A visita inaugural conduzida por João Soares, técnico de conservação e restauro da Câmara Municipal, e reuniu autarcas e representantes de várias entidades, numa iniciativa que combinou património, rito e participação comunitária.
Pedro Rosa, presidente da Câmara Municipal de Sardoal, sublinhou que a Semana Santa é um dos momentos mais marcantes para a comunidade local.
“A Semana Santa é o momento esperado por todos os sardoalenses. Para além de estar integrada no ciclo pascal, é também uma época em que as famílias se reencontram. Mas, em Sardoal, a nossa Semana Santa é um pouco diferente, não só por tudo aquilo que se vive ao longo do dia, mas sobretudo pelas cerimónias, que são o verdadeiro centro destas celebrações”, afirmou.




O autarca destacou ainda a importância da Quinta-feira Santa, tanto do ponto de vista religioso como turístico. “Hoje é talvez o dia em que o turismo mais se faz sentir. Temos uma das procissões mais emblemáticas, a Procissão dos Fogaréus, em que a vila apaga a luz e o cortejo decorre à luz de archotes e velas. É um momento muito introspectivo, de grande reflexão, acompanhado pela Filarmónica União Sardoalense. É uma experiência única, quer para crentes quer para não crentes”, referiu.
Pedro Rosa considera que esta singularidade tem sido construída ao longo dos anos e contribui para afirmar o concelho. “Sardoal conseguiu transformar estas cerimónias e todo este ciclo pascal num momento que também pode ser turístico. E não devemos ter problema em assumir isso, porque as pessoas procuram este tipo de experiências e momentos diferentes. Sem dúvida, a Semana Santa é o nosso ponto alto em termos de procura turística, apesar de ao longo do ano existirem outras atrações”, acrescentou.
O itinerário começou na Capela do Espírito Santo, edifício do início do século XVII situado junto aos Paços do Concelho. Embora a origem da tradição seja incerta – associada à passagem da rainha Santa Isabel -, a prática de ornamentar o interior com elementos naturais mantém-se enraizada no concelho de Sardoal. No tapete, no interior do templo, predominam motivos eucarísticos ligados à Paixão de Cristo.

Seguiu-se a Igreja da Misericórdia, construída em 1560 e considerada uma das jóias do Renascimento. Este ano, o templo não apresentou tapete devido às celebrações do Lava-pés ali previstas, mas o altar exibe trigo germinado, símbolo da ressurreição.





Na Capela de São Sebastião, a comunidade local preparou um tapete de cores equilibradas, centrado na figura da pomba do Espírito Santo. A colaboração entre moradores, que se repete anualmente, continua a ser um dos pilares desta expressão identitária.
A propósito da visita às capelas decoradas com tapetes de flores, o presidente destacou o papel da comunidade na preservação desta tradição.
“É uma tradição que une as pessoas e que representa uma verdadeira exaltação do conceito de comunidade, em que todos se juntam em torno de um objetivo comum. Passa de geração em geração, de avós para filhos e netos, o que tem permitido a sua continuidade até aos dias de hoje”, explicou.
Apesar de não existirem registos concretos sobre a sua origem, Pedro Rosa sublinhou o carácter distintivo desta prática.
“Existem muitos tapetes de flores um pouco por todo o país e até na Península Ibérica, mas com esta característica de serem realizados no interior das capelas, seremos dos poucos, ou talvez os únicos”, afirmou.
O autarca descreveu ainda o processo de preparação dos tapetes, marcado pelo envolvimento coletivo.
“Na véspera, a comunidade junta-se, vai ao campo apanhar flores e plantas, desenha os motivos e constrói os tapetes, tudo num espírito de comunhão. É um trabalho exigente, que se prolonga pela noite dentro. Eu próprio tive oportunidade de acompanhar e participar na construção de um deles, que terminou por volta das duas da manhã”, concluiu.
O Centro Interpretativo da Semana Santa, instalado na Capela de Nossa Senhora do Carmo, integra um tapete criado pelos funcionários do município.
A composição, realizada a partir de um desenho delineado a giz e preenchido com caixas de areia para criar relevo, sobrepostas pelas pétalas de flores, incorporou símbolos eucarísticos alinhados com a estrutura arquitetónica do espaço.






Outro dos pontos visitados foi a Capela de Santa Catarina, onde o grupo de Teatro Getas desenvolveu um tapete inspirado na estética do vitral, destacando o Sagrado Coração de Jesus como elemento central.
Já na Capela de Sant’Ana, do final do século XVIII, o tapete representou os símbolos da Primeira Missa da Quinta-feira Santa, com referências ao pão, ao vinho e aos tradicionais ouriços associados à paixão.
Na Capela do Senhor dos Remédios, o tapete resultou do projeto “Capela”, baseado no desenho vencedor de um concurso escolar, reforçando a participação dos mais jovens na continuidade das práticas locais.


O percurso incluiu ainda a Igreja de Santa Maria da Caridade, edifício do século XVI ligado à presença franciscana e que reúne um dos mais relevantes conjuntos de arte sacra do concelho.
A iniciativa terminou com a visita às exposições dedicadas à Semana Santa, patentes na Biblioteca Municipal, no Centro Cultural Gil Vicente e no espaço Cá da Terra, completando um programa que, todos os anos, mobiliza instituições e comunidade em torno do património religioso e cultural de Sardoal.




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