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Os trabalhadores da Agência Lusa vão estar em greve esta quinta‑feira, 12 de março, e o que os mobiliza para este protesto vai muito além de uma reivindicação laboral: é um alerta para o risco que paira sobre a independência editorial da única agência de notícias portuguesa e, consequentemente, sobre a saúde democrática do país.

A direção do mediotejo.net afirma a sua solidariedade com esta greve e com a defesa intransigente da separação do poder político do serviço público de informação.

Nos últimos meses, foi desenhado um processo de reestruturação da Lusa marcado pela ausência de diálogo com os jornalistas. Os novos estatutos, publicados a 28 de janeiro, introduziram um modelo de governação que enfraquece claramente a sua autonomia: a administração passa a ser escolhida diretamente pelo Governo; o Conselho Consultivo é politizado; e a Direção de Informação pode ser chamada a prestar contas ao Parlamento. Estas alterações, no seu conjunto, tornam a Lusa perigosamente dependente do poder político – exatamente o oposto do que prevê a Constituição portuguesa no que à liberdade de imprensa diz respeito.

Além disso, a reestruturação em curso prevê a saída de mais trabalhadores, a possível deslocação da redação de Lisboa para as instalações da RTP e a criação de “sinergias” que podem obrigar jornalistas a trabalhar para vários meios de comunicação, diluindo missões editoriais distintas. Nada disto reforça a Lusa ou serve o jornalismo. Muito menos o interesse público.

Para os jornais regionais, como o mediotejo.net, a Agência Lusa presta um serviço insubstituível. É uma fonte de informação independente e verificada; é um apoio essencial às redações locais, cada vez mais pequenas e depauperadas, assegurando a cobertura de muitos acontecimentos institucionais e os chamados “serviços de agenda” em cada região; e é também, quase sempre, a garantia de que o país “para lá de Lisboa” existe também no mapa mediático nacional.

Uma Lusa fragilizada tornará o interior do país ainda menos visível e menos escrutinado. O caminho não pode passar pela redução de equipas e pela aproximação dos objetivos da Agência aos interesses do Governo. O caminho, reivindicado como urgente há muito tempo, terá forçosamente de reforçar a rede de correspondentes locais, garantir vínculos estáveis a esses jornalistas (muitos deles trabalham há anos em condições precárias) e assegurar que qualquer mudança se fará com transparência, participação alargada e foco na sua missão essencial – o serviço público.

O jornalismo livre e plural não é um capricho de meia dúzia de jornalistas – é um pilar fundamental da democracia.

Sempre que um governo, seja ele qual for, tenta redesenhar a comunicação social pública sem ouvir quem nela trabalha diariamente e passando sem pudor por cima das linhas que separaram os poderes políticos e económicos dos editoriais, a sociedade deve reagir. Hoje, esse alerta chega-nos dos trabalhadores da Lusa. Cabe‑nos a todos ouvi‑lo.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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