Foto: mediotejo.net

O Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal, acolheu na sexta-feira a 4.ª edição da Conferência AO.RI, este ano dedicada ao tema “Valorização & Comercialização do Produto Artístico”. Realizada no Dia do Artesão, a iniciativa reuniu especialistas e agentes do setor para refletir sobre o futuro do artesanato no Ribatejo Interior, tendo sido debatidas temáticas como a valorização cultural, a comercialização e o turismo criativo. Foi ainda apresentado um novo projeto que aposta na digitalização da Rota AO.RI, através de uma plataforma que reforça a ligação entre artesanato e turismo.

Na sessão de abertura, Conceição Pereira, técnica coordenadora da Tagus, destacou o percurso do projeto “Artes e Ofícios do Ribatejo Interior” (AO.RI), sublinhando o trabalho desenvolvido desde 2021, no âmbito de uma candidatura ao Centro 2020.

A responsável explicou que o projeto nasceu da necessidade de contrariar a perda de dinâmica do artesanato no território, marcada pelo envelhecimento dos artesãos e pela diminuição da atividade.

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O AO.RI desenvolveu várias ações, incluindo o levantamento histórico das artes e ofícios, oficinas de formação, iniciativas com escolas e designers, e ações de promoção nacional. Conceição Pereira destacou ainda a criação de uma rota turística integrada, inicialmente em formato físico, que permite o contacto direto com os artesãos e a experiência do território.

A grande novidade anunciada passa agora pela digitalização dessa rota. Segundo a responsável, foi aprovada uma candidatura que permitirá transformar a Rota AO.RI numa plataforma digital com sistema de reservas e pagamentos integrados, permitindo aos utilizadores escolher e agendar experiências diretamente, sendo os artesãos automaticamente informados.

A nova fase inclui também formação, capacitação e a criação de uma central de reservas, reforçando a ligação entre artesãos, território e turismo. O projeto foi aprovado pelo Turismo de Portugal com cerca de 135 mil euros, comparticipado a 70%.

O projeto vai permitir que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, possa comprar e pagar de imediato uma visita ao território, sendo o artesão automaticamente informado da reserva, num circuito de comércio de proximidade feito através do online.

A Tagus assegura o suporte através de uma central de reservas, em articulação com os postos de turismo dos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal, que passam a ter conhecimento das marcações realizadas.

Segundo Conceição Pereira, este modelo substitui o formato anterior, baseado em folhetos e marcações “por consulta”, afirmando que essa abordagem deixa de fazer sentido no contexto atual do turismo.

“A partir de agora, aquele papel deixa de ser papel e passa a ser a internet”, explicou, sublinhando que o utilizador poderá escolher livremente o dia e a hora da sua experiência, num processo autónomo.

A responsável destacou ainda que é o próprio artesão quem assume o papel de guia e contador de histórias, sem intermediários, o que reforça o valor do património local e das experiências oferecidas.

Este novo modelo, acrescentou, resulta de uma dinâmica crescente no território, marcada pelo aumento do número de artesãos e pela adesão ao projeto, embora ainda exija trabalho de adaptação, avaliação dos espaços e capacitação dos intervenientes.

ÁUDIO | Conceição Pereira, coordenadora da TAGUS

Conceição Pereira reconheceu que há “muito trabalho ainda para fazer”, mas salientou a forte dinâmica e envolvimento dos artesãos e das instituições parceiras. Defendeu também a importância das redes europeias, não apenas na vertente turística, mas sobretudo como espaço de aprendizagem e partilha de experiências, permitindo melhorar práticas e identificar oportunidades de evolução.

Por fim, destacou a dimensão integrada do projeto, que combina artesanato, património, gastronomia e turismo, criando experiências completas e personalizadas.

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Na sua intervenção, Pedro Rosa, presidente do município de Sardoal e da Tagus, sublinhou que o AO.RI “é hoje uma referência incontornável”, considerando-o não apenas um projeto, mas “uma estratégia” e “uma afirmação de quem somos enquanto comunidade”.

O autarca sublinhou os quatro pilares do projeto – valorização dos artesãos, posicionamento do território, capacitação e criação de mercado – e destacou os resultados já alcançados, incluindo a consolidação de uma rota com mais de 26 artesãos e mais de 25 pontos de interesse cultural.

Foto: mediotejo.net
ÁUDIO | Pedro Rosa, presidente da CMS e da TAGUS

Pedro Rosa salientou ainda o papel do Sardoal na preservação de saberes tradicionais, como as malas de folhas de Flandres e os leques de palha, sublinhando que “o artesanato não é apenas uma memória, é um futuro”.

Durante a sua intervenção, destacou também o novo ciclo do projeto com a aprovação da candidatura à linha “Mais Turismo Interior”, que permitirá avançar com a plataforma digital e novas ferramentas de promoção, transformando o artesanato em “produto turístico estruturado, acessível, competitivo e gerador de riqueza local”.

Já Anabela Freitas, vice-presidente da Turismo do Centro, destacou a importância de garantir condições estruturais antes da atividade turística, sublinhando que o projeto contribui para a certificação dos artesãos, a identificação dos recursos e o trabalho em rede, elementos essenciais para a construção de um produto turístico.

A vice-presidente apontou cinco fatores fundamentais no turismo: a existência de recursos transformáveis em produto turístico, a coerência das políticas públicas, a operacionalização pelo setor privado, o acesso a mercados nacionais e internacionais e a qualificação dos recursos humanos.

Defendeu ainda a importância de alinhar estratégias entre território, afirmando que “o turista é multiproduto”, valorizando experiências integradas que combinem artesanato, gastronomia e património.

ÁUDIO | Anabela Freitas, vice-presidente da Turismo do Centro

Anabela Freitas destacou também a necessidade de manter a autenticidade, mesmo em contexto de digitalização, defendendo o equilíbrio entre tecnologia e experiência real, acrescentando que o turismo de experiência responde às novas tendências, com turistas cada vez mais interessados em interação com as comunidades, sustentabilidade e impacto positivo nos territórios.

Foto: mediotejo.net

Os diferentes painéis da conferência abordaram temáticas centrais para o futuro do setor, começando pela valorização das artes enquanto expressão de identidade e marca territorial, com intervenções dedicadas à narrativa da identidade portuguesa, à ligação entre produção artesanal e mercados de luxo e à importância da preservação e promoção da identidade local através de projetos culturais de referência.

Seguiu-se uma reflexão sobre os horizontes da comercialização, com contributos sobre a expansão dos mercados ibéricos, o testemunho de experiências internacionais no setor do artesanato e a relevância do registo de marcas e patentes, destacando-se o papel da proteção e valorização dos produtos artísticos no contexto económico atual, num programa que reforçou a articulação entre cultura, inovação e internacionalização.

O evento integra-se no projeto AO.RI, desenvolvido pela Tagus e pelos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal, apoiado pelo Centro2020, Portugal2020 e cofinanciado pelo FEDER.

A Tagus, com sede em Abrantes, foi criada em 1993 por entidades públicas e privadas, com a missão de promover o desenvolvimento integrado dos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal, valorizando recursos locais, estimulando a economia e reforçando a coesão territorial.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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