Na Península Ibérica o final do ano 2015 levou uma certa Esquerda a descobrir que podia negociar no momento pós-eleitoral e uma certa Direita a descobrir que elegem-se deputados parlamentares e não Primeiros-Ministros. A Democracia, no seu esplendor, deixou de se reduzir ao minimalismo eleitoralista e com isso veio muita confusão e abriram-se na Península Ibérica tempos novos.
No Tajiquistão, estado da Ásia Central que partilha fronteiras com o instável Quirguistão, com o turbulento Afeganistão, com o autocrático Uzbequistão e com a não-tão-democrática China, optou-se por uma via mais simples. Reduzir o eleitoralismo, que nunca trouxe (como profetizavam alguns peritos anglófonos!) a dita democracia, à escolha dos representantes parlamentares. Os mesmos representantes cujo poder empalidece face à figura presidencial.
Emomali Rahmon, Presidente desde 1994 (tendo sido antes Presidente da Assembleia Suprema do Tajiquistão, ou seja, uma espécie de Presidente interino, entre 1992 e 1994), fez-se nomear “Presidente para a Vida” inscrevendo essa bonita norma, que diz Rahmon será garante de estabilidade política no país, na Constituição da República do Tajiquistão.
Para quê ir a eleições de X em X anos se o Presidente em exercício de funções nos últimos 24 anos tem sido sempre o mesmo? E, se a populaça nem sequer se rebelou, para quê alterar o que parece funcionar? O serenar do eleitoralismo pelos lados do Tajiquistão não aconteceu, obviamente, de um dia para o outro.
A 10 de Dezembro de 2015, o mesmo Presidente, que ainda não o era de modo permanente, fez aprovar uma lei no Parlamento Tajique que garantia a si e a toda a sua família imunidade jurídica permanente estivesse, ou não estivesse, em exercício de funções. Nestas coisas da imunidade mais vale não correr riscos, terá pensado Rahmon…
Um dia antes, portanto a 9 de Dezembro de 2015, já Emomali Rahmon tinha sido agraciado com o bonito título de “Líder da Nação”. O mesmo título com que o seu colega Nursultan Nazarbayev, Presidente do Cazaquistão, fora agraciado em 2010 e semelhante ao título de “Protector da Nação” que, também em 2010, foi concedido a Gurbanguly Berdymukhamedov, Presidente do Turquemenistão.
Em boa verdade, Emomali Rahmon está apenas a assumir a natureza autocrática e nepotista do regime que encabeça desde 1992. Depois da farsa eleitoralista, para agradar aos Ocidentais que venceram a Guerra Fria, veio o realismo político de quem pouco depende do Ocidente, quer política quer economicamente. Politicamente, Rahmon sabe que enquanto agradar a Moscovo e a Pequim a tranquilidade governativa está assegurada.
Já economicamente, o Tajiquistão depende em mais de 40% no comércio feito com a Rússia, a China, o Irão, o Cazaquistão e o Afeganistão; nenhum dos quais se afigura como baluarte dessa tal de democracia, por vezes tão relevante para Washington e Bruxelas. E se é verdade que o comércio com a Turquia é especialmente relevante, sendo de resto o estado para o qual o Tajiquistão mais exporta e o sexto estado do qual mais importa, não é menos verdade que para a Turquia de Erdoğan importa pouco o tipo de regime comandado por Rahmon.
E assim Emomali Rahmon, Presidente para a Vida e Protector da Nação, vai devolvendo a República do Tajiquistão à autocracia da Dinastia Shaybanida, estabelecida em meados do século XV por Muhammad Shaybani, neto do mítico líder mongol Chinggis Khan. Ao ritmo a que vão as coisas por Dushanbe (que este ano até baniu as celebrações de Natal e do Ano Novo!), ainda vamos descobrir que Rahmon faz parte da mesma linha dinástica…
