É tão bom ver o líder do Governo e o líder da oposição, lado a lado, a dar um aperto de mão, a um ano e tal das legislativas. Tão amigos que eles estão… Mas melhor ainda é ouvir o primeiro-ministro dizer que um aperto de mão vale mais do que um documento assinado, como nos bons velhos tempos, em que a palavra das pessoas tinha realmente valor.
Nisso ele está completamente certo! Até porque, com imagens daquelas, gravadas por todos os órgãos de comunicação social, não há forma de, no futuro, virem dizer que não chegaram a acordo. Pelo menos, estes sabiam que estavam a ser filmados!
Na verdade, parece-me que nem vale a pena estarmos muito preocupados. Afinal, os assuntos que agora aproximam PS e PSD são coisas de pouca monta… Quem quer saber dos fundos comunitários ou de uma estratégia de descentralização a médio prazo?
Lá estás tu com as tuas ironias que me deixam sempre baralhada! Para ti esses assuntos são coisa pouca?
Claro, o que neste momento interessa às pessoas é saber se vão pagar menos impostos e se os serviços a que têm direito vão ser realmente melhorados, sem que sejam necessárias pressões por parte da opinião pública.
Quanto a isso, não me parece que haja novidades. O Governo quer ter a folga financeira para brilhar na Europa. Como diz o PCP, antes pedia-se sacrifícios em nome da crise, agora pede-se sacrifícios em nome do sucesso.
Enquanto isso, os últimos acontecimentos mostram que só se investe nos serviços que dão escândalo nos média. Faz lembrar o tempo em que apareceram as televisões privadas: os poderes não resolvem os problemas, chama-se a SIC, chama-se a TVI. E agora chama-se sobretudo a CMTV!
Vá lá! É para o bem do país. Se os partidos políticos se entenderem, ganhamos todos, não? Vê lá se a geringonça até não tem funcionado bem!
Até tem funcionado bem, para a generalidade dos cidadãos. Embora um jornalista sénior da Rádio Renascença tenha defendido, com a antena bem aberta, que a aprovação da nova lei da identidade do género foi uma espécie de ‘cala-te lá Bloco de Esquerda, nós aprovamos isto e vocês refilam menos com o Orçamento de Estado’.
Essa é, naturalmente, uma visão cristã da coisa. Mas a verdade é que um acordo implica sempre cedências num lado para se ganhar no outro. Seja com a geringonça, à esquerda, seja com o calhambeque, à direita. Na verdade, isto até nos devia alegrar. Eu vejo isto como um sinal de uma democracia madura, a funcionar em pleno.
Sempre foste uma otimista, sempre preferiste ver o lado bom das coisas.
Isso até não é verdade! Eu não acho que as pessoas nasçam todas boas… Há quem acredite nisso e há quem acredite que somos aquilo que comemos. Eu acredito que somos aquilo que vivemos. Mas quando nascemos já somos qualquer coisa de muito particular, que pode ser moldado, sem nunca deixarmos de ter as nossas características naturais.
Nessa tua teoria tens que arranjar forma de encontrar exemplos, sendo que o mais óbvio é o dos políticos.
Eu logo vi que querias falar de Sócrates…
Claro, mas só para colocar uma legenda às imagens divulgadas por estes dias, que foi repetida em vários contextos: “Sócrates, primeiro-ministro, era exatamente assim!” O resto, o que nós víamos, era o animal político, com uma enorme capacidade de sedução e de argumentação, sabendo melhor do que ninguém o que dizer, como dizer e quando dizer.
Mas a divulgação dos vídeos dos interrogatórios mostram agora uma outra pessoa, pelo menos para a generalidade dos cidadãos.
Isso é natural, até porque nunca imaginou que as imagens passariam para a opinião pública. Como é que qualquer um de nós estaria se estivesse a ser acusado de três crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada? Lembra-te que a acusação diz que Sócrates recebeu 34 milhões de euros a troco de favorecimentos a bancos e empresas. Isto, sim, a ser verdade, não é coisa pouca. Mas eu prefiro ir vendo os episódios todos da saga até que me digam que já não há mais temporadas.
Se for como na série espanhola Casa de Papel, desaparecem todos, alegres e felizes, com novas vidas. Qualquer camião de bebidas que patrocine a série servirá para levar Sócrates, discretamente, para um resort de luxo, onde esperará por quem se apaixonou. Mas não me parece que vás ter a sorte de ver um final feliz daqui a pouco tempo. A Casa de Papel até já anunciou mais uma série. E é provável que o julgamento de Sócrates dure e dure…
Não há problema. Enquanto vemos os novos episódios da série, assistimos à corrida entre a geringonça e o calhambeque. Há lá coisa melhor do que uma série sobre a política do passado, com todos os ingredientes que dão um enredo completo (muito dinheiro e casas de luxo, férias e jantares, prisões e imagens de interrogatórios, advogados e juízes, amigos e amigas), e um reality-show sobre a política atual, com várias personagens que ora se amam ora se insultam?
Um dia destes ninguém vê as coisas acabadas em ‘flix’…
