Celebração do décimo aniversário do espaço Cá da Terra, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Quando é que a arte povoará de novo os lugares ermos e abissais de Portugal? Já acontece em Cerdeira e foi esta comunidade de artes “onde a criatividade e a natureza servem todos os propósitos” que, no âmbito da comemoração dos 10 anos do espaço Cá da Terra, o Município de Sardoal, em parceria com a Tagus – Associação para o Desenvolvimento do Ribatejo Interior, organizou um programa especial de aniversário começando com uma visita à Aldeia de Xisto da Cerdeira, na Lousã.

Naquela aldeia com cerca de 300 anos, em tempos abandonada na serra da Lousã, nasceu o projeto ‘Home for Creativity’, há cerca de uma década embora o projeto artístico tenha iniciado no ano 2000 com a artista Kerstin Thomas, com quatro propósitos: descansar, aprender, criar e inspirar.

A missão passa por proporcionar uma oferta em que a natureza e a visão criativa se aliam a estadias em alojamento autêntico e confortável e experiências irrepetíveis. Ser um epicentro de inspiração cultural e criação artística potenciado por uma oferta de cursos de arte. Garantir o futuro com respeito pelo passado. Valorizar a responsabilidade social e a sustentabilidade ecológica.

Celebração do décimo aniversário do espaço Cá da Terra. Créditos: mediotejo.net

E a iniciativa levou alguns dos produtores e artesãos apoiados pela Tagus – neste momento a Tagus apoia 70 produtores dos três concelhos da sua área de intervenção; Abrantes, Constância e Sardoal. Estiveram presentes cerca de 18 – a Cerdeira, para conhecerem a Aldeia de Xisto mas essencialmente a Escola onde decorrem com frequência master classes, cursos, workshops e também residências artísticas.

“Fomos visitar Cerdeira devido ao projeto que tem desenvolvido nas últimas décadas. É um lugar que tem sido trabalhado para acolher artesãos, artífices, na área da madeira e na área da cerâmica e justamente com este trabalhar das artes tem-se vindo a recuperar uma aldeia de xisto lindíssima, que tem uma localização maravilhosa no meio da natureza”, explicou ao nosso jornal a vereadora da Câmara Municipal de Sardoal.

Esta visita “foi um dois em um: ir conhecer um projeto de sucesso ligado à temática que o Cá da Terra trabalha e o Espaço Partilhado para as Artes e Ofícios [artof] mas também podermos ir ver um lugar magnífico do ponto de vista da arquitetura e do enquadramento natural”, indicou Patrícia Rei.

Tratou-se portanto “de levar os nossos artesãos nesta celebração dos 10 anos de existência do Cá da Terra, numa excursão a um sítio onde podem ver trabalhos muito bonitos, que os tocam, do ponto de vista das artes mas também um sítio muito bonito onde podem voltar com a sua família para conhecer e usufruir. Um momento de usufruto e convívio, aprendizagem para todos os envolvidos no Cá da Terra”, notou.

E percorrer a aldeia foi de facto um exercício físico e sensorial. A cada passo há um recanto, um beco, um elemento que não se sabe se ali foi colocado pelo Homem ou pela Natureza. Não há dissonâncias. Há o silêncio da tranquilidade. Esta é uma aldeia que a arte e a criatividade ajudaram a refundar. Além dos alojamentos e da Escola de Artes e Ofícios encontramos ainda a Biblioteca, a Galeria, o Forno comunitário, o Café da Videira e a Taberna das Artes.

O alojamento na Aldeia de Xisto da Cerdeira é feito em dez casas tradicionais de xisto, remodeladas de forma sustentável. Cada casa desta aldeia de xisto foi também inspiração para artistas criarem peças exclusivas, acrescentando um pouco mais de arte e individualidade a cada uma, explicaram Sérgio Alves, diretor de vendas do projeto, e Tatiana Simões, responsável pela Escola.

Naquela Aldeia de Xisto “o alojamento não começou por ser o projeto inicial. Para nós o alojamento foi uma necessidade da Escola. Neste momento temos uma área de negócio que é o alojamento e uma área de negócio que é a Escola. O nosso futuro e o que queremos projetar é a Escola ‘alimentar’ o alojamento e não o alojamento ‘alimentar’ a Escola” de artes, referiu ainda Sérgio Alves.

Para Sardoal resultou numa aprendizagem e partilha de ideias. “Há sempre ideias que se podem trazer. Por mais que se trabalhem as mesmas temáticas, cada pessoa, ou cada grupo de pessoas, incute o seu cunho e há sempre ideias interessantes que podemos trazer. Gostei da ideia do forno [de lenha, sem fumo, japonês] mas não sei se temos capacidade de trazer para cá um forno daquela índole, porque estão numa localização específica que tem muita lenha. Um forno a lenha na nossa comunidade não é tão viável porque não temos acesso a lenha de forma tão direta como têm no sítio onde estão. Achei fantástica a recuperação do casario com apoio ao trabalho das artes e ofícios que está a acontecer”, afirmou também Patrícia Rei.

A vereadora deu conta que por Sardoal “podemos adaptar esse conceito de uma forma um bocadinho diferente, até já tivemos ideia de fazer em tempos, que seria criar atelieres em antigas lojas da vila que estão abandonadas. A ida a Cerdeira fez-me ressurgir a vontade e recuperar esse projeto e recuperar algumas partes do Sardoal que possam estar menos cuidadas”.

Esta visita decorreu no âmbito do aniversário do espaço Cá da Terra. Quando abriu portas visava ser um ponto de encontro entre os produtores locais, a população e os visitantes. Dez anos depois, o objetivo foi atingido e aquele é um local onde se partilham conhecimentos e experiências e onde o convívio e a divulgação das tradições do Concelho de Sardoal que assumem o papel principal.

Patrícia Rei afirmou que “sempre apostou” no projeto. “Na verdade sempre achei que o Cá da Terra era um projeto com futuro e de sucesso. Ver que isso é uma realidade, sobretudo tendo atravessado momentos complicados como a pandemia, o que me surpreende e que me deixa bastante contente é haver cada vez mais produtores a aderir com coisas com muita qualidade e não somos nós a ir atrás deles, já são os produtores a irem ter connosco” para expor os seus produtos no Cá da Terra.

Há uma década que o espaço ‘Cá da Terra’, no Sardoal, privilegia a comercialização do que é produzido no Ribatejo Interior reunindo artesanato, publicações e ilustrações, os vinhos do Tejo, a cerveja artesanal, os premiados azeites, o variado mel multifloral, doces e compotas, o pão e tigeladas cozidos em forno de lenha e os saberes artesanais espelhados nas suas múltiplas formas e feitios.

Decorado com requinte, aliando o tradicional ao moderno, este local assume-se como o ponto de convergência daquilo que de melhor se produz no Sardoal, proporcionado ao visitante uma visão geral da vasta riqueza do Concelho. Com o intuito de promover e comercializar os produtos locais, o espaço apresenta três valências: loja, cafetaria para prova de produtos e promoção regular de demonstrações e workshops, assim como de exposições temáticas relacionadas com a história e cultura local. Este projeto resulta de uma iniciativa do Município, em parceria com a Tagus e com os produtores locais.

“Tornou-se uma referência para quem faz artesanato ou produz produtos enogastronómicos na nossa região e isso era o que se queria, era o grande objetivo: ter aqui uma montra do que se sabe fazer na nossa região, em particular em Sardoal, mas também em Abrantes e Constância”, definiu Patrícia Rei.

Segundo a vereadora, o “sucesso” do espaço prende-se essencialmente com “o empenho e afinco do Município em que se mantivesse. Como o sr. presidente disse na reunião, e muito bem, os recursos humanos afetos ao Cá da Terra são pagos pelo Município e isso traz um ónus ao Município grande, é preciso querer fazer isso, gastar esse dinheiro. Por outro lado, foi o envolvimento com os produtores e trazer os produtores para dentro da loja. Isso fez muita diferença para o sucesso do Cá da Terra, porque sentem o Cá da Terra como seu”.

ÁUDIO | VEREADORA DA CÂMARA DE SARDOAL, PATRICIA REI

Um encontro que também fez parte do programa de celebração do 10º aniversário do ‘Cá da Terra’ no qual decorreu um ‘speed dating’ de produtores com o objetivo de se conhecerem melhor e ainda uma partilha de ideias com duas questões: ‘Como melhorar o Cá da Terra?’ e ‘Um pensamento fora da caixa para o Cá da Terra’.

Como sugestões, os 18 produtores presentes avançaram, por exemplo, com os mercadinhos no exterior do Centro Cultural Gil Vicente designadamente no Natal e na Semana Santa, quando a vila recebe mais visitantes.

Desde 2013, o espaço que se afirmou como um ponto de encontro entre produtores, população e visitantes, apresenta um acumulado de vendas na ordem dos 220 mil euros, ou seja uma venda anual média de 22 mil euros.

Celebração do décimo aniversário do espaço Cá da Terra. Créditos: mediotejo.net

Em dez anos, o número de produtores aumentou, de 33 (em 2013) para 70 (em 2023), sendo 31 de Abrantes, dois de Constância e 37 de Sardoal. Quarenta e três dedicam-se a artesanato, livros e afins e 27 a gastronomia e vinhos. Na área das atividades, de salientar as Tardes de Agulha e Linha, as Merendas com Personalidade, as Provas Enogastronómicas, as Exposições, o Cinema ao Ar Livre, e os Workshops.

Já o presidente da Câmara Municipal de Sardoal notou ter o Cá da Terra “não um conceito de loja, mas expositivo daquilo que de bom fazemos nos três concelhos. Nunca terá as características de uma loja, tem prejuízos em relação à loja mas também tem vantagens. Um espaço que os produtores e artesãos têm, gratuito, durante todo o ano para exporem os seus produtos. O Cá da Terra é das coisas que mais me orgulho que fizemos na nossa região”, disse. Por isso, durante a reunião que juntou os produtores agradeceu o seu “excelente trabalho. A nós basta abrir a porta”.

E em 2013, abriram a porta naquela que foi a primeira inauguração do executivo de Miguel Borges, autarca que está no seu terceiro e último mandato, à frente da Câmara de Sardoal. “O executivo entrou em funções em outubro e a inauguração foi a 6 de dezembro desse mesmo ano”, recorda, lembrando a parceria com o Instituto Politécnico de Tomar para um curso de técnico superior profissional de produção artística para arte e restauro “e hoje podemos ver os frutos no Cá da Terra”, designadamente na cerâmica e na olaria.

O autarca destacou ainda a importância como complemento da economia familiar e “pôs muita gente a fazer coisas e algumas dessas coisas nem eles sabiam que tinham jeito para fazer”, afirmou aos jornalistas, concluindo ser “também um espaço onde queremos preservar a nossa memória”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA DE SARDOAL, MIGUEL BORGES
Celebração do décimo aniversário do espaço Cá da Terra. Créditos: mediotejo.net

Em jeito de balanço, Conceição Pereira, coordenadora da Tagus, conta que “o projeto nasceu de uma ideia de dar a conhecer e comercializar os nossos produtos locais do Ribatejo Interior. Nasceu de uma ideia pequenina e efetivamente o número de produtores, neste momento, é muito grande. Estendeu-se não só aos nossos agroalimentares de muita qualidade, queijos, vinhos, azeites, compotas, bolachas, etc mas tem agora uma representação muito grande no artesanato”.

Conceição Pereira lembrou que o Cá da Terra não comercializa apenas no espaço físico mas também online através de projeto Praça Ribatejo Interior “dinamizado pela Tagus conjuntamente com os Municípios de Abrantes, Constância e Sardoal” que “dá oportunidade aos consumidores de adquirirem os produtos que se encontram na loja” através da Internet.

Referiu ainda o AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior, um projeto que pretende focar-se na valorização das artes e ofícios tradicionais, e que representam as vivências, os saberes-fazer ancestrais e a identidade e cultura deste território. Desta forma será dinamizado um conjunto de iniciativas que contribuam para a sua preservação, mas também, para a sua diferenciação e adaptação às necessidades atuais, conseguindo assim um complemento para a oferta dos produtos turísticos do Médio Tejo.

O projeto consistiu em cinco atividades: levantamento histórico das artes e ofícios do Ribatejo interior e identificação do “saber fazer” dos artesãos e as entidades a envolver; Oficinas de formação e capacitação de artesãos; Oficinas criativas – do artesanato tradicional à inovação; Percurso turístico integrado de artes e ofícios e experiências imersivas; Promoção e divulgação do projeto e envolvimento da comunidade.

Através do projeto “O ‘Mestre Aprendiz’, focámo-nos num conjunto de objetos. Em Sardoal foram identificados as malas de flandres e os leques de palha, em Abrantes os registos, os capachos e o tijolo de burro , e em Constância as bonecas de perna de cana e a atabúa. Apostámos no conjunto destes sete elementos, sendo certo que existe muito mais”, disse a coordenadora da Tagus.

Sobre a criação da rota turística, que será apresentada na Bolsa de Turismo de Lisboa em 2024, explicou ter por objetivo “as pessoas fazerem uma rota turística, poderem ter a oportunidade de experimentar e contactar com os artesãos e unir o que é o nosso património, com o artesão e o contacto com as pessoas e experimentar artes e ofícios”.

Conceição Pereira referiu ainda a candidatura ao Prémio Nacional de Artesanato do IEFP avançando que o projeto da Tagus está entre os quatro nomeados para a categoria à qual se candidatou, ou seja ao Prémio Produção para Entidades Privadas.

A responsável concluiu dizendo que “o papel da Tagus é promover o nosso território, que haja promoção, divulgação e valorização dos nossos produtos. Os produtores são o rosto e o trabalho da missão da Tagus”.

ÁUDIO | COORDENADORA DA TAGUS, CONCEIÇÃO PEREIRA

O programa de celebração dos 10 anos do Cá da Terra terminou no dito espaço onde não faltou o bolo de aniversário. o vídeo ‘Cá da Terra 10 anos’ com os produtores pode ser visto no YouTube, bastando pesquisar por Município de Sardoal.

O Cá da Terra afirmou-se como um espaço onde o saber fazer é partilhado entre gerações e que tem contribuído para reforçar a identidade do concelho de Sardoal, a nível regional e nacional.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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