Abrantes celebrou a poesia com Carla Louro e o legado de Nuno Júdice. Foto: CMA

Abrantes voltou a afirmar-se como território de cultura e criação literária ao acolher a cerimónia de entrega do Prémio de Poesia Nuno Júdice a Carla Louro, distinguida pela sua obra de estreia Entra-se na Casa pelo Pátio. A cerimónia decorreu na Biblioteca Municipal António Botto e reuniu literatura, memória e criação contemporânea num mesmo espaço, assinalando simultaneamente a apresentação do livro vencedor e a inauguração da exposição dedicada a Nuno Júdice.

Instituído pela chancela Dom Quixote, do grupo LeYa, o prémio integra as comemorações dos 60 anos da editora e pretende, por um lado, homenagear o legado literário de Nuno Júdice – um dos mais relevantes poetas portugueses contemporâneos – e, por outro, afirmar novas vozes no panorama da poesia nacional.

Nesta primeira edição, o galardão registou mais de duas centenas de candidaturas, tendo o júri – presidido pela poeta e editora Maria do Rosário Pedreira e composto por nomes como Filipa Leal e Ricardo Marques – distinguido por unanimidade a obra de estreia de Carla Louro, elogiada pela sua “extraordinária contenção” e por uma poesia que, sendo clara, evita o simplismo.

Nas palavras dos jurados, “Entra-se na Casa pelo Pátio” é um livro íntimo e profundamente feminino, onde o quotidiano é tratado sem vulgaridade. Destacam-se as metáforas que cruzam as “linhas do poema” com as “linhas de coser”, explorando temas como a maternidade, o luto e a relação intrínseca entre a construção de um texto e a construção de uma casa.

O momento vivido em Abrantes ultrapassou a dimensão formal da entrega de um prémio literário. A apresentação pública de Entra-se na Casa pelo Pátio decorreu perante uma sala preenchida por familiares, amigos e comunidade abrantina.

Em paralelo, a inauguração da exposição “Nuno Júdice – Obra Poética” reforçou a dimensão evocativa da ocasião, oferecendo ao público um percurso pela vasta produção do autor, traduzido em dezenas de países e distinguido com alguns dos mais importantes prémios literários.

Nascida em Santarém, em 1969, Carla Louro é arquiteta e reside em Abrantes desde o início dos anos 2000, cidade onde construiu o seu percurso pessoal e profissional. Apesar de a escrita a acompanhar desde sempre, manteve-a durante décadas no domínio privado.

Entra-se na Casa pelo Pátio reúne poemas escritos ao longo de vários anos, muitos deles resgatados de cadernos antigos e arquivos pessoais, agora organizados num livro que reflete uma dimensão autobiográfica, emocional e profundamente ligada ao quotidiano.

A distinção representa não apenas o reconhecimento de uma obra, mas o início público de um percurso literário que até aqui permanecia invisível.

Foto: mediotejo.net

O Prémio de Poesia Nuno Júdice, destinado a livros inéditos, tem como propósito homenagear o poeta e ensaísta recentemente falecido e “dar à poesia a importância que merece”, afirmou a Dom Quixote aquando da criação do galardão.

Entre a consagração de uma nova autora e a homenagem a um nome maior da poesia portuguesa, Abrantes viveu uma tarde de celebração cultural que cruzou gerações, territórios e linguagens.

Foi nesse contexto, marcado pela emoção e pelo simbolismo do momento, que o mediotejo.net falou com Carla Louro à margem da apresentação do livro, numa conversa onde a autora refletiu sobre o significado deste reconhecimento, o processo de construção da obra e as expectativas para o futuro na escrita.

Está a apresentar este livro em Abrantes, onde vive, tem família e amigos… o que significa para si viver este momento aqui? 

É um enorme orgulho e um privilégio ter hoje aqui a Leya também a entregar o prémio, porque eles optaram por entregar o prémio aqui em Abrantes e isso deixa-me muito feliz. Seguramente vamos ter a casa cheia de amigos e de família. Este prémio é uma grande responsabilidade, eu já disse isso inicialmente e mantenho, porque é mesmo uma grande responsabilidade, mas é também um enorme orgulho e um enorme incentivo. É uma forma de divulgar a poesia, associada a um autor que é um autor maior e que eu admiro muito. Espero muito estar à altura deste momento.  

Esta apresentação cruza-se também com uma exposição dedicada a Nuno Júdice, que tanto admira. Como se sente com essa coincidência? 

Foi uma forma de nós e particularmente eu, de homenagear também Nuno Júdice, que é um autor que eu admiro muito e o facto do prémio ter vindo para Abrantes, de certa forma, é uma retribuição, digamos assim, de Abrantes e nossa, de fazer esta homenagem que tem toda a obra poética de Nuno Júdice exposta. Não tenho ideia de alguma vez ter sido exposta desta forma a obra de um autor. É um autor com traduções em mais de 30 países, com uma obra premiada, com todos os prémios que se podem identificar, ele ganhou imensos… É uma forma nossa de homenagear. Eu acho que a exposição está muito bonita e convido todos a virem ver. Vai ficar até ao final de junho. 

Este é o seu momento de estreia como autora… o que significou para si receber o Prémio de Poesia Nuno Júdice logo na estreia? 

Foi muito especial, muito especial. Eu, curiosamente, não tinha comentado com ninguém que tinha concorrido e quando me ligaram a dizer que era a vencedora, fiquei muito feliz e uma vez mais, com um grande sentido de responsabilidade, porque é um prémio de um autor maior que nós temos, não é? É essencialmente uma grande responsabilidade.  

Como nasceu Entra-se na Casa pelo Pátio? De onde veio a inspiração? 

Este livro tem poemas mais antigos e tem poemas muito recentes. Digamos que foi um bocadinho também uma junção de poemas que eu tinha escrito e que nunca tinha publicado, nunca tinha divulgado. Quando vi o anúncio do Prémio Nuno Júdice fiquei muito motivada, especialmente por ser um autor que eu admiro muito e isso levou-me a juntar alguns dos poemas que tinha. Fui buscar coisas antigas a livros, a cadernos, escrever um ou outro mais recente e decidi enviar… e ainda bem, porque o resultado foi este que estamos hoje aqui a ver e eu estou felicíssima.  

Vem da arquitetura, quando é que a escrita entra na sua vida? 

Sempre esteve presente… Aliás, no livro há alguns poemas que falam disso. Eu, inclusivamente na arquitetura, nunca desenhei muito bem e isso também está lá nos poemas e muitas vezes, quando tinha que desenvolver trabalhos na arquitetura, recorria muitas vezes às palavras, nos esquiços que fazia optava muitas vezes por juntar as palavras. A escrita eu acho que desde sempre esteve presente. Nunca foi exposta, nunca foi divulgada, foi sempre uma coisa muito mais pessoal, mas pronto acho que há sempre um momento para tudo e eu acho que este foi seguramente o momento certo. Pelo prémio que veio, acho que foi o momento certo.  

O livro foi considerado pelo júris “íntimo e feminino”, revê-se nessa leitura? 

Sim, de certa forma, sim, porque tem uma abordagem muito pessoal. Acho que a ata do júri também me deixou assim muito maravilhada, porque toca em pontos essenciais que eu acho que estão presentes.  

Há algum poema ou passagem que destaque particularmente? 

Há vários… O da contracapa, que está no livro, gosto imenso dele. Todos os que têm a ver com a minha filha, a Matilde… o primeiro, porque no primeiro, quando ela me pergunta de que cor são os novelos, acho que foi uma pergunta que levou ao desenvolvimento do poema e que, de certa forma, marcou um bocadinho o início de uma fase de escrita mais estruturada, diferente, com outra abordagem. Portanto, esse primeiro é um poema que eu também gosto muito.  

Carla Louro. Foto: mediotejo.net

Depois deste prémio e desta estreia, sente que este é o início de um caminho na literatura? 

Eu espero que sim. Como disse, este prémio foi um grande incentivo. Agora preciso de uma pausa e vamos também trabalhar na divulgação do livro, vou ter de ir a outros lugares… mas sim, já tenho umas ideias que gostava muito de desenvolver. Vamos ver, sem pressão, mas gostava muito de continuar, como é óbvio.  

Se tivesse de definir este livro em três palavras, quais seriam? 

Ui… Entra-se na Casa pelo Pátio, acho que é isso. 

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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