Foto: mediotejo.net

O cineteatro São Pedro, em Alcanena, acolheu na tarde de terça-feira um seminário subordinado ao tema “Olival tradicional: políticas públicas, sustentabilidade e competitividade”, no âmbito do projeto “Ouro Líquido”. A iniciativa teve como objetivo a promoção do olival tradicional junto dos agentes públicos e privados, tendo contado com a participação do secretário de Estado da Agricultura, João Moura.

O autarca de Alcanena, Rui Anastácio, começou por recordar que, há cerca de três anos, um conjunto de pessoas olhou para o território de Alcanena e perceberam uma coisa “incrédula”: 30% dos 172 quilómetros quadrados do concelho são preenchidos por olival tradicional.

“Desse exercício simples, de olhar para o território, nasceu a reflexão de que temos de fazer algo por estes 30% do território”, acrescentou, afirmando ser esse o “grande desafio” para o futuro.

“É o grande desafio e que se pode vencer, penso eu, se tivermos capacidade de união, de compreender as nossas forças e fragilidades e de construir algo de baixo para cima”, afirmou. Tal desafio deu origem à criação do projeto “Ouro Líquido” que, numa fase inicial, reuniu os concelhos de Alcanena e Torres Novas e agora se estendeu a todo o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros.

A fim de responder ao desafio, Rui Anastácio sublinha ser necessário conhecer as fraquezas para as poder superar, razão pela qual tem sido desenvolvido um exercício de diagnóstico no território, com entrevistas individuais realizadas “terra a terra, lugar a lugar, lagar a lagar, olival a olival, olivicultor a olivicultor”.

Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena. Foto: mediotejo.net

Rui Anastácio recordou ainda que, na passada semana, nasceu a APOAC – Associação para a Promoção do Olival e Azeite de Aire e Candeeiros, reunindo 53 sócios fundadores para a qualificação do território, “olhando para o olival como fator de valorização, percebendo que o nosso azeite tem, de facto, um enorme potencial mas que muitas vezes não é bom e temos de perceber porquê”.

ÁUDIO | Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena

Os objetivos passam, assim, por vencer o “desafio da qualificação” e da colocação do produto no mercado, com recurso a uma estratégia de marketing.

“Se tivermos essa capacidade de reunir e analisar, de construir algo de baixo para cima, certamente que conseguiremos fazer o mesmo ou melhor até porque temos aquilo que é necessário, um olival tradicional um pouco por todo o território, com oliveiras com dezenas e algumas com centenas de anos e outras se calhar com milhares”.

O edil mostrou-se confiante de que, com qualidade e “comprando a história certa”, será possível encontrar um espaço no mercado, defendendo a valorização do azeite “ao preço justo para que o olival não continue a ser abandonado”.

Durante a sua intervenção, Rui Anastácio vincou a importância de um produto que está presente na matriz cultural do território, associada a um produto transversal, nomeadamente a oliveira e o azeite. “Quase que diria que o azeite corre-nos nas veia”.

Dirigindo-se ao secretário de Estado, o autarca de Alcanena afirma haver um trabalho de casa “bem feito”, pelo que não é necessário apoio ao setor. No entanto, aponta a necessidade de que o governo compreenda o “trabalho extraordinário que está a ser desenvolvido nestes territórios” e que, em conjunto, possa ser trilhado um caminho de proximidade.

“Que se possa organizar um grupo de trabalho que caminhe connosco. O que nós precisamos é que o governo caminhe connosco e tenho a certeza que iremos contar com o governo do nosso país”, concluiu.

Na sessão que, ao longo da tarde, debateu a importância do olival tradicional para o território, João Moura mostrou-se confiante no projeto, destacando um “excecional encontro” que considerou ser um “ponto de partida para algo que tem tudo para dar certo”.

“De facto, a nossa paisagem, o nosso maciço calcário destas bonitas Serras de Aire e Candeeiros têm, na sua inserção, muitos olivais (…). O olival tradicional é um olival que faz parte da nossa história, do nosso património, é importante em termos territoriais, de valorização do nosso solo”, afirmou o governante.

Além disso, representa também um importante papel social, ocupando um grande números de famílias. “Geralmente a apanha da azeitona nestes locais é feita com os recursos familiares, um encontro entre amigos (…) e depois tem também uma importância económica e é este despertar da importância económica que nós estamos aqui muito à procura”, afirma.

Considerando Portugal como um país de excelência para a produção de azeite, produto que contribui significativamente para a balança comercial ao nível das exportações, João Moura defende que este deverá ter uma valorização “muito acima”.

ÁUDIO | João Moura – Secretário de Estado da Agricultura

“É evidente que nós podíamos estar a pensar nesta estratégia para aumentar o consumo de azeite na nossa população. Mas eu acho que este projeto que o Rui [Anastácio] tem na cabeça é um bocadinho mais ambicioso que isto”.

“E é aí que está a faltar a tal marca, a tal identidade…”, afirma. “Nós não temos de ser modestos. (…) Ele tem, de facto, uma valorização muito acima do normal. Nós temos é de ter uma estratégia… Ele pode ter e deve ter um potencial gigante naquilo que é a valorização do produto”, acrescenta.

Em Alcanena, João Moura sublinhou a disponibilidade do ministério da Agricultura que “assume aqui hoje o compromisso de ajudar naquilo que for preciso para abrir fronteiras, para abrir mercados e para potenciar este produto que é um produto de excelência de valorização nacional”, concluiu.

O projeto “Ouro Líquido” e a APOAC

O decorre no âmbito do Projeto Ouro Líquido, que arrancou nos municípios de Alcanena e Torres Novas para uma maior valorização da fileira do azeite a partir da sustentabilidade do olival tradicional, que partiu para uma maior abrangência abarcando os restantes municípios do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.

O projeto tem como ponto de partida “elencar desafios e abrir caminhos ao olival tradicional, nos planos do modelo produtivo, da organização do setor, dos fatores de competitividade, da estratégia de marketing, dos serviços de ecossistema e do financiamento”.

Passado um ano de trabalho nos dois municípios-piloto, Alcanena e Torres Novas, o Projeto Ouro Líquido passou a atuar nos municípios com território no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, no quadro da respetiva Comissão de Cogestão e da ADSAICA.

A missão passa por valorizar a fileira da oliveira, cultura predominante, mas em abandono progressivo nos espaços agrícolas deste território. E é nesse sentido que o Projeto Ouro Líquido “pretende criar valor e procurar soluções para os desafios colocados ao olival tradicional, nos planos do modelo produtivo, organização do setor, fatores críticos de competitividade, financiamento e estratégia de promoção e comercialização”.

Foto: DR

Em concreto, pretende-se aprofundar o conhecimento sobre a cadeia de valor do olival tradicional, estimular os agentes privados a inovar nos processos, produtos e serviços, atrair novos operadores, aceder a redes de conhecimento, aprender com outros casos, estudar e abrir novos mercados e envolver organismos do Estado para a estratégia a prosseguir no futuro.

Na agenda deste projeto está ainda o estudo dos aspetos singulares e diferenciadores da paisagem olivícola destes municípios, vista como produto de construção ecológica, histórica e cultural, e inventariar recursos ligados ao olival e ao azeite potencialmente relevantes para a construção de uma estratégia olivoturística, que possa aportar valor económico e social às comunidades rurais, integrando produtos endógenos, gastronomia, natureza, paisagem rural, cultura e património.

Considerado o coração do mediterrâneo calcário português, a singular identidade do PNSAC nos domínios da geomorfologia, natureza, biodiversidade, património histórico, etnografia e paisagem rural, pode certamente contribuir para uma valorização mais ampla da olivicultura e do azeite desta região.

Recentemente “nasceu” também a APOAC – Associação para a Promoção do Olival e Azeite de Aire e Candeeiros que visa “potenciar a qualificação, a valorização e a promoção desta fileira, agregando agricultores, lagareiros e outros interessados em torno de uma «Carta de Compromisso da Qualidade e Sustentabilidade do Azeite Aire e Candeeiros»”.

Esta nova associação sem fins lucrativos, que inicia a sua atividade com 53 associados fundadores, congrega olivicultores, lagareiros, embaladores, comerciantes, operadores olivoturisticos e outros interessados pela fileira do olival dos 7 municípios com território no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (Alcanena, Alcobaça, Ourém, Porto de Mós, Rio Maior, Santarém e Torres Novas).

Foto: DR

Até ao momento, o Projeto envolveu mais de 280 pessoas em dinâmica participativa, incluindo operadores do setor, agentes públicos, academia, empresas e demais stake-holders, num ecossistema que designamos de “Comunidade Ouro Líquido”, que se tem revelado uma excelente rede de partilha, aprendizagem e qualificação.

“É crescente a sensibilização dos poderes públicos, agricultores, academia e empresas quanto à relevância do olival tradicional para a fixação das populações e desenvolvimento equilibrado do território. Contudo, é menos reconhecido o papel que o olival tradicional pode aportar à dinâmica de criação de valor no setor do azeite, permanecendo por estudar e testar modelos operativos que lhe confiram sustentabilidade e competitividade, a uma escala que possa atenuar o ritmo de abandono a que o mesmo tem estado sujeito nas últimas décadas, em Portugal”, pode ler-se em nota enviada à imprensa.

Estes conceitos, desafios e preocupações são o mote para lançar a reflexão, debate e partilha em torno do futuro do olival tradicional e da fileira do azeite nos municípios que integram o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, salienta o município de Alcanena.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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  1. Excelente texto que relata com rigor e expressividade os acontecimentos e sobretudo a mensagem durante a sessão. Votos de sucesso e bom trabalho.

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