São cerca de 20 as peças de Arte Sacra, património da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal e da Paróquia de São Tiago e São Mateus, em exposição no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, até dia 7 de abril.
Uma exposição pensada, segundo o técnico de Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Sardoal, João Soares, para mostrar a ourivesaria, a escultura, a paramentaria e a pintura, convergindo em várias expressões materiais da iconografia cristã. Uma exposição considerada “muito eclética” com peças desde o século XV ao século XX, estando algumas delas ainda ao culto, como é o caso da Cruz do Altar da Igreja Matriz de Sardoal, um Cristo crucificado em marfim indo-português do século XVII.

Em destaque o Oratório de Arte Namban (Japão), uma das peças mais importantes do concelho e do país, doada ao Convento de Santa Maria da Caridade, em 1670, por D. Jerónima de Parada. Trata-se de uma peça de madeira lacada de negro, com decoração a pó de ouro, prata e cobre, sobre a marcação a laca vermelha, sendo incrustada de madrepérolas. Com ferragens de cobre trabalhado e douradas, a pintura é de óleo sobre cobre e representa Nossa Senhora da Esperança.
O Seigan, do século XVII, pertence ao período Momoyama “um período onde a arte expande bastante, é exuberante, onde os japoneses utilizam, nos templos e nos palácios, o ouro como fundo, e este oratório retrata uma história de amor. Era de um sardoalense, de Valhascos, que estava em Nagazaki, Tiago Lacerda, que ofereceu este Oratório à sua esposa – daí uma prova de amor – Jerónima de Parada”, indicou.
“E ela, em testamento, doou aos frades do Convento de Santa Maria da Caridade na condição de ficar sepultada ao pé do retábulo de Nossa Senhora da Esperança, na condição do retábulo estar sempre restaurado e embelezado”, explica João Soares.
Todas estas obras de arte fazem parte da materialização humana da imaterialidade da Fé. Símbolos do empenho, da dedicação, da valorização da beleza artística de todas as cerimónias cristãs.

De referir ainda que o Oratório é uma obra que apresenta detalhes das artes nipónica e europeia e que é uma das obras mais viajadas e raras do mundo, sendo que existem apenas 25 oratórios Saigan de Arte Namban em todo o mundo. Em bom estado de conservação existem dois: um da Fundação Ricardo Espírito Santo e o outro da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal que é também, segundo João Soares, “o mais viajado, o mais estudado e em melhor estado de conservação. É uma oportunidade única para observar uma peça destas”.
Na Semana Santa de Sardoal, o Município irá disponibilizar uma catálogo em formato de livro com as explicações avançadas por João Soares durante a inauguração da mostra.
A realização desta exposição enquadra-se no programa complementar da Semana Santa e Páscoa de Sardoal que foram incluídas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, segundo anúncio da Direção-Geral do Património Cultural e publicação em Diário da República em 29 de dezembro de 2023.
Momento lembrado pelo presidente da Câmara de Sardoal, Miguel Borges, que não esqueceu de referir que a Semana Santa e Páscoa de Sardoal foram incluídas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

“Fizemos uma exposição idêntica há cerca de 10 anos e esta exposição tem uma particularidade: permitir aos sardoalenses, e a quem nos visita, ver estas peças em pormenor. Vemos muitas vezes à distância de um altar, e essa distância é espiritualmente curta mas materialmente muito longa, para quem gosta de observar os pormenores e é isso que hoje é possível fazer; apreciar todas as peças que aqui estão”, começou por dizer o presidente da Câmara Miguel Borges, durante a inauguração da exposição.
Falando sobre “a oportunidade” de observação e apreciação destas 20 peças, designadamente o Seigan de Arte Namban, o autarca considerou que “podemos vê-las 10, 15, 20 ou 30 vezes e cada vez que as vemos encontramos sempre um pormenor novo”.
Além do Oratório destaque ainda para um Presépio do século XVIII, com a Senhora da Conceição e Menino Jesus, uma Custódia em prata dourada do século XVIII, uma Naveta de prata do século XVIII, uma Salva de prata do século XVIII, dois Paramentos igualmente do século XVIII, uma Pixide em prata dourada do século XVII, uma imagem Pietá em madeira policromada do século XVIII e uma Caldeirinha de água benta do final do século XV, na transição entre o Renascimento e o Maneirismo, considerada rara.
Miguel Borges deu conta da exposição ter ainda outro objetivo e de querer “trazer muita gente” a Sardoal durante o período da quaresma e da Semana Santa. “Pessoas com alguma capacidade de decisão ou de influenciar quem decide. Porque é [os paramentos] uma pequena mostra daquilo que está em gavetões e que urge ser recuperado, urge arranjar uma forma de, pelo menos, não deixar degradar ainda mais”.
Confessa que terminará o seu último mandato, enquanto autarca, com “alguma mágoa” se não conseguir avançar com a recuperação da Igreja Matriz de Sardoal, admitindo que “dificilmente” o fará.
“Basta olhar para a Igreja Matriz, para o Pórtico da Santa Casa da Misericórdia e outras coisas mais e perceber como é que neste país o património é tratado. O Estado, principalmente a nossa CCDR Centro, entende só merecer financiamento o património nacional. Então e todo este património que é privado? Como a Capela da Nossa Senhora da Lapa, que é privada, e o nosso Estado permite que avance num estado de degradação tal sem que nada seja feito. É a nossa História, a nossa Arte, é tudo isto que se está a perder. Era muito importante que alguém tivesse essa consciência”, afirmou.
Por seu lado, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal, Fernando Moleirinho, agradeceu a presença dos convidados durante a inauguração da exposição com “peças muito importantes não só para o concelho de Sardoal mas para todo o país. É uma amostra daquilo que o interior tem […] era importante que os governos começassem a perceber que Portugal não é só o litoral. Portugal tem um interior rico não só em pessoas mas rico em património e em cultura”.
A exposição pode ser visitada de terça a sábado, das 15h00 às 19h00, encerrando aos domingos, segundas-feiras e feriados.












