André Pereira tem 43 anos, é natural de Toucinhos, Alburitel, e reside em Ourém. Quando não está a correr ultramaratonas, é técnico demonstrador de materiais de construção. Os fins-de-semana são divididos entre treinos de “maior distância” e programas em família. Por vezes “é complicado fazer a gestão de tudo”, admite.
As corridas são a sua paixão mas nem sempre foi atleta. Aliás, em conversa com o mediotejo.net, conta que era um “fumador nato há 20 anos”, quando decidiu “mudar de vida” e deixar os cigarros, em 2015.
Quatro anos depois e com “uns quilinhos” a mais, começou a ir ao ginásio. Descobriu o atletismo quando iniciou aulas de corrida no exterior, cerca de uma hora por semana, num grupo em que todos conseguiam acompanhar o ritmo “e ninguém ficava para trás”.
O primeiro trail em que participou tinha 16 quilómetros, e levou 1h52m a concluir. “Achei que já era o maior, porque nunca me passou pela ideia que conseguisse um tempo tão curto, tendo em conta a minha experiência e resistência”, conta.
O interesse para explorar outro tipo de provas surgiu naturalmente: “Quando dei por mim estava a fazer 53 quilómetros.” O objetivo principal era “sair fora da zona de conforto”, num percurso que levou 6h30m a completar. A partir daí, foi um “catapultar e um escalar de quilómetros e horas de treino”, diz-nos.
“Superação” e “desafios” são palavras-chave no percurso de André Pereira enquanto atleta, o que se confirma vendo os resultados obtidos nas diferentes provas já realizadas.
Em 2020, por exemplo, realizou a prova PT281 Ultramarathon, debaixo do calor abrasador de julho, entre Belmonte e Proença-a-Nova, num total de 281 quilómetros. No ano seguinte, o esforço foi recompensado quando alcançou a primeira vitória na Ultramaratona Caminhos do Tejo, um trajeto de 144 quilómetros do Parque das Nações, em Lisboa, até Fátima.
Ainda em 2021, André Pereira participou na prova PT1001 Portugal Lendário, um percurso de 1001 quilómetros dividido em 14 dias/14 etapas, e de onde saiu igualmente vencedor.
Além da superação, diversificar o tipo de provas é, nas suas palavras, um dos grandes desafios do percurso enquanto atleta. Os tempos da pandemia de covid-19, em que “não havia possibilidade de sair para o exterior e andar longe da zona de residência”, foram o mote para experimentar um conceito diferente – as provas Backyard, criadas pelo atleta americano de corridas de resistência Lazarus Lake.
Neste contexto, o atleta participou nas provas Feirense Backyard Ultra e Horizontes Backyard Ultra, com distâncias de 186 e 170 quilómetros respetivamente, no ano de 2022.




Apesar de gostar de correr em trilhos, o atleta diz que esta prova na Estrada Nacional 2 permitiu conhecer “culturas diferentes” nos recantos históricos de Norte a Sul ou, neste caso, de Chaves a Sagres.
Queria “fazer algo diferente”, mas a prova adivinhava-se difícil por ser em terreno de alcatrão. Apesar de ser um desafio pessoal, o atleta teve o apoio da sua equipa, Fátima Trail Team, e também da equipa da Chamusca.
No dia 2 de outubro, André Pereira partiu do quilómetro 0, em Chaves, focado em superar mais uma prova de resistência sem sofrer “muitas mazelas”, e “melhorar o tempo que existia”, o único registado por quem fez este percurso a correr. Foi em 2021 que o atleta português Miguel Lopes fez estes 738 quilómetros em aproximadamente 145 horas, pouco mais de seis dias.
Do quilómetro 0, marcado em Chaves, até ao ponto de chegada, em Faro, André Pereira levou 136 horas e 27 minutos, um tempo que poderá agora ser considerado para inscrição no Guiness World Records.
O tempo que André Pereira levou a percorrer a Nacional 2 foi registado pela STOP and GO, uma empresa de cronometragem de provas desportivas. O atleta levou consigo um aparelho de geolocalização para que as pessoas pudessem também acompanhar a sua prova em tempo real, e muitos fizeram questão de acompanhar o trajeto de perto.
André Pereira guarda com carinho os momentos de interação ao longo daqueles dias, até com desconhecidos. Conta-nos que houve quem o acompanhasse durante 90 quilómetros e quem estivesse à sua espera, para correr um pouco com ele. “Depois de passar Aljustrel, surgiu um atleta de Ourique e correu comigo aí uns 20 quilómetros”.
O apoio popular, diz, foi tão importante como os apoios institucionais e dos patrocinadores. E dá-lhe ânimo para pensar já na próxima corrida, e num novo desafio a superar.
