Na sexta-feira passada, quando a Central Termoeléctrica do Pego terminava os seus stocks de carvão, mais de 30 camiões andavam em grande azáfama a transportar 100 mil toneladas deste mineral desde o porto de Ferrol, na Galiza, para a Central de As Pontes, na mesma vila espanhola. Apesar de estar sem funcionar desde julho, e de ter iniciado o seu processo de desmantelamento, esta segunda-feira, 22, a central gerida pela Endesa (que detém 44% da Central do Pego) voltou a ser ativada, em resposta a um pedido “urgente” do governo espanhol. A medida, considerada “transitória e excepcional”, visa garantir as necessidades da rede elétrica nacional, numa altura em que os preços da energia atingem valores recorde.
Alguns dos trabalhadores despedidos nos últimos meses, ou recolocados noutras centrais da Endesa, noutros pontos de Espanha, voltaram a ser chamados para a Central de Ferrol. Os sindicatos aproveitaram para pedir ao governo e à Endesa que “aproveitem este tempo extra para fazer uma transição verdadeiramente justa, procurando alternativas inovadoras de investimento para a indústria local” e apoiando “a formação e requalificação dos trabalhadores”.
O vice-presidente do governo da Galiza, Francisco Conde, responsável pela pasta da Indústria na região espanhola, disse ao jornal “A Voz de Galicia” lamentar o “desnorte” e a falta de visão estratégica de longo prazo, considerando que a decisão de fechar as centrais a carvão em Espanha foi “precipitada”, estando agora o país “em dificuldades para garantir o fornecimento de eletricidade e preços competitivos para as famílias e empresas”.
Para já, a Central As Pontes, que tem 1.400 megawatts de potência instalada, só poderá funcionar até 31 de dezembro e usando apenas duas das suas quatro torres, as únicas que estão “adaptadas aos requisitos ambientais exigidos”. Mas, segundo a imprensa espanhola, o governo pretende que as licenças de várias centrais a carvão no país sejam reactivadas e prolongadas pelo menos até final de 2022.
Já na próxima semana, também a central da EDP em Los Barrios, na província de Cadiz, voltará a funcionar. A empresa portuguesa está a fazer a reconversão desta central de carvão para a produção de hidrogénio verde, a fim de fornecer toda a zona industrial do Campo de Gibraltar e a exportação para outros países, por mar, mas recebeu também um pedido “excepcional” do governo espanhol para voltar a produzir energia a carvão.
Os preços da energia no mercado ibérico (Mibel) nunca estiveram tão altos. No início deste ano situavam-se nos 32 euros por MegaWatt/hora, tendo atingindo os 281 euros por Mwh em outubro. Com a chegada do Inverno e verificando-se que não existia capacidade de garantir as necessidades energéticas do país sem recorrer ao nuclear e ao carvão, o governo espanhol deu “um passo atrás” e decidiu rever as ordens de encerramento em curso. Em 2020 tinha sido determinado o fecho de 7 das 15 centrais a carvão do país, tendo como meta terminar a produção em definitivo entre 2026 e 2030.
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