Miliário, em Atalaia. Foto: Fernando Freire

A atual vila da Atalaia, em Vila Nova da Barquinha, está situada na encosta de monte donde lhe provém o seu nome.  A origem toponímica é árabe: At-tali’a, Ata-laã, Atalaya, Atalaia, isto é, monte donde se pode vigiar ou atalaiar ou pequena torre levantada em monte ou saliência para vigiar os inimigos.

Com vestígios comprovados no vale da ribeira de Atalaia, na Ponte da Pedra, onde se encontram indícios de instrumentos líticos que vão do homem de Neandertal (300 mil anos), ao homem moderno (24 mil anos), podemos assegurar que a Atalaia era ocupada desde os tempos do paleolítico (1).

Este território tem a ventura de ter uma posição geográfica central. Nele foi fácil construir vias de comunicação que aproveitaram a altitude dos terraços e as massas de água circundantes. Do lado poente corre a ribeira da Atalaia, em antanho também designada por ribeira da Ponte da Pedra ou ribeira da Cardiga. Do lado sul corre o rio Tejo que depois de calcorrear montes e rasgar vales abraça a borda de água na Barquinha.

O Tejo sempre foi além de fronteira natural, um corredor de comunicação entre as terras altas e as terras baixas e as lezírias. Dum lado começava o norte e do outro iniciava-se o sul daí que não se estranhe que a nossa região tenha sido ocupada, também, desde a antiguidade por diferentes povos e pelos romanos.

Conta-nos o General João de Almeida (2): “ … sendo que de crer que tivesse sido ocupada por Alanos, Visigodos e Muçulmanos. No cimo do monte denominado Atalaia, que se levanta a nordeste da antiga Vila da Atalaia, situada a 3 km noroeste da margem direita do Tejo, na vila da Barquinha, existem ainda os vestígios de uma antiga fortaleza. Dada a sua natureza e situação e o valor militar da posição, e tendo-se em atenção os enormes vestígios ainda existentes, em especial da dominação romana, em toda esta região, é de presumir que na origem tivesse consistido num castro lusitano, do começo da época dos metais. Os Romanos teriam tomada a fortaleza lusitana no ano 100 a.c., restaurando-a e remodelando-a segundo a sua técnica castrense e fazendo dela uma forte base militar da sua ocupação e importante centro administrativo”.

Sabemos que foram os legionários romanos que, com a ajuda das populações locais, iniciaram a construção de uma rede de estradas e pontes para unir as cidades mais importantes e permitir uma ligação rápida à capital do império, Roma. Muitas dessas estradas e pontes ainda hoje existem. Recorda-se que o Itinerário de Antonino ligava Braga (Bracara), ao Porto (Cale) e a Lisboa (Olisipo), tinha 361.5 km e passaria pela Atalaia, na atual rua Luís Picciochi, onde se vislumbra um miliário. Ainda, no nosso concelho podemos, atualmente, vislumbrar outro miliário, em Tancos, na via Tomar-Évora, que atravessava o rio Tejo no cais de Tancos.

     Este território também está delimitado por fortalezas templárias deste o início da nacionalidade. João de Almeida, na obra já referenciada acima, conta-nos que a Atalaia: “ … em 1129 estava já em poder dos Portugueses. Tornando anos depois a cair em poder dos Mouros, foi reconquistado em 1147, por D. Afonso Henriques, que mandou reedificar o castelo medieval. Reconquistado de novo pelos Mouros estes teriam arrasado e abandonado a fortaleza, que ficou completamente despovoada, até que D. Afonso II mandou reedificar o castelo e lhe concedeu foral em 1222… parece que, sendo de novo destruída pelos Mouros, D. Dinis a mandou repovoar e reedificar a fortaleza, construindo-lhe a torre de menagem, e dando novo foral à povoação em 1315. Hoje está totalmente destruída e o monte coberto de mato e arvoredo, mal se pressentindo que ali tivera um forte castelo medieval.”

     Também, Ludovico Menezes (3) acrescenta: «A Guerra quase contínua, dura há quase quatro séculos, entre sarracenos e cristãos. Paulatina, mas tenazmente, vai progredindo a Reconquista. Lutas internas violentas rompem a unidade muçulmana no conjunto dos territórios hispano-marroquinos. Desguarnecendo arriscadamente a Península acodem fortes contingentes almorávidas a Marrocos, procurando sufocar o crescente poder da rebelião almóada. Aproveitando tão favorável oportunidade redobram os reinos cristãos de esforço em sua ofensiva. Corre ao tempo, segundo Viterbo, até hoje não desmentido, a fronteira sul portuguesa de Leiria por Ourém, ao Tejo, cerca do atual Entroncamento, acompanhando, em percurso reduzido o rio até a confluência de Zêzere. Daqui, subindo este último, inflete depois para leste, procurando o Alto Côa. Entre as duas fronteiras, moura e cristã, intercala-se, em léguas de largura, a terra de ninguém. Estende-se a zona de guerra portuguesa do Mondego para o sul e, nela, baliza a sua primeira linha de resistência os castelos de Leiria, Ourém, Cera, Seia e Celorico, o terceiro dos quais hoje destruído, duas léguas ao norte da atual Tomar. Á frente, como postos destacados de vigilância estratégica, parece erguerem-se já sobre o Tejo Médio, num sector de 10 Km os três pequenos castelos de Cardiga, senão, talvez na Atalaia, de Almourol e de Zêzere, este último, a cavaleiro da foz do mesmo rio e em frente do local onde depois se levantará Constância. Figuram esses castelos saliente agudo da cobertura estratégica de Afonso Henriques, apontando sobre o Alentejo. Facto interessante é incluir este saliente dois vaus do Tejo, um, a leste, o da Praia, outro a oeste, o da Barquinha. Separado do primeiro pelo pego do Almourol, comunica o segundo com o mouchão entre o Tejo e a estreita vala do Tejo Velho, vinda do Arrepiado”.

     Atalaia fazia parte da estrutura defensiva templária de Tomar ademais estando junto da estrada real, tal como o Castelo da Cardiga, com a doação em 1156 do Castelo e domínio por D. Afonso Henriques ao mestre da Ordem do Templo, Dom Gualdim Pais, em 1169 guarnecido o Castelo, no final do Séc. XIV transformado em Castelo solarengo tendo sofrido várias alterações ao longo do tempo.

     Na Atalaia há quem defenda que deveria ter existido uma torre donde não restam vestígios. (4) A utilidade dos postos e das atalaias que albergavam pequenas guarnições era detetar a presença do inimigo. Localizada a sua aproximação eram utilizadas fogueiras, fumos ou sinais de reflexos de sol ou toque de sinos para avisar da sua chegada. Assim se podia fazer a recolha de bens e da população sob a proteção dos castelos mais próximos.

A localização estratégica da Atalaia em termos militares é de pura evidência pelo que não me custa admitir que foi sem surpresa que fui encontrar autores a admitir a possibilidade da existência de uma fortificação ou castelo.

     O facto é que este assunto está no limbo, como muitos outros da nossa história.

     Sabemos que todo este território foi local de duros confrontos entre cristãos e mouros.

     A Ordem do Templo detinha na margem direita do Tejo importantes posições estratégicas quer fluviais quer terrenas com o controlo de acessos vitais a Coimbra, a Santarém e controlo das incursões dos povos vindos do sul do rio Tejo.

     Poder-se-á questionar se no atual picoto, ou encosta do telégrafo, local onde se avista o castelo de Ourém, da Cardiga e de Santarém, ou em lugar próximo, existiria uma torre, fortificação ou um castelo.

Atualmente, não existem vestígios de tal infraestrutura embora haja quem defenda que no sítio denominado as Barrosas existem restos de paredes de um antigo castelo (5). 

     Sempre se dirá que este tema não é matéria de fácil esclarecimento, consabido que, por exemplo, e para não irmos mais longe, dos castelos de Cera, freguesia de Alviobeira, e do Zêzere, na freguesia da Praia do Ribatejo – Barquinha, não restam quase nenhuns vestígios da sua presença.

     Cremos que no século XI, na área atual do concelho de Vila Nova da Barquinha, após um primeiro momento de carácter defensivo, surge por parte dos monarcas a determinação de conquista de solo e, obviamente, a (re) construção de torres de vigia e fortificações.

     Esta novel política ofensiva e estratégica advém da desagregação gradual do Califado.

     Igualmente, é decidida uma forte investida contra os muçulmanos, com especial empenho após a conquista de Lisboa em 1147. Em 1169, D. Afonso I confirma à Ordem do Templo a doação que lhe fizera, em 1159, do Castelo de Tomar e seus termos e da Igreja de Santiago de Santarém, doando-lhe também os castelos do Zêzere, da Cardiga e territórios adjacentes. Esta doação, no período da segunda reconquista peninsular, data em que sucedem conquistas significativas aos infiéis, é consequência de forte ação bélica e novas políticas de todos os reinos cristãos da Península Ibérica.

     A luta faz-se contra a incursão e expansão muçulmana na Península e em contra-ataque, através das cruzadas no Oriente, em sucessivos avanços e recuos, atingindo o seu auge nas fronteiras junto do rio Tejo.

     Neste tempo, todas as classes sociais associam-se à luta e daí retiram os seus imensos privilégios. Não podemos descurar que a ocupação do território e a (re) construção de castelos passava, também, pelo repovoamento do território conquistado.

     A Ordem do Templo e os seus cavaleiros tinham nas terras que hoje habitamos um papel determinante.

     Construíram a sua primeira sede em Ceras, no ano de 1159, e posteriormente em Tomar, no ano de 1160. Neste período, assistiu-se à reedificação do Castelo de Almourol (1170), do Castelo de Zêzere na foz do Zêzere, seguindo-se a fundação dos lugares de Golegã e Casével.

     Outrossim, a ação dos cavaleiros do Templo passou a exercer-se ao longo da área geográfica da margem direita do rio Zêzere defendendo parte do Tejo, Tomar, Santarém e Lisboa. Assim, os acessos a Coimbra e Santarém passaram a ser defendidos pelas linhas dos castelos de Tomar e Torres Novas, e de Almourol, Zêzere e Cardiga, ligados por algumas torres de vigia como o da Atalaia e pelos castelos de Torre (Punhete, atual Constância/1158), Pias, Dornes, Ferreira e Castro Carretão (todas de 1160).

     Se existiu fortificação na Atalaia a sua construção seria, provavelmente, anterior à fundação da nacionalidade pelo que esta teria sofrido grandes estragos no decorrer dos séculos, além das devastações que, certamente, os sarracenos lhe aplicaram como é exemplo o castelo de Torres Novas.

Os forais e as Cartas de privilégio da vila da Atalaia

As pequenas vilas do interior foram implementadas junto dos mais importantes troços viários e, politicamente, a sua fundação marcava a apropriação e organização de um território que importava proteger e consolidar. Estávamos no primórdio da nacionalidade e nos primeiros tempos dos municípios. Estes não eram erigidos através de normas legais, mas consequência da afirmação do poder das ordens militares, dos senhorios e feudos num processo que em Portugal designamos por Reconquista.

Primacialmente no século XIII algumas vilas novas ou meãs consolidavam-se pela construção de muralhas. Outras afirmaram-se dispensando a sua construção.

A afirmação da Vila da Atalaia, numa primeira fase da reconquista dever-se-ia à existência da sua Torre de atalaiar, talvez destruída pelos mouros.

Numa segunda fase, na época de D. Afonso II e de D. Dinis, à semelhança das Vilas de Salvaterra, Muge, Cartaxo e Asseiceira afirmou-se devido à sua importância estratégica, atravessamento de boas vias de comunicação, e à complexidade dos tráfegos comerciais realizados através do rio Tejo.

Recorda-se que a abundância das planícies aluviais do Tejo vem da mais remota antiguidade tendo os escritores árabes exaltado a fertilidade dos campos sendo unânimes em afirmar que o trigo que aqui se semeava estava pronto a ceifar-se em poucos dias.

Sabemos que os nossos primeiros reis reivindicavam a propriedade das lezírias tendo por base o direito de conquista e as necessidades de defesa e povoamento.

Pela posse das férteis lezírias digladiaram-se vários senhores.

     A lezíria da Atalaia, pela proximidade das correntes de água, seria muito produtiva como o demonstra as sucessivas doações que eram feitas sobre a propriedade.

     Estamos a referir-nos a um território, que à data, compreendia a terra da Lagoa Fedorenta (entrada poente da vila de Tancos), os portos da Cardiga, das Oliveiras, da Almofala, do Cortinhal, do Prado, dos Sazes, todos termos da Atalaia tendo a vila como limite do lado sul o Tejo “velho” que corria junto da Carregueira. (6)

Em 1251, D. Afonso III atestava a doação da lezíria da Atalaia ao chanceler D. Estêvão Eanes. “ 1251, Abril, 6 – Doação – O alcaide, alvazis e concelho de Lisboa dão carta de vizinhança a Estêvão Eanes, chanceler do rei D.Afonso III, doando-lhe os seus direitos sobre a lezíria da Atalaia.”.  Esta lezíria daria um conflito entre 1280 e 1309 entre o concelho de Santarém e o mosteiro de S. Martinho de Castro e Lourenço Esteves, envolvendo o Rei D. Dinis. Certo é que Lourenço Esteves manteve o usufruto das terras da Atalaia até à sua morte.

Também o Mosteiro de São Martinho de Crasto, em 1278, recebia os dízimos, primícias e avenças pagos pelos fregueses da igreja de São Martinho de Crasto e de Vila Verde, e também a renda de 30 moios de trigo, pagos nas Lezírias da Atalaia, no termo de Santarém (7).

Numa sentença de 1338 que atribuiu a lezíria da Atalaia à coroa o procurador de Santarém apresentava, entre outros argumentos a favor da posse concelhia, ser a dita herdade no seu termo “e que el rej dom Affonso que filhara a vila aos mouros dera a dicta vila com o termho aos moradores de Sanctarem com fforo certo e diziam que o concelho ffilhara a dicta erdade pera ssij e que a mandara ronper e que a deffendera per muytas vezes aos mouros e que dicto logar faziam atalaya e que por esto lhe poserom nome” (8).

Vários documentos contam-nos as quezílias da Atalaia, e da Asseiceira, com os territórios vizinhos e confinantes, a criação de póvoas ou, melhor dizendo, de concelhos, além da procura de letra de lei real para pôr termo aos abusos de que eram vítimas os nossos antepassados e, também, através dela adquirir direitos às suas gentes.

Curioso é saber que D. Isabel de Aragão, a rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, recebeu como dote, em 1281, uma quinta em Torres Vedras e da lezíria da Atalaia. (8)

As primeiras cartas de privilégio e os primeiros forais caracterizavam os tributos diretos e indiretos sobre os bens e havia um complexo pagamento de portagens, passagens e barcagens.

            – Foral de 1222, que é também de Ferreira do Zêzere. No reinado de D. Afonso II, lavra-se o foral que assinala, emblematicamente, a origem da vila da Atalaia uma vez que não se conhece, até ao presente, outro mais antigo. Este tipo de doação, carta de privilégios ou carta de foral, regulava as relações jurídicas dos sujeitos, senhores da guerra e povoadores, para o aproveitamento de bens conquistados bem como o pagamento de tributos. Naquele tempo pretendia-se fortalecer a posse da terra reconquistada através de incentivos ao seu povoamento. Com o desenvolvimento da agricultura, a conquista de matos e terrenos maninhos e a alteração de muitas terras baldias as propriedades ficavam lavradas e geravam riqueza assim se ia implementando uma estratégia de defesa contra os sarracenos.

Carta de 1302 de D. Dinis. Nesta carta há um lugar com o nome de “Soveral da Lameira” não vem referenciado nos Tombos da Ordem de Cristo surgindo apenas a localidade de Lameira, termo de Tomar. Soveral tem o significado de Sobral (mata de sobreiros). Certo é que este local ficaria situado entre a Atalaia e a Asseiceira. O mesmo era frequentado por inúmeros malfeitores, o que comprometia a vida e a segurança dos viajantes. Perante tal facto o rei ordena que façam duas póvoas, uma na Albergaria a que chamam Asseiceira e outra no “lugar” a que chamam Atalaia. À data a Atalaia, pela sua excelsa situação geográfica, era atravessado por uma via terrestre “caminho” como atesta a carta de D. Dinis.

            – Carta de 1303 de D. Dinis. Nesta carta o rei D. Dinis, o Lavrador, reitera que fez edificar três póvoas, a da Atalaia, Tojeira (em frente ao atual Centro de Negócios de Vila Nova da Barquinha) e na Asseiceira, em consequência dos roubos e da morte de muitos viajantes no território compreendido entre a ribeira da Cardiga (ou da Atalaia) e a ribeira de Beselga que corre a norte da Asseiceira e isenta estas populações de certos impostos.

– Carta de 1307 de D. Dinis. O monarca mantém o carácter protetor e combate o furor tributário dos senhores dos concelhos vizinhos de Torres Novas e de Tomar sobre os povoadores a quem queriam obrigar, apesar da carta de 1303, a pagar tributos e ofícios que o rei os tinha isentado.

– Carta de 1325 de D. Afonso IV. Nesta carta D. Afonso IV relembra a luta de seu pai contra a fúria tributária dos senhores dos concelhos vizinhos de Torres Novas e de Tomar impondo vários tipos de impostos, portagens e outros foros e lembra-os que estas populações estão isentas.

– Carta de 1328 de D. Afonso IV à Atalaia. O Rei neste documento, para além de outros assuntos, confirma a veracidade das cartas anteriores dos seus antecessores.

            – Foral de 2 de novembro de 1514 de D. Manuel.  O rei refere que os habitantes não devem pagar nenhum foro, nem tributos, conforme vem do antecedente. Quanto ao Gado de Vento, ou seja, o gado sem dono, o Rei estipula que ele pertence ao Senhorio. Quem apanhar gado e não comunicar no prazo de dez dias cometeu furto desse gado com consequências sancionatórias.

É um título de nobreza de Portugal criado a primeira vez pelo rei D. Afonso V, em 21 de dezembro de 1466. Anos mais tarde, já no reinado de Filipe II de Espanha, voltou-se a conceder, em 1583, este título a D. Francisco Manoel Ataíde (1565-1624), descendente dos Senhores de Salvaterra e de Tancos pelo lado paterno e dos Condes da Castanheira.

No séc. XVII, um dos membros que mais se destaca na História de Portugal é o 4.° Conde de Atalaia: D. Luís Manoel de Távora (1645-1706) que desempenhou várias funções relevantes durante as Guerras da Restauração e pertenceu ao Conselho de Estado e ao Conselho de Guerra de D. Pedro II – Embaixador Extraordinário a Saboia (1675), e Governador da Torre de Belém (1681).

O 1.° Marquês de Tancos, foi D. João Manoel de Noronha, 6.° Conde da Atalaia, título concedido por D. José I, em 1751.

O brasão de armas desta família era um escudo esquartelado, no 1.° e 4.°, em campo de púrpura, um côto de aguia, de ouro, empunhando (com uma mão de homem) uma espada guarnecida de ouro; no 2.º e 3.°, de prata, um leão de púrpura, armado.

Com vimos o topónimo Atalaia é de origem árabe.

Curioso é saber que o nome de Atalaia, para não ser confundida com outras terras de igual designação, teve nos anos 30 do século passado, uma grande controvérsia sobre o seu topónimo.

Existiam povoações com o nome de Atalaia nos seguintes territórios: Barquinha, Gavião, Portel, Alcochete, Loulé, Monção, Câmara de Lobos, Resende, Castelo de Vide. Almodôvar, Faro, Vouzela, Olhão, Ponte de Lima, Grândola, Lagos, Portimão, Campo Maior, Sertã, Angra do Heroísmo, Rio Maior, Vila Velha de Ródão, Oliveira dos Frades, Covilhã, Fafe, Alenquer, Elvas, Azoia de Cima, Marvão e Pinhel. Só no concelho de Santarém há duas povoações com o nome de Atalaia; duas no concelho de Montijo e quatro no concelho de São Tiago do Cacém.

Tínhamos, assim, com o nome de ATALAIA, dezenas de povoações. Mas além destas tínhamos ainda mais Atalaias já devidamente diferençadas ou acrescentadas, e que eram: Atalaia de Baixo, Atalaia de Cima, Atalaia da Barroca, Atalaia do Campo, Atalaia de Catarina Vaz, Atalaia Cimeira, Atalaia de Estêvão Vaz, Atalaia da Fundeira, Atalaia Grande, Atalaia da Guarita, Atalaia do Meio, Atalaia do Morgado, Atalaia Pequena e Atalaia do Ruivo, etc.

Razão mais que suficiente para com base no seu glorioso passado e para poder diferenciar-se destas numerosas quantidades de Atalaias entenderam as autarquias acrescentar-lhe uma nova toponímia. Foi sugerida a designação de ATALAIA DO CONDE, ATALAIA DOS MOUROS, ATALAIA DO MORGADO, ou VILA VELHA DE ATALAIA.

A defesa desta nova toponímia baseava-se na circunstância de estar marcada e nitidamente vincada a posição dos mouros na vila ou por ter sido sede de um condado ou por ser vila mui antiga dos primórdios da nacionalidade. Sobre esta controvérsia há diversos relatos publicados no Jornal “O Moitense”, tendo então Júlio Sousa e Costa, historiador e secretário da Câmara Municipal, defendido, acerrimamente, o nome de ATALAIA DOS MOUROS.

Todavia, veio a ganhar o topónimo VILA VELHA DA ATALAIA, que posteriormente caiu em desuso e, certamente, por não ter sido reconhecido este novo nome à vila pelos governos vigentes à época, entre 1930-1940.

Curioso é que essa toponímia se manteve pelo menos nos usos e memórias populares como é exemplo o emblema da União Desportiva Atalaiense (UDA), donde consta com grande galhardia “VILA VELHA DA ATALAIA”.   

(1)           Oosterbeek, Luiz; Rossina, Pierluigi; Cura, Sara; Grimaldi, Stefano e Gomes, José “A ocupação do Pleistocénico Médio e Superior da Ribeira da Atalaia, Médio Tejo – Portugal Central, Revista Arqueologia e História da Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2010.

(2)           Almeida, João – General. Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, volume II. Edição do Autor. 1946

(3)           Menezes, Ludovico. O Feito de Ourique. Revista de Estudos Históricos, vol. 3, nº. 1/3, 1926.

(4)           Paraschi, André Jean. História dos templários em Portugal: a expansão portuguesa. Ed. Sol Invictus atelier,199; IDEM, Portugal Mágico dos Templários, Roteiro de locais, e monumentos Templários de Portugal, Ericeira, Centro Internacional de Estudos Templários, 1993

 (5)          Picciochi, Margarida Gomes Coelho. Ata-laâ, Atalaya, Atalaia, Ed. Notícias do Entroncamento, 1987.

(6)           Tombos da Ordem de Cristo. Comendas a Sul do Tejo (1505-1509) / Iria Gonçalves. Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. 2002

 (7)          Marques, A. H. de Oliveira, Chancelarias portuguesas. Chancelaria de D. Afonso IV, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica – Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 3 vols. 1990-1992.

(8)           Torre do Tombo, Ministério do Reino – consultas do Conselho da Fazenda e Estado da Casa das Rainhas, mç. 309 (PT-TT-MR/ECR/01/01) e mç. 310 (PT-TT-MR/ECR/01/02)

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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2 Comments

  1. Agradeço a publicação, fiquei maravilhada com a história da Atalaia, é muito interessante. Mais uma vez obrigada

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