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Quatro anos depois, Joana regressou às origens familiares, no Sardoal, e começou a marcar presença em feiras, aproximando o projeto do território onde tem raízes. Em agosto de 2025, após 17 anos ligados à gestão de marketing, decidiu dar o passo seguinte e dedicar-se profissionalmente, a tempo inteiro, ao artesanato. Nas Festas do Concelho, que decorrem até 22 de setembro, apresenta novas peças, novas cores e a “Maria Esperança”, integrada numa coleção que nasceu de uma história com forte cunho pessoal.

A relação de Joana Brízida com o artesanato começou muito antes de este se tornar a sua profissão. A criatividade, conta, acompanha-a desde criança, quando aproveitava os retalhos da costura da mãe, Luísa Marçal, para fazer roupas para as bonecas Barbie. Nunca aprendeu verdadeiramente a costurar – “para desgosto da minha mãe”, brinca -, mas foi encontrando desde cedo formas de criar.

A ideia de transformar essa criatividade num negócio surgiu em 2020, durante a pandemia. Joana encontrava-se em Angola, onde as restrições dificultavam as deslocações, e procurava também uma atividade que lhe permitisse ocupar o tempo. Foi nesse contexto que desafiou a mãe, natural da Cabeça das Mós, no concelho de Sardoal, a criarem uma marca de acessórios femininos e assim nasceu “Isto é da Joana”.

“Eu queria uma coisa minha”, recorda. Na altura, Joana procurava bandoletes, mas não encontrava em Angola o tipo de acessórios que conhecia de Portugal. Existiam fitas semelhantes a turbantes, mas não as bandoletes que pretendia. A solução passou por fazê-las com as próprias mãos.

O projeto começou assim pelas bandoletes e, pouco depois, cresceu para outros acessórios. Luísa começou a produzir pregadeiras, ganchos e chapéus e, no inverno, gorros. Enquanto a mãe geria a produção em Portugal, Joana tratava das redes sociais a partir de Angola.

As decisões sobre as peças eram tomadas à distância. Todas as noites havia conversas sobre os modelos, as cores, as pedras e os detalhes. “Era tudo feito por videochamada”, conta. A intenção inicial era criar peças únicas, exclusivas, sem duas exatamente iguais.

Ao longo dos primeiros anos, a marca foi crescendo em paralelo com a atividade profissional de Joana. Durante 17 anos, trabalhou na área da gestão de marketing, chegando ao cargo de diretora de marketing. O artesanato, porém, continuava a desenvolver-se.

Em 2024, regressou a Portugal e decidiu instalar-se na Cabeça das Mós, onde tem as suas origens familiares. Foi também nesse ano que participou pela primeira vez nas Festas do Concelho de Sardoal. A experiência abriu caminho a outras participações. Seguiu-se uma feira de Natal em Constância e, em 2025, voltou a participar nas festas daquele concelho, na altura da Páscoa. Desde então, a presença em mercados e feiras tornou-se uma constante

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A decisão de passar a dedicar-se exclusivamente ao artesanato chegou em agosto de 2025. Até então, Joana conciliava a marca com o trabalho ligado a Angola. “Chegou a um ponto em que eu disse: não, vou-me dedicar mesmo agora 100%, que é isso mesmo que eu quero.”

Hoje, a agenda é preenchida por feiras e mercados de norte a sul do país, sobretudo aos sábados e domingos e, por vezes, também durante a semana. O ritmo é intenso ao ponto de Joana estar agora a tentar reservar um fim de semana por mês para descansar.

A marca mantém nos acessórios uma das suas áreas principais, mas entretanto ganhou uma vertente dedicada à decoração. Essa segunda área surgiu em 2025, também ligada a uma necessidade pessoal. Depois do stress acumulado no trabalho, Joana procurou uma atividade que lhe permitisse desligar.

Fez um workshop de resina sustentável e percebeu que, enquanto trabalhava nas peças, conseguia abstrair-se dos problemas. “Quando estava a fazer as minhas peças, eu esquecia os problemas”, explica a artesã.

Começou a produzir cada vez mais, até que percebeu que tinha acumulado demasiadas peças para oferecer a familiares e amigos. Foi então que decidiu juntar a decoração aos acessórios e levá-la também para as feiras.

Surgiram porta-velas, bases para incensos, guarda-joias, corações e jarras, entre outras peças. Mais tarde, acrescentou bases para anéis e copos para pincéis, pensados também como objetos que pudessem ser oferecidos.

A criação é feita em conjunto com a mãe nos acessórios, embora com gostos diferentes. Joana prefere peças mais simples, Luísa tende para propostas mais elaboradas. As duas discutem ideias, cores e materiais até chegarem a um entendimento. Para as Festas do Concelho, essa discussão criativa deu origem novidades, nomeadamente à utilização de novas cores nas bandoletes criadas.

Uma bandolete pode demorar cerca de um dia a ser concluída, entre o processo criativo e a confeção manual. A mãe é responsável pela costura, feita integralmente à mão.

As ideias surgem de diferentes formas. Às vezes resultam de algo que veem e que serve de inspiração; outras vezes partem dos materiais disponíveis. “De acordo com o material que temos, vamos fazendo as nossas próprias criações”, explica Joana.

As “Marias” nasceram de uma história com um cunho pessoal

Entre todas as peças que Joana produz, há, contudo, uma coleção que ocupa um lugar diferente: as “Marias”.

O projeto começou a ganhar forma entre o final de 2025 e o início de 2026, depois de Joana ter passado por tratamentos de fertilidade e tentativas de engravidar que não resultaram. Conta que tem endometriose e adenomiose e que a infertilidade acabou por marcar profundamente esse período.

A decoração tinha começado como uma forma de terapia, mas Joana sentia que precisava de algo mais. “Sentia que faltava qualquer coisa para preencher o vazio no meu coração.”

Foi nesse processo que começou a trabalhar numa nova peça, sem saber ainda exatamente onde iria chegar. O resultado foram as “Marias”: bonecas em forma de fada, anjo ou princesa, dependendo da interpretação de quem as vê.

As primeiras cinco nasceram na altura da Páscoa: Maria Amor, Maria Força, Maria Sonhadora, Maria Liberdade e Maria Coragem. Cada uma tem uma cor e uma frase próprias.

A coleção foi crescendo. Em junho chegaram a Maria Luz e a Maria Flor. Depois nasceram a Maria Alegria e a Maria Vida.

A Maria Dança surgiu de uma experiência vivida numa feira no Gavião. Joana estava a vender e, ao mesmo tempo, a dançar, recuperando o gosto por uma atividade que já não sentia há muito tempo. “Falta-me uma Maria Dança”, pensou e rapidamente colocou mãos à obra.

Agora, nas Festas do Concelho de Sardoal, chega a Maria Esperança.

A história desta peça começou ainda em maio, quando uma pessoa pediu a Joana uma Maria de Esperança, verde, acompanhada de uma frase. Joana pensou que estava a criar uma peça para essa pessoa, mas acabou por recebê-la como presente. Guardou-a durante alguns meses. “Eu ainda não estava preparada para ter uma Esperança na vida”, explica.

À medida que outras Marias foram surgindo e Joana foi sentindo uma evolução pessoal, entendeu que chegara o momento de apresentar também a Maria Esperança.

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“Agora está a altura certa para a Esperança nascer.” Até ao final do ano deverão nascer mais duas Marias, ainda não reveladas. Uma será apresentada no início de novembro e outra no dia do aniversário de Joana, sendo esta a última de 2026. Para 2027, já tem outras três pensadas.

Mas as figuras têm para Joana um significado que ultrapassa o produto. “As Marias são a peça que eu mais gosto. São as minhas filhas”, afirma.

O nome também tem uma história. Desde muito nova que Joana sonhava ter um casal de gémeos e que a menina se chamasse Maria. Perante a impossibilidade de ter filhos, decidiu criar as suas próprias Marias.

Cada uma representa uma palavra que a acompanhou durante este processo: amor, força, coragem, liberdade, sonhos, luz, alegria, vida, dança e esperança.

E, depois de saírem das mãos de Joana, começam a ganhar outras histórias. “Há pessoas que levam umas Marias e contam uma história do motivo pelo qual vão levar aquela Maria”, explica.

Parte das vendas destas peças reverte para duas instituições: a Associação Mulher Endo, que apoia mulheres com endometriose e adenomiose, e a Associação Portuguesa de Fertilidade. Para Joana, é uma forma de transformar uma experiência pessoal num projeto que pode também ajudar outras mulheres.

Novas cores e peças chegam às festas do concelho

As Festas do Concelho marcam ainda o lançamento de uma nova coleção de decoração. Algumas das cores já conhecidas e procuradas pelos clientes vão manter-se, entre elas o branco, o rosa claro e a imitação de mármore. Mas haverá também novas tonalidades, como salmão, fuchsia, preto, roxo e tijolo.

A coleção inclui ainda peças novas. Mantêm-se o porta-velas em forma de flor de lótus, os corações e a jarra com tubo de ensaio para flores naturais. A estes juntam-se um novo guarda-joias, taças multifuncionais e o mikado: “era a peça que faltava”, explica Joana. A ideia é disponibilizar uma alternativa para perfumar a casa, destinada também a quem não gosta de velas ou incensos.

Joana acrescentou ainda novas técnicas à resina sustentável, incluindo mosaicos e a utilização de resina UV combinada com outros materiais.

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Apesar da diversidade de produtos, as Marias continuam a ser as peças de que mais gosta. A jarra com tubo de ensaio também ocupa um lugar especial e, neste momento, o mikado é outra das criações que mais prazer lhe deu durante o processo criativo.

A decisão de transformar o artesanato na sua atividade profissional trouxe também novas preocupações. Para Joana, a principal dificuldade está nas vendas. “Eu vivo dos mercados”, explica.

Isso significa depender do público que aparece em cada feira, do que procura e da disponibilidade financeira de cada pessoa naquele momento. Joana considera que as vendas têm vindo a cair desde 2025 e que em 2026 sente um contexto ainda mais difícil.

A concorrência também existe, embora seja menos expressiva nos acessórios de moda, onde identifica sobretudo as bijuterias como concorrência. Na decoração, aponta o crescimento da impressão 3D como um desafio.

Enquanto as suas peças são feitas manualmente em resina sustentável, existem atualmente peças semelhantes produzidas através de impressão 3D. Para Joana, a possibilidade de reproduzir modelos desta forma acaba por permitir preços diferentes dos praticados no trabalho artesanal.

Apesar de depender sobretudo das feiras e mercados, a marca também vende através do Instagram. Tem ainda um ponto de venda no Espaço Cá da Terra, no Sardoal, e outro na loja de artesanato da Associação Arte & Abrantes, no Mercado Municipal de Abrantes.

Um futuro que passa pela criação de um atelier no Sardoal

A próxima etapa passa pela criação de uma loja online, que Joana gostaria de lançar até ao final do ano. O projeto estará sobretudo vocacionado para a decoração, uma vez que os acessórios são peças únicas e, por isso, mais difíceis de reproduzir exatamente.

Mas há outro projeto que Joana Brízida gostaria de concretizar: ter um atelier próprio no Sardoal. “É a minha terra, acho que não devo sair daqui.” A ideia passa por criar um espaço onde possa trabalhar e vender, mas também separar o local de trabalho da casa. E há espaço nesse projeto para a mãe.

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Joana gostaria de juntar no mesmo atelier a sua atividade e a costura de Luísa, que atualmente trabalha a partir de casa. Não sabe ainda se será possível concretizar o projeto em 2027. É, no entanto, uma das metas que mantém para o futuro.

Por agora, as Festas do Concelho são mais uma etapa no percurso de uma marca que começou com duas pessoas, uma videochamada entre Angola e Portugal e uma primeira bandolete. Seis anos depois, há acessórios, decoração, uma coleção de Marias com histórias próprias e novas peças a nascer. E, entre elas, a Maria Esperança que chega agora às festas do Sardoal.

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Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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