois de ter ido estudar para a Universidade de Brown, nos EUA. O aluno brilhante de Física, que se licenciou no Instituto Superior Técnico com a melhor nota do seu curso, foi aceite num programa de doutoramento em 2001 naquela que é uma das mais prestigiadas universidades do mundo, mas desistiu subitamente no terceiro ano, e desapareceu do mundo académico, sem deixar rasto.
Entre 2010 e 2013 terá trabalhado na Altice, em Portugal, no departamento de informática, mas regressou aos EUA pouco depois, tendo obtido o estatuto de residência legal nos EUA em 2017, com morada declarada em Miami.
O que fez a partir dessa data é ainda uma incógnita. Os pais não souberam mais nada dele. Só na manhã desta sexta-feira, quando ligou a televisão, é que a mãe voltou a ter notícias do filho. E não podiam ser piores. Não só Cláudio estava morto (ter-se-á suicidado na madrugada passada, segundo a polícia norte-americana), como era acusado de ter cometido crimes hediondos, assassinando três pessoas.
Vizinhos e amigos foram tentando confortar o casal ao longo do dia, “mas como é que se supera uma dor destas?”, questionava ao início da tarde Mirita Rodrigues, residente no Entroncamento e próxima do casal, que descreve como “muito unido”, mas carregando sempre uma grande tristeza pela ausência do filho único, não sabendo sequer se ele estaria vivo ou morto.
A filha de Mirita Rodrigues cresceu com Cláudio, andaram juntos no colégio João de Deus, no Entroncamento, e eram muito amigos. “Era uma criança muito doce” recorda.
É também com carinho que Cláudio é recordado pelo professor José Morgado, que lhe deu aulas na Escola Secundária Maria Lamas durante três anos, entre 1992 e 1995. Referiu-se sempre a ele como o melhor aluno que já teve. “Não apenas em termos académicos, mas em termos pessoais, humanos… era uma pessoa muito carinhosa com os seus amigos, solidário, sempre bem-disposto e preocupado com o bem-estar dos outros.”
Mantiveram contacto durante alguns anos, enquanto Cláudio frequentava o IST em Lisboa, e foi para ele como um mentor na área da Física. Cláudio chegou a visitá-lo em Torres Novas antes de se mudar para os EUA. Depois disso, perderam o contacto. Mas o professor nunca o esqueceu e era frequente falar dele aos seus alunos – aqueles que, desde então, e até hoje, se sentam nas mesmas cadeiras onde Cláudio se sentava.
As ligações e possíveis explicações para os crimes
Cláudio Manuel Neves Valente, nascido no hospital de Torres Novas em 1977, mas sempre com residência no Entroncamento, estudou no colégio Andrade Corvo e na Escola Secundária Maria Lamas, em Torres Novas. No final do 12º ano, em 1995, representou Portugal na Olimpíada Internacional de Física, na Austrália. Ingressou depois no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde estudou Física com Nuno Loureiro, entre 1995 e 2000. Era considerado um aluno brilhante e terminou o curso com a melhor nota do ano.
Nuno Loureiro, 47 anos, era natural de Viseu, casado e com três filhas. Depois da licenciatura no IST, em Lisboa, fez um doutoramento em Física no Imperial College, em Londres, e ingressou em 2016 no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, uma das mais reputadas universidades do mundo), vivendo desde então na cidade de Boston.
Professor de Ciência e Engenharia Nuclear e de Física no MIT, dirigia desde maio de 2024 o Centro de Ciência do Plasma e Fusão, um dos principais laboratórios da instituição. Era considerado um dos cientistas mais brilhantes da sua geração e Joe Biden atribui-lhe o Prémio Presidencial de Início de Carreira para Cientistas e Engenheiros, no ano passado.
Segundo as autoridades norte-americanas, Cláudio Valente entrou numa sala do edifício de Engenharia da Universidade de Brown, na manhã do dia 13 de dezembro, onde se realizavam nesse momento os exames finais da “Ivy League”, e disparou contra os alunos indiscriminadamente, conseguindo fugir logo em seguida. Matou duas pessoas e outras dez ficaram feridas.
Dois dias depois, assassinou Nuno Loureiro à porta de casa, em Boston, com quatro tiros.
Na madrugada de 19 de dezembro foi encontrado morto num armazém. A polícia adiantou que a causa de morte foi “um tiro auto-infligido”.

Cláudio Neves não “viveu nos Estados Unidos” mais de 20 anos. Ele reentrou só em 2017.