Em entrevista, no primeiro dia de trabalho, o presidente destacou ainda a reorganização de serviços municipais, a fiscalização rigorosa de apoios sociais, o incentivo à habitação e à fixação de jovens, e a necessidade de diálogo com partidos da oposição, enquanto mantém a linha ideológica do Chega alinhada com princípios de ética e patriotismo, mas sem defender o regresso aos tempos do salazarismo.





Nelson Cunha foi o primeiro a entrar na Câmara e o último a sair no seu primeiro dia como presidente, abrindo a porta às 8h00 e encerrando o edifício às 20h00, já de noite, após um dia intenso de trabalho. A agenda começou às 8h30 com uma visita de proximidade aos serviços municipais e contato direto com muitos dos cerca de 390 trabalhadores, numa demonstração de liderança e envolvimento de proximidade. O dia incluiu reuniões internas com os diretores de departamentos, alinhamento com o executivo municipal, análise da situação financeira e de contratos, elaboração de relatórios técnicos e definição de prioridades imediatas. Entre almoço institucional e encontros com chefes de divisão, Cunha também concedeu esta entrevista exclusiva ao mediotejo.net, que culminou a meio da manhã com um café no Scafa, no centro da cidade, tendo cumprimentado e sido cumprimentado por muitos populares. Todo o dia foi cuidadosamente planeado, com horários e afazeres bem definidos, desde a receção institucional e visitas aos serviços, até reuniões de briefing, comunicação institucional e planeamento do dia seguinte, demonstrando um método de trabalho estruturado e próximo da comunidade.





Como foram estes últimos dias de preparação para a tomada de posse e para as funções que hoje [segunda-feira] iniciou, sendo o primeiro dia de trabalho na Câmara?
Nelson Cunha: Estes 15 dias foram dias intensos, de grande reflexão e preparação, obviamente. Eu procurei organizar a transição, temos que reunir bastante informação sobre a realidade interna do município, estruturar as prioridades do novo executivo, portanto, em simultâneo, foi basicamente um período para ajustar a minha vida pessoal também, familiar, nesta nova missão, que esteve sempre ao meu lado, a minha companheira, à qual devo imenso. E quanto à equipa, esta está preparada e coesa, todos sabemos o que temos a fazer e o Entroncamento obviamente merece muito respeito, resultados e muita transparência. Portanto, isto foram dias, e estão a ser ainda, de muito trabalho e portanto temos aqui uma semana já intensa, mas já estávamos preparados e mentalizados para o desafio.
Hoje [segunda-feira] foi o primeiro a entrar na Câmara e já tem a chave do edifício, uma vez que abriu a porta. A que horas entrou aqui e como vai ser o seu dia, em termos de agenda?
Hoje comecei às 8:00, já que antes estive durante o fim de semana também já a alinhar alguns pontos cruciais para ir fazendo o planeamento para a semana corrente. O dia de hoje, portanto, é conhecer caras que ainda não tive a oportunidade de conhecer. Fazer questão de cumprimentar toda a estrutura. Portanto, é um dia de estar próximo daqueles que são nossos, digamos assim. Dar uma boa palavra de agradecimento, de apoio, de motivação e de expectativas também para esta missão que se avizinha nos próximos quatro anos e que pretendemos também ser, eu pretendo ser, um Presidente de apoio, que motiva e que está aqui para um acompanhamento próximo. E esta é a mensagem que quero passar para todos os funcionários e faço questão também de estar próximo, principalmente dos seus problemas. Estamos aqui para trabalhar todos como equipa e temos de todos nos sentir bem no nosso dia a dia, motivados ao vir trabalhar para a Câmara, porque estamos a dar a cara por muita, muita gente.







Pergunto a que horas acordou e se dormiu bem antes de vir para o primeiro dia de trabalho na Câmara? Foi o primeiro a chegar à Câmara, cerca das 8:00, sinal que já tem a chave do edifício. (Nota – A entrevista estava marcada para as 8h30, hora de abertura dos serviços municipais. O jornalista chegou às 8h15, para tirar fotos à chegada do presidente, mas este já estava no gabinete desde as 8h00)..
A chave foi disponibilizada já na sexta-feira (dia da tomada de posse) ainda trabalhámos na sexta-feira. Estivemos logo a reunir e a planear o fim de semana. Fiz questão de fazer muitas presenças no sábado, lá está, para criar já esta proximidade e esta diferenciação, mesmo para algumas coisas para as quais não fui convidado, mas sabia do seu acontecimento, fiz questão de lá ir dar uma palavrinha, até a alguns atletas, pais e membros estruturantes, portanto, fiz questão de começar já este trabalho, porque tenho em mim, obviamente, um sentido de responsabilidade enorme, estou completamente a par disso, e é essa questão de diferenciação que eu quero trazer de proximidade para com o concelho, para com a população. Esta vai ser sempre a minha postura, como disse anteriormente, Portanto, fiz questão de começar logo assim no sábado. No domingo também estivemos na tomada de posse do novo presidente de Alcanena. Também dar uma palavrinha. E posso dizer-lhe que depois ainda estive a trabalhar também. Até cerca de uma da manhã. Esta segunda-feira levantei-me cedo. Cedo são sete da manhã, para estar aqui às oito. Tomei um banho e pronto. Como sempre três ovos mexidos, sempre, um cafezinho, o banhozinho, depois com os 10 últimos segundos sempre em água fria para ajudar a acordar, é melhor que o café até. Já vim com tudo organizado, chefes de gabinete incluídos, horários, tudo bem planeadinho, que é para começarmos bem focados no primeiro dia.







E que balanço faz do seu primeiro dia de trabalho na Câmara?
Comecei às 8h00. Já no fim de semana estive a alinhar pontos cruciais do planeamento. O dia passou por conhecer todos os serviços, cumprimentar os funcionários e demonstrar proximidade. Fiz questão de motivar e agradecer à equipa, passar expectativas claras e afirmar que pretendo estar presente e acompanhar de perto todos os serviços da Câmara.

Mantém a auditoria às contas municipais como prioridade?
Sim, mantenho como uma das primeiras medidas a realização de uma auditoria externa, independente, às contas e compromissos do município, e isto não se trata de desconfiança, mas sim de uma questão de transparência e também de rigor, porque é fundamental que todos, o executivo, a oposição, os munícipes, saibam exatamente qual é o ponto de partida. E só assim podemos planear o futuro com base em dados concretos. Portanto, quanto à prioridade, é muito claro: colocar o município a funcionar de forma eficiente e próxima das pessoas. E isso significa reorganizar serviços, recuperar confiança nas instituições, E dar uma resposta rápida aos problemas reais. Portanto, é começar com o pé direito, digamos assim, para mim. E depois, desde a segurança até à saúde, passando pela mobilidade, habitação, apoio ao comércio local, são pontos essenciais e prioritários para mim e para a comunidade.
E quanto às prioridades do mandato?
São claras: desde segurança, saúde, mobilidade, habitação até apoio ao comércio local. Intervenções imediatas incluem reorganização de serviços, revisão de contratos municipais, limpeza urbana e arranque do plano de segurança. A médio e longo prazo, pensamos na criação de emprego, fixação de jovens e qualificação da cidade. Este primeiro mandato é para construir uma base sólida para futuros projetos.
Que pelouros pretende assumir?
Ainda estamos a definir detalhes, mas áreas como proteção civil e urbanismo serão minhas. Também estarei próximo de todos os pelouros, reunindo com departamentos, vice-presidente e chefes de divisão, para acompanhar e orientar decisões. (A reunião de Câmara de atribuição de pelouros decorre na quarta-feira).

A criação de uma Polícia Municipal armada mantém-se como medida prioritária?
Sim. Eu mantenho totalmente esse objetivo. A insegurança é dos temas mais sentidos pela população e eu sou responsável por tratar da sua segurança e tenho noção da importância da questão. O Entroncamento precisa de uma Polícia Municipal estruturada, equipada e devidamente formada que complemente a ação das Forças de Segurança. E é isso que nós pretendemos, que seja complementar às Forças de Segurança, da Polícia de Segurança Pública local. Portanto, não é apenas uma questão de presença armada, é uma questão de autoridade, de prevenção e de proximidade às pessoas. Nós não pretendemos ter uma Polícia Municipal, como algumas pessoas fizeram questão de transmitir, que seja de autuar, que seja de ameaçar. Não é esse o tom que se pretende, de todo. É passar uma percepção de maior segurança, mas também uma polícia municipal que esteja envolvida com as pessoas, com a comunidade, que monitorize empiricamente o que se passa pela cidade, para que elas sintam essa proximidade no seu dia-a-dia. Esse será o seu trabalho. Ou seja, será uma equipa de ignição quanto ao levantamento de algum problema público que surja nas ruas. E esses olhos nas ruas são cruciais para manter a ordem e a coesão social.
E o que representa o projeto de polícia municipal em termos de investimento?
Como se sabe, nós estamos a definir o orçamento, portanto, e como dito, nós estamos dependentes também ainda de alguns números e de ver, em termos de liquidez, se é possível, e já reuni com o Departamento Financeiro. Nós tínhamos apresentado um plano para mais membros, digamos assim, mas é viável e o investimento está faseado, ou seja, primeiro a estrutura legal, o recrutamento e depois a formação dos agentes e finalmente a aquisição de viaturas e equipamentos, ou seja, pretendemos iniciar com um corpo mais reduzido, mais eficiente e ampliar progressivamente conforme a necessidade e disponibilidade orçamental. No entanto, posso adiantar que os cálculos preliminares apontam para um investimento no primeiro ano de implementação do projeto na ordem do meio milhão de euros, valor que engloba equipamentos e viaturas, reabilitação da antiga esquadra da PSP para instalar a polícia municipal, que contará com sete operacionais numa fase inicial, a par de formação, fardamento e respetivos vencimentos.

ÁUDIO | NELSON CUNHA, PRESIDENTE CM ENTRONCAMENTO:
Além dos pelouros que vai ter em mãos, como a proteção civil, o urbanismo, vai querer ser um presidente de todos os pelouros, ou estar muito próximo das várias pastas, dos vários dossiers?
Sim, sim, sim, claramente. Eu vou fazer questão de… aliás, isso vai fazer parte do meu modus operandi diário, que é reunir com todos os departamentos, com o vice, obviamente, e termos um briefing completo daquilo que são as expectativas, responsabilidades, planos de ação, relativamente aos pelouros, portanto, eu quero ser um presidente que está completamente a par de tudo o que é discutido, tudo o que é planeado, tudo o que é feito, digamos assim, dentro destas quatro paredes.
Qual será a postura do seu executivo face a cidadãos, associações e partidos de oposição?
A prioridade é governar bem e servir as pessoas. Manteremos diálogo permanente, relações institucionais sérias e abertura para colaboração com todos os partidos, associações e entidades regionais e nacionais. O objetivo é unir esforços pelo Entroncamento.
Enquanto autarca do Chega, sendo o primeiro município conquistado pelo partido, vai ter o país com os olhos postos na sua governação, quer pela direcção do partido, quer pela sociedade em geral. Pergunto-lhe se tem noção desse facto, qual é a postura e a relação que vai privilegiar para com os cidadãos, associações, entidades e também com os partidos de oposição no Entroncamento?
A vitória do Chega entre as câmaras municipais é um marco político e naturalmente o país vai estar a observar com atenção o nosso desempenho. Aliás, como já tem sido noticiado, mas a prioridade aqui mantém-se exatamente a mesma. Isto não desfoca o trabalho, isto não desfoca a visão que temos em mente para o Entroncamento, que é governar bem, servir as pessoas e provar que é possível gerir com competência, com ética e proximidade. Portanto, teremos uma relação institucional séria com todas as entidades regionais e nacionais, independentemente da cor política. Aliás, esta sempre foi a minha postura. Mesmo antes de tomar posse, fiz questão de me encontrar e de conhecer também os partidos eleitos. Com as associações locais sempre fizemos questão, não só de campanha, mas também de visitar algumas pessoas que conhecia e faz também parte do processo. E, portanto, o que nós queremos é diálogo permanente. E a política faz-se com as pessoas, é no terreno, e para que se ganhe a legitimidade e confiança. Esse é o nosso foco e o que eu pretendo é que estejamos todos no mesmo barco, juntos pelo Entroncamento.




Sendo a primeira vez que o Chega governa uma Câmara Municipal, no caso a do Entroncamento, sente uma pressão acrescida?
Sim, obviamente que esta pressão, digamos assim, também nos dá mais alento para trabalhar com mais afinco, seriedade, e com mais foco ainda para apresentarmos um bom trabalho. O objetivo primordial aqui é melhorar a vida dos entroncamentenses. E, portanto, a questão, sinceramente, de ter os holofotes virados para o Entroncamento é bom no sentido de que não só o Chega, falando de partidos, mas todos os partidos têm a pressão de agir em consonância com as necessidades em prol da comunidade. E isto não é uma pressão só no Chega, É uma pressão em todo o corpo político do Entroncamento, E eu acho que vai ser benéfica porque isto obriga a que haja uma ética e uma moral mais verdadeira, consequente às necessidades do Entroncamento.
André Ventura, que esteve presente na sua tomada de posse, deu indicações aos autarcas eleitos pelo Chega para acabarem com os subsídios às minorias que não querem trabalhar. Pergunto-lhe se vai seguir esta indicação e o que é que ela pode significar, na prática?
Sim, vou seguir. Posso lhe dizer que já estamos a trabalhar nesse sentido, o que podemos e o que devemos fazer internamente, mas não lhe posso dizer já detalhes sobre as mesmas. Mas não é terminar com os subsídios, é de primeiramente fazer um levantamento para perceber se há nuances de alguma problemática, de alguns exageros, ou seja, fazer um levantamento para que possamos fazer uma avaliação primordial. Isto é o primeiro passo, para garantir uma justiça social dos apoios. Eu, para ir de encontro a esta necessidade de providenciar ajuda a quem mais precisa, tenho que ser rigoroso, tenho que ser criterioso nestes aspectos e, portanto, as diretrizes que eu tenho a fazer é a partir de um levantamento do que se passa para perceber o bolo, digamos assim, no seu todo. É só isso. Não é de todo cortar apoios a quem precisa ou erradicar. Isto são palavras que eu acho até um bocado agressivas. O que me cabe a mim, enquanto Presidente, é garantir justiça social e a ordem. E é dessa maneira que eu vou fazer. Primeiro, lá está, a fazer este levantamento.

O seu discurso é muito mais moderado do que o líder do seu partido, que tem declarações controversas e que geram alguma indignação e levantam medos e receios a algumas franjas da sociedade, como às minorias e imigrantes, mas o Nelson Cunha diz que quer governar para todos. Como vai conciliar o discurso de André Ventura com a prática de governança no Entroncamento?
As opiniões são opiniões, não é? o que diz o André Ventura, o que diz o Nélson, são sempre opiniões. A questão é: o Ventura também diz muita coisa acertada que depois é mal interpretada. E, portanto, eu considero o Ventura, até na minha perspectiva, uma pessoa moderada. Agora, às vezes, a maneira como dizemos as coisas, se calhar, depois depende de cada pessoa. Mas o objetivo primordial e aquilo que está por trás do que o Ventura diz, do que eu digo, não é nada mais do que os valores que eu tenho falado. É justiça social. Esta é que é verdade. Portanto, a maneira como se fala, a interpretação, o tom, isto varia de pessoa para pessoa, de político para político. Mas o objetivo primordial, mesmo do Chega, é este. Não é nada mais do que estas duas palavras. Justiça social. Quando se fala de minorias, quando se fala de etnias… Eu próprio fui emigrante. Mas nunca abusei do sistema em lado nenhum. E estive em dois países diferentes. E, portanto, sempre me foquei muito em respeitar tudo e todos à minha volta. Sempre fui uma pessoa muito educada, com tudo e com todos. Respeitava os ambientes onde estava inserido e no meu local de trabalho. Também sofri de bullying, por exemplo, por ser português,. Mas sempre de uma maneira… Sempre olhar as pessoas nos olhos. Sempre com frontalidade. Porque quem não deve, não teme. Quem não faz mal, não deve temer nada. E, portanto, estava focado na minha vida, no meu trabalho. Nunca precisei de apoios sociais, felizmente. Sei o que é ser emigrante. Sei as necessidades. E, portanto… Também sei o que aí vem, entre aspas, para Portugal, se não for controlado devidamente. E o Chega centra-se muito nessas questões do patriotismo, do nacionalismo. E obviamente é um partido também conservador. E estas partes eu identifico-me, obviamente, também sou cristão. E lá está a ética. Isto prevalece e o que nós temos de garantir é basicamente a justiça social. É o que chega. Depois o tom muda, de pessoa para pessoa.
O presidente do Chega disse que Portugal precisava de dois ou três Salazares, como que num regresso à ditadura? O que é que defende?
Eu acho que se leva muito à letra que o Ventura diz. Eu, na minha avaliação, conhecendo-o como pessoa, tenho a certeza que ele não quer uma ditadura. Ele não é ditador nenhum. O que ele quer dizer é que, relativamente ao Salazar, foi na altura do Salazar que os orçamentos públicos e as obras públicas decorriam dentro dos prazos, por exemplo. Portanto, há coisas do salazarismo que se pode dizer que foram, entre aspas, boas. Agora, o regime em si, salazarista, a ditadura que tivemos em Portugal, obviamente não foi de todo benéfica, não vi um estado democrático, e esta é a minha avaliação. Recuar no tempo obviamente não seria benéfico. Nós evoluímos muito com muito sacrifício do povo português, e a democracia tem que ser sempre valorizada. Sempre. E é isso também que fazem parte dos meus ideais e fazem parte dos ideais da Ventura. Portanto, acho que o que ele quis dizer com isso é que realmente é preciso haver mais seriedade e mais controle em alguns aspectos. Esta é a minha avaliação do que o presidente André Ventura disse.

A habitação é importante para uma boa integração, ou seja, para a fixação de quem quer estar e para quem chega ao Entroncamento? Essa também é uma das suas prioridades de gestão?
O Entroncamento é o segundo concelho mais pequeno do país. A habitação, os serviços, já estão neste momento a rebentar pelas costuras, como se costuma dizer. A habitação, devido à procura que tem e à limitação física, territorial, que não nos permite construir, obviamente é possível a construção, mas… Nós queremos deixar a construção para o privado, o incentivo ao empreendedorismo. Cabe à Câmara dar as condições para que tal se desenvolva, se concretize. Portanto, no que diz respeito a massas migratórias, digamos assim, para o Entroncamento, e para o interesse para o Entroncamento, uma cidade é o que tem para oferecer. O que é que eu quero dizer com isto? Se nós tivermos muita habitação social para oferecer, nós atraímos aquilo que temos para oferecer. Portanto, o que nós pretendemos é que o Entroncamento, usando a analogia do passado, volte a ser uma cidade também de pessoas que queiram trabalhar, que queiram desenvolver, que queiram fazer parte da comunidade, que participem. Nós passámos de quarto para sétimo em questões de PIB, portanto, isto também evidencia que o que está a acontecer no Entroncamento está a ser resultado de alguma subsidiodependência e, portanto, nós temos que estar de olhos atentos nisso. E é o que teremos que fazer.
O presidente do Chega, André Ventura, pediu aos autarcas para acabarem com os subsídios às minorias que não querem trabalhar. Pediu-lhe mais alguma coisa?
Sim, pediu-me para respeitar e ter a certeza que não gastava um cêntimo ao erário dos contribuintes à porta fechada. E eu identifico-me com essa maneira de agir e de pensar e com a mensagem que o presidente passou. É uma mensagem séria e de responsabilidade e que eu encargo com toda a frontalidade, porque é assim que, na minha óptica, deverei sempre agir.
Esse pedido foi extensível ao Presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora Fátima? O novo autarca, eleito pelo Chega, assegurou que ia abdicar do vencimento para doar a quem mais precisa. Confirma? E como vê esta decisão?
Sim, é verdade. O presidente de Junta, Luís Moita, já tinha durante a sua campanha comunicado essa doação, o que eu acho que é, obviamente, uma nobreza que tem que ser reconhecida. Ele é uma pessoa que, com muito trabalho, conseguiu o que tem na vida, tem uma vida organizada, tem uma família bonita, e é uma pessoa de muito trabalho que eu sei, de um coração enorme. E foi, aliás, por isso que eu o convidei para fazer parte das listas e, felizmente, correu bem. E por ele ser uma pessoa de um coração muito nobre, depois decidiu, ninguém lhe pediu, isto foi mesmo por iniciativa própria, de dar esse passo e de doar o seu salário. E acho que obviamente tem que ser reconhecido esta parte solidária do Luís Moita. Esse é o exemplo que o Chega quer dar também à sociedade em termos do poder local.
Doar a quem mais precisa, independentemente das minorias, da raça, do credo?
Independentemente.
E é assim que também vai atuar, governar para todos?
Sim, igual para todos. Aliás, como viu há bocado, eu cumprimento toda a gente na rua, selfies também, eu quero ser um presidente das pessoas e eu tenho a responsabilidade e sei que eu tenho a chave para este edifício, mas eu quando ponho a chave estou a representar todos os cidadãos, quando estou aqui sentado, o meu trabalho, aquilo que faço, tenho a completa noção que estou a trabalhar não é para mim. É para as pessoas. Todos os dias. E, portanto, eu quero ser assim. Quero estar próximo. Aliás, sempre o fiz. Sempre foi a minha maneira de ser, até antes de ser político. Fiz parte de muitas associações no Entroncamento. E sempre foi a minha maneira de ser. Aliás, eu fui educado nesta envolvente de Entroncamento, da parte de natação, de ir à missa, de ir à praça, às pastelarias, falar com as senhoras mais velhas, ser muito bem educado. E, portanto, são estes valores que eu também faço questão até de transmitir. Não é só estar próximo das pessoas. É também agir como um cidadão exemplar. E há valores que se têm perdido no Entroncamento e que eu faço questão de recomeçar a trazer. O dizer o bom dia, o voltar nas ruas, o pôr o lixo onde é necessário. Olhe, atenção que mandou a beata para o chão. Por favor, apanhe. Ou seja… tenho aqui um papel já mais controlador, digamos assim (risos). Mas eu faço questão, porque aliás também é o meu dever, não é? De agir em conformidade, agir de uma maneira exemplar e cívica.


Como é que vai conciliar essa dedicação plena ao município com a vida profissional empresarial?
A empresa, obviamente, agora depois de aceitar e estar aqui enquanto presidente, vou ter que terminar, até por uma questão de ética. Eu próprio já tinha dito, já tinha comunicado antes deste resultado das eleições, que não seria benéfico, mesmo se fosse vereador apenas, continuar com a empresa no Entroncamento. Obviamente que os investimentos teriam que ser feitos fora do concelho, por uma questão de ética. E eu nestas coisas sou muito terra a terra. Porque eu sei depois como é que se fala, o que é que se fala e etc. E portanto, eu já tinha a empresa antes de ser candidato, já tinha feito o investimento antes de ser candidato, mas percebo agora que com este compromisso que tenho com a população do Entroncamento, e, lá está, tendo este papel de referência ética e moral, não faria sentido continuar a fazer investimentos no concelho onde estou a presidir. Portanto, eu próprio já decidi que, findo este investimento em curso irei parar completamente a empresa, pelo menos com investimentos no concelho do Entroncamento.
No novo executivo o Chega detém três vereadores, o PSD dois e o PS também dois vereadores, ou seja, não tem maioria absoluta. Como é que vê esta situação em termos de gestão do município e para a tomada de decisões?
O diálogo aqui é crucial e, aliás, como já tive a oportunidade de referir, sempre tive muita cordialidade para com todos os partidos, muita abertura e nas reuniões que tive com os dois partidos representantes, portanto, o Partido Socialista e a Coligação AD, transmiti também esses valores, que são valores de abertura. Fui cordial para com eles, ou seja, eu é que agendei as reuniões e fiz questão, porque obviamente enquanto partido eleito para o executivo, que assim fosse. Uma questão de cordialidade. Respeito também, porque são dois partidos históricos, não vou julgar de todo o que foi feito no passado, não me cabe a mim fazê-lo. Cabe a mim sim trabalhar nas soluções, trabalhar no futuro. Espero que estes dois partidos também tenham essa mesma visão. E, portanto… há que entender também que é o Nelson que é o presidente, que é o Hélder que é o vice-presidente e tem que haver aqui obviamente seriedade nos trabalhos, tem que haver colaboração, tem que haver união, e muito trabalho em conjunto. Eu transmiti que o meu gabinete estaria sempre aberto para tudo e esta vai ser a minha postura até ao final. Porque só assim é que se consegue avançar na política local em conformidade com aquilo que são as necessidades dos entroncamentenses.
Uma das suas medidas bandeira é a questão da criação da Polícia Municipal, armada. A criação da Polícia Municipal parece ser mais ou menos consensual, mas a questão da polícia armada já não reúne 100% do consenso. Como vai ser?
É uma questão de chegarmos a um consenso naquilo que depois são as visões de cada partido, mas tal como referenciou, é importante e é bom que não seja apenas um partido com a ideia de criar uma polícia municipal. Portanto, isto demonstra que há realmente um consenso naquilo que são as necessidades para o concelho. E isto é que é bom. Isto é que é positivo na política. Portanto, estamos a falar mais do que um partido que tem consonância de medidas e depois é, obviamente, com diálogo, chegar a um consenso.

Consenso que não houve na eleição para os membros da Assembleia Municipal, no dia da tomada de posse. O Chega foi o partido mais votado para a Câmara e para a Assembleia, mas o PSD apresentou uma lista alternativa que contou com o apoio do PS, e elegeram a mesa da Assembleia.
A minha análise aqui é muito pragmática e muito simples e eu quando faço análises políticas gosto de me sentar nos sapatos das pessoas. Para ter uma análise completamente ausente da cor política e de interesses políticos. O que é que eu quero dizer com isto? Eu encontro o Entroncamento tenso, depois de se votar no Chega para a Assembleia e depois ver o que se passou. Obviamente fico apreensivo naquilo que é o estado democrático. Agora, podem dizer que a lei permite, realmente permite, é a democracia a funcionar, tudo certo, isso não está errado. Aliás, eu não estou contra isso. Mas vamos analisar as coisas de maneira muito pragmática. Se o espectro político, no Entroncamento, demonstra que a população quer uma governação à direita e dá a maioria ao Chega, é assim que deve ser. Porque é que a AD apresenta uma lista com o PS na Assembleia? Porque não apresentou com o Chega na Assembleia? Esta é a questão que se deve levantar aos entroncamentenses. Então, se decidem que este mandato deve ser um mandato de direita e temos dois partidos de direita e o PS de esquerda, porque não foi assim a lista considerada para a Assembleia? Esta é a questão que eu faço. Eu já sabia que isso ia acontecer também. Falámos aqui numa série de hipóteses e infelizmente não consideraram o Chega para esta lista. E portanto, os entroncamentenses, a percepção que têm, é que estão tristes com o facto de não ter sido incluído o Chega. Não é com a votação, pois obviamente é a democracia a funcionar.
Mas o Chega também podia ter incluído a AD na lista que apresentou. Era igual para os dois...
E se calhar foi falado. Não quero dar detalhes mas posso dizer que foi falado. A questão é porque é que depois, nesse dia acontece uma ligação, digamos assim, com um partido de esquerda que em 12 anos fez o que fez. Os entroncamentenses avaliam, e esta parte é que não aceitam, porque o espectro político de Entroncamento virou para a direita depois de 12 anos de esquerda. E é esta vontade da maioria dos entroncamentenses que deveria ter sido respeitada. Portanto, o que eu acho que se passou foram, obviamente, conversações entre esses dois partidos. Houve interesses de ambas as partes para que assim fosse. Eu não vou estar aqui a julgar publicamente, não me cabe a mim e nunca o farei. É só essa questão pragmática da minha avaliação enquanto cidadão entroncamentense.





Sente que foi o primeiro revés, enquanto presidente eleito? Ou é um sinal também para se manter alerta para as dificuldades que podem vir aí?
O meu trabalho é estar sempre alerta, seja das cores políticas, seja da estrutura interna, seja do que for. Não obstante isso, da minha parte tem que haver profissionalismo. Eu fiquei surpreso. É a democracia a funcionar, como alguns dizem, não vou dizer que fiquei felicíssimo, obviamente, mas respeito e espero que o Sérgio Belejo, uma pessoa que eu conheço e por quem tenho consideração, agora com este papel, seja uma pessoa transparente, imparcial e que trabalhe, e vai ter que mostrar, porque as luzes da ribalta também estarão sobre ele, não é só sobre o Nelson Cunha, e que ele seja uma pessoa isenta de cores políticas. É isto que eu espero, porque eu estarei aqui a fazer um trabalho sério, a equipa também, e depois espero que essa análise na mesa da Assembleia também seja respeitada.
E como é que viu a cerimónia de tomada de posse num Salão Nobre a abarrotar, um espaço que acabou por se revelar pequeno para tanta gente?
Tenho aqui vários comentários a fazer. O Salão Nobre é um salão, como o próprio nome indica, nobre. É um salão histórico que representa aquilo que é a democracia local. No entanto, já é um espaço pequeno para a quantidade de pessoas que queriam assistir, especialmente numa tomada de posse. Poderia ter aqui comentários a fazer relativamente ao espaço dedicado para o evento em si, mas não nos coube, obviamente, a nós, tanto escolher o espaço como fazer os convites, que são feitos pela presidência da Assembleia Municipal cessante. Também achei estranho não haver entidades presentes. religiosas, civis, jurídicas, militares, corpo bombeiros. Achei isso muito esquisito. E eu, por acaso, perguntei na altura porque é que não tinha referência a qualquer uma dessas entidades e disseram que nenhuma tinha aceite, o que obviamente não poderá ser verdade. Pelo menos o respeito para com o partido, para quem toma posse agora, para um novo executivo, para os novos órgãos municipais, digamos assim, não foi o melhor. E, portanto, é este o meu comentário a fazer. A tomada de posse em si foi uma tomada de posse com a presença realmente de alguns deputados da nação, com o presidente (do Chega) André Ventura, e obviamente depois muita família, muitos amigos, não só meus, mas também todos os elementos, e o Salão Nobre assim torna-se pequeno. Acho que correu bem, dentro daquilo que é a logística do evento.

A quem quer fazer um brinde neste primeiro dia de trabalho e de arranque de mandato?
Eu prefiro brindar no último dia do mandato. Acho que ganhar as eleições só significa que me passaram a chance de me abrir a porta para trabalhar. E portanto o festejar antes de começar a trabalhar normalmente não augura bom resultado. E eu já tenho uma experiência de vida que me mostra que o festejar tem que ser sempre no fim. E eu primeiro vou esforçar-me, vou dedicar-me, trabalhar muito para obter o máximo de resultados possíveis. E quero sentir-me realizado daqui a quatro anos e se assim for, nesse dia, se eu sentir e fizer uma avaliação introspectiva de que as coisas correram conforme o esperado, aí sim sou capaz de abrir uma garrafa de champanhe, brindar e festejar com o Entroncamento.
Nelson Cunha assume presidência do Entroncamento para mandato sem maioria
O novo executivo da Câmara do Entroncamento é constituído por três eleitos do Chega, dois do PSD e um do PS. Na Assembleia Municipal, a oposição conseguiu eleger a presidência da mesa, após o PSD ter apresentado uma lista alternativa à do Chega e que contou com o apoio do PS.
Sem maioria no executivo, Nelson Cunha salientou que “o diálogo é crucial”, assegurando que irá “trabalhar com seriedade e transparência”, respeitando as decisões da Assembleia Municipal.
Com 37,34% dos votos, o Chega conquistou o município ao PS, que governava o concelho e ficou na terceira posição nas eleições de dia 12, atrás da coligação PSD/CDS-PP.
Nas eleições de 2021, o PSD tinha conquistado três mandatos, o PS três e o Chega apenas um.
A Câmara do Entroncamento é uma das três que o Chega conquistou nas autárquicas de dia 12, a par de Albufeira, no distrito de Faro, e de São Vicente, na ilha da Madeira.
