Gabriel Feitor, investigador da história local e vereador da Cultura na Câmara de Alcanena. Foto arquivo: mediotejo.net

Subordinada à temática “Políticas ambientais nos 50 anos da Democracia”, o concelho de Alcanena recebeu a sessão de encerramento daquela que é já a terceira edição da “Alcanena Green Week” e que assinalou também o Dia Mundial do Ambiente, celebrado anualmente no dia 5 de junho.

A iniciativa recordou o passado do país e da Europa, marcado pela inexistência de políticas ambientais e de regulamentação relativamente ao ambiente, tendo percorrido um longo caminho até à adoção da consciência da importância da preservação ambiental e pela adoção de medidas de combate às alterações climáticas.

Alcanena debateu o passado e o futuro das políticas ambientais no encerramento da “Green Week”. Foto: mediotejo.net

A intervenção de José Alho, atual vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT), incidiu sobre o passado, o presente e o futuro do ambiente em Portugal e na Europa.

Com a viragem do milénio dá-se um momento que José Alho considerou ser “marcante”, com a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), elaborados pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano 2000 e através dos quais os líderes mundiais se comprometeram a estabelecer metas que melhorassem a qualidade de vida da sociedade.

José Alho, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT). Foto: mediotejo.net

O ano de 2015 foi marcante na história da Europa e do mundo, tendo constituído um importante marco de viragem relativamente às alterações climáticas. Foi o ano da Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, tendo atingido o seu objetivo quando pela primeira vez na história um acordo universal definiu medidas para reduzir os efeitos das alterações climáticas. 

Quanto ao futuro, José Alho mostrou-se “descrente”, recordando os conflitos que marcam a atualidade entre a Rússia e a Ucrânia e entre Israel e a Palestina. Em causa está um “perigo nuclear” que poderá representar consequências graves a nível ambiental e que retira o tema das alterações climáticas e do ambiente da ordem do dia.

Maria João Botelho, atual coordenadora da APRODER, tem um longo passado ligado ao Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. Durante a sua intervenção sublinhou a importância desta região cársica que é hoje uma das maiores reservas de água subterrânea, facto que adquire maior importância tendo em conta o “período marcado pelas alterações climáticas”.

“Estamos em cima desta bacia que é o ouro do século XXI”, destacando a importância de promover e trabalhar na sua correta gestão e preservação.

Durante a sua intervenção lembrou o trabalho realizado no parque, nomeadamente ao nível do inventário de espécies, da implementação de instrumentos de gestão territorial, da criação de uma equipa de trabalho e de infraestruturas no território.

Maria João Botelho, atual coordenadora da APRODER. Foto: mediotejo.net

A coordenadora da área dos recursos hídricos da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, explicou o papel das ONGA na promoção, proteção e valorização do ambiente no território português.

As ONGA correspondem a organizações não governamentais de ambiente, cujo principal objetivo incide sobre o estudo, a defesa, ou a valorização do meio ambiente, explicou Sara Correia. A sua atuação está delimitada em três eixos principais, nomeadamente o desenho de políticas públicas, “oferecendo conhecimento especializado e experiência prática para melhorar as políticas existentes”.

Promovem ainda a educação ambiental e correspondem a “um instrumento fundamental de participação das populações e intervenção da sociedade na defesa das questões ambientais”. No entanto, as ONGA “deparam-se diariamente com dificuldades ao nível do financiamento, da capacitação em áreas específicas e ainda ao nível da visibilidade e reconhecimento”.

Sara Correia, coordenadora da área dos recursos hídricos da ZERO – Assocaição Sistema Terrestre Sustentável. Foto: mediotejo.net

“É importante reafirmar a importância das ONGA na promoção, proteção e valorização do ambiente em Portugal. Além disso, é crucial encorajar a participação ativa na conservação do ambiente, seja através do voluntariado em ONGA, da adoção de práticas sustentáveis ou de apoio a políticas ambientais fortes”, defendeu Sara Correia.

Gabriel Feitor, investigador local, começou por referir que na Idade Média, Alcanena era designada por “outra terra a rego merdeiro”, o que remetia para a poluição e que “podia denotar já a tradição dos curtumes”.

No século XIX foi publicada uma “postura” para que as peles não fossem lavadas na fonte de Alcanena, revelando o início das preocupações ambientais e da população que se manifestava contra os focos de poluição, facto presente em sessões camarárias nos séculos XIX e XX.

Para travar a situação, foram realizadas duas “importantes empreitadas”, segundo Gabriel Feitor, nomeadamente o coletor de cimento que estava conectado a todas as fábricas de Vila Moreira e de Alcanena e também o Miradouro Joaquim Ramos Vieira, investimentos que anos mais tarde se tornaram obsoletos.

Na sua intervenção, Feitor explicou de que forma é que os problemas ambientais condicionam ou condicionaram o desenvolvimento de Alcanena, nomeadamente através de um longo circuito de mono indústria, que se revelou uma das grandes condicionantes ao desenvolvimento nas décadas de 80 e 90.

Também os “cheiros sentidos” foram apontados como um entrave ao desenvolvimento do concelho, bem como a incapacidade de “diversificação do mercado ou operação turística”.

Nuno Silva, vereador da Câmara de Alcanena com o pelouro do ambiente, afirma que os objetivos da “Alcanena Green Week” passam por “manter na ordem do dia as questões ambientais, a sensibilização das pessoas para estas mesmas questões e para as novas questões que vamos tendo na área ambiental, nomeadamente as alterações climáticas, a questão dos biorresíduos, as perdas de água, a poluição da água”.

Para além de sensibilizar os munícipes para os problemas ambientais, a iniciativa procura ainda dar a conhecer os esforços que têm vindo a ser realizados para “minimizar os impactos destas situações”, acrescenta o vereador.

ÁUDIO | Nuno Silva, vereador na Câmara Municipal de Alcanena

“Dentro das três edições que já foram realizadas foi, quanto a mim, a mais bem conseguida (…). Este ano nós voltámos à primeira forma, de descentralizar um pouco a realização das várias atividades e correu muito bem, com bastante afluência das pessoas, mesmo fora do nosso concelho”, afirmou Nuno Silva em declarações ao nosso jornal.

Questionado quanto ao trabalho da autarquia neste domínio, afirma existirem “várias situações a ser trabalhadas”.

“Começando por um projeto onde eu estou a trabalhar já desde há um ano, vamos ter um projeto chamado Espinheiro Green Lab, na freguesia de Espinheiro, onde iremos ter um desenvolvimento de uma aldeia sustentável, ou seja, com várias interações e com experimentação de várias atividades, nas áreas da energia, agricultura, etc, e que serão um balão de ensaio para outros locais do nosso território e até da região”, afirma.

Nuno Silva, vereador na Câmara Municipal de Alcanena, com o pelouro do ambiente. Foto: mediotejo.net

Quanto à Praia Fluvial dos Olhos de Água, Nuno Silva defende que esta será “uma porta de entrada aqui do Parque Natural”, integrando o plano de co-gestão do parque e com projetos traçados para dinamizar o local.

“Depois temos outras áreas que temos vindo a trabalhar com os nossos parceiros, ao nível daquilo que é o rio Alviela e a sua despoluição. Temos a empresa municipal Aquanena, que está a desenvolver esforços no sentido de melhorar o tratamento e depois podermos apostar na valorização de uma parte da água tratada para outros fins”, acrescenta.

Uma das atividades realizadas na “Alcanena Green Week” passou mesmo pela reutilização de águas, uma área “que está a dar os primeiros passos em Portugal. Queremos também aplicar essas técnicas e essas atividades aqui no nosso território, nomeadamente com a ETAR de Alcanena, que gera 5000 m3 de água por dia”, afirma Nuno Silva.

Quanto ao futuro, os planos passam pela continuação da iniciativa “Green Week” em Alcanena, “em princípio no mesmo formato e na mesma altura do ano, nesta altura da primavera”, conclui o vereador.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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