Corria o ano de 2009, quando um conjunto de preocupações que vinha (há algum tempo) interiorizando, me levou a sondar algumas pessoas com as quais frequentemente me relacionava nas diversas lides culturais, acerca da necessidade de criar no Ribatejo uma organização de novo tipo, que viesse de encontro a necessidades sentidas por muitos de nós que, de alguma forma, pensavam a problemática regional e eram alheios (não indiferentes, esclareça-se) ao processo de desagregação regional política e administrativa que, nas últimas décadas, se vinha processando.
Fez assim recentemente sete anos (mais precisamente a 12 de setembro), que um conjunto de Investigadores e agentes culturais de diversos concelhos do Ribatejo se reuniram na Sala da Assembleia de Freguesia, em Alpiarça, com o objetivo de vir a criar condições para a constituição (na região ribatejana) de uma plataforma de ação e reflexão alargada.
A criação de um “Fórum do Ribatejo” (depois denominado “Fórum Ribatejo”), cuja função seria refletir sobre a “cultura da Região” (num contexto mais vasto da “cultura na Região”) e, na medida do possível, agir sobre ela, teve, aí, o seu início.
Participantes e, afinal, fundadores (num organismo que por falta de suporte administrativo exige de algum modo a perpetuação pública da memória) diversos nomes conhecidos da culturalidade ribatejana como Alves Jana e Luís Barbosa de Abrantes, Daniel Café de Alcanena, Ricardo Hipólito e João Serrano de Alpiarça, António Nabais e Rogério Coito do Cartaxo, Matias Coelho de Constância, Carlos Nuno e João Carlos Lopes de Torres Novas, Ernesto Jana ligado culturalmente a Tomar, Aurélio Lopes, Nuno Domingos e Luís Nazaré de Santarém, e, ainda, José do Carmo Francisco residente na capital mas com fortes ligações à Região.
Daí resultou a adoção consensual de uma flexível fórmula organizacional, que ainda hoje existe e se tem revelado adequada ao respetivo desígnio.
Sete anos de aprendizagem, interna e externa, nem sempre tendo por êxitos os projetos considerados, mas cujo percurso tem, poder-se-á dizer, ajudado a ver o Ribatejo com outros olhos.
A relevar as potencialidades de uma Região cuja maior fatalidade foi possuir uma classe política cujos lobbys e interesses pessoais nunca tiveram em conta a defesa administrativo-politica (nem sequer cultural) da mesma.
Sete anos, em que o Forúm adquiriu experiência, prestígio e credibilidade. Desenvolvendo iniciativas de reflexão ou organização/ação, em parceria com as mais diversas entidades da Região: museus, centros de investigação, associações culturais, órgãos de informação e, principalmente, autarquias: das quais devemos destacar a Golegã (onde, entre outras iniciativas, se realizam, anualmente, os encontros de historiadores do Ribatejo), Santarém, Entroncamento, Abrantes, Salvaterra de Magos, Coruche, Torres Novas, Ourém, Constância e, brevemente, Cartaxo e Barquinha.
Pelo Forúm têm passado (ou, bem mais frequentemente, ainda se mantêm) agentes culturais e afins da mais variada natureza, desde simples investigadores ou etnógrafos locais, até professores universitários ou secundários, diretores de museus, dirigentes associativos, vereadores e presidentes de câmara (atuais e passados), deputados municipais e, até, nacionais.
Que aí têm, precisamente, os mesmos direitos e deveres* e, cuja importância nas ações que realizam ou participam, apenas depende, em última instância, de si próprios.
Realizações como o “I Encontro de Museus do Ribatejo” em Abrantes (2012), os debates “Que futuro para o Ribatejo” em Santarém (2010), “ O valor da cultura local e suas utilizações” em Santarém (2014) e “Património, Folclore e Turismo Cultural” na Golegã (2015), ou, ainda, os colóquios “O culto mariano e as aparições de Fátima” em Ourém (2015), “A História da Ferrovia no Ribatejo” no Entroncamento (2014); bem como os continuados encontros de “Historiadores locais do Ribatejo”(2014, 2015 e 2016), podem servir, hoje, de exemplo paradigmático.
Tomadas de posição públicas respeitantes a problemáticas do Ribatejo e, mais especificamente do Tejo, bem como a construção (naturalmente em aberto) de uma “Base de dados de publicações da cultura ribatejana”; divulgada por instituições da Região e à disposição daqueles que dela necessitem; têm sido igualmente áreas privilegiadas de intervenção.
A dimensão qualitativa do trabalho realizado pode, aliás, ser exemplificada na avaliação organizacional do colóquio “O Ribatejo e a Grande guerra”, realizado em Montalvo/Constância, no passado sábado, 29 de outubro.
No horizonte estão já outras iniciativas que 2017 irá ver concretizadas.
Para lá do Encontro anual de Historiadores do Ribatejo, a realizar novamente na Golegã, de salientar o “I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo”, a realizar a 25 de junho na Barquinha (em parceria com a Câmara Municipal da Barquinha) e, ainda, o Colóquio “O Ribatejo e a República” a realizar a 22 de outubro no Cartaxo; aqui em parceria com a Câmara Municipal do Cartaxo.
Do contexto dos aspetos operativos aqui descritos (de forma, convenhamos, não exaustiva) emerge assim, poder-se-á dizer, a comprovação de que, pelo menos enquanto dimensão social e cultural, o Ribatejo constitui uma realidade não só solidária, como coesa na sua heterogeneidade.
Que, deixados de parte interesses políticos pessoais e grupais, nele se reconhecem substanciais sentimentos coletivos de pertença, expressos em significativas adesões às suas, multifacetadas, identidades regionais.
*Mesmo o Coordenador, única figura de gestão e ligação entre os diversos membros (função que após quase sete anos de desempenho meu está hoje bem entregue ao companheiro e amigo António Matias Coelho), apenas tem como “direito acrescido” (poder-se-á dizer) cuidar melhor dos seus deveres (morais, naturalmente) e pensar, mais frequentemente, a respetiva entidade como um todo solidário.
