Abri as pastas das minhas memórias e vi os meus retratos do início do ano. Queria rever o que tinha fotografado na altura, estávamos muito perto do confinamento (sem sabermos) e estava curioso para atiçar a memória desses dias.
Dos vários instantes que encontrei, parei neste, eternizado nos Moinhos de Entrevinhas, em Sardoal, ao fim da tarde do dia 12 de fevereiro, praticamente um mês antes da entrada de Portugal em estado de emergência.
E hoje vi ali um anúncio de tempestade, de dias cinzentos com manchas de fogo suficientes para nos consumir a liberdade e o prazer de viver como até então. O que me pareceu belo naquele dia, hoje pode ter adquirido outra leitura.
A fotografia pode fazer isso mesmo, fazer-nos reler o passado dando-lhe novo sentido sempre que é vista ou lida.
No entanto esta fotografia vai continuar assim, imutável, com as mesmas nuvens cinzentas de inverno e o mesmo sol que teimava em aquecer a minha alma, como que à espera que eu lhe volte a encontrar algo de belo, como naquele dia.
*Fotografia: Moinhos de Entrevinhas, Sardoal, fevereiro de 2020
