Escrever sobre feijoadas neste mês pode parecer heresia, tal como o anexim lembra: se queres ver um homem morto dá-lhe couves em Agosto. Ouso fazê-lo porque há dias tive o prazer de degustar uma feijoada à transmontana, soberba de carnes bem salgadas, enchidos a preceito, as referidas couves e cenouras, arroz seco a deixar-se envolver num molho apelativo, logo guloso.
Não é só por via desta feijoada que elaboro a crónica, é também porque sendo o nosso País um alfobre de distintas e sumptuosas feijoadas não conseguimos elevar nenhuma à categoria de prato representativo de Portugal, ao contrário de outros países, até do Brasil, com a sua feijoada cópia da nossa.
Porquê? Porque temos sido descuidados a trabalhar esta e outras fórmulas culinárias, daí o até relativamente ao Brasil pois o país do samba e do futebol conseguiu guindar à escala universal essa mesma feijoada e uma bebida açucarada cujo nome é caipirinha.
Se não conseguimos potenciar a feijoada, conseguimos oferecer aos nossos competidores produtos e técnicas a desmerecer o nosso talento na matéria, levamos a batata para o Oriente indiano, os ingleses aproveitaram a deixa impondo a potato, os missionários portugueses mostraram aos japoneses o saber especial da técnica de leve fritura, a tempura, os nipónicos afeiçoaram-se a técnica e nos dias que correm a mesma é praticada em todo o Planeta como sendo um invento do país do Sol. E, assim a nossa criação esfumou-se.
No respeitante a feijoadas temos um notável património de referências não só no respeitante às compostas por carnes frescos e fumadas, carnes das diversas partes da vaca ou vitela, enchidos de cunho local e regional, também se apresentam receitas onde só o elemento primacial – o feijão – é comum a todas as experimentações.
Se os leitores são amantes de praticarem na cozinha tentem elaborar feijoadas de buzinas, búzios, chocos, lulas, polvo e suas ovas, de lampreia, lagosta, lavagante e demais mariscos. As possibilidades são tantas quanto a imaginação pense e sejam executadas, está nas mãos de cada qual o imaginado redunde em construções gastronómicas sápidas e capazes de revelarem o talento de quem as concebe.
Salvo melhor opinião e sem copianços espúrios valeria a pena equacionar-se a realização de uma festa das feijoadas representativas das diversas regiões portuguesas alargando-as aos países lusófonos pois, naturalmente, a receita viajou com os nossos ancestrais e integrando produtos locais não perdeu a sua génese. Ainda bem.
