Conheço bem Constância de andanças festivas e paisagísticas e foi estranho ver a Praça Alexandre Herculano a servir de cais de embarque e desembarque com os barcos que costumamos ver noutros sítios, nos rios.
Vi pessoas a ajudarem-se umas às outras. A retirada dos bens de algumas casas pareceu-me uma consequência normal e aceite por quem lá vive há alguns anos – sim, porque aquela gente de vez em quando tem destes sustos. Muitos referiam as datas de cheias anteriores apontando para as marcas e datas que constam nas paredes de algumas casas.
Num dos largos, Cristina Mendes dizia-me que as coisas mais pequenas já estavam no piso de cima e que as mobílias já tinham sido retiradas para outro local mais seguro. A água estava a chegar à sua porta. Ali mesmo estava a ser descarregado um barco, para algumas pessoas poderem entrar num dos prédios e logo a seguir era pedida ajuda aos militares para ajudarem a retirar uma viatura que estava numa garagem e que não podia andar porque os travões estavam colados.
Nesse largo ainda, uma outra senhora proibia-me de fotografar a casa dela que estava ali em frente, apenas porque era a proprietária e que não queria a casa em fotografias por aí. Foi muito indelicada quando lhe tentei dizer que em contexto de tratamento jornalístico de uma situação como esta, num espaço público como aquele, que talvez não fosse muito justificada a sua exigência. Fui desancado, ameaçado com a justiça, chamado de “velho” e que fosse para a minha terra, que eu não era dali. Por curiosidade já vi a sua casa em fotografias de várias pessoas, inclusive na página do Município. Gente que deve estar de mal com a vida, certamente.
Mas em todo o lado vi solidariedade e algum humor que ajudava a minimizar os estragos. Pelo menos os psicológicos.
Encontrei a Tina Jofre que estava à espera do barco, na praça, e que ainda precisava de ir a sua casa mudar de sítio das suas recordações, cartazes antigos, fotografias, lembranças da sua vida artística. O José Paulo estava com ela para a ajudar nessa tarefa.
Deixo a minha solidariedade para toda esta gente e o desejo que as águas estabilizem e que comecem a baixar, para a vida retomar a sua cadência normal.



























