O eucalipto de seu nome científico Eucalyptus globulus é uma espécie originária da Tasmânia e Austrália que foi introduzida em Portugal já em meados do século XIX.

Apesar do seu percurso ascendente na floresta em Portugal, nenhuma outra espécie tem, simultaneamente, suscitado tanta controvérsia.

Odiado por muitos e amado por outros tantos, o eucalipto tem sido a espécie cuja área mais tem aumentado nos últimos anos. Segundo o último inventário florestal nacional, é já a principal ocupação florestal do Continente em área.

Os motivos para a preferência por esta espécie são fáceis de perceber: ciclos mais curtos de corte, que permitem um mais rápido retorno do investimento relativamente às outras espécies (como por exemplo, o pinheiro bravo); garantia de mercado; a sua capacidade de regeneração por toiça mesmo quando atingido pelo fogo, permitindo minimizar as perdas para o proprietário florestal, uma indústria a jusante que tem conseguido concertar-se e promover a produção da madeira de eucalipto (a sua matéria-prima).

Se adicionarmos a este conjunto de fatores a reduzida dimensão da propriedade florestal, o facto do proprietário florestal ser, na sua grande maioria, um pequeno produtor, muitas vezes com pouca ligação à floresta e fraca capacidade de investimento, percebemos como esta espécie se torna a mais interessante do ponto de vista de um investimento racional. Principalmente, quando comparada com a espécie que foi até há algum tempo a sua “concorrente”, o pinheiro bravo. Esta, além de apresentar ciclos mais longos, tem estado, nos últimos anos, sob a grave ameaça de doenças como por a doença do nemátodo do pinheiro, tornando-a menos atrativa para os produtores florestais.

Por outro lado, os motivos avançados pelos detratores do eucalipto são, a meu ver, bem menos claros. Baseiam-se, sobretudo, nos alegados malefícios que o eucalipto traz para o ambiente. O empobrecimento e redução drástica da água do solo atribuída às plantações de eucalipto, o serem estas a causa dos grandes incêndios são os argumentos mais utilizados por aqueles que se opõem à utilização desta espécie.

Mas, estranhamente, estas alegações são desprovidas de qualquer comprovação técnica ou científica. Antes pelo contrário, vários estudos realizados em Portugal, por especialistas florestais, de reconhecida competência e idoneidade, vieram demonstrar exatamente o contrário. O eucalipto não seca o solo, nem o deixa estéril. Quem conhece bem o meio rural, e florestal em particular, já viu inúmeros exemplos de áreas de eucalipto reconvertidas até em áreas agrícolas com sucesso.

O mesmo se pode dizer da ideia, largamente difundida, de que os eucaliptais estão na origem dos grandes incêndios com vários estudos científicos a comprovar que não é a composição florestal que determina a ocorrência de grandes incêndios, mas sim a ausência de gestão, a falta de controlo de vegetação espontânea e as consequentes continuidades verticais e horizontais de combustíveis. É que nos casos em que tal se verifica tanto arde o eucaliptal como o pinhal como o sobreiral.

Perante a quantidade (e qualidade) da investigação florestal que atesta o contrário, como é então possível que se propague tanto a ideia do eucalipto como o pior mal da floresta portuguesa?

A resposta é, de facto, mais política do que técnica ou científica. Aqueles que detratam a cultura do eucalipto, na sua maioria posicionados politicamente à esquerda, fazem eco de um ideário político que, em última instância, pretende na realidade atingir a indústria que tem por base esta espécie e o poder económico que esta detém, mais do que pugnar pela veracidade científica dos factos que defendem.

Mas a Floresta é um assunto demasiado sério para servir a lutas políticas. Dela dependem demasiados postos de trabalho, que geram emprego, riqueza e melhoria da qualidade de vida. E a base dessa riqueza está maioritariamente na fileira do eucalipto.

Particularmente, no interior do país, muitos postos de trabalho estão aqui em causa, desde as empresas de exploração florestal, as que vendem ou reparam maquinaria, prestadores de serviços, viveiristas, enfim um conjunto significativo de postos de trabalho que contribuem para melhorar a vida das populações rurais e que contribuem para reter a desertificação e o abandono das terras.

A Reforma da Floresta, aprovada no conselho de ministros de 20 de março de 2017, tem como um dos seus diplomas mais polémicos aquele que visa travar a expansão da área de eucaliptal.

No novo regime de arborização e rearborização, as novas plantações de eucalipto poderão ser realizadas apenas nas áreas onde esta espécie já exista.

Mas esta proibição levanta várias questões: nas áreas onde a espécie foi erradamente plantada vai ser possível utilizá-la em nova rearborização, uma vez que aí já era pré-existente, perpetuando o erro?

Que outras alternativas, economicamente viáveis, tem o produtor florestal à sua disposição?

Não podendo optar pela cultura mais rentável e sem apoios reais e expeditos à plantação de espécies autóctones, que minimizem o efeito do longo tempo de retorno do investimento que lhes está associado, não poderemos esperar outra consequência que não o abandono da gestão florestal dos terrenos. E daí o consequente aumento das áreas de matos, com enormes acumulações de combustível vegetal, com a proliferação crescente de espécies invasoras.

Paradoxalmente, esta proibição de novas arborizações com eucalipto, vai, no final, acabar por contribuir em grande escala para o surgimento e propagação de grandes incêndios, que é exactamente o que, alegadamente, se pretendia evitar.

A questão da floresta em Portugal e dos incêndios de grandes dimensões é uma questão de ordenamento. Não é uma questão de demonizar esta ou aquela espécie. Existem muitas áreas atualmente ocupadas por matos, com potencial para a produção de eucalipto que poderiam e deveriam ser arborizadas com esta espécie, assim como existem outras onde a opção por outras alternativas culturais faria muito mais sentido, quer do ponto de vista produtivo quer ecológico.

O que falta efetivamente é ordenamento, pensado com critérios técnicos e científicos comprovados, tirando o melhor partido das potencialidades ecológicas de cada local e aproveitando as mais-valias dos mercados florestais existentes. E, mais importante, atendendo aos interesses dos proprietários florestais, criando mecanismos de apoio que lhes permitissem diversificar as suas culturas, optando por outras espécies.

Em suma, não existem espécies boas e más. O que existe e isso, infelizmente, com bastante abundância são más políticas florestais, justificadas por malabarismos de poder que em nada servem a Floresta.

Licenciada em Engenharia Florestal pelo Instituto Superior de Agronomia. Desde 2006 exerce funções de Técnica Florestal na Associação de Desenvolvimento Florestal do Concelho de Ferreira do Zêzere.

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5 Comments

  1. Na verdade a formação na área do ambiente, floresta e afins deixa muito a desejar e basta andar um pouco pelo interior do país para ver as maiores barbaridades com reflexos nas futuras gerações. país. Um país com uma paisagem eucaliptal é excelente para a biodiversidade, para o turismo, para as fontes e linhas de água (leiam o trabalho sobre a serra da Ossa), para as populações onde a mecanização retirou milhares de pessoas das matas, é bom para a poluição do rio Tejo, é bom para o ar que se respira em VV d Rodão e Constância, é bom para as estradas que são sulcadas com camiões diariamente com milhares de toneladas. Viva o eucaliptal a nova agricultura de Portugal.

    1. Onde é que está a ver alguém com formação de ambiente nesta coversa?
      Não fale do que não sabe.

  2. “com a proliferação crescente de espécies invasoras.” – A que espécies invasoras se refere? O eucalipto, tendo sido introduzido, não é uma espécie invasora? – A defesa que a Sra. faz desta indústria e o impacto que a mesma tem no meio silvestre é sobejamente conhecida. Afirma, por exemplo, que o problema dos incêndios está na gestão, “esquecendo-se” de referir que o eucalipto é uma árvore atreita a incêndios, virtude dos óleos da folhagem, já para não falar das espécies que, na Australia, usam o fogo para reprodução. Eu sei que a Sra. precisa da gestão florestal para ter emprego e percebo que defenda a sua indústria, mas dizer que uma espécie invasora não tem impacto o meio ambiente, afirmando que são apenas alegações, não me parece bem. Eu prefiro a floresta portuguesa onde as aves possam fazer ninho, o rosmaninho possa crescer e as cigarras possam “cantar”.

  3. Invocar a parte científica quando se percebe zero do assunto é caso para dizer,quando não se sabe nada do assunto mais vale estar de boca fechada…já agora se esta senhora tiver animais alimente os com folha de eucalipto,e faça também um chá de folha moída de eucalipto e beba todos dias e depois falamos,se ainda for viva..

  4. Propaganda totalmente parcial e ignorante.
    Teresa Cardoso tenha vergonha, dinheiro não é tudo nem justifica a mentira.

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