Paulo Antunes é também já uma figura incontornável quando falamos da modalidade de triatlo no contexto nacional e europeu. Professor de educação física, atividade que exerceu durante três anos, foi o grande impulsionador da prática de triatlo em Torres Novas ao criar, em 2009, a Escola de Triatlo do Clube de Natação de Torres Novas.
Ao nosso jornal, começou por recordar um passado e uma ligação à prática desportiva que se iniciou ainda na infância, aos 4 anos, também ele enquanto atleta do CNTN. Natural de Torres Novas, concelho onde cresceu e se formou, partiu aos 18 anos para a capital, tendo ingressado no Centro de Alto Rendimento do Jamor, local onde viria a treinar os seus atletas anos mais tarde.
A paixão pelo triatlo levou-o a grandes conquistas, tendo conquistado o título de campeão nacional enquanto júnior e, mais tarde, no escalão de sénior. Por concretizar ficou o sonho de participar naquela que é a prova rainha do desporto: os Jogos Olímpicos.
Em agosto de 2024 viria a ser concretizado, desta vez enquanto treinador, ao acompanhar os atletas Ricardo Batista e Maria Tomé aos Jogos Olímpicos de 2024, que se realizaram em Paris (França).
O mediotejo.net esteve à conversa com o profissional de 46 anos que é já o responsável por formar atletas de sucesso, que têm levado as cores e o nome do clube e do concelho torrejano até aos quatro cantos do mundo, contando com 11 medalhas de ouro, 17 de prata e 15 de bronze.


Foi em 2009 que criou a Escola de Triatlo de Torres Novas, à qual se dedicou em full-time, deixando para trás a carreira de docente.
“Em 2009 optei por criar a escola de Triatlo de Torres novas, onde só quis enquadrar atletas da formação, ou seja, não quis estar a começar por atletas já formados, que já sabiam nadar, andar de bicicleta ou correr… eram mesmo muito pequeninos”, recorda.
O objetivo passava por “formar atletas” e “dar-lhes todas as ferramentas e competências” necessárias para evoluírem na modalidade. Paulo Antunes afirma que para garantir o sucesso, foi montado um “plano de carreira ambicioso”, tendo os atletas passado por várias etapas. O trabalho deu frutos e permitiu-lhe formar atletas de “grande nível” que ainda hoje treina no Centro de Alto Rendimento.
“Atualmente estão comigo, nomeadamente aqueles que são uma referência em Torres Novas, como o Ricardo e o João Nuno Batista, o próprio Gustavo do Canto, o José Vieira que neste momento já não está… atletas que começaram comigo desde muito novos, passaram por toda esta formação e ainda estão ligados ao alto rendimento”, explica.
De Torres Novas partiram, na maioria, rumo à capital, tendo integrado as seleções nacionais e obtido títulos que o treinador considera serem “muito importantes”, como o título de campeão europeu e do mundo e ainda o 6º e 11º lugar nos Jogos Olímpicos, o que permitiu à escola torrejana conquistar dois diplomas.


Olhando para trás, Paulo Antunes recorda um passado de constante crescimento, suportado por uma “grande ambição”.
“Eu sou muito ambicioso naquilo que faço e por isso mesmo é que também deixei de dar aulas na escola, porque sabia que era impossível ter o compromisso diário com os atletas se não tivesse focado a 100%. Os próprios atletas conseguem perceber que esse meu foco faz com que eles também se sentissem mais motivados e que percebessem exatamente o compromisso que eu tinha, eles próprios criaram também esse compromisso”, afirma.
Na base dos resultados de sucesso estão a dedicação e o trabalho, tanto da parte dos atletas como do próprio treinador, em treinos que chegam a alcançar as 25 horas semanais.
“É muita dedicação de parte a parte e os resultados e o trabalho que temos vindo a fazer em conjunto tem vindo a dar este retorno”, afirma Paulo Antunes.
“Para conseguirmos ter resultados é preciso trabalhar muito. Óbvio que temos atletas talentosos, mas se estes atletas talentosos não tiverem uma boa capacidade de trabalho, nunca vão conseguir obter grandes resultados”, acrescenta.
Na base da formação, enquanto ainda crianças, o treinador afirma incutir o “gosto pela modalidade” para que os atletas tenham o “compromisso de sentirem os treinos, de serem felizes naquilo que estão a fazer, na realização das tarefas”, para que estes se superem “treino após treino”.
No entanto e embora exista um trabalho inicial a ser realizado, Paulo Antunes afirma ser percetível alguma predisposição e talento nas crianças e jovens que chegam aos seus treinos. O restante é fruto de “muito trabalho”.
O CNTN conta hoje com as modalidades de natação e triatlo, onde estão inscritos 150 atletas, sendo 76 da secção de Triatlo e 26 da Escola de Triatlo, com idades entre os 7 e os 15 anos.

“É criar rotinas que permitam que os triatletas talentosos consigam trabalhar para conseguir obter os melhores resultados possíveis. E todos eles fazem parte disto, sejam eles atletas com talento e atletas com menos talento, porque todos juntos fazem a diferença. Aqueles atletas que não têm tão bons resultados, não deixam de ser também atletas muito importantes, vão conseguindo superar-se a eles próprios e conseguem fazer bons resultados, mas também são muito importantes para aquilo que é um bom funcionamento de um grupo. Muitas vezes os grupos de trabalho ajudam a que os resultados apareçam de forma individual em um ou outro atleta”, explica.
Atualmente o Clube de Natação de Torres Novas tem 150 atletas inscritos, contando com duas secções distintas – natação e triatlo – mas no passado do clube já existiu também a modalidade de polo aquático. Dos 150 inscritos, 76 pertencem à secção de triatlo e 26 são atletas da Escola de Triatlo de Torres Novas, que forma atletas entre os 7 e os 15 anos.
Paulo Antunes encontra-se ligado a Lisboa, já há cerca de 3 anos, onde treina um grupo de cerca de 15 atletas diariamente no Centro de Alto Rendimento do Jamor. “Deixei de fazer as viagens de Torres Novas a Lisboa e aqueles atletas de Torres Novas que se vão formando e que procuram a faculdade, acabam por depois se juntar à equipa neste nesta estrutura”, explica.

Embora ingressem na Escola de Triatlo de Torres Novas, nem todos têm uma formação ligada ao Clube de Natação de Torres Novas, como é o caso de Maria Tomé, atleta que é treinada há cerca de cinco anos por Paulo Antunes.
“A partir do momento em que os atletas ingressam numa faculdade, se tivermos uma estrutura de treino próxima da faculdade, acaba por ser muito mais fácil conseguir conciliar as duas coisas. Em Torres Novas nós não temos faculdades, havendo o Centro de Alto Rendimento que nos permite ter as condições essenciais, inclusive com uma residência para eles ficarem, permite-nos trabalhar com uma qualidade maior. Não só em termos de infraestruturas, mas também na parte da recuperação, onde temos um departamento médico ao nosso dispor e acabamos por ter aqui uma série de valências que ajudam a potenciar o alto rendimento”.
Falta de apoios é um obstáculo à concretização de “sonhos”
Quanto aos apoios, Paulo Antunes considera que estes “são sempre curtos”, embora alguns atletas contem com alguns “apoios pontuais”. “O clube vai vivendo um bocadinho também dos resultados que são obtidos no alto rendimento, porque acaba por haver alguns subsídios externos que acontecem quando se obtém um título de campeão europeu ou do mundo”, explica.
Os apoios por parte da autarquia revelam-se “curtos” para aqueles que são os sonhos de um pequeno clube com “grandes ambições”. “Neste momento estamos à procura de apoios que nos possam dar uma profundidade maior ao Clube de Natação de Torres Novas, neste caso à secção de Triatlo de Torres Novas”, afirma.
“Já não somos só uma escola, somos um clube que realmente tem muitas ambições, que obteve resultados a nível mundial e obviamente que para chegarmos a este patamar precisamos de mais condições”.
Reconhecendo que o clube alcançou um “patamar muito elevado”, Paulo Antunes acrescenta que continuar a ter atletas com resultados de excelência nos quadros depende da capacidade de “profissionalizar um pouco a estrutura e dar condições dignas do valor que eles têm apresentado. Por isso, gostaríamos de obter mais apoio de algumas entidades torrejanas”.

“Para nós era um motivo de grande orgulho, porque consideramos que somos uma bandeira da cidade e que nos últimos tempos, com os resultados obtidos, fomos muito falados, inclusive pelo facto de sermos um clube pequeno, que tem resultados de clube grande”, afirma o treinador.
Paulo Antunes não deixa de agradecer as “pancadinhas nas costas” e os “parabéns pelas conquistas”, mas sublinha que sem as ferramentas necessárias para continuar a evoluir, o clube não terá condições para lutar com atletas de outras nacionalidades “que têm condições completamente distintas das nossas”.
“Para nos deixarem continuar a sonhar, precisamos que as estruturas, as empresas ou que própria Câmara apoiem de uma forma mais proativa o nosso projeto”.
Paulo Antunes
“Aquilo que nós pretendemos é que os atletas que que sejam bons, que tenham boa capacidade de trabalho e que tenham talento, comecem a ser apoiados e que consigam fazer as suas opções, de uma forma mais precoce, mas sem nunca deixarem de descurar aquilo que é a escola, porque muitas vezes é a escola que depois vai dar também a estabilidade mais tarde”.
De Torres Novas a Paris e a conquista de dois diplomas olímpicos
Se para um atleta o “sonho maior” é o de conseguir chegar aos Jogos Olímpicos, para um treinador é o de ver o resultado de anos de formação a “darem frutos”. Foi o que aconteceu com Paulo Antunes e Ricardo Batista, numa história que se iniciou há cerca de 13 anos, momento em que treinador e atleta passaram a trabalhar juntos.
“Foi passar a juventude, a adolescência e agora já a maioridade a trabalharmos juntos, sempre com um plano de carreira bem elaborado, em que em que nunca se saltaram as etapas. Foi sempre evoluindo, nunca deixou de ter resultados positivos dentro dessas várias etapas”, recorda.


Também Maria Tomé, embora mais recentemente, iniciou um trabalho com Paulo Antunes que viria a culminar, em 2024, com um 11º lugar nos Jogos Olímpicos, momento que colocou à prova os melhores atletas mundiais da modalidade e onde a portuguesa se destacou, levando o nome do Clube de Natação de Torres Novas aos quatro cantos do mundo.
Para resultados de sucesso, Paulo Antunes afirma ser fundamental, para além do trabalho e dedicação, a “cumplicidade” que existe entre atletas e treinadores. “É fundamental para que as coisas funcionem e é preciso ouvir sempre um ou outro”.
Quando ao percurso que levou os dois atletas até aos grande palco, o treinador afirma que aconteceu de uma forma “quase natural”, em que a capacidade de trabalho aliada ao talento dos jovens, se traduziu numa estreia olímpica que afirmou ter sido “extraordinária”.
As ambições para a prestação de ambos os atletas na prova foram superadas, deixando Ricardo Batista e Maria Tomé “muito satisfeitos e muito felizes” por representar o concretizar de um sonho com “resultados extraordinários”.
Questionado sobre o momento e o que este representa enquanto treinador, Paulo Antunes afirma ser o resultado de “um trabalho que acontece há muitos anos” e que o deixa com um “sentimento de missão cumprida”.
“É um sentimento também de um sonho realizado para mim, uma vez que não consegui ir como atleta. Para mim é um motivo de grande orgulho, vê-los conseguir atingir um patamar de excelência, que é o que acabou por acontecer”, acrescenta.


Quanto a agradecimentos, o treinador não esquece a “estrutura familiar” que, embora se ausente por longos períodos, entre estágios e competições, mantém sempre um “grande apoio”. “De outra forma as coisas não eram possíveis. Sei também que o clube tudo faz para me dar as condições ideais para que continue a trabalhar com estes atletas. Óbvio que estou muito, muito, muito satisfeito por aquilo que acabou por acontecer”.
Terminados os Jogos Olímpicos de 2024, o treinador olha agora para o futuro com um objetivo em mente: levar três atletas do clube torrejano à próxima edição dos jogos, que acontece em Los Angeles, em 2028, e trabalhar para “ficarmos ainda melhor posicionados”.
Para além disso, os atletas preparam-se agora para competir e conquistar um lugar de destaque nos campeonatos do Mundo, no escalão de elites para Ricardo Batista e em Sub-23 para Maria Tomé.

“O Ricardo tem a ambição, no final do circuito mundial, de ficar no top 5. Está bem posicionado neste momento para conseguir alcançar esse excelente resultado”, afirma.
Para 2028, Paulo Antunes espera levar também a Los Angeles o atleta João Nuno Batista, irmão de Ricardo Batista e que este ano se sagrou bicampeão da Europa. No ano passado, João Nuno conquistou também o primeiro lugar no campeonato mundial, título que procura agora defender.
“Depois de ter sido campeão do mundo, até aos Jogos tudo pode acontecer e o João Nuno pode inclusive aparecer nos próximos Jogos Olímpicos muito competitivo”, sublinha o treinador.



