Em declarações ao mediotejo.net, e numa entrevista de balanço do trabalho desenvolvido, Anabela Freitas diz que Tomar “está diferente” do que era há 10 anos, como “da noite para o dia”, tendo apontado às reformas financeiras do município, mas também à reorganização de serviços, saneamento e reabilitação, com reposicionamento estratégico em termos turísticos e novas dinâmicas associativas, culturais e desportivas.  Como ponto alto de 10 anos de mandato elege a reabilitação da margem direita do rio Nabão, o Flecheiro, e a demolição das barracas.

Sobre cinco anos de presidência na CIM Médio Tejo, Anabela Freitas destaca a união de todos os autarcas em prol de objetivos comuns e aponta a três grandes desafios para o futuro: continuar a acompanhar o Fundo de Transição Justa que, apesar de ter um impacto maior no concelho de Abrantes, ele tem um impacto transversal em toda a comunidade intermunicipal; a execução do 2030, e sobretudo, a execução e verdadeira implementação da nova região que foi criada com a Comunidade da Lezíria e do Oeste.

Dez anos depois, Anabela Freitas deixa este domingo, 1 de outubro, a presidência da Câmara Municipal de Tomar, cargo para o qual foi eleita pelo PS, em 2013. A autarca, que cessa também funções como presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) Médio Tejo, vai abraçar a partir de segunda-feira funções executivas na Entidade de Turismo do Centro.

Perfil | Anabela Freitas

Anabela Freitas. Foto: mediotejo.net

Anabela Gaspar de Freitas, 56 anos, nasceu em Tomar a 21 de novembro de 1966. Licenciada em Recursos Humanos pelo Instituto Politécnico de Tomar, é técnica do Instituto de Emprego desde 1986, atividade profissional que suspendeu para assumir o papel de autarca a tempo inteiro, quando foi eleita presidente de Câmara de Tomar, pelo PS, em 2013.

Divorciada e com um filho, desempenhou os cargos de deputada na XII Legislatura, eleita pelo distrito de Santarém, presidente da Comissão Política Concelhia de Tomar do PS e deputada municipal na Assembleia Municipal de Tomar. Foi presidente da Assembleia Geral do Sporting Clube de Tomar e presidiu ao Departamento Federativo Mulheres Socialistas de Santarém, tendo ainda sido eleita em 2019, por unanimidade, presidente da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT), sucedendo no cargo a Maria do Céu Antunes, ex-presidente da Câmara de Abrantes e atual ministra da Agricultura.

Qual é o seu estado de espírito e que balanço faz de 10 anos de presidência da Câmara de Tomar?

Bem, o estado de espírito é um estado de missão cumprida. Efetivamente, foram 10 anos com muito trabalho, 10 anos em que se vê uma diferença da noite para o dia. Tomar não é o mesmo que era, do ponto de vista interno da organização da autarquia, seja do ponto de vista financeiro, seja da sua própria organização e abertura para os munícipes, seja também aquilo que é toda a transformação que houve, seja por via das obras de reabilitação, de saneamento, mas da dinâmica que o concelho vive, através também das suas associações, quer sejam culturais ou desportivas. E depois, do ponto de vista externo, aquilo que é o posicionamento de Tomar num conjunto de áreas, desde o turismo, economia, e notoriedade da marca, a nível nacional e até internacional. Portanto, Tomar está diferente do que era há 10 anos.

Do ponto de vista financeiro encontrámos uma Câmara muito endividada, com pouca liquidez financeira. Portanto, eu tomei posse em outubro de 2013 e na altura havia uma coisa que era a lei dos compromissos e pagamentos em atraso, que foi aliviado entretanto ao longo dos últimos anos e sobretudo pela questão da pandemia, foi alterada a forma de cálculo. Mas eu lembro-me que nessa altura nós só podíamos autorizar despesa se ela estivesse cabimentada e portanto, havia aqui um conjunto de despesas, nomeadamente os ordenados dos trabalhadores, o gasóleo para aquecimento das escolas e os transportes escolares que não tinham cabimento. E portanto, logo em novembro, tive de me atravessar e autorizar despesa que não estava cabimentada, porque não podia deixar de pagar os ordenados, não podia deixar de comprar gasóleo para aquecimento das salas de aulas e tinha de garantir os transportes escolares às crianças. Só para dar um exemplo, quando entrámos na Câmara, a capacidade de endividamento era na casa dos 900 mil euros, ou seja, se tivéssemos que contrair um empréstimo bancário só conseguiríamos contrair até 900 mil euros, neste momento, a capacidade de endividamento da Câmara é de 2 milhões de euros.

Portanto, fizemos aqui um trabalho interno que não é visto, foi preciso reorganizar internamente a Câmara e instituir aqui um circuito da despesa para maior controlo da despesa. Portanto, financeiramente, a Câmara neste momento não tem problemas. É óbvio que qualquer orçamento tem de ser gerido com parcimónia e têm de se tomar opções na gestão do orçamento. Do ponto de vista financeiro ficámos bem, mas também de um outro ponto de vista. É a ironia do destino… Das primeiras reuniões que eu fui foi à Assembleia Geral do Turismo do Centro para aprovação do Plano Estratégico 2014-2017. Recordo-me perfeitamente dessa Assembleia, foi o Pedro Machado que apresentou o plano, não tinha uma única linha sobre Tomar. Ora, falar de turismo na região centro sem falar de Tomar ou ter uma linha estratégica para o Património da Humanidade, para o Património Judaico que são os nossos grandes chamariz, fui a única pessoa naquela Assembleia de cento e tal pessoas que votou contra o Plano Estratégico e depois perguntaram: então a senhora presidente está a votar contra? Eu estou a votar contra porque não consigo conceber uma estratégia de Turismo para a região Centro que não passe por Tomar. Portanto, neste momento, não tem nada a ver aquilo que era a projeção de Tomar, quer a nível nacional ou internacional, não só nas questões de Turismo e isto pode-se ver muito bem por uma outra questão…

Quando entrei para a Câmara existia apenas um hotel em Tomar, que era o Hotel dos Templários, e neste momento já existem uma série de hotéis, um está a acabar de ser construído – do grupo Vila Galé –, temos hotéis de 5 estrelas, temos uma série de hostels para além do Alojamento Local… Isto quer dizer… É tudo investimento privado e o privado só investe se sentir confiança no território. Portanto, a projeção que nós demos a Tomar e a sua afirmação naquilo que são, em matéria de Turismo, os nossos dois grandes chamariz – volto a dizer, o Património Mundial e o Património Judaico – e se conjugarmos isto com o trabalho que já tinha sido iniciado pelo anterior executivo, na captação de empresas como a Softinsa [cria-se confiança]. Neste momento, para além desta, já temos mais cinco empresas na área das novas tecnologias. Captámos entretanto uma outra empresa mundial, a Air liquid, que traz postos de trabalho qualificados para o território.

A nossa afirmação enquanto cluster na área tecnológica foi também beneficiando da relação com o Instituto Politécnico de Tomar, porque é importante para estas empresas estar próximo de uma instituição de ensino superior. Portanto, os investidores podem hoje olhar para Tomar de outra forma. Depois, toda a requalificação urbana que fizemos na cidade, essencialmente na cidade, que teve sempre como mote “as cidades são para as pessoas e não para os carros” e portanto, às vezes não sendo compreendida nessa matéria, porque estreitámos as vias de passagem dos carros, porque isso obriga-os a andar mais devagar, portanto, por questões de segurança… Reabilitámos aqui muito a cidade, sendo que a reabilitação maior está em curso neste momento, que é o arranjo da margem direita do rio Nabão. (…)

Quando se entrava pelo lado sul em Tomar havia um bairro de barracas, de pessoas de etnia cigana. Neste momento não existe esse bairro, as pessoas estão realojadas por um conjunto de bairros sociais e de casas que fomos adquirindo para as acolher, sendo que o processo de integração não está terminado… não basta só dar o alojamento, há todo um acompanhamento que tem de ser feito, quer com a comunidade de acolhimento, quer com a comunidade com que nós estamos a colocar junto dos nossos bairros. E portanto, ter terminado com aquele bairro, porque efetivamente estávamos a cumprir aquilo que é a Constituição, o direito à habitação e agora reabilitar toda aquela margem permite devolver aos tomarenses, e uma cidade atravessada por um rio tem sempre outra beleza. Repare, eu vou fazer 57 anos e nunca pude brincar nas margens daquele rio. Agora também não vou brincar, só se for com os meus netos um dia mais tarde.

Estamos a devolver… muitos dos tomarenses nunca puderam usufruir do rio Nabão nesses termos, para passear e agora estamos a devolvê-lo aos tomarenses. Portanto, Tomar tem uma outra dinâmica cultural, desportiva, fomo-nos assumindo também no panorama nacional em algumas modalidades como um local para estágio, seja de árbitros, seja de equipas ou até para realizar aqui torneios nacionais em algumas modalidades e depois a cultura. Somos o concelho do distrito de Santarém que tem maior número de associações ativas e pretendemos oferecer aos tomarenses acesso à cultura tal como um lisboeta tem. Eu costumo dizer que isto é igualdade de oportunidades. Ou seja, um tomarense que vive aqui tem de ter acesso àquilo que um lisboeta tem e portanto, entre aquilo que é a oferta cultural por algumas das nossas associações, seja na área do teatro, da música, da dança, se juntarmos a isto a vinda de grupos nacionais, como a Companhia Nacional de Bailado, as Orquestras Sinfónicas do Exército e da Marinha, estamos a diversificar aquilo que é a oferta cultural que estamos a dar aos tomarenses. Portanto, eu diria, entre aquilo que encontrámos e o que deixo agora ao fim de 10 anos é a noite do dia.

Anabela Freitas resgatou o concelho de Tomar para o PS e foi a primeira mulher a conduzir os destinos do município

Anabela Freitas. Foto: mediotejo.net

A Câmara Municipal de Tomar começou por ser liderada pelo PS em 1976, tendo passado para a Aliança Democrática de 1979 a 1985, ano em que venceu o PSD, regressando ao PS (com o então independente Pedro Marques) em 1989, e de novo ao PSD em 1997, com António Paiva, também independente. O PSD venceu as eleições desde então, e até 2013, mas regista-se uma curiosidade: desde 2005 que o candidato eleito não terminava os mandatos, deixando a autarquia nas mãos do vice-presidente que, nas eleições seguintes, encabeçou sempre a lista ao município. Foi assim com Côrvelo de Sousa, que sucedeu a António Paiva, verifica-se o mesmo com Carlos Carrão, que substituiu Côrvelo de Sousa.

A ex-deputada na Assembleia da República e ex-presidente da Comissão Política Concelhia do PS de Tomar, Anabela Freitas, foi a candidata do PS em 1993 e cuja tarefa passava por resgatar a autarquia para os socialistas, 16 anos depois. A primeira mulher a ser eleita presidente de Câmara em Tomar não só venceu, como cumpriu dois mandatos completos (2013 a 2021). Eleita para um terceiro mandato em 2021, o último que poderia cumprir por força da lei de limitação de mandatos, Anabela Freitas deixa a autarquia no dia 1 de outubro, 10 anos depois, passando a pasta ao seu vice-presidente, Hugo Cristóvão. Também a 1 de outubro, Anabela Freitas deixa o cargo de presidente da CIM Médio Tejo, e para o qual foi eleita em 2019.

Foi eleita em 2013 a primeira mulher presidente da Câmara de Tomar, depois de 16 anos de governança do PSD, com o lema “mudança”, nessa primeira campanha eleitoral. O que é que mudou relativamente à descentralização cultural para as freguesias, como defendia então, e, por outro lado, o que mudou relativamente à taxa de cobertura de saneamento básico?

Nós iniciámos um processo de descentralização que depois acabou por… ele neste momento não tem a pujança que idealizávamos ao início. (…) É importante também dizer o seguinte, por muito que nós vamos acompanhando a vida autárquica, porque eu já tinha sido deputada municipal, uma coisa é depois quando cá entramos e as coisas não são bem como idealizávamos. Ou seja, nós iniciámos um programa quer de desporto, quer de cultura, de levar a cultura e o desporto às freguesias. A questão do desporto continuamos a fazê-lo… freguesia da Sabacheira, para falarmos de uma das que está mais longe da cidade, fins se semana de basquete, por exemplo, e vai lá o clube de basquete para tentar captar crianças, divulgar a modalidade e para por as pessoas a praticar. Portanto, na questão do desporto nós conseguimos. Na questão da cultura foi e é mais difícil. Porquê? Não existe aqui e isso foi… lembro-me que fizemos dezenas de reuniões com as associações no sentido de que deveriam partilhar recursos, falar umas com as outras. Por exemplo, quando uma associação faz um evento, porque é que está a pedir à Câmara se lhe empresta mesas e cadeiras? Se calhar a associação ao lado tem essas coisas. Portanto, tentámos criar aqui também dentro das associações que houvesse maior colaboração entre elas. Nem sempre é fácil, porque isto também tem a ver com quem está à frente de cada associação. Portanto, esta questão de levar a cultura às freguesias não teve o impacto que nós tínhamos pensado de início.

A questão do saneamento… Nós entrámos efetivamente com uma taxa de 30 e pouco por cento de saneamento, neste momento devemos estar perto dos 72%, com as obras que foram feitas, mas aquilo que detetámos foi… e primeiro, também é importante dizer o seguinte: Ao longo dos vários quadros comunitários de apoio, quando eu entrei em 2013 estava em negociação o Portugal 2020, aliás ainda fui eu que fui negociar o 2020 com a CCDR Centro para o município de Tomar e não encontrámos um único projeto na Câmara que pudesse ser enquadrado no 2020. E igualmente, na altura tínhamos Serviços Municipais e apesar de estes dizerem em todos os seus relatórios que tinham projetos para a cobertura global da taxa de saneamento, o que é certo é que fisicamente não havia projetos. A pressão para executar…. nós só conseguimos executar ou só conseguimos ir buscar mais dinheiro depois de executar se tivermos projetos. Daí, mesmo assim, tendo existido um aumento de cerca de 40% na questão do saneamento é importante. Mas, no entanto, o saneamento é importante, mas mais importante e isso já está sinalizado no 2030 é a questão da atuação nas perdas de água.

Tomar tem aqui identificado um troço de 253 km que é abastecido pela Mendacha (14:17) onde estão 70% das perdas de água de Tomar. Portanto, se estão aí 70% das perdas de água, se estes 253 km servem 4.400 alojamentos, portanto é aí que temos de atuar. Portanto, aquilo que colocámos no 2030 como sinalização no ciclo urbano da água é o investimento na remodelação destes 253 km.

Anabela Freitas, presidente CM Tomar. Foto: mediotejo.net

Pedia-lhe uma palavra relativamente ao relacionamento que teve com a oposição…

Depende das oposições… o primeiro mandato nós não ganhámos com maioria e tivemos de fazer uma coligação com a CDU. Eu até sou a favor das coligações e eu acho que funcionou muito bem a coligação que fizemos com a CDU, apesar de haver um conjunto de matérias em que não estávamos de acordo e portanto, sabíamos perfeitamente que naquelas matérias não íamos estar de acordo, mas o que é certo é que nas outras matérias foi possível negociar e fazer um trabalho interessante. Com a oposição, eu lido… não é mal nem bem. Às vezes a oposição chama-me arrogante, mas quando tenho uma oposição que só diz mal por dizer mal e não aporta nada de concreto (…), muitas vezes eu até acho que as Assembleias Municipais deviam ter, e esta Assembleia Municipal neste mandato criou um conjunto de comissões, e são importantes essas comissões porque à porta fechada pode-se discutir muita coisa. Quando nós temos uma reunião de Câmara ou de Assembleia que é filmada, transmitida em direto, há ali coisas que nós não podemos dizer e quando as reuniões são à porta fechada há maior partilha de informação e, portanto, estive sempre disponível para essa partilha de informação. Agora, também sabemos que há oposições que não querem porque querem ter os seus cinco minutinhos de fama quando estão ou numa Assembleia Municipal ou numa reunião de Câmara, há outras que sim. Portanto, eu diria que depende das oposições.

Eu acho que deve haver a maior partilha possível da informação, porque qualquer decisão que se tome hoje, ela tem efeitos durante uma série de anos. Nós não vamos cá estar sempre e é importante que a tomada de decisão seja partilhada, agora isto não depende só de um, depende também do outro interlocutor.

Qual é a obra de uma década que queira destacar?

Bem, das inúmeras obras, aquela que eu destaco é precisamente a reabilitação da margem direita do rio Nabão, o Flecheiro, que demorou efetivamente 10 anos, está neste momento em execução porque, se os tomarenses e todos aqueles que visitavam a cidade se lembram, naquela espaço estavam barracas. Portanto, houve a necessidade de realojar todos os moradores das barracas, demoli-las e agora estamos a criar uma zona verde para que todos os tomarenses e quem nos visita possam usufruir das margens do rio Nabão. Era uma obra que eu gostava de ver concluída [enquanto presidente da Câmara], mas vou sair antes de ela estar concluída, portanto o prazo de execução é até ao final deste ano e eu saio antes.

VIDEO/ENTREVISTA A ANABELA FREITAS:

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Alguma decisão da qual se tenha arrependido de tomar?

Decisões que me tenha arrependido… temos de separar aqui… há decisões do dia a dia que, se calhar, algumas delas…mas isso faz parte da vida. Mesmo na nossa vida privada há coisas que dizemos “se fosse hoje não fazia assim”… Houve aqui um conjunto de decisões que eu não teria tomado, mais estratégicas, mas prefiro não responder.

Um projeto que gostasse de ter implementado desde que tomou posse como presidente e que por algum motivo não tivesse sido possível?

Eu gostaria muito que Tomar, e isto se calhar diz pouco às pessoas, que Tomar fosse mais “smart”. Ou seja, eu acredito que a utilização das novas tecnologias são uma ferramenta importante até para a tomada de decisão. Repare uma coisa, os recursos são sempre escassos, os pedidos são sempre muitos… imagine um presidente de junta que esteja sempre a dizer “aquela estrada tem de ser alcatroada”, mas se eu tiver ferramentas que me permitam determinar “não, aquela estrada não é tão utilizada, tenho uma outra que é mais” e, portanto, isso permite-me que a tomada de decisão seja mais informada e que vá responder mais concretamente àquilo que são os problemas e as necessidades. Eu acho que Tomar e iniciámos esse processo, mas reconheço também que o nosso gabinete de informática também é reduzido… já devíamos ter aqui implementado um conjunto de instrumentos no âmbito das smart cities, que nos permitisse ter um outro nível de gestão. Por exemplo, nós fomos o primeiro concelho do país a ter uma iluminação pública inteligente. Não nos limitámos a substituir as lâmpadas por leds, isso muitos outros fizeram, todos os nossos postes comunicam uns com os outros. Portanto, foi tudo criado… é o que eu costumo dizer, criámos aqui uma autoestrada, que foi a rede ‘LoRa’ e em cima da autoestrada vamos pondo os carros que queremos, pusemos a iluminação pública, podemos por a recolha dos resíduos sólidos, portanto, otimizar os recursos com sensorização, a sensorização da rega, os transportes urbanos… Há aqui uma série de “carros” que nós podemos colocar em cima dessa autoestrada. Efetivamente esse projeto eu gostaria que Tomar fosse mais smart.

Tomar tem uma identidade muito vincada, muito própria, no seu entender?

Tem, eu acho que os tomarenses…. nunca me esqueço uma vez, eu na altura era deputada na Assembleia da República e houve um evento qualquer em Santarém. Estavam pessoas de vários pontos do país e entra um grupo dentro da sala e há alguém que me diz assim: “eh pá, aqueles que estão a entrar vê-se bem que são de Tomar, que narizinhos empinados” (risos). Ou seja, se calhar os abrantinos, os torrejanos, dirão a mesma coisa (…). Trabalhei em Torres Novas e acho que há uma forma de estar muito diferente entre os torrejanos e os tomarenses, somos diferentes, não somos melhores nem inferiores. Agora, temos às vezes esta questão que ficamos à sombra da bananeira, permitam-me a expressão. Temos o castelo, é importante, o Convento de Cristo é importante, o Aqueduto dos Pegões é importante, mas não podemos ficar parados à espera que aquilo dê frutos. Temos de trabalhar para fazer ligações entre a cidade e o Convento de Cristo. E isso foi uma das coisas que também foram feitas e é daquelas que são invisíveis, uma das coisas que eu detetei quando entrei é que as várias instituições, os vários atores no território estavam às vezes de costas voltadas uns para os outros. Isso conseguiu-se quebrar, quer com o Convento de Cristo, quer com o Instituto Politécnico de Tomar, quer com a própria Santa Casa da Misericórdia que é um ator importante do concelho, com as próprias escolas saírem mais para a comunidade…

Houve aqui um conjunto de projetos, sobretudo nas escolas e na comunidade, que permitiram quebrar essas barreiras. Havia aqui muitas barreiras e isso conseguiu-se, de alguma forma, unir, ainda não está perfeito, o trabalho vai-se fazendo, mas isso foi mais uma barreira que foi quebrada.

Anabela Freitas presidiu nos último 10 anos ao município de Tomar. Foto: mediotejo.net

Antes de ser presidente da Câmara começou por cima, enquanto deputada da nação, eleita nas listas do PS pelo distrito de Santarém. Como é que entrou para a política, porque é que é socialista e quem a inspirou e convidou para a vida política?

Isto é uma história um bocado curiosa. Em minha casa sempre se discutiu política. Eu lembro-me que às refeições os meus pais discutiam muito política. A minha mãe foi uma das fundadoras da UMAR – União das Mulheres Antifascistas e Revolucionárias aqui do núcleo de Tomar. Portanto, a minha mãe era da UMAR, UDP, o meu pai era da UDP ,e portanto tudo muito à esquerda e nós discutíamos muito política. Eu lembro-me que os calendários que tínhamos em casa era da Associação de Amizade, Portugal – Albânia, Portugal – China e sempre se discutiu muito política. Entretanto eu começo a trabalhar em 1986 no IEFP, sou quadro ainda do IEFP, comecei a trabalhar em Torres Novas e no início dos anos 90 achei que tinha muito tempo vago. Porque trabalhar de segunda a sexta, das 09h00 às 17h00 é pouco para mim. Apesar de trabalhar sempre fora vivi sempre em Tomar, pensei “o que é que eu posso fazer para a comunidade onde estou inserida?”. Pensei no movimento associativo… vou-me aqui oferecer a uma associação que aqui na cidade há tantas, ainda por cima fui atleta de um clube aqui da cidade e poder ir para o clube para dar o apoio. Mas depois comecei a ver e não, a política sempre lá esteve. Comecei a ver os princípios de cada partido e optei pelo Partido Socialista precisamente por uma coisa, igualdade de oportunidades.

Eu acho que a política pública tem de dar a todos os cidadãos igualdade de oportunidades e depois cada um decide o que quer fazer, mas é obrigatório dar igualdade de oportunidades. Eu acho que o estar na vida pública e na política, tudo o que tem de nortear as nossas decisões é precisamente isso, potenciar a igualdade de oportunidades. Mas eu depois tenho uma história curiosa porque eu devo ter sido das únicas pessoas do país que para entrar para um partido teve de fazer uma entrevista.

Na altura como é que era feita a entrada para um partido político? Havia uma ficha de adesão que tinha de ser assinada por dois membros já do partido. Eu pedi a ficha e então foi assinada por duas pessoas da Comissão Política e vai para o Largo do Rato e nunca mais vinha o cartão. Até que eu peço a um amigo meu para me ver o que se passava. “Olha que não está lá ficha nenhuma tua”, disse-me. Então, o próprio Largo do Rato manda para Tomar uma ficha já assinada aqui para a concelhia de Tomar, com o meu nome, e lá a preenchi outra vez… Mandaram para aqui a ficha e eu não sabia que a comissão política ia para eleições internas aqui em Tomar quando se deu esta questão. Havia uma disputa geracional, quem estava à frente da comissão política eram pessoas de mais idade e quem estava a tentar disputar era alguém da minha geração. E eles quando viram a minha ficha pensaram que estariam a inscrever para poder votar, mas eu acho que tínhamos de ter pelo menos 6 meses de militância para poder votar… então chamam-me para uma entrevista e lá vou eu à sede do Partido precisamente com essa questão: porque é que queria ser do Partido Socialista? Lá disse o que tinha a dizer. Eu parto-me a rir porque ainda hoje encontro essas pessoas e dou-me muito bem com elas e às vezes rimo-os por causa disso.

Pronto, depois o percurso dentro do Partido… lembro-me que na minha primeira Comissão Política pensei em desistir, porque uma pessoa entra num sítio e acha… o que é que eu achava que era um partido político? Tem de se começar se calhar por aí, que era um local onde se debatia esquerda, direita, ou que sistema de saúde queremos, que sistema de educação a gente quer, o papel do Estado… era isto que eu pensava que se discutia numa Comissão Política. E entro na Comissão e depois já nem me lembro que assunto estava a ser discutido, não tinha nada a ver com isto, e há alguém que pede a palavra e começa a falar do asfalto aquecido. E eu pensei, pronto, isto não é para mim, eu não consigo perceber a relação entre o asfalto aquecido e o que se estava a falar e pensei em desistir (…).

Depois, é certo que também beneficiei aqui um pouco, o PS introduziu a questão das quotas, entro na Comissão Política distrital e depois faço o percurso dentro do Partido porque eu normalmente não sou muito de entrar calada e sair muda, tenho sempre opinião sobre as coisas e tive sempre intervenção. Depois sou eleita presidente das Mulheres Socialistas do Distrito de Santarém (…) e é quando há, por eleição, para a lista de deputados em 2009. E pronto, faço esse percurso e é assim que eu entro para a Assembleia da República. (…) Depois mais tarde fui presidente da Concelhia, é verdade, já não me lembrava.

Começa o percurso por cima, como deputada da nação. Como é que 10 anos depois, enquanto presidente da Câmara de Tomar vê esta relação? Porque há assuntos onde os munícipes e os cidadãos vêm bater à porta da Câmara Municipal, mas onde não é o município que tem responsabilidade… Como é que vê a importância dessa sua experiência e analisa algum desencanto da população com a classe política, nomeadamente com responsabilidades no governo?

Se me perguntar de gostei mais do trabalho como deputada ou como presidente de Câmara, gosto mais deste último. Porquê? Consegue-se ver logo o resultado da ação que se toma. Nós tomamos uma decisão e vemos logo o resultado, é quase imediato… Na Assembleia da República (AR) é um trabalho que não se vê logo os resultados, mas de qualquer das formas aprendi imenso. Aprendi a negociar, porque depois onde desenvolvi mais trabalho, acho que na altura era a 11ª comissão que era o Trabalho, Segurança Social e Administração Pública. Portanto, recebi tudo o que era sindicatos, tínhamos de negociar com os sindicatos e este processo negocial é interessante e dá-nos muito background. Depois, ao fim de um mês de estar na AR, a Ana Catarina Mendes vem ter comigo para aí às 14h30, a sessão começava às 15h00, e disse: olha, o CDS vai fazer uma intervenção sobre estatísticas e és tu que vais responder. Ao fim de um mês, portanto… há lá deputados que passam uma legislatura inteira e nunca falam. Portanto, aquilo foi mesmo lançar à arena e é mesmo assim que aprendemos. Foi importante aquela escola.

Depois, efetivamente, há muitos assuntos que o cidadão pede à Câmara e que não são competência desta. O facto de termos passado pela AR onde percebemos qual é a dinâmica dos governos, sejam eles de que cor forem, porque a dinâmica e a relação acaba por se manter sempre, permite-nos mais facilmente chegar a um secretário de Estado, a um Instituto, organização ou organismo que tente resolver aquele problema. Portanto, a relação neste sentido é positiva porque o facto de ter começado lá em cima, sei como é que a coisa funciona e mais facilmente lá se chega.

No meio de todo este trabalho político a nível nacional e de proximidade, acaba por assumir uma outra responsabilidade, em 2019, quando é eleita para liderar a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, com a saída de Maria do Céu Antunes para o governo [atual ministra da Agricultura]. Passa a assumir a presidência, não só de um dos maiores municípios da região, como também da CIM Médio Tejo, com 13 municípios, e onde é, hoje, a única mulher presidente. Como vê esta experiência?

Eu adorei estar na CIM Médio Tejo, mas é engraçado que uma coisa é estarmos enquanto participantes, até mesmo enquanto vice-presidentes. Outra coisa é estar na presidência. Devo dizer que a Comunidade Intermunicipal tem uma equipa pequena mas fantástica, eles trabalham imenso. E depois tive a sorte de, principalmente nestes últimos três anos, que apanhei aqui três processos muito interessantes. Um que é a Transição Justa, que teve a ver com o encerramento da Central [do Pego], portanto foi um processo exigente que se deve continuar a acompanhar de muito perto e o meu colega de Abrantes tem feito um trabalho excelente nisso, mas obrigou a muitas reuniões, a muitos murros na mesa, foi desafiante.

Depois, o segundo processo, o 2030. Nós, na CIM, já nos conseguimos articular e já disse isto à CCDR, os bons alunos são prejudicados, porque neste momento já todos nós sabemos o bolo que nos calha, dividimos entre todos, já identificámos os projetos, portanto precisámos de assinar o pacto para poder executar e todos nós temos projetos para começar a executar, já no 2030. Quer dizer, fala-se tanto de execução, tem aqui um conjunto de 11 municípios, que neste momento e mesmo Vila de Rei e Sertã já têm projetos para o 2030 e não nos abrem a possibilidade de começar a executar. E este processo de negociação que começou a 13 e passou a 11 também não é fácil, porque nós somos eleitos nos nossos territórios e cada um tem de puxar para o seu, mas conseguimos sempre chegar a consensos.

O terceiro processo, que ainda continua e é desafiante, é a criação da nova região que agrega o Médio Tejo, o Oeste e a Lezíria e houve um processo que começou em 2020, a primeira face visível foi a assinatura do memorando em dezembro de 2020 com o governo, e muito trabalho tem sido feito… Portanto, foi publicado em janeiro deste ano, em Bruxelas, a criação da nova região, que já teve de entrar nas negociações do 2030, há aqui uma parte de projetos da nova região que já vão ser financiados por esta ITI [Investimento Territorial Integrado] específica. Isto implicou que tivéssemos de negociar com a CCDR Centro e com a CCDR Alentejo, porque a Lezíria pertence ao Alentejo e este é um projeto que, como eu costumo dizer aos meus colegas, não pode falhar, porque se falhar não nos criam a região. (…) Está nas nossas mãos que consigamos fazer até 2027 uma nova região aqui. Portanto, este processo também foi muito interessante e é um dos que tenho pena de deixar.

Anabela Freitas fecha um ciclo de 10 anos na presidência da Câmara de Tomar e de cinco anos na liderança da CIM Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

Quais é que são as características que entende como necessárias para um autarca poder desempenhar estas funções e para também se poder relacionar com os vários presidentes, diferentes sensibilidades e diversas cores políticas no seio da CIM Médio Tejo?

As questões políticas, e eu gostaria de realçar isso… efetivamente neste momento estão apenas duas forças políticas representadas na CIM Médio Tejo, já tivemos três, quando eu entrei em 2013 Constância era CDU, mas as questões políticas nunca foram problema. Quando foi este processo de saída de Vila de Rei e da Sertã, o processo não foi o melhor, o Governo devia ter conduzido de outra forma e disse-o publicamente e os meus colegas autarcas também. E isso criou aqui algum atrito entre as duas cores políticas, mas isso no dia a dia… quando é para decidir projetos isso não tem problema.

Basta dizer que, pelo menos na região Centro, somos considerados a Comunidade Intermunicipal que melhor funciona e efetivamente, primeira a 13 e depois a 11 municípios, independentemente daquilo que são os nossos posicionamentos, porque cada presidente de Câmara obviamente quer o melhor para o seu território… portanto, independentemente dos posicionamentos de cada um, das cores partidárias de cada um, sempre soubemos articular-nos para fazer projetos intermunicipais.

Há duas coisas que eu acho fundamentais num autarca. Humildade, nós temos de saber ouvir, não se deve olhar ninguém de cima para baixo, e sermos humildes (…). Quando não sei digo que não sei, quando errei digo que errei, não me custa nada admitir isso e dizê-lo publicamente. Se eu faltar um dia na Câmara ninguém nota, mas se o varredor de rua faltar e não varrer a rua naquele dia toda a gente nota. Portanto, somos todos importantes. Eu detesto pessoas que só porque estão em determinados cargos se sentem superiores. Nós estamos, não somos. E depois tem de se ter uma capacidade de trabalho imensa. Não chega trabalhar das 09h00 às 17h00 de segunda a sexta. É trabalhar 7 dias por semana, é estudar muito, eu tive de ler muita coisa (…) e tem de se ter uma capacidade de trabalho elevada.

Como é que um autarca tem tempo para a sua vida pessoal, para os seus hobbies e no seu caso em particular, como é que foi conciliar esta vida pública com a vida familiar?

Isso é o mais difícil. Eu às vezes penso assim, as Câmaras têm até regulamentos de conciliação entre a vida pessoal e profissional. Engraçado que todas têm isso para os trabalhadores, mas não conseguimos. É difícil. (…) Agora neste último mandato já não o tenho feito, mas até aqui para fazer as compras ao supermercado, tenho de as fazer fora, vou a outros concelhos, porque não dá. O momento de ir fazer as compras é quando eu tenho de aproveitar para estar com o meu filho também. E o miúdo diz “eu não estou para isto”. Porque vem um a falar na pedra da calçada, outro na luz que não acende… Não dá, e portanto vou dinamizar a economia local dos outros concelhos e os meus colegas fazem o mesmo e dinamizamos a economia local uns dos outros (risos).

Esta dedicação à vida pública causou algum prejuízo à sua vida familiar?

É óbvio que sim. Quando não temos fins de semana… As pessoas dizem “os presidentes de Câmara é só almoços e jantares”. Aos fins de semana temos de ir para as associações, mas as pessoas esquecem-se que se vamos é porque não estamos a almoçar e a jantar com a família e isso também faz falta. As pessoas não me veem muito na rua, agora veem mais e hão-de ver mais, porque quando tenho um momento sem nada eu quero é estar em casa. Enquanto as pessoas vão com a família almoçar fora, eu quero é comer em casa… é claro que é difícil, mas a própria família também acaba por arranjar estratégias… Sempre disse ao meu filho que podemos estar pouco tempo, mas estamos tempo de qualidade. Por exemplo, à mesa, quando estamos a comer, não há telemóveis. Independentemente da hora, perguntamos sempre um ao outro como correu o dia. Eu lembro-me que quando estava na AR o meu filho tinha cerca de três anos e às vezes saía de manhã ele estava a dormir e chegava à noite e já estava ele a dormir. Então tínhamos um sinal que era para ele saber… quando chegava a casa punha-lhe um boneco na mesa de cabeceira, ao lado da cama dele, e quando acordava já sabia que eu lá tinha estado. Vamos sempre arranjando estratégias, mas não é fácil.

Continua a gostar de cozinhar, de jazz e de bolos de chocolate?

Sim. Sim, sim, pois gosto (risos). Gosto muito de bolos de chocolate. Por acaso ainda ontem vi uma receita de uma tarte de caramelo salgado com ganache de chocolate por cima, tenho de experimentar no fim de semana. Gosto muito de ver desporto também, aliás, gosto muito de ver futebol. Eu e o meu filho vemos muito futebol.

Hugo Cristóvão, vice-presidente de Anabela Freitas, assume a liderança do município de Tomar. Foto: DR

Uma palavra para os seus sucessores. Na Câmara Municipal de Tomar será Hugo Cristóvão a suceder, que desafios é que ele poderá ter para estes dois anos que restam até às eleições?

As pessoas são diferentes umas das outras e todos nós temos estilos diferentes. O Hugo é uma pessoa que está bem preparada, porque está há 10 anos também na Câmara e, portanto, acredito que vá também dar o seu melhor para dar continuidade ao trabalho. Apesar de estarmos há 10 anos juntos não estamos de acordo em tudo e nem temos de estar de acordo em tudo. Portanto, dar aqui também o seu cunho pessoal àquilo que são os desafios que vêm e os desafios que vêm são executar um 2030, executar um PRR e continuar a consolidar a posição de Tomar naquilo que é o panorama nacional. Comparando com a forma como encontrei, o município está com uma boa saúde financeira, no entanto, qualquer orçamento tem de ser gerido com rédea muito curta.

Quem vai passar a liderar a CIM Médio Tejo? Será um dos atuais vice-presidentes (Manuel Jorge Valamatos (PS) ou Vasco Estrela (PSD)?

Os meus colegas é que irão decidir, será por eleição a 12 de outubro. Irá manter-se o equilíbrio de forças, portanto dois PS e um PSD, o PSD é que terá de indicar se mantém o Vasco Estrela ou não e o PS terá de decidir quem será.

Que desafios tem o próximo presidente da CIM Médio Tejo pela frente?

Tem desafios, e eu percebo que a conjugação entre estar à frente de uma Câmara e de uma CIM nem sempre é fácil. Por isso é que eu também defendo a alteração da lei eleitoral para as autarquias, executivos monocolores. Porque o conjunto de competências que vieram para as Câmaras não dá, somos humanos, e se com isto acumularmos a CIM… os desafios são o 2030 e temos um ponto de partida, mas o ponto de partida não conta tanto quanto o ponto de chegada e nós partimos com determinado montante para o 2030, precisamos de assinar e executar que é para ir buscar mais dinheiro. Ou seja, temos de demonstrar capacidade de execução e a seguir capacidade negocial e isso aí é, sem dúvida, o presidente. Depois, é sem dúvida este desafio da nova região e esta vai exigir… isto acaba por ser uma decisão política mas há aqui organismos que não estão muito de acordo, que põem muitas pedras na engrenagem e é preciso estar com muita pressão em cima. Esses para mim são os dois grandes desafios para a CIM Médio Tejo.

Vai entrar num novo ciclo e deixar a vida autárquica a meio do 3º e último mandato, pergunto-lhe se concorda com esta lei da limitação de mandatos?

Eu concordo com a limitação de mandatos se ela fosse para todas as funções… mas ela só está nos autarcas e no Presidente da República. De resto… eu costumo dar sempre um exemplo. Quando era jovem lembro-me de ver sempre na televisão os debates na Assembleia da República e havia uma determinada deputada que estava sempre cá em cima, era vice-presidente da Assembleia e eu fui para a Assembleia e ela estava lá, saí e ela continua lá e nunca vi uma intervenção nem em plenário nem em comissão. Portanto, a limitação de mandatos sim, mas para todos. Se me pergunta assim: se não houvesse limitação de mandatos voltava a candidatar-se? Não, eu acho que tudo tem um tempo. Só devemos estar nas coisas enquanto conseguimos dar o nosso melhor. Porque depois começamos também a amolecer um pouco e as próprias organizações precisam de mudança.

Vai também levar a sua experiência acumulada, conhecimento da região, embora para uma outra entidade supramunicipal… falamos aqui já de 100 municípios, mas num setor muito específico que é o Turismo do Centro.

Sim, o mandato é de 5 anos. É verdade… eu já estava na comissão executiva e, portanto, já estou mais ou menos dentro daquilo que é a estratégia e que está também a ser negociado agora o financiamento quer com o Turismo de Portugal quer com a CCDR. Enquanto um presidente de Câmara é especialista em generalidades, ali vou ter de ser especialista numa especialidade (risos). Apesar de estar dentro das coisas, vai-me obrigar a estudar bastante e a ler como é que são as estatísticas no Centro. Eu acho que é mais leve, mas vai implicar muita deslocação, muitas horas a andar de carro, a região é muito grande e portanto, eu e o presidente já dividimos mais ou menos aqui o território. Eu ficarei, de grosso modo, mais perto com o Médio Tejo, o Oeste, a Beira Baixa e a Serra da Estrela e ele ficará com as regiões de Viseu, Guarda, Aveiro e Coimbra. O meu gabinete irá ficar em Leiria, portanto o Turismo do Centro tem a sede em Aveiro e tem duas delegações, uma em Coimbra e outra em Leiria. O que é que eu acho que vou estranhar muito e já comecei a estranhar nas reuniões que temos tido? As autarquias têm uma autonomia administrativa e financeira muito grande. Se decidimos fazer uma coisa, desde que haja orçamento, fazemos. Ali não, as entidades regionais não têm autonomia administrativa e financeira. Portanto, grande parte das coisas têm de passar pelo Ministério das Finanças. Eu costumo dizer que é mais o mistério das Finanças… deixe dar-lhe um exemplo… eu vou ter de andar com o meu carro pessoal porque os carros da Turismo do Centro estão já muito velhos e são precisos para os trabalhadores e portanto, já está há meses a aguardar para fazer um renting. Portanto, vai sair muito mais caro… vou andar com o meu carro pessoal, e até Leiria não, mas de Leiria até Aveiro terão de me pagar essa deslocação.

Já sabe qual vai ser a sua primeira missão para iniciar na segunda-feira?

Nós começamos na segunda-feira e já temos a semana cheia de reuniões com as outras entidades regionais de turismo, com o Secretário de Estado do Turismo… dividimos territórios, ainda não dividimos pelouros.

Está entusiasmada com este novo desafio?

Sim, é diferente. Eu acho que devemos ter sempre novos desafios. Agora, eu vou estranhar porque ali vou falar só sobre um setor, que é um setor que abrange muita coisa também. O turismo vai desde o operador turístico ao hotel, ao resort, ao restaurante, à questão da qualificação dos trabalhadores… essa eu já sei que fica comigo por causa do meu background no IEFP.

É um setor importante a nível nacional, mas também a nível de Tomar e do Médio Tejo. Com um grande potencial a nível cultural, falamos do Convento de Cristo, falamos de Fátima, mas falamos também da Albufeira de Castelo de Bode, gastronomia, enfim…

Sim, aliás, o enoturismo e a gastronomia é um dos eixos estratégicos que nós temos aqui para o Médio Tejo. Ocorreu uma reunião na semana passada para tentarmos alinhar aqui aquilo que é a estratégia da CIM, com a entidade regional da Turismo do Centro. Nós na região do Médio Tejo só há um produto turístico que nós não temos, que é o mar, porque não temos. Agora, falamos na Albufeira de Castelo de Bode e das primeiras coisas que vamos fazer é marcar reuniões com todas as CIM e vamos a todas, mas aqui no caso do Médio Tejo, que era uma discussão que já tínhamos iniciado no âmbito da CIM, dizer Albufeira não vende, tem de se chamar Lago. E atenção que a Albufeira de Castelo de Bode apanha a CIM Médio Tejo e a CIM Beira Baixa, porque o concelho da Sertã e Vila de Rei são Beira Baixa. Tem de se dar aqui um naming que é para conseguir transformar isto em produto.

Já foi deputada da nação, 10 anos presidente de Câmara e também presidente da CIM Médio Tejo, mas agora vai abraçar um outro desafio, a entidade do Turismo do Centro, como vice-presidente com funções executivas. O que a motiva para continuar a trabalhar na causa pública?

Eu acho que nós não nos devemos eternizar nas funções. Devemos estar enquanto damos o nosso melhor e portanto, todo o know how que tive aqui, quer na Câmara de Tomar quer na CIM Médio Tejo, que é preciso sempre negociação, tem de ser agora colocado ao serviço da entidade regional. Como disse, passamos de 13 municípios para 100, se a estes 100 municípios acrescentarmos aquilo que são os privados que também são cerca de 58 privados que estão dentro da entidade regional Turismo do Centro, portanto, vai ser desafiante e acho que estava na altura de abraçar mais este desafio.

Uma palavra final para quem consigo privou, partilhou, discutiu, 10 anos na Câmara Municipal de Tomar e estes quase 5 anos na CIM Médio Tejo?

Eu não cheguei a presidente de Câmara nem a presidente da Comunidade Intermunicipal sozinha, portanto em primeiro lugar tenho de agradecer a todos quantos confiaram em mim para estes dois cargos e depois agradecer também às vezes aturarem o meu mau feitio, mas tentámos sempre estar em sintonia e sempre com o foco no objetivo final. Eu também só consegui fazer este percurso, e aqui tenho de falar no meu filho, porque o meu filho não me deu problemas. Porque se alguma vez eu tivesse tido algum problema com o meu filho, ele estaria primeiro sempre. Finalmente, se me permitem, quer como presidente da Câmara Municipal de Tomar, quer enquanto presidente da CIM Médio Tejo, foi um privilégio e uma honra ter desempenhado estas funções.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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