Os leitores façam o favor de não pensarem que o clima de pandemia toldou o juízo deste cronista habitualmente sisudo levando-o agora a provocar risadas como o Bruno Nogueira provocou no Campo Pequeno aos milhares de espectadores, incluindo o Professor Marcelo defensor da soledade individual, porém seguidor da sentença de Frei Tomás, faz o que ele manda, não faças o que ele faz.

Escrever sobre banquetes pode parecer disparate, no entanto, julgo não ser, apesar da falta de cuidado de pessoas empenhadas em festejar a estralhaçar um porco no espeto ou num aniversário de um parente.

Ao longo dos milénios os banquetes distinguem actos grandiosos de cunho político, religioso, desportivo e social e/ou na esfera do privado acontecimentos marcantes na vida das famílias, das amizades.

Escrevi um livro onde aludo a um banquete na Babilónia onde os convidados superaram os 78.000, durou uma dezena de dias, tendo sido consumidas milhares de animais: cabritos, cordeiros de pastagens e de estábulo, gamos, bois, aves, peixes, leirões, leitões e porcos. Um bródio total.

Já os banquetes em honra dos laureados com o Prémio Nobel participam em banquetes onde comparece o Comité Nobel, a família real e uns 1300 convidados. Os banquetes deste género, mesmo nos tempos correntes, obrigam a vestimenta apropriada. José Saramago recusou envergar smoking num festim desse género realizado no Rio de Janeiro, porém, quando recebeu o prémio da Literatura, ia todo aperaltado a significar que tal como escreveu um notável escritor que todos os homens são iguais…, também os banquetes são iguais, mas uns mais do que outros.

Os banquetes marcam a história e a história marca os banquetes, o astucioso político Talleyrand quando o rei lhe perguntou o que precisava para vencer duras negociações disse a Luís XVIII precisar apenas dos melhores vinhos franceses e comidas requintadas porque a contenda diplomática iria durar muitos meses. E duraram. O sagaz ministro e primeiro-ministro (sobreviveu ao terror, ao grande medo), conseguiu os seus intentos provocando a admiração da Europa política.

Por cá os banquetes de «estirpe» popular não suscitam cerimonial apurado, recordo o realizado no dorso da ponte Vasco da Gama aquando do corte da fita inaugural por Cavaco Silva, tendo sido servida uma feijoada, o Professor Cavaco é frugal e a feijoada provoca digestões pesadas e mal cheirosas. Já Dom Pedro I manda assar bois no meio da rua, depois cada qual servia-se, bebia quanto lhe dava na gana e todos bailavam até se cansarem, incluindo o moço da afeição do rei até ser castrado. O rei cujo cognome Cru ou Cruel fez jus à designação, um antepassado de José Pacheco Pereira sofreu a dita crueldade ficando sem o coração retirado do seu corpo pelo próprio monarca.

No decurso do Estado Novo o forreta Oliveira Salazar oferecia banquetes requintados aos convidados estrangeiros, célebres os celebrados em honra da jovem rainha Isabel II, ainda vive e apreciadora de vinhos portugueses, do Ribatejo, e os finos do Porto que vêm dos socalcos do Douro. Porque a crónica vai longa não evoco os ágapes religiosos. Fica para outra crónica. Porque o medo guarda a vinha, vou saboreando banquetes a duas pessoas, singelos, mas saborosos. Espero que quem me lê, proceda da mesma forma.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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