O vereador Luís Dias, responsável pelo Arquivo Municipal Eduardo Campos, junto do chefe de divisão Paulo Rêgo e da coordenadora Teresa Lopes, com técnicos da equipa que são o rosto e as mãos daquele equipamento. Foto: mediotejo.net

Quantos abrantinos não sabem onde se localiza o Arquivo Municipal Eduardo Campos? Quantas pessoas nunca ali entraram? Quantos não sabem quem foi Eduardo Campos? O mediotejo.net aproveitou a efeméride do 40º aniversário deste equipamento para saber mais sobre a sua história e sobre o trabalho que desenvolve.

Além da preservação da memória histórica, o Arquivo abrantino assume uma visão estratégica de serviço à comunidade, com uma gestão integrada baseada na ótica de servir as pessoas e lhes dar respostas de forma célere, ajudando a facilitar as suas vidas.

Comecemos por nos localizar. O Arquivo Municipal Eduardo Campos (AMEC) situa-se fora da cidade, mais propriamente na zona industrial em Alferrarede, próximo dos Serviços Municipalizados e do estaleiro da Câmara Municipal de Abrantes. Ali se localiza desde 2009, altura em que foi inaugurada a nova casa dos fundos documentais sob proteção da autarquia.

Aqui co-existem fundos de diversa ordem, com documentação pública, mas também documentação privilegiada das corporações religiosas abrantinas e ainda fundos documentais de origem privada, onde se podem incluir depósitos privados com informação reservada (não pública).

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É naquele edificado robusto, de arquitetura feita de linhas direitas em paralelo com um exterior que conjuga o betão, a pedra e o olival tipicamente abrantino, que se guardam os pormenores da história local. Composto por quatro depósitos, com estantes dinâmicas e de elevada capacidade conjugadas com gavetões, ali se preserva documentação das mais diversas índoles.

Entre os depósitos, onde se encontram os documentos tratados e acondicionados, existem duas salas de expurgo – local onde dá entrada a documentação e material pelas traseiras do Arquivo, com recurso a um porta-paletes, chegando em caixotes e caixas ou avulso. No expurgo, como o nome indica, os técnicos fazem uma limpeza profunda e resgatam num ato de triagem os materiais a serem conservados e classificados.

Numa das salas de expurgo constam para tratamento cerca de 25 mil desenhos e plantas da Metalúrgica Duarte Ferreira, icónica indústria da vila de Tramagal. António Vilelas, técnico de arquivo, segura uma sinalética alertando para o uso de luvas em jeito de advertência de segurança no trabalho da MDF. Foto: mediotejo.net

O processo segue o seu ciclo, havendo ainda uma sala de tratamento documental, uma sala de apoio administrativo, uma sala de transferência de suportes, e ainda um pequeno espaço expositivo.

E a pergunta que se coloca é… afinal, o que se faz no Arquivo? Nos dias de hoje, faz sentido vê-lo como sendo aquele local que, por norma, associamos a um espaço distante do cidadão comum, de depósito e salvaguarda de documentos antigos e raros, só acessível por alguns, e que costuma ser o mundo dos investigadores e académicos?

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Diz-nos Paulo Rêgo, chefe da Divisão de Sistemas de Informação, que não. E que o trabalho passa efetivamente por “desmistificar a ideia de que o arquivo é algo do passado, antigo”, pois apesar de ter “toda a parte da memória, é muito mais do que isso”.

“É um espaço que ajuda as pessoas no seu dia-a-dia”, começa por indicar, ao receber-nos numa das salas daquele equipamento que está sob sua alçada na orgânica do Município de Abrantes, contando com coordenação de Teresa Lopes, também presente.

Paulo e Teresa trabalham juntos há muitos anos, sendo de áreas distintas. Teresa na área da gestão de informação e Paulo na área tecnológica, tendo passado ambos pela Biblioteca Municipal, mas também nesse período contactaram com o Arquivo Histórico, que era paredes-meias com a Biblioteca.

Paulo Rêgo e Teresa Lopes. Foto: mediotejo.net

Para Paulo, “o toque de Midas” aconteceu pela dinâmica que foi sendo construída ao longo dos últimos anos, em que se percebeu o papel da tecnologia como aliada dos arquivos e como forma de construir ferramentas que estimulem a adaptação e evolução que acompanha os novos tempos da produção e divulgação de informação.

Numa era digital, Paulo Rêgo crê que “se por um lado gerir informação é fundamental, por outro lado não nos podemos dissociar da tecnologia, e esta consciência foi construída ao longo de décadas”.

Foi Paulo o responsável por levar internet para o antigo Arquivo Histórico, na altura instalado na ala sul do Convento de São Domingos, nos anos 90.

“Na altura, o nosso Eduardo [Campos] utilizava a sua célebre máquina de escrever, e com a minha introdução ali, conseguimos aos poucos convencê-lo a deixar a máquina de escrever, a utilizar o computador e a seguir a internet”, recorda, entusiasmado. Aliás, ao longo de toda a entrevista e visita é visível a forma entusiástica e embrenhada com que os profissionais nos levam a percorrer todos os cantos e recantos do local.

Recordam ainda o desafio que foi a edição de produtos interessantes, caso de um CD-ROM para o Jornal de Abrantes e um para os livros de registo.

“A introdução da tecnologia no Arquivo começou aí. E é engraçado como agora se está a consolidar e os intervenientes, alguns, ainda se mantêm. O Paulo começou lá com um estágio e hoje está a chefiar esta divisão com o arquivo e a continuar essa política de inovação. E agora a trabalhar na transformação digital do arquivo”, constata Teresa Lopes, coordenadora do AMEC.

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A chave para o sucesso, creem, tem que ver com a complementaridade entre áreas, que antes não se cruzavam ou que se entendia serem díspares: as bibliotecas e arquivos e a área da informática.

“Acho que é por isso que temos tido muito sucesso, não há aqui nenhum domínio que se sobrepõe a outro. Há um respeito mútuo e trabalho de equipa. Nós discutimos os dois imenso, faz parte às vezes, mas isso também nos enriquece”, conta Teresa.

A estratégia e trabalho desenvolvido em Abrantes tem sido demonstrada em diversos fóruns nacionais, desde encontros de arquivos, debates e partilhas em painéis da área da gestão documental e outros. Paulo e Teresa têm sido chamados a partilhar o segredo deste ‘casamento’ que tem dado frutos e facilitado também o caminho do arquivo enquanto equipamento público a par da modernização administrativa.

“O resultado que estamos a ver, também de reconhecimento externo, com uma procura muito interessante nos últimos anos, tem muito a ver com a capacidade que temos tido de discutir, falar e alavancar projetos e ideias e trazer uma visão estratégica e contemporânea para este serviço. E não ficar apenas escondido naquela componente do tal histórico, com documentos muito antigos a serem preservados e que temos de manusear com muito cuidado”, reconhece o responsável pela Divisão de Sistemas Informáticos, que tem na sua alçada o Arquivo Municipal.

“Percebemos que o arquivo era muito mais do que a parte histórica, percebemos que tínhamos de dar respostas às pessoas

Paulo Rêgo, chefe da Divisão de Sistemas de Informação da Câmara Municipal de Abrantes

A estratégia passou por introduzir no serviço “uma nova forma de trabalhar”, com as tecnologias a entrarem no processo da desmaterialização e digitalização, numa união entre a gestão de informação e a introdução das tecnologias no trabalho desenvolvido pelo arquivo.

“Em jeito de exercício já colocámos essa questão em presença de outras entidades externas e outros arquivos, e perguntámos «se vos dissessem agora que iriam passar a integrar a Divisão da Informática, o que é que vocês achavam?». E houve alguns presentes que puseram as mãos na cabeça, e disseram «Nem pensar! Nós nem falamos com essas pessoas, não conseguimos comunicar com elas. É uma linguagem completamente diferente». E quando isso acontece, é um problema”, alerta Teresa Lopes.

Os responsáveis por este setor na Câmara Municipal de Abrantes, acreditam que “não é possível o Arquivo fazer um bom trabalho de difusão de informação, recuperação e tratamento de informação, sem a tecnologia”, até porque a questão que se coloca e que não pode se descurada passa por perceber “como ligar o que hoje está em papel com o que agora está a nascer em digital”.

“Um caso muito fácil de entender é o dos processos de licenciamento de obras particulares. Se eu pensar que o projeto de minha casa está em papel, e se eu agora quiser fazer obras na minha casa, vou iniciar um processo totalmente digital. Como é que eles se ligam? São coisas completamente diferentes, ou a partir de um, tenho acesso ao outro? Há uma ligação direta; é aí que surge este trabalho de unir a tecnologia com a informação em papel”, explica Teresa Lopes, dando conta do projeto de sucesso que tem sido levado a cabo pelo Município de Abrantes e que tem merecido reconhecimento e curiosidade de outras autarquias.

As ditas “novas questões” associadas à gestão de informação digital são o dia-a-dia destes profissionais, que não se acomodam, nem podem, face ao ritmo a que o mundo evolui. “Há algumas resistências, sim, mas sabemos que o processo de mudança nunca é imediato. É esta consciência e visão que temos trazido para este mundo. Temos vindo a divulgar a estratégia a nível nacional, neste conceito: os arquivistas têm que entender de uma vez por todas, que não se pode excluir a tecnologia desta nova era da informação”, releva Paulo Rêgo.

“Como é que um político pode, de alguma maneira, perceber que tem que investir na memória, se ele depois não consegue perceber que isto chega diretamente às pessoas?

Para Paulo a aposta por parte dos responsáveis políticos nesta área permite alcançar maior credibilização, sendo este processo “determinante para os responsáveis políticos quando investem e conseguem perceber a importância disto”, sendo certo que “o denominador comum” da nova era arquivística é a tecnologia, “goste-se ou não se goste”.

Um dos exemplos passa pela forma como se compatibiliza o tratamento da informação e documentação nos dias de hoje. “Existem formatos que, quando chegamos à parte prática, temos de negociar. A questão do vídeo, por exemplo… e o tipo de armazenamento que fazemos e como fazemos. Mas já chegámos a uma fase de classificação de processos com compatibilidade entre o que está no físico e o que é produzido hoje”

Classificar, explica Teresa Lopes, passa pela agregação de informação em que é preciso reconhecer a informação. “O técnico de arquivo sabe fazer isto, esteve na sua formação, mas esteve sempre habituado a fazê-lo de forma muito clássica. Agora falamos em classificar processos com auxílio de inteligência artificial”, ou seja, através de programas de computador essa classificação acontecer de forma automática, por indicação do técnico que apreende este novos sistemas ao seu dispor, criados pelos técnicos de informática.

Ponto assente é que a adoção de novas práticas de tratamento de informação tem de ser adquirida pelos técnicos de arquivo que fazem este trabalho, passando por eles a avaliação e afinação de projetos-piloto concebidos na autarquia.

“É impossível nós, hoje, tratarmos fotografias; é claro que se tivermos uma fotografia antiga vamos descrevê-la uma a uma, documento a documento. Hoje, com as fotografias tiradas pelo serviço de Comunicação da CMA, não conseguimos fazer o tratamento da mesma forma, porque o número de imagens é imenso. Temos de encontrar formas de indexar a informação através de sistemas baseados em algoritmos de Inteligência artificial”, exemplifica Paulo, falando nesta simbiose que se cria entre os dois mundos.

Na sala de formatos, trabalha-se o processo de digitalização dos documentos físicos. Foto: mediotejo.net

A resistência a estes processos de mudança é uma realidade, mas “se as pessoas de arquivo não saírem e não virem o que é feito lá fora, muitas vezes não saem do mesmo lugar”, defende, acreditando na mais-valia desta simbiose.

Paulo Rêgo, estudioso e entendido nestas matérias, defende mais. Acredita que deve existir uma “reconversão completa, até na formação académica”.

“Não podemos continuar a formar pessoas como se estivéssemos em 1980. Temos que mudar esse paradigma. E esta componente tecnológica é essencial; por isto estão a aparecer muitos cursos de gestão de informação, muito ligados à área da Inteligência Artificial. Isto obriga os profissionais a terem de perceber que o mundo está a mudar, e que a sua forma de trabalhar também tem que mudar”, insiste, dando conta que a velocidade de aprendizagem e adaptação na equipa de Abrantes acontece a vários ritmos, e cada pessoa é um caso. “Alguns colegas vão avançando um bocadinho mais depressa, outros têm mais resistência, mas faz parte”, diz.

“Já lidamos com o arquivo há muitos anos, mas conseguimos perceber que estamos a fazer uma transformação profunda para encararmos o nosso presente e o nosso futuro com grande otimismo. Em Abrantes podemos e devemos sentir-nos orgulhosos pelo trabalho que estamos a fazer. Mas é só o princípio de uma grande transformação que já estamos a operar…”

Paulo reconhece a equipa que lidera em Abrantes “muito evoluída”, onde se desenvolvem as ferramentas a utilizar pelos funcionários do arquivo em conjunto.

Já não há lugar a uma visão “muito redutora” do fundo histórico, até porque a informação produzida hoje, que um dia acabaria por também cair no arquivo, já é digital e é preciso ter competências e saber tratá-la também em formato digital.

No decorrer da visita, cruzamo-nos na rotina de António Vilelas, técnico de arquivo do AMEC. Veio do Sardoal para Abrantes, e está há cerca de 18 anos ao serviço do Arquivo Municipal abrantino. Sentiu bem na pele as mudanças introduzidas no exercício da sua profissão.

Foto: mediotejo.net

Crê que os processos de digitalização permitem “levar mais longe a divulgação da informação”, sendo também “forma de preservar o documento”.

Os documentos saem para restauro, num processo que varia até temporalmente, mas que pode demorar vários meses, com recurso aos materiais existentes na época, que é preciso reunir e que nem sempre são fáceis de encontrar. Na ocasião os documentos restaurados são fotografados, permitindo que o processo fique digitalizado entre o antes e o depois.

Para António Vilelas “as duas partes têm que estar em sintonia”, desde “a preservação do suporte em papel, que ao acontecer permite que o documento esteja no digital; e depois a passagem para o digital, para que as coisas tenham enquadramento”. Mas para as coisas resultarem, “um não se pode sobrepor ao outro”.

Os técnicos são o rosto que acolhe e acompanha quem necessita de consultar e aceder à documentação. São as mãos que discorrem dos gavetões, caixas e prateleiras e acham a informação pretendida, e que além de a cuidarem, tratarem e disponibilizarem ao público, também ajudam a preservá-la e lançá-la para o futuro.

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Em Abrantes, Paulo Rêgo assume que o foco são as pessoas, e o trabalho que tem sido desenvolvido serve não só para facilitar a vida dos cidadãos que acedem à informação, como aos trabalhadores da autarquia que precisam facultar essa informação nos serviços de atendimento.

“Se iniciar um procedimento em casa às onze da noite, através da plataforma Abrantes360, para consulta de um documento, e no dia seguinte vier ao Arquivo… pode continuar a usufruir do que já iniciou ao aceder digitalmente. E se necessita de mais alguma coisa, ao chegar ao Arquivo, os técnicos vão saber que documentos já consultou e o que mais pode fazer sentido consultar. Além de podermos fazer chegar a cópia digital dos documentos para consulta, não necessitando de se deslocar fisicamente ao espaço. Tudo isto pela dinâmica que implementámos com as tecnologias. Não interessa o canal, interessa é servir bem. E é isto que acontece em Abrantes”, descreve.

Tinha de se começar por algum lado, e a vasta quantidade de documentos que pertencem ao dito arquivo histórico ainda não está toda tratada. Existe trabalho de preservação da memória, com trabalhos de restauro e conservação com transposição para o digital, mas com um longo caminho por percorrer.

“Quase todos os anos nós fazemos uma seleção com critério técnico para identificar quais os documentos que precisam de ser intervencionados, e há alguns anos temos vindo a fazer essa recuperação de restauro físico. E imediatamente aproveitamos para fazer essa transposição para o digital”, indica.

A visão de serviço à comunidade é premissa que tem norteado a gestão e estratégia da equipa, e daí que a digitalização se assuma como trabalho prioritário, para permitir o acesso à informação a partir de qualquer parte. “Não podemos obrigar as pessoas a vir, temos de levar o Arquivo às pessoas”, crê Paulo Rêgo.

Por estratégia, cientes de que não conseguem chegar a todo o lado, optaram por avançar com a digitalização para auxiliar as pessoas.

Foto: mediotejo.net

“Tínhamos muitos pedidos ao arquivo que não nos davam tempo para outras tarefas. Precisávamos mudar este paradigma”, admitem os profissionais, referindo ainda não terem tido o tempo necessário para fazer tratamento profundo sobre os fundos de documentação histórica.

“Há coisas que ainda temos de consultar presencialmente. Optámos por desmaterializar os processos de obras particulares, porque são os processos mais requisitados aqui e em qualquer arquivo, e rouba muito tempo aos técnicos, porque estão sempre a ir buscar os processos às caixas. A partir do momento em que tudo está digitalizado e acedível a partir dos serviços de atendimento, os colegas do arquivo já ficam com mais folga para se dedicarem ao tratamento dos fundos documentais mais antigos”, explica a coordenadora, Teresa Lopes.

A estratégia, relatam, “está a funcionar”, até porque já se verifica “mais de 50%” da digitalização dos processos de obras particulares de todas as freguesias do concelho, algo que se espera concluir ainda este ano.

A importância do equipamento e o ultrapassar dos desafios que se impõem com a crescente era da digitalização, é relevada por Luís Dias, vereador da Câmara Municipal de Abrantes com os pelouros da Cultura, Bibliotecas e Arquivos e Sistemas de Informação.

Fez formação superior na área de Arquivos, Biblioteca e Ciência de Informação, e especializações em Ciências Documentais, tendo o seu percurso profissional, antes de Abrantes, cruzado com bibliotecas e arquivos da região, caso de Torres Novas e de Constância.

O vereador destaca o trabalho feito ao longo dos últimos 40 anos para a construção do Arquivo Municipal Eduardo Campos, referindo-se à “estrutura basilar” da Câmara Municipal de Abrantes, com documentação acumulada desde o século XII até hoje, o que exige “uma grande dinâmica de inteligência organizacional que responda a isto”.

Luís Dias, vereador da CM Abrantes responsável pelo Arquivo Municipal. Foto: mediotejo.net

O Arquivo, explica Luís Dias, “é um sistema organizado que permite não só acumular tudo o que são as massas documentais que têm vindo a ser produzidas ao longo destes séculos, mas também preservar o passado par de alguma maneira percebermos melhor o presente, garantindo a importância de uma espaço como este para o futuro. E os 40 anos do Arquivo são isso mesmo. Serão sempre uma homenagem a todas as pessoas que um dia ousaram criar uma consciência da importância do que é acumular estas massas documentais, mas também a importância que tem para acumular documentos de instituições privadas, instituições públicas, juntas de freguesia… porque é uma casa de memória e uma casa onde as memórias devem ser preservadas”, nota, relevando o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela Divisão de Sistemas de Informação, na criação de um ecossistema que permita corresponder aos desafios numa realidade híbrida, entre o papel e o digital.

“Os 40 anos do Arquivo serão sempre uma homenagem a todas as pessoas que um dia ousaram criar uma consciência da importância do que é acumular estas massas documentais”

Luís Dias, vereador da CM Abrantes

“O que aqui está do ponto vista físico, e até já do ponto de vista tecnológico, pode ajudar qualquer cidadão, em qualquer momento, não só a zelar pela sua própria documentação, a sua memória histórica, a sua memória individual, a sua memória documental, mas também tudo o que aqui é acondicionado, está bem acondicionado, é fácil de recuperar, e a ideia é estar sempre à distância de um clique, mas também garantir a segurança, a fiabilidade, a fidedignidade e a de alguma maneira precaver que não haja nenhuma violação dos direitos de privacidade que temos de salvaguardar, pois hoje as questões da cibersegurança estão presentes. Temos de salvaguardar tudo, adequadamente. É o ADN de qualquer estrutura cultural com esta filosofia”, releva o vereador da Câmara Municipal de Abrantes.

Entre as datas marcantes, surgem o ano 2009, quando o atual espaço do Arquivo toma o nome de Eduardo Campos e é feito apelo para o depósito de fundos. As caraterísticas do novo espaço são a favor da nova era do arquivo de Abrantes.

“Foram criadas condições para ter orgulho do espaço e que ajudam a preservar a informação de foram correta. A documentação está devidamente acondicionada, não temos sótãos, temos cuidado com a qualidade do ar, fazemos medições regulares, fazemos desinfestação, temos todos os cuidados que se têm de ter para preservação dos documentos e ainda juntamos uma estratégia de preservação com o restauro”, contextualiza Paulo Rêgo.

Quando foi criado este Arquivo, também Teresa Lopes recorda o apelo para que as entidades pudessem depositar ali a sua documentação, das juntas de freguesia, às coletividades e instituições, e mesmo fundos privados de famílias. O AMEC “tem importância também pela informação privada que aqui pode ser depositada”, destaca.

O Arquivo Municipal de Abrantes é “singular” em múltiplos aspectos, mas há um em particular que merece especial destaque: o fundo documental “é muito rico”, destaca Teresa Lopes, contendo os fundos das corporações religiosas, que noutros casos foram transferidos para os Arquivos Distritais por imposição legal. Na altura, a lei não reconhecia ainda a existência e constituição dos arquivos municipais.

Durante a visita, pudemos observar de perto o Foral Manuelino concedido a Abrantes pelo rei D. Manuel I, em 1518, documento administrativo e instrumento de autonomia e liberdade do concelho. Um documento que começou a ser escrito em 1510, mas que consta só ter sido entregue à cidade oito anos depois.

Também o documento mais antigo, restaurado no verão passado, e datado de outubro de 1248, que representa uma carta de venda referente a “uma herdade situada no Salão do Rio Torto” ao Padre João Martins, um clérigo da Igreja de São João Baptista.

Documento de 1248, o mais antigo à guarda do Arquivo Municipal Eduardo Campos e que foi restaurado o verão passado. Foto: mediotejo.net

Em cima da mesa, o técnico António Vilelas, munido das luvas brancas aveludadas, mostra outro documento restaurado na mesma altura. O Livro nº 1 de Registos, de aspeto pesado, capa grossa e trabalhada, castanha escura, e que contém o registo da correspondência recebida (1591-1603), róis de bens, tombos, inventários e testamentos.

Depois aponta a Carta de Sangria concedida a Manuel Constâncio pelo cirurgião-mor António da Costa Falcão, a 16 de julho de 1754. Um documento que era habitualmente concedido na época para autorizar “sangrar, sarjar, lançar ventosas e sanguessugas” – a «sangria» era prática comum na Europa, e noutras partes do mundo, carecendo de autorização. Servia para depurar o sangue, depreendendo-se que era no sangue que residiam os males causadores de maleitas e que, ao retirá-lo, as doenças desapareciam.

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Outro documento chamava a atenção, até porque serviu a inspiração da capa do livro lançado em 2014, por Paulo Falcão Tavares, “Real Convento de S. Domingos de Abrantes: ANNO M.M.XIV”.

Trata-se de um robusto documento, também de capa escura mas visivelmente marcada pelo tempo e manuseamento, e que consiste no “Livro das Missas de Vários Santos que mandou fazer a Madre Soror Marianna Baptista, sendo Cantora Mor deste Mosteiro de Nossa Senhora da Graça, da Ordem do Nosso Padre S. Domingos”.

Muito mais há por desbravar e folhear, sendo estes apenas alguns exemplos. Acontece que a riqueza documental do Arquivo Municipal Eduardo Campos também se deve a um episódio peculiar, que marcará para sempre a sua história, permitindo que seja detentor de um conjunto de documentos cujo destino deveria ter sido o Arquivo Distrital… ou provavelmente, até poderiam a esta altura ter-se perdido.

Por tomada de posição e atuação firme para o resgate desses documentos pela Câmara Municipal, na altura pela mão do presidente de Câmara, o Engenheiro Bioucas –como era conhecido – e por Alves Jana, então vereador da autarquia, essa documentação foi impedida de sair do concelho, tendo ficado à guarda da Câmara, no sótão dos Paços do Concelho. Estava dado o primeiro passo no caminho até à criação oficial do Arquivo Histórico do Concelho de Abrantes (AHCA), proposta que fora apresentada por Alves Jana em março de 1983 e aprovada pela Câmara Municipal.

Foto: mediotejo.net

“Há todo um trabalho muito meritório de pessoas às quais temos de estar gratos, porque foi fruto das suas ações que hoje conseguimos chegar até aqui. E temos, de alguma maneira, de fazer com que fiquem orgulhosos de agora existir uma equipa capaz de alavancar projetos e com uma nova forma de trabalho para capitalizar todo o esforço que tiveram para chegarmos aqui. A nossa responsabilidade é também nós atingirmos marcos no desenvolvimento e dinamização do Arquivo Municipal Eduardo Campos”, releva Paulo Rêgo.

Também Teresa Lopes defende que “a ideia é dar visibilidade ao trabalho que foi feito, e não deixá-lo só aqui, nas prateleiras”.

O legado de Eduardo Campos e a sua continuidade

Ao falar da evolução do Arquivo Municipal de Abrantes é impossível dissociar o nome de Eduardo Campos do processo. “Uma pessoa metódica, estudiosa, apaixonado por aquilo que fazia”, como nos explica Paulo Rêgo.

O processo de criação do Arquivo como é conhecido hoje, traduz-se no trabalho que Eduardo Campos, enquanto técnico, produziu ao longo dos anos. “Hoje temos o orgulho e prazer de tentar difundir esse seu legado da melhor forma, neste processo de dar seguimento ao excelente trabalho que foi feito”, releva o responsável.

Eduardo Campos (1950-2003)

Fonte: Wiki Médio Tejo
No ano dos 40 anos do Arquivo Municipal de Abrantes assinalam-se também 20 anos sobre o falecimento de Eduardo Campos, técnico de arquivo da Câmara Municipal de Abrantes sempre atento e dedicado à preservação da memória de Abrantes e da História Local.
Natural de Abrantes, Eduardo Manuel Tavares Campos nasceu em 1950. Veio a falecer em 2003 com cancro, numa precoce perda para a comunidade e Cultura abrantinas.
Era funcionário na Biblioteca Municipal mas ficou responsável pelo Arquivo Histórico, fazendo o trabalho de organização, conservação e preservação documental.
Foi um dos fundadores da Associação para a Defesa e Estudo do Património da Região de Abrantes (ADEPRA), da qual era membro juntamente com José Alves Jana, Candeias da Silva e Carlos Madeira. Foi igualmente membro-fundador do CEHLA – Centro de Estudos de História Local de Abrantes, em 2002.

Chegou a ser criado, em 2008, o Prémio de Investigação Eduardo Campos, que teve poucas edições e não mais foi reativado pelo Município.

Eduardo Campos, considerado por Alves Jana “o grande militante da História de Abrantes”, foi responsável por diversas obras que integram a bibliografia que ajuda a conhecer a História da cidade e do concelho em pormenor, desde a toponímia à cronologia da elevação a cidade.

Em sua homenagem foi atribuída a denominação de “Arquivo Municipal Eduardo Campos” ao novo espaço do arquivo, inaugurado a 19 de setembro de 2009 na zona industrial de Alferrarede.

Foi uma das figuras homenageadas e que integraram a exposição “100 anos de Autores Abrantinos”, a propósito das comemorações do Centenário da elevação de Abrantes a Cidade, em 2016.

“Trabalhar com o Eduardo foi essencialmente um desafio, porque vindo de áreas diferentes, tendo perspetivas diferentes, conseguimos também ali casar estes dois mundos e fomo-nos aproximando e respeitando. Conseguimos materializar isso em ações muito concretas. Eu chego, e o Eduardo trabalhava com fichas em papel onde fazia os seus registos, e passado algum tempo ele estava a utilizar a base de dados para registar a sua informação. Isto deveu-se a um respeito mútuo entre as dimensões de alguém que trabalhava a informação e alguém da área da tecnologia”, reconhece.

Por seu turno, Teresa Lopes lembra “uma pessoa muito carismática” e “muito dedicado” ao que fazia. “Foi uma pessoa que aprendi a respeitar sempre muito, até por ser mais velho. Era uma pessoa muito respeitada pelo conhecimento que tinha. Tinha um sentido de humor incrível! Divertíamo-nos imenso…”, conta, lembrando um vídeo de um jantar de equipa que reveem de quando em vez, assaltados pela nostalgia dos tempos idos.

Do ponto de vista pessoal, creio que o Eduardo [Campos] tem um papel muito relevante na origem do nosso Arquivo Histórico

Paulo Rêgo

Durante a entrevista, Teresa depressa introduz “um dado interessante”: o filho de Eduardo Campos, João, integrou a equipa que trabalhou com o progenitor. “Ainda há pouco tempo falámos sobre isso… como via o trabalho do pai. Ele lembra-se do pai começar a trabalhar com o computador, as bases de dados… estivemos a recordar algumas coisas dos tempos em que ele ainda era miúdo, quando não fazia ideia que viria a ter um trabalho que, de alguma forma, se liga ao trabalho que o pai fez”.

João integra desde 2019/2020 a Divisão de Sistemas de Informação, na área da informática. Prossegue num outro plano, de futuro, a continuidade do trabalho do pai ao serviço do AMEC, projetando-o para a crescente digitalização e abertura de portas para um maior acesso por todas as pessoas da região, do país e em qualquer parte do mundo.

Arquivo no Convento de São Domingos. Foto: CMA

João teria cerca de seis anos quando começou a frequentar o local de trabalho do pai, e ali também se começou a interessar-se pelas tecnologias. “Formou-se em engenharia informática e acabou a trabalhar connosco”.

“Muito recentemente estivemos a transpor as bases de dados que o pai produziu, e estivemos a mapeá-los para formatos mais atualizados para preservar aquela informação”, conta. “Se o pai por um lado fez a investigação, o filho, estando ligado à tecnologia, pode ajudar a manter e disseminar o trabalho do pai”, releva Teresa Lopes, feliz com esta coincidência.

“O João, filho do Eduardo Campos, faz parte desta equipa – e é interessante termos a continuação, numa outra vertente, deste trabalho. Se o pai por um lado fez a investigação, o filho, estando ligado à tecnologia, pode ajudar a manter e disseminar o trabalho do pai”

Teresa Lopes

Sobre o método de trabalho ou a influência que pode ter sido deixada pelo legado de Eduardo Campos para a equipa atual, Paulo Rêgo crê que são épocas diferentes e formas de trabalho e de pensar diferentes, mas que Eduardo Campos era uma pessoa “altamente respeitada pelo seu trabalho”, deixando uma “matriz” que passa por “gostarmos daquilo que fazemos, vivermos apaixonados por aquilo que fazemos”.

“O Eduardo estava sempre muito embrenhado no trabalho por ser algo que adorava fazer, fazia parte dele. Estava sempre muito concentrado e a processar informação a toda a hora. Até poderia, a certa altura, parecer uma pessoa pouco simpática, mas depois percebia-se que se não, que essa impressão se devia à obstinação por aquilo que fazia”, relata Teresa.

De alguma forma o legado que deixou e a dedicação ao Arquivo, aproximou as partes que agora são responsáveis por promover e preservar a memória e alavancá-la para as gerações futuras, permitindo também o seu usufruto imediato no presente.

“É como se fôssemos todos uma família. Sentimos muito esse espírito dentro da nossa equipa de trabalho”, afiança Teresa Lopes.

Um presidente de Câmara, um vereador e um assalto em nome da Cultura ao Museu Dom Lopo de Almeida

Não relatamos um crime propriamente dito, caro leitor. Mas, se assim fosse, a História facilmente o perdoaria pelo desfecho positivo em que se traduziu, fazendo jus ao esforço dos intervenientes. Recua-se aos anos 80, no pós-25 de Abril, altura em que a Cultura ainda não era vista como sendo bem essencial e que deve ser acessível a todos. Até porque outras necessidades básicas precisavam ser suplantadas à época, desde logo pela falta de infraestruturas de eletricidade e de abastecimento de água.

Encontramo-nos com José Alves Jana, professor de Filosofia, pensador e investigador de História Local, entre muitos outros afazeres com que vai preenchendo os seus dias. Elegemos uma mesa nos corredores da Biblioteca Municipal António Botto, com vista para os claustros do Convento de São Domingos e, em particular, para a sala onde nasceu o Arquivo Histórico do Concelho de Abrantes (AHCA) – deste feito Alves Jana foi o principal culpado.

“Porque é que um rapaz de Filosofia, vereador na Câmara de Abrantes, propõe a criação do Arquivo Histórico?”, começa por dizer, aguçando no seu jeito próprio e desassossegador a nossa curiosidade.

Explica que foi no Ciclo Preparatório de Abrantes (atual Escola Básica D. Miguel de Almeida) e depois enquanto membro da ADEPRA – Associação para a Defesa e Estudo do Património da Região de Abrantes que tomou “consciência da importância destas coisas”.

Alves Jana, junto à Biblioteca Municipal de Abrantes e ao MIAA, no antigo Convento de São Domingos, local intimamente ligado às primeiras medidas tomadas para a criação de um Arquivo Histórico Municipal. Foto: mediotejo.net

Com a criação da ADEPRA – Associação para a Defesa e Estudo do Património da Região de Abrantes, em 1980, onde Jana acompanhou Eduardo Campos, Candeias da Silva e Carlos Madeira, despertou para a necessidade de preservar a documentação história da cidade e do concelho.

Eleito vereador e nomeado para o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Abrantes, a 20 de fevereiro de 1983, não perdeu a oportunidade e fez uma proposta de criação do Arquivo Histórico de Abrantes à autarquia, presidida por José dos Santos Jesus, vulgo Engenheiro Bioucas.

“Achei que era uma das medidas que seria importante criar”, justifica, lembrando que começou a recolher todos os documentos e fotografias que ia encontrando na Câmara, e que chegou ‘a levar nas orelhas’ por isso pelo presidente de Câmara, mas lá lhe recordou que ia dar jeito para o Arquivo Histórico.

O foco das autarquias locais estava nas necessidades de infraestruturas básicas, e muito facilmente a cultura passava para último plano, não sendo na altura uma prioridade. Alves Jana foi ganhando “sensibilidade” para a importância desta área na ADEPRA, embora já fosse aficionado das bibliotecas. Começou-se então a reunir documentação e materiais.

Certo dia, Fausto Sacramento Marques, deputado que tinha sido governador civil – e que deu, por deliberação camarária de 2013, nome à rua onde se situa o AMEC – lançou alerta a Eduardo Campos, avisando sobre a recolha pelo Arquivo Distrital de Santarém do acervo documental que estava no Museu Dom Lopo de Almeida, na Igreja de Santa Maria do Castelo.

Igreja de Santa Maria do Castelo, em Abrantes, atual Panteão dos Almeida e antigo Museu Dom Lopo de Almeida. Créditos: CMA

“Éramos membros da ADEPRA, estávamos sintonizados e trabalhávamos em conjunto, fora da Câmara, neste âmbito. Neste caso, tratava-se de salvar, para Abrantes, os documentos que eram de Abrantes”

O acervo documental em causa era constituído de documentos variados, das paróquias de Abrantes, atas da Câmara Municipal e até o manuscrito da ‘Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes’, e tantos outros.

“Levei o assunto à sessão de Câmara, e propõem que se comunique superiormente a perguntar o que se passa. E eu disse que não podia ser, porque se estivesse do outro lado, antes de dar a resposta, vinha buscar os documentos imediatamente”, e logo dramatiza a situação, recordando o momento.

“Meus senhores: se amanhã, quando nos levantarmos, soubermos que os documentos já cá não estão, quem é que responde por isso? Algum de vocês responde? Temos que tomar medidas. E o que se pode fazer? Ir lá buscá-los!”, reproduziu Alves Jana, lembrando a sessão camarária onde expôs a causa e onde se deliberou com a concordância de todos que se tomassem as medidas necessárias.

José Alves Jana foi o ‘cabecilha’ da iniciativa para que se resgatassem os documentos que estariam no Museu, na Igreja de Santa Maria do Castelo, tendo conseguido convencer o presidente de Câmara, Eng. Bioucas a roubar os documentos antes que o Arquivo Distrital os levasse. Releva o trabalho de equipa em prol da salvaguarda da memória histórica de Abrantes. Foto: mediotejo.net

No dia seguinte, pela manhã, numa camioneta da Câmara Municipal, com meia dúzia de funcionários, o presidente Bioucas e o vereador Alves Jana dirigiram-se ao Museu, no Castelo, com intuito de impedir que os documentos saíssem de Abrantes, e para isso, entenderam-se resgatá-los antes que fosse tarde demais.

“O sr. Joaquim, que era guarda do museu, foi informado e disse que não podia autorizar que lá se fosse buscar nada. E o Engenheiro Bioucas, a certa altura, disse que não estava a pedir autorização e que ele próprio abria a porta. O sr. Joaquim, ingénuo, ainda perguntou se o presidente tinha chave, ao que o Bioucas levantou o pé e disse que a tinha ali, que aquela chave abria todas as portas que ele quisesse”, recorda, rindo-se daquele episódio.

Na altura, Maria Lucília Moita era curadora e chegou a ser diretora do Museu Dom Lopo de Almeida. Ainda que, para consultar algum documento do museu, a autorização tinha de ser pedida a Lisboa, e nem sempre chegava.

“Ela veio ter connosco, colocámo-la a par, dissemos que não queríamos fazer mal a ninguém e só queríamos levar o que era nosso. Lá assentiu, pedindo que não fizéssemos mal aos papéis, carregámos aquilo e levámos”, prossegue.

Os documentos que estavam em monte, “num armário velho onde até chovia em cima de vez em quando”, passaram a estar armazenados numa sala do Convento de São Domingos. E dali, seguiu-se a fase mais importante: construir o primeiro arquivo histórico de Abrantes, a juntar-se ao arquivo vivo da autarquia, o arquivo intermédio existente no sótão da Câmara Municipal.

Alves Jana aponta para o local onde se situava sala a partir da qual o Arquivo Histórico do Concelho de Abrantes deu os primeiros passos, na ala sul do Convento de São Domingos. Foto: mediotejo.net

“Foi um duplo trabalho. Na Câmara, eu insistia com o presidente que era necessário arranjar condições para os papéis estarem, porque se um dia alguém ali viesse, não podíamos mostrar os documentos no chão. E ele concordou. Até porque o importante era não deixar levar os documentos”, e a certa altura começou a comprar-se estantes e caixas para acomodar o acervo resgatado.

Diz que o seu trabalho passou por “ir seduzindo o presidente de Câmara para a necessidade de criar condições”, mas que o trabalho mais importante coube a Eduardo Campos, responsável por “organizar, limpar, acondicionar, conservar na medida do possível toda a documentação”.

A Eduardo Campos, junta-se Ana Paula Dias, na altura os dois únicos funcionários da Biblioteca Municipal – que em 1993 saiu do espaço a sul no rés do chão do Convento de São Domingos e passou a habitar o edifício que hoje conhecemos.

Em 1984, no primeiro Dia Mundial da Música, veio a Abrantes o “papa dos historiadores” Oliveira Marques, “que disse que o arquivo era exemplar e que devia ser imitado. Foi a sagração do Arquivo Histórico, e a partir dali, já ninguém o levaria daqui”.

O Arquivo de hoje “é muito mais que o arquivo da Câmara, houve todo um trabalho de incorporação de outros arquivos, que começou com uma proposta minha para o Montepio Abrantino Soares Mendes. Mas depois – neste não tive intervenção – o da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, e a partir do momento em que estas entidades depositaram, sem perda de propriedade, os seus documentos aqui, porque havia boas condições de conservação que eles não tinham, começou depois a existir uma série de incorporações e o arquivo foi-se enriquecendo. E é esse o trabalho mais importante, hoje. O da guarda e o da incorporação de novos fundos documentais”.

Alves Jana crê que é este o principal problema do arquivo atualmente, apontando à “falta de dinamização e de novas incorporações de documentos e acervos”.

Foto: mediotejo.net

“A liderança do arquivo deveria fazer esse trabalho. Lançar projetos e campanha de recolha junto da comunidade. Fazer dinamização do Arquivo Municipal, fazer exposições com esses espólios documentais reunidos de diversas temáticas”, defende.

Por outro lado, e tendo noção da quantidade de materiais que diariamente se podem estar a perder porque as pessoas podem estar a desfazer-se, por qualquer motivo, de documentação, livros e outros objetos, Alves Jana crê que é necessário uma intervenção urgente dos responsáveis do Arquivo Municipal Eduardo Campos para inverter o estado de coisas.

“As pessoas não têm obrigação de ter essa sensibilidade. Tem que haver, sim, a criação de uma opinião pública que seja favorável a esta preservação. Esse é o trabalho mais importante de preservação, para lá da conservação e disponibilização dos documentos”.

ARQUIVO MUNICIPAL EDUARDO CAMPOS

Rua Fausto Sacramento Marques,
Zona Industrial de Alferrarede
2200-480 Abrantes
tlf.: 241 330 100 (tecla 6 + 1)
arquivo.municipal@cm-abrantes.pt
GPS: 39°29’26.6″N 8°11’41.2″W
Horário:
segunda-feira a sexta-feira
09:00 às 12:30 / 14:00 às 17:30

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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4 Comments

    1. Boa tarde,
      Não quero deixar de expressar o meu agradecimento pelas suas palavras de apreciação.
      Cordiais cumprimentos
      JS

  1. Só hoje consegui ler este trabalho. Que considero muito bom e de grande relevância informativa – apesar de uma ou outra falha, que não compromete o conjunto. Creio que a uma jornalista que vem “de fora” não se pode pedir mais. O Arquivo fica a ganhar e nós também. Parabéns à Joana.
    Só uma observação: que sentido faz comemorar 40 anos do Arquivo, quando ele tem séculos? Este é um problema que nasce antes deste trabalho de jornalismo. O que faz 40 anos é a criação do Arquivo Histórico, hoje incorporado (sem qualquer problema) no Arquivo Municipal, que leva o nome de Eduardo Campos. Já não há (sem problema) o “arquivo histórico”; há o núcleo histórico do Arquivo Municipal. Mas importa não esquecer que há 40 anos já existia o “arquivo municipal” da documentação da Câmara. Hoje é muito mais que isso.
    Repito: no essencial, ao trabalho de jornalismo não não era fácil perceber esta perspectiva.

    1. Agradeço-lhe a colaboração e partilha. E obrigada também por esta perspectiva.
      Cordiais cumprimentos
      JS

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