Foto: mediotejo.net

Participar nas festas do concelho de Sardoal, evento que decorre até segunda-feira, 22 de setembro, permite-lhe dar a conhecer o trabalho a novos públicos, divulgar as peças e receber encomendas, numa atividade em que a criatividade pessoal se cruza com referências e elementos ligados ao concelho.

Há dez anos, Ana Sofia Bento entrou pela primeira vez numa oficina de cerâmica no Sardoal. Não tinha uma formação específica na área, mas trazia consigo uma ligação às artes que vinha da infância e atravessava várias gerações da família. Hoje permanece no ArtOf – Espaço Partilhado para Artes e Ofícios, onde cria, experimenta, ensina e procura novas formas de trabalhar a argila. Nas Festas do Concelho, que decorrem até 22 de setembro, o trabalho que desenvolve ao longo do ano ganha uma montra para o público.

A argila nem sempre obedece à ideia que se leva para a oficina. Por vezes, uma jarra pensada de determinada maneira deixa de ser uma jarra. Uma lastra de argila, quando esticada, ganha recortes inesperados. Uma peça deforma-se. Um trabalho que parecia simples num vídeo acaba por exigir dias de trabalho. E é muitas vezes nesses desvios que Ana Sofia Bento encontra o caminho para uma peça nova.

Aos 57 anos, a ceramista continua a trabalhar entre a experimentação e a aprendizagem, dez anos depois de ter entrado pela primeira vez numa oficina no Sardoal. A cerâmica chegou mais tarde à sua vida, embora a ligação às artes venha de muito antes.

Natural de Lisboa, Ana Sofia Bento chegou ao Sardoal através da família. Os pais tinham uma quinta no concelho e vieram viver para a região. Depois de estudar em França, onde fez História de Arte, acabou também por se fixar no Sardoal.

“Eu fiz trabalhos manuais desde sempre”, recorda. A explicação para essa ligação encontra-a na própria família. O pai era “curador, projetista”, vários primos eram arquitetos, um tio-avô era pintor e havia ainda quem tivesse ligação à dança. A relação com as artes fazia parte do ambiente familiar e tinha uma expressão particularmente concreta na casa que hoje é sede da Câmara Municipal do Sardoal.

Era a casa do bisavô de Ana Sofia Bento e, no jardim, existia um teatro onde os tios-avós faziam peças de teatro e ballet. “Ou seja, isso já vem assim de há muitos anos atrás.”

Quando era pequena, desenhava e fazia caricaturas da família. Mais tarde, foi para França estudar artes, embora tenha acabado por seguir História de Arte. A ligação à criação artística continuou, entretanto, através de várias atividades com os filhos e na escola, onde, enquanto representante dos pais, participava em pinturas e trabalhos manuais com as crianças.

Mas foi apenas aos 47 anos que decidiu voltar a estudar. “Faz precisamente hoje dez anos que resolvi começar a estudar novamente”, conta.

Entrou num  curso Técnico Superior Profissional em Produção Artística para a Conservação e Restauro, realizado no Sardoal através de um protocolo entre o Instituto Politécnico de Tomar e a Câmara Municipal. Foi aí que teve contacto mais direto com a cerâmica.

Já tinha mexido em argila quando era criança, mas eram trabalhos que nunca chegavam a ser cozidos e que acabavam por se partir. Também tinha trabalhado bastante com plasticina, mas a disciplina de cerâmica foi, porém, uma experiência diferente. “Comecei e olhe, gostei tanto, nunca mais parei”.

A formação acabaria por dar origem a uma oportunidade de estágio. Ana Sofia Bento e um colega foram os dois alunos que terminaram a segunda edição da formação e a Câmara Municipal propôs-lhes um estágio para a reabilitação de fontanários.

Depois do estágio, ficou na oficina e mais tarde surgiu a pandemia, mas a ceramista explica que não interrompeu o seu percurso. Nos primeiros meses, quando não era possível sair de casa normalmente, continuou a ir para a oficina, onde estava sozinha e sem contacto com outras pessoas.

Foi também por essa altura que a atividade ganhou uma dimensão de transmissão de conhecimento. Começou a dar aulas na Universidade Sénior de Sardoal e alguns dos seus alunos passaram posteriormente a trabalhar consigo na oficina.

Hoje, muitos dos colegas que a acompanham são precisamente antigos alunos. O espaço onde trabalha é o ArtOf, uma oficina partilhada disponibilizada pela Câmara Municipal, onde existe, entre outros equipamentos, um forno para as cozeduras das peças.

A formação inicial abriu-lhe a porta para a cerâmica, mas não lhe deu uma formação especializada e aprofundada nesta área. O resto tem sido feito através da prática, da experiência e da procura constante de referências. “Não posso dizer que tinha uma formação propriamente dita em cerâmica”, refere.

Ana Sofia Bento diz não ser particularmente ligada às redes sociais, embora tenha Instagram onde vai partilhando alguns trabalhos e é por lá que acompanha trabalhos de outros ceramistas. Os vídeos tornaram-se uma ferramenta de aprendizagem, sobretudo os de ceramistas japoneses.

Não significa que procure reproduzir aquilo que vê. É, antes, uma forma de descobrir técnicas, soluções e possibilidades que depois adapta ao seu próprio trabalho. “Há muitos ceramistas que me inspiram”, explica.

Interessa-lhe tanto a construção das peças como o trabalho do vidrado, que considera uma parte fundamental da cerâmica. Uma peça pode estar bem construída e, se o vidrado não funcionar, o resultado final pode ficar comprometido.

Nem todas as ideias começam na bancada da oficina, explica. Algumas aparecem durante a noite. “Muitas vezes a dormir”, diz, entre o riso e a constatação de quem já teve ideias que desapareceram pela manhã.

Por vezes ainda consegue guardar algumas num pequeno livro onde anota coisas que quer experimentar. Noutras ocasiões, a ideia aparece já com as mãos na argila e nem sempre o resultado corresponde ao plano.

Pode começar uma peça a pensar numa jarra e acabar com “qualquer outra coisa”. Se a argila estiver demasiado mole, pode deformar-se. Se uma lastra ganhar uma forma inesperada, essa forma pode tornar-se o ponto de partida para outra peça.

“A lastra fica com uma forma giríssima. Fica assim com os recortes e eu penso assim: olha, eu vou aproveitar estes recortes e vou fazer a peça a partir daqui.” “Pode nascer uma taça, ode nascer uma figura, pode nascer outra coisa qualquer. Pode ser premeditado ou totalmente espontâneo”, afirma a ceramista.

Uma peça que pode levar semanas até à sua versão final

Na cerâmica, fazer a forma é apenas uma parte do trabalho. Uma peça precisa de secar lentamente, uma secagem demasiado rápida pode provocar fissuras, pelo que a argila é protegida com plástico para manter a humidade e permitir uma secagem progressiva.

No caso de peças grandes, Ana Sofia Bento não costuma colocá-las no forno antes de duas ou três semanas. É uma das razões pelas quais não aceita determinadas encomendas para prazos muito curtos. “Quando me perguntam assim: ‘Eu gosto tanto desta peça, pode-me fazer uma para a semana?’, digo não, não é possível.”

Depois de seca, a peça segue para a primeira cozedura, a chamada cozedura de chacota. O processo de cozedura pode demorar cerca de oito horas, mas o trabalho não termina quando o forno deixa de aquecer.

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É preciso esperar pelo arrefecimento. Ana Sofia Bento explica que, depois de uma cozedura, pode ter de esperar cerca de 48 horas até conseguir abrir o forno. Um choque térmico pode fazer fissurar as peças.

Só depois vem a decoração, que pode ser feita com pintura ou com vidrado. O vidrado tem também uma função de proteção. A cerâmica, explica, mantém os poros abertos se não for vidrada e, nesse caso, absorve a água. “Se eu puser água, a argila vai absorver a água toda porque tem poros.” O vidrado permite selar esses poros e acrescenta a componente visual à peça.

Depois, há uma nova passagem pelo forno e novamente o período de arrefecimento. “É um processo que tem muitas etapas e é muito demorado.”

Há ainda outro fator a considerar: não é economicamente viável cozer uma ou duas peças de cada vez. Como as fornadas têm um custo, é preciso juntar o maior número possível de trabalhos para rentabilizar o forno.

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Quando estava sozinha na oficina, ia acumulando peças até ter quantidade suficiente. Agora, com mais pessoas a trabalhar no espaço, as fornadas enchem-se mais rapidamente.

Entre as peças que mais trabalho lhe deram está uma taça inspirada numa técnica que descobriu através de uma ceramista coreana. A técnica parecia simples. A peça era feita numa pasta escura e depois recebia uma série de marcas com um pequeno carimbo. A ceramista que Ana Sofia Bento acompanhava utilizava flores de madeira para marcar a superfície.

Depois aplicava uma camada de argila branca, mais líquida, com um pincel. Quando secava, começava a raspar essa camada até revelar as flores que tinham ficado marcadas por baixo.

Ana Sofia Bento decidiu experimentar. “Eu fiz uma taça assim às três pancadas.” O problema veio depois. “Parecia super fácil no vídeo e afinal, super difícil.” A raspagem acabou por exigir vários dias. Não porque estivesse permanentemente a trabalhar naquela peça, mas porque ia aproveitando os intervalos entre outras tarefas para continuar o processo. “Demorei dias.”

Ao todo, acabou por trabalhar nela durante cerca de duas semanas. O resultado, reconhece, não chega ao nível das peças que viu nas referências japonesas, mas a experiência acabou por revelar outra dimensão da cerâmica. “Para quem quiser fazer uma peça que traga serenidade e relaxamento, acho que aquela está ótima.”

Outra peça particularmente trabalhosa foi uma terrina que levou a um dos mercados realizados pela Câmara Municipal. Estava revestida com flores muito finas e demorou bastante tempo a executar. Foi muito apreciada, mas acabou por colocar-lhe também uma questão que conhece bem: o preço.

Há peças cujo valor não é imediatamente compreendido por quem as vê. “As pessoas pensam: é cerâmica, porque é que vale tanto?”. Para Ana Sofia Bento, é difícil traduzir em preço todo o tempo de trabalho investido numa peça.

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Flores e lagartos mantêm a identidade do Sardoal cerâmica

Há também uma dimensão local naquilo que faz. Ana Sofia Bento cria lagartos, um símbolo do Sardoal, e trabalha frequentemente com flores. Para si, as flores têm uma relação particular com a identidade da vila. “O Sardoal já foi Vila Jardim e eu acho que as flores também representam muito aqui o nosso concelho.”

Não considera que a cerâmica seja propriamente um artesanato tradicional do Sardoal, como acontece, por exemplo, com a cerâmica das Caldas da Rainha. Mas entende que há espaço para incorporar referências locais e levar o nome do concelho através das peças.

Se a cerâmica permite criar, experimentar e representar o território, há uma dificuldade que Ana Sofia Bento identifica de forma clara: conseguir que o público reconheça o valor do trabalho artesanal.

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“As pessoas não valorizam, pelo menos aqui.” Considera que o poder de compra no concelho também condiciona essa relação e entende que, por vezes, um produto com um nome estrangeiro é mais facilmente valorizado do que uma peça feita por alguém da terra.

Na sua experiência, as peças que faz, assim como o restante artesanato local de Sardoal, acabam por ser mais valorizadas por quem vem de fora do que pelos próprios habitantes do Sardoal.

A divulgação pode ajudar a mudar essa perceção, admite. Uma boa fotografia, uma boa apresentação ou uma presença mais consistente nas redes sociais podem fazer diferença. É precisamente aí que reconhece uma das suas fragilidades: “Sou péssima nessas coisas.”

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Tem Instagram, publica alguns trabalhos e faz vídeos, mas admite que ainda tem muito a aprender: “São coisas que se vão aprendendo.”

Ana Sofia Bento poderia, em teoria, tentar transformar a cerâmica numa atividade profissional a tempo inteiro. Mas essa nunca foi a prioridade. Não tem um trabalho convencional nem um salário mensal. A opção, durante grande parte da vida, foi ficar em casa a criar os três filhos e essa prioridade familiar mantém-se.

É nesse equilíbrio entre criação, família e gosto pessoal que chegam as Festas do Concelho, as quais a ceramista pretende conciliar com o tempo para a família, por ocasião da chegada da neta.

A Mostra de Saberes e Sabores, que integra a programação das festas entre 18 e 22 de setembro, reúne cerca de 30 stands com artesanato variado, incluindo trabalhos em cerâmica. Para Ana Sofia Bento, a participação não serve apenas para colocar produtos à venda. O objetivo é mostrar o trabalho.

O stand onde os artesãos expõem pertence à Câmara Municipal e está associado ao espaço partilhado do ArtOf. E há uma preocupação com a forma como as peças são apresentadas: “Nós tentamos pôr o stand de forma a parecer uma galeria de exposição.”

Os módulos, explica, criam uma imagem mais sóbria, com preto e cor de pinho, e a variedade de trabalhos dos diferentes artesãos também contribui para chamar a atenção: “Temos todos estilos muito diferentes.”

No caso de Ana Sofia Bento, já houve encomendas que nasceram diretamente das festas. Pessoas que viram as peças no stand e, depois, procuraram-na para encomendar trabalhos semelhantes. “Já fiz vários painéis de azulejo a partir das festas”, recorda.

O percurso é muitas vezes simples: alguém vê a peça, pergunta onde pode encontrar o trabalho durante o resto do ano e acaba por chegar à oficina ou ao espaço onde os trabalhos estão disponíveis. “Eu acho que é uma boa montra para a visualização das peças.”

Apesar dos dez anos passados desde que entrou na oficina, Ana Sofia Bento não fala da cerâmica como um percurso terminado. Pelo contrário. Gostaria de conseguir projetar mais o seu trabalho, sobretudo através das redes sociais, e continuar a desenvolver uma linha que neste momento lhe dá particular prazer: as peças com flores.

“Gostaria de me dedicar um bocadito mais às peças que eu faço com as flores.” São, diz, as que mais prazer lhe dão atualmente, tanto no processo de trabalho como no resultado visual. Fala de peças que considera “complexas e ao mesmo tempo muito simples” e que, para o seu gosto, acabam por ser muito elegantes.

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É nesse território entre a técnica e a espontaneidade que parece estar hoje a sua relação com a cerâmica.

Há dez anos, Ana Sofia Bento entrou numa oficina para aprender. Nunca mais saiu de lá. E, apesar de já saber muito mais sobre argila, cozeduras, secagem, vidrados e formas do que sabia naquele primeiro dia, continua a fazer aquilo que parece ter estado presente desde sempre: experimentar e desfrutar de todo o processo criativo.

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Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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