Luís Miguel Albuquerque não evitou lágrimas de revolta em entrevista à CNN, devido à falta de respostas para a população de Ourém

O presidente da Câmara de Ourém é um dos autarcas da região que poucas horas dormiu desde a madrugada de quarta-feira passada, procurando acudir às necessidades dos milhares de famílias que de repente viram voar partes do telhado, tiveram árvores a entrar pela casa dentro, ficaram sem luz, sem água, sem telefone, sem internet, e isolados também fisicamente do resto do mundo – 80% das estradas do concelho ficaram intransitáveis, devido a desabamento de terras, queda de troncos e de postes de eletricidade.

A noite acabava de cair em Ourém, ao terceiro dia de desespero das populações, quando Luís Miguel Albuquerque entrou em direto na CNN, para fazer um ponto da situação no concelho. Voltou a repetir o apelo de “ajuda urgente” do governo, do Exército, de alguma entidade que pudesse reforçar os meios da autarquia, insuficientes para dar resposta a tamanha tragédia. Explicou que, mesmo com tantas limitações, já tinham conseguido desobstruir as estradas principais, com o apoio da população e de empresas privadas, mas que a falta de eletricidade era um grande problema, que infelizmente não estava nas suas mãos resolver.

Revelou que a E-Redes lhe tinha acabado de transmitir que poderia levar mais duas semanas a repor o serviço. Duas semanas! E foi então que quebrou. A voz embargou-se, os olhos encheram-se de lágrimas. Disse ainda que “não admitia” aquela resposta da E-Redes, que colocara apenas “meia dúzia” de equipas no concelho desde quarta-feira, e que também as operadoras de telecomunicações estavam a ignorar completamente Ourém.

O jornalista teve a decência de terminar ali a entrevista, respeitando a dignidade de um homem que pertence a uma espécie de políticos em vias de extinção: aqueles que levam a sério a sua missão de serviço público e dão tudo de si para resolver os problemas da sua comunidade.

As lágrimas do presidente da Câmara de Ourém espelham o que muitos têm sentido nos últimos dias. Traduzem a revolta de quem se sente abandonado. De quem sabe que milhares de pessoas no seu concelho continuam a sofrer, sobretudo os mais idosos, os mais isolados e os mais pobres. De quem não consegue imaginar como podem algumas pessoas sobreviver mais dois dias – quanto mais duas semanas.

Chove na rua e chove em casa. Há água por todo o lado, menos nas torneiras. Onde não há eletricidade, falta quase sempre muito mais do que a luz: também falta aquecimento, meios para cozinhar, comunicações. Nas casas particulares e nos estabelecimentos comerciais e empresas.

Sem eletricidade, fecharam bombas de gasolina, supermercados. Pequenas mercearias abriram aqui e ali, mesmo sem luz, a fazer contas no papel e a vender fiado. É o que tem valido a muitas famílias, sobretudo nas zonas mais rurais. A maioria das pessoas tem alimentação básica na despensa para um aperto, mas a verdadeira reserva de comida faz-se na arca congeladora: carne das matanças, legumes das colheitas.

Nos últimos anos, os fornos a lenha foram dando lugar a fornos elétricos, e os fornos a gás vão rareando. Em muitos casos os banhos quentes também passaram a depender da eletricidade. Algumas casas têm lareira, poucas podem ainda ter uma velha braseira – as mortes por asfixia com dióxido de carbono foram assustando e levando ao abandono do aquecimento que era tão vulgar nas casas das nossas mães ou avós, ao pés de uma camila. Os aquecedores a óleo tornaram-se reis e senhores dos lares, mas de nada servem agora.

E de que serve a quem vive nesta região receber hoje uma mensagem da Proteção Civil a dizer que vamos ter uma semana de chuvas torrenciais pela frente? Servirá de tanto como a mensagem que recebemos na terça-feira passada a informar que iríamos sofrer ventos de 140 km/hora. O que é urgente é transmitir informações concretas sobre o que cada um deve fazer.

E vamos ter eletricidade daqui a 24 horas ou daqui a duas semanas? Porque se a perspectiva é que algumas localidades vão continuar vários dias sem energia, talvez o melhor seja evacuar essas pessoas para outros sítios – ou, pelo menos, aqueles que estejam em situações de maior vulnerabilidade, por serem idosos, doentes ou sozinhos.

Como é que decisões básicas como esta não são tomadas por quem de direito? Como é que só hoje, domingo, (domingo!), é que o Conselho Nacional de Protecção Civil reuniu? Como é que é possível que o SIRESP – a rede de comunicações para situações de emergência – tenha voltado a falhar, depois de já ter falhado no “apagão” do ano passado e nos incêndios de 2017? Como é que só ontem, sábado (sábado!) é que foi publicada em “Diário da República” a listagem dos concelhos em “estado de calamidade”, para que cada região possa (eventualmente!) receber os apoios necessários? Como é que o Exército esteve dias (dias!) com equipas de engenharia a postos para ajudar as populações mais isoladas, mas a Autoridade Nacional de Proteção Civil não as requisitou? Como é que o ministro da Defesa não tem vergonha de ir a Vieira de Leiria no sábado (no sábado!) mostrar que há militares a ajudar a cortar árvores, tendo “plantado” ali esses militares uma hora antes, e, segundo os jornalistas e populares no local, essa equipa ter desmobilizado pouco depois do ministro ir embora no seu carro topo de gama e climatizado?

Como é possível que o presidente da Câmara de Ourém não tenha recebido um único telefonema de qualquer membro do governo ou da proteção civil nacional até sexta-feira passada? Ao contrário do presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere (outro concelho devastado pela tempestade Kristin), Luís Albuquerque até pertence à mesma família política de Leitão Amaro – mas pelos vistos o ministro da Presidência estava muito atarefado a fazer vídeos promocionais sobre a forma como se roem unhas nos gabinetes de Lisboa.

Como é possível que tenham de ser os autarcas a contactar insistentemente a E-Redes para obter alguma informação, tal como qualquer outro cidadão, entre mais de um milhão de clientes que ficaram sem serviço a 28 de janeiro? E como é possível ter a E-Redes a responder sucessivamente que o serviço vai ser reposto às 23h00 de quarta-feira, depois às 21h00 de quinta, ou talvez às 15h00 de sábado… ou se calhar só daqui a duas semanas?

Não é sério e, acima de tudo, em situações de catástrofe como a que vivemos, é no mínimo irresponsável. A Proteção Civil não sabe quais são as reais previsões da E-Redes? Não decidem em conjunto quais são as prioridades de reposição de serviços?

Podia continuar a fazer perguntas durante horas, tal é a falta de respostas na região desde a passada quarta-feira. Uma certeza tenho, neste momento:não fosse a mobilização dos presidentes das Câmaras e das Juntas de Freguesia, dos bombeiros voluntários e dos muitos grupos com centenas de cidadãos que puseram mãos à obra, as consequências desta catástrofe estariam a ser bem piores.

O primeiro-ministro bem pode ter cancelado viagens ao estrangeiro para ir a Leiria um dia e meio depois da desgraça manifestar a sua “preocupação”, tal como a ministra da Administração Interna bem pode dizer que tem estado a trabalhar “na invisibilidade” do seu gabinete – o que interessa às pessoas é ver ações concretas no terreno, e depressa. Ontem já era tarde.

A sensação de abandono que levou o presidente da Câmara de Ourém às lágrimas é o “Inverno do nosso descontentamento”, tão bem descrito por Shakespeare e Steinbeck, e poderá reacender a luta das regiões para terem mais poder sobre os seus destinos.

As pessoas estão cansadas de promessas. E infelizmente aprenderam a duras penas que palavras – tal como a vida “normal” que conheciam – leva-as o vento.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *