Vasco Damas, líder do movimento ALTERNATIVAcom. Créditos: mediotejo.net

Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Internacional, Vasco Damas, que vive atualmente em Tramagal, trabalhou na Associação Empresarial do Concelho de Abrantes, na Nersant, como gestor da Mercar, no Grupo Lena, em Leiria, como gerente da MultiOpticas, e regressou a Abrantes para trabalhar no grupo Sonae, sendo agora diretor comercial da Era Imobiliária. A sua máxima é “fazer acontecer”.

Em 2021 o movimento ALTERNATIVAcom concorreu pela primeira vez à Câmara Municipal de Abrantes. Com o lema ‘Missão possível’, Vasco Damas, gestor, foi o cabeça de lista do movimento independente nas eleições autárquicas daquele ano, tendo defendido como objetivos a “reafirmação” da cidade com uma “marca identitária” potenciadora de desenvolvimento.

São cinco anos do movimento independente ALTERNATIVAcom – embora seja um movimento de cidadãos não deixa de ser um movimento político. Que balanço faz destes cinco anos do movimento em Abrantes e de quatro anos na oposição enquanto vereador no executivo? As ideias iniciais mantém-se válidas ao dia de hoje, o que mudou e porquê?

O balanço é positivo, no entanto não é fácil ser juiz em causa própria e quem deve fazer esse balanço são os abrantinos. Daqui a um ano terão oportunidade de mostrar nas urnas a avaliação que fazem do nosso trabalho. Acredito que este movimento fazia falta à cidade de Abrantes. Gosto muito de usar a frase: finalmente Abrantes tem alternativa, precisamente porque somos um movimento de cidadãos, que faz política, mas sem nenhum tipo de ideologia. Como dissemos em 2019 [data da fundação do movimento], o nosso partido era Abrantes e continua a ser e será sempre. Curiosamente estive nos últimos dias a rever uma entrevista feita há cinco anos, também convido a quem tiver esse interesse a ir ver o nosso ponto de partida, e, transversalmente, muito daquilo que foi dito continua a estar atual, continua a fazer sentido, continuam a ser as nossas bandeiras. A única coisa que mudou, falava-se há mais de 20 anos que o McDonald’s vinha para cá, entretanto veio. As grandes bandeiras que tínhamos na altura e o porquê de termos aparecido, e de termos construído uma alternativa que a cidade e o concelho precisavam, continuam a fazer todo o sentido e achamos que esta é uma missão que vai ganhando mais sentido a cada dia que passa.

Entre essas bandeiras mantém a reivindicação da preservação do mercado diário antigo…

Defendemos que o mercado diário deveria regressar ao seu berço tradicional. Por vários motivos. Em primeiro lugar porque a solução adotada para o atual mercado diário acreditamos não ser a solução que faça sentido em termos de mobilidade, nem para quem lá está, nem para o público alvo que se pretende atingir. Um mercado diário feito com vários níveis provoca dificuldades de mobilidade – sabemos que o público alvo é mais idoso, com alguns problemas de mobilidade – e gostamos também de ilustrar esta nossa posição com muito daquilo que tem sido feito de Norte a Sul do País, com a recuperação de muitos mercados diários sem perder a sua função original, mas dotando de outro tipo de valências que os tornam muito mais atrativos e que lhes permitem também ser rentáveis e pagar os seus custos de manutenção.

Diz que essas bandeiras apresentadas nas autárquicas de 2021 continuam válidas, quais são elas?

Desde logo aquilo que acho fundamental para comunicar Abrantes para fora, uma perda progressiva de identidade. Durante muitos anos Abrantes foi conhecida como a cidade florida. Deixámos de regar a flor e deixámo-la murchar. Nos últimos tempos tem havido um esforço no sentido de recuperar esse slogan porque, curiosamente, em março de 2021 numa notícia que saiu no mediotejo.net, fazendo eco de um dos nossos comunicados, falávamos na necessidade da recuperação da identidade, falávamos da flor e da feira da flor, inclusivamente sugestões para a construção de uma estufa que permitisse o aparecimento de novas flores. Na última reunião de Câmara foi anunciada por uma das vereadoras a existência de uma estufa. Não estou com isso a querer que reconheçam a paternidade da ideia, mas até nestes pequenos exemplos se percebe a importância de uma alternativa que pense fora da caixa, fora das ideologias, não esteja amarrada a políticas centrais. Outras da bandeiras tem a ver com a abolição das portagens na A23.

Conseguimos em determinada reunião de Câmara aprovar uma proposta de deliberação, no sentido de que o executivo municipal fizesse tudo o que estava ao seu alcance para conseguir a abolição das portagens. Porque, em momento algum, podemos continuar a defender a lógica do utilizador/pagador quando estas autoestradas foram construídas com dinheiros comunitários, numa fase inicial como SCUT – que quer dizer sem custos para o utilizador -, portanto, não se pode utilizar dinheiro com uma determinada finalidade que era, precisamente, diminuir as assimetrias entre o interior e o litoral, e alguns anos depois fazer-se uma inversão daquilo que teve na origem da sua construção e utilizarmos o argumento do utilizador/pagador.

Entretanto, este ano, a abolição das portagens na A23, uma proposta de lei do PS, foi aprovada na Assembleia da República, com os votos contra do PSD e do CDS, abstenção da IL e votos favoráveis dos restantes partidos. Sendo o Orçamento de Estado aprovado, é expectável que no próximo ano a medida seja concretizada…

Da mais elementar justiça, só peca por tardia. Mas o curioso é que quem esteve na origem dessa tomada de decisão foi quem durante anos e anos governou este País e que teve a possibilidade de abolir as portagens e quando o podia ter feito não o fez. É importante não esquecermos esta situação.

Vasco Damas, líder do movimento ALTERNATIVAcom. Créditos: mediotejo.net

Também defendiam o apoio à imprensa local. Continuam a defender?

Claro que sim. A imprensa seja local, regional ou nacional é o quarto poder. E a imprensa só pode exercer esse poder – de supervisão e de regulação dos outros três poderes – e só pode honrar o seu código de ética e de deontologia se não estiver dependente de nada. E nós percebemos as dificuldades que a comunicação social local tem em termos de recursos financeiros, e quando há essa dependência, essa dificuldade, é óbvio, é mais difícil honrar esses códigos, por melhores profissionais que sejam. Mas sabemos, e temos essa noção, que há compromissos assumidos e têm de ser honrados e muitas vezes não é fácil. E também sabemos – apesar de poder ser desmentido – que há pressões, que determinadas coisas aconteçam de determinada maneira, ou que determinados eventos sejam noticiados de determinada forma. Mas isto é um problema nacional, não é só local. É por isso que defendemos essa defesa dos órgãos de comunicação social locais, para que não haja essa dependência e que os órgãos possam exercer livremente e honrando os seus códigos profissionais, para o quarto poder ser efetivamente um quarto poder.

Sentem que isso não acontece?

Tenho essa sensibilidade. Por exemplo; temos feito um trabalho meritório nestes cinco anos, dois antes das eleições e três depois de termos sido eleitos, e o eco que é feito do nosso trabalho na comunicação social é diminuto, quando comparado com a qualidade e com o volume de trabalho que temos produzido. Quem não acompanhe com regularidade as reuniões de Câmara e as Assembleias Municipais e acompanhe a política local só através dos órgãos de comunicação social, se calhar até pensa que o movimento ALTERNATIVAcom já não existe. A nossa presença nesses órgãos, na minha opinião, fica muito aquém da qualidade e do volume de trabalho que temos produzido ao longo deste tempo.

E quais foram as maiores dificuldades que encontraram ao longo destes cinco anos?

Essencialmente a falta de recursos. Não somos um partido organizado, que tenha uma estrutura montada, que nos permita fazer aquilo que é natural para os partidos. Mas é também essa falta de recursos que tem sido a grande fonte de resiliência deste movimento. Um movimento de cidadãos que reúne desde o seu aparecimento, salvo raríssimas exceções, todas as semanas, com um núcleo que tem vindo a mudar ao longo do tempo, com entradas e saídas, mas que reúne toda as semanas para fazer uma análise da situação política do concelho, que nos permite fazer preparação de reuniões de Câmara e de Assembleias Municipais. Um olhar critico do concelho acho que é muito meritório e inclusivamente os partidos formalmente organizados não têm esta resiliência, organização e esta frequência de reuniões como temos. Como dissemos no dia 11 de novembro de 2019, se fosse fácil não era para nós.

Vasco Damas, líder do movimento ALTERNATIVAcom. Créditos: mediotejo.net

Referiu o núcleo fundador e a mudança de elementos. Qual a razão dessa mudança, as pessoas abraçaram outros projetos, desmotivaram-se, ficaram dececionadas com a política?

Um núcleo fundador que é fundamental e são nomes dos quais não me posso esquecer porque se essas pessoas não estivessem ao meu lado no dia 11 de novembro de 2019, o movimento ALTERNATIVAcom não tinha nascido e hoje não existiria. Portanto, são pessoas a quem estou muito grato por terem acreditado no projeto. E estou a falar do Rui André, da Ana Gomes, do João Céu e do José Rafael Nascimento que, desse núcleo fundador, é o único que permanece no movimento.

Um projeto de cidadania envolve sempre grandes sacrifícios, pessoais e profissionais, nem todos estão dispostos a correr atrás desses sacrifícios. Mas aquilo que aconteceu principalmente no caso dos dois primeiros elementos que saíram, a Ana Gomes e o João Céu, foi a alteração das suas vidas que lhes retirou tempo para aquilo que o movimento necessitava. O Rui André acabou por ser um elemento que gravitou sempre em torno do movimento ALTERNATIVAcom, mas tinha também o seu movimento independente na freguesia de Rio de Moinhos… é alguém que continua a fazer parte do grupo do whatsapp, mas que, ao fim de duas décadas de trabalho político ativo, está a entrar numa fase de desgaste e vai entrar num merecido período de descanso. São pessoas com quem mantenho contacto, que mantém simpatia pelo movimento. Só não posso afirmar que votam ALTERNATIVAcom porque não estou com elas no momento de colocar a cruz, mas se tivesse que apostar, apostaria que sim.

E os dois elementos que se mantém desde o núcleo fundador – o Vasco Damas e o José Rafael Nascimento -, o que vos move ou o que vos mantém no movimento independente?

O que nos move e que nos faz continuar aqui desde o seu início – e o movimento não é apenas o Vasco e o José Rafael, mas tem um núcleo de 8 pessoas; Sónia Pedro, Clara Lopes de Almeida, Nuno Lopes, Xavier Silva e Cristina Coxinho e um jovem de 16 anos que têm assistido às nossas reuniões – é acreditarmos que aquilo que esteve na origem da criação do movimento continua a fazer sentido. Digo isto porque vou sentindo um apoio crescente, através de apoios nas redes sociais. Por razões profissionais tenho de andar muito mais no terreno e vou sentindo palavras de simpatia e de apreço, palavras de reconhecimento de pessoas que muitas vezes não sei quem são mas que me reconhecem. Mais importante que me reconhecerem é reconhecerem a utilidade do nosso trabalho. Tudo aquilo que questione, que provoque inquietação e que obrigue a sair da zona de conforto acho que faz todo o sentido, por mais alta que seja a fatura pessoal a pagar.

“Uma fatura pessoal”, o que é que isso quer dizer? Sentiu em algum momento, nestes últimos cinco anos, que a sua vida pessoal ou profissional tivesse sido prejudicada pela política?

Quer dizer que enquanto fizer sentido, enquanto acharmos que o nosso trabalho é útil, continuaremos a estar por cá porque como costumamos dizer; desistir não é opção. Quando nos dedicamos de alma e coração a um projeto e esse projeto começa a incomodar, há coisas que acontecem. O que posso dizer é: façam uma análise, uma pesquisa, façam perguntas e talvez encontrem repostas. É muito importante, principalmente quando temos responsabilidades, que não aceitemos apenas uma versão da história, que tentemos ver os vários lados, às vezes há mais que apenas dois lados.

Executivo da Câmara Municipal de Abrantes. Foto: mediotejo.net

E qual é a relação do movimento com o poder?

A nossa relação é a melhor possível. Acho que a pergunta deve ser feita ao contrário. Nós sempre nos dispusemos, e um dos pilares do nosso regimento foi “aumentar a profundidade de conhecimento debatendo os assuntos”. Estivemos sempre disponíveis para debater e sempre dissemos que as nossas ideias são pontos de partida que podem ter vários pontos de chegada, não pretendemos colonizar com as nossas ideias. Aquilo que queremos é provocar a tal inquietação porque se não houver debate, de certeza absoluta, que não há evolução. O debate quando promove o contraditório permite chegar muito mais longe do que quando cultivamos a ditadura do pensamento único.

Então invertendo a pergunta, como é que sentem ser a relação do poder convosco?

Tirando uma ou outra exceção, o poder considera-nos irrelevantes, não está preocupado em ouvir-nos, apesar de irmos percebendo que, algumas coisas que vamos dizendo e algumas das ideias que vamos dando, vão sendo aproveitadas, mas não estamos minimamente preocupados com isso. Sempre disse: se as nossas ideias forem aproveitadas por terceiros quer dizer que são válidas e ficamos todos a ganhar. Não temos problema nenhum que não reconheçam a paternidade das nossas ideias, desde que façam sentido no desenvolvimento do território e que melhorem a vida das pessoas.

Em 2025 haverá, lá para o final do ano, eleições autárquicas. Pergunto se se vai recandidatar e qual o motivo dessa decisão?

No ano passado, no Fórum Democrático, por esta altura, anunciámos que o ALTERNATIVAcom estaria presente nas autárquicas em 2025. Na altura não anunciámos candidato, estávamos ainda em período de reflexão, e achámos que era prematuro anunciar quem seria o candidato do movimento. Tive oportunidade de dizer nesse momento que estaríamos ainda em período de reflexão no sentido de encontrarmos a pessoa que pudesse estar em condições de conseguir o melhor resultado possível para o movimento. Um ano depois, com todo o trabalho que temos vindo a fazer, foi entendimento do núcleo que o cabeça de lista à Câmara de Abrantes em 2021 deverá ser o mesmo em 2025. Pelo perfil, mas sobretudo pelos quatro anos de experiência autárquica que vou ter em 2025 e que certamente me permitirá ter uma profundidade de conhecimento maior sobre muitos assuntos e uma experiência que provavelmente outro rosto ou outro nome não terá. Mas está tudo em aberto. Neste momento é um processo de intenção, o movimento ALTERNATIVAcom estará presente nas autárquicas de 2025 e o candidato a presidente da Câmara será o Vasco Damas, se entretanto não houver nada que altere essa realidade.

Nomeadamente?

Alteração de muita coisa em termos pessoais ou em termos profissionais.

Vasco Damas, líder do movimento ALTERNATIVAcom. Créditos: DR

E para onde é que querem ir e com quem? Relativamente às freguesias do concelho de Abrantes, em 2021, o movimento estabeleceu alguns acordos…

Quando nos apresentámos em 2019, tinha uma profundidade de conhecimento sobre as dificuldades muito ténue, assumo isso. De uma forma muito romântica e ingénua anunciei que o movimento estaria presente nas 13 freguesias. Reconheço hoje, passados cinco anos, que é um objetivo mas uma tarefa ciclópica, uma tarefa muito difícil principalmente quando sabemos que muitas das pessoas que contactamos começam a ser aliciadas por outras forças políticas, que lhes podem dar outro tipo de condições que nós não temos. Portanto, o objetivo continua a ser o mesmo, estar presente no maior número de freguesias possível, e o maior número de freguesias possível é estar presente nas 13. Temos noção das dificuldades.

Em 2021 não fizemos acordos, promovemos apoios. Para que se percebesse que o nosso movimento saía fora da caixa, e não tivemos problemas em apoiar o candidato da CDU nas Mouriscas, em apoiar o candidato do Bloco de Esquerda na freguesia de Alvega e Concavada e apoiar o candidato do PSD na União de Freguesias de Aldeia do Mato e Souto. Apoiámos também, naturalmente, por causa da proximidade e da comunhão de valores, os candidatos à freguesia de Rio de Moinhos e à freguesia de Tramagal, que se candidataram como independentes e que acabaram por ganhar. Foram, portanto apoios, aos projetos que se aproximavam mais dos nossos perfis. Não fazia sentido candidatarmo-nos nas Mouriscas quando o candidato da CDU era aquele que, na nossa opinião, tinha o perfil mais adequado para ser presidente de junta. Se fossemos candidatar alguém contra o sr. António Louro estávamos a prestar um mau serviço à democracia.

Portanto, depreendo ser difícil conseguir pessoas para as listas, conseguir que se mobilizem…

Sim. O grande desafio é encontrar o líder, a pessoa certa que possa construir a equipa. O que fomos sentindo é que há muito receio de dar a cara, de ir à frente, receio das represálias que podem vir pelo facto de, corajosamente, se assumirem candidaturas contra um poder instituído há mais de 40 anos. Porque não foi uma nem duas vezes que ouvimos esta resposta: contem comigo mas não posso dar a cara, ou contem comigo mas nunca em número um, posso ir em número seis ou número sete, mas têm de arranjar alguém para ir à frente.

Vasco Damas, líder do movimento ALTERNATIVAcom. Créditos: mediotejo.net

E para o ano, tendo em conta a deriva política para a extrema-direita no nosso País e no mundo, inclusivamente já tendo conquistado alguns lugares na vereação de algumas Câmara municipais em 2021, temem não conseguir eleger?

Não tememos. Não vivemos da política nem precisamos da política para viver. Se essa for a decisão dos eleitores, a única mágoa que posso ter é de não termos feito o trabalho como eu achava que estávamos a fazer. Porque se fizermos bem o nosso trabalho, se tivermos a qualidade que acho que temos, acho que vamos receber a confiança de mais abrantinos em 2025 do que a que tivemos em 2021. É um fenómeno que está aí, não pode ser ignorado, um fenómeno que na minha opinião pode prejudicar mais a nós do que a quem está no poder. Em 2025 as coisas vão ser diferentes, o elemento novidade vai ser esbatido, em 2021 havia muita desconfiança em relação ao movimento e não sabiam bem o que podíamos valer até porque, não nos podemos esquecer, aqueles dois anos de preparação para as eleições fomos atropelados por uma pandemia, e aquela proximidade que queríamos ter com as pessoas não a pudemos ter porque a lei não permitia. Tivemos de ser criativos, alterar as formas de comunicação e a forma de chegar às pessoas, mas muito à base das redes sociais. Sabemos que estamos num concelho que tem 30% das pessoas com mais de 65 anos… não são aquelas que andam mais nas redes sociais, temos noção que não conseguimos chegar a essas pessoas como chegámos a outras faixas etárias. Estamos confiantes que a qualidade do nosso trabalho será reconhecida pelos abrantinos. Se assim não acontecer, se calhar não valemos aquilo que achámos que valíamos e teremos de reequacionar o futuro do movimento.

Se não forem eleitos em 2025 há um risco do movimento desaparecer?

Falo em meu nome pessoal e não em nome do movimento. Em 2019 dissemos que estávamos a construir uma alternativa para Abrantes e que não íamos ter um movimento efémero e que estaríamos a trabalhar pelo menos até 2029. No entanto, se em 2025 não reforçarmos os votos, alguma coisa estará a falhar e eu enquanto líder do movimento terei de reequacionar a qualidade da minha liderança e o trabalho do movimento. Até para que as pessoas percebam que não estou agarrado a nenhum cargo e para que o ALTERNATIVAcom possa rejuvenescer e possa depois ter um melhor resultado em 2029, de certeza absoluta que terá de ser com outra pessoa.

Vasco Damas e José Rafael Nascimento, do movimento ALTERNATIVAcom.

Assinalam estes cinco anos, o aniversário, com o terceiro Fórum Democrático, com o mote ‘Onde as vozes diferentes se fazem ouvir’ mas curiosamente os convidados do painel, inclusivamente a moderadora, são, ou foram, todos autarcas do PSD. Este é o vosso partido âncora?

Não temos partido âncora, o nosso partido é Abrantes. Era em 2019, continua a ser em 2024 e será enquanto for líder do movimento. Convidámos muitas pessoas para estarem presentes no painel, muitas não nos responderam, outras responderam liminarmente que não, precisamente porque este é um concelho ideologicamente socialista e essas foram as pessoas que mostraram disponibilidade, em termos de tempo e de motivação. Além disso, não podemos esquecer o que fui dizendo durante estes cinco anos. Um dos autarcas que identifiquei logo na primeira entrevista que tive o privilégio de dar em novembro de 2019, foi o nosso vizinho Miguel Borges, por causa da forma positiva como olhava para o seu concelho e a frase que utilizava: “interioridade não é sinónimo de inferioridade”. Meu amigo há muitos anos e uma personalidade com a qual me identifico na forma de ser e estar na política.

Depois num jantar-debate com a presença de Paulo Morais ter referido o Fundão como um dos exemplos para o qual deveríamos olhar, porque não temos de ter medo de replicar bons exemplos. Se o Fundão há 20 anos era conhecido como o concelho da cereja, 20 anos depois, sem ter perdido a cereja, sem ter perdido a sua identidade, é hoje um cluster industrial fortíssimo de alguém que teve visão estratégica para o desenvolvimento do seu território. Nesse mesmo jantar-debate tive oportunidade também de destacar positivamente o cineteatro da Guarda que tinha na altura uma agenda cultural fortíssima, em que todas as semanas contava com artistas nacionais em internacionais que davam uma oferta cultural à Guarda da qual só poderíamos ter inveja.

O Vítor Marques, das Caldas da Rainha, esteve no nosso segundo aniversário, é alguém por quem temos grande simpatia, eleito por um movimento independente, que provavelmente foi colher os frutos daquilo que foi plantado a partir de 2013 pelo MVC – Movimento Viver as Caldas, e quando cá esteve no nosso segundo aniversário deu-me, e deve ter dado a todos os presentes, uma lição de humildade, uma forma extraordinária de estar na política. Disse uma coisa fantástica: que não quer estar mais de oito anos como presidente da Câmara das Caldas, e isto mostra alguém que está na política para servir e não para se servir como infelizmente vamos rotulando a maior parte dos políticos. Sou e continuo a ser uma pessoa de esquerda, apesar de achar que as ideologias estão cada vez mais esbatidas e que há partidos de esquerda que promovem políticas de direita e vice-versa, mas continuo a achar que as pessoas são muito mais importantes que a folha de Excel. Não convidámos as pessoas numa lógica ideológica ou como um partido âncora, convidámos por causa dos projetos. E a Joana Ramos é uma pessoa por quem tenho um estima e uma admiração pessoal e profissional enorme e acho que vai elevar a fasquia de qualidade.

Referiu o cineteatro da Guarda e a sua programação cultural de fazer inveja. Transportando para Abrantes, sente que a Cultura está um pouco esquecida ou não?

Em Abrantes, o ano de 2025 vai ser o ano de todas as obras. Essa é uma forma que os poderes têm de ser ir perpetuando nesse mesmo poder. Provavelmente o Cineteatro São Pedro será uma realidade em 2025, no entanto, no dia 13 de setembro de 2021, no debate dos candidatos à Câmara Municipal de Abrantes, disse que um investimento que rondaria os 10 milhões de euros nos dotaria de uma infraestrutura, um verdadeiros multiusos que poderia dignificar a cultura abrantina e que provavelmente nos transformaria nos lideres da Cultura do Médio Tejo. Não nos podemos esquecer que alguém a dada altura defendeu a ‘capital da Cultura’ no Médio Tejo, as palavras são públicas e estão publicadas. O Cineteatro São Pedro parece-me um investimento demasiado desequilibrado, com uma relação custo/benefício muito desequilibrada para o lado do custo. Porque aquele cineteatro foi construído na década de 1950, com condições técnicas e acústicas totalmente diferentes e a recuperação e investimento para dotar aquela infraestrutura com o mínimo de condições para que os espetáculos tenham o mínimo de qualidade, parece-nos que vai ser mais caro que um investimento novo e que compromete ou põe em causa a qualidade final do produto.

Por outro lado, o Município tem investido em museus, como o MIAA a que ninguém pode ficar indiferente, o premiado Museu Metalúrgica Duarte Ferreira, em Tramagal, e para breve o Charters de Almeida.

Totalmente de acordo. Mas não podemos ser uma cidade – ou um concelho – só de museus e ser conhecidos só pelos nossos museus. O MIAA é uma obra que dignifica a cidade e o concelho, mas falta alguma comunicação para que seja mais conhecido externamente, é uma critica que faço, comunica-se muito para dentro e pouco para fora. O Charters de Almeida é uma obra que já tive oportunidade de ver por dentro e fiquei agradavelmente surpreendido, principalmente porque conheci o edifício antes, e ainda sem as valências a funcionar como museu, mas perspetivando o que pode ali ser feito, é outro edifício que vai dotar a cidade de valências muito interessantes. Mas mais importante que as infraestruturas é a qualidade dos seus conteúdos. Tenho dúvidas que apenas o MIAA e o Charters de Almeida, se a comunicação se mantiver idêntica, seja aquilo que a cidade necessita para ser dinamizada.

Falamos da Cultura mas que outras áreas destaca de relevância para o concelho e para a cidade de Abrantes?

Em 2019 defendíamos que era fundamental a requalificação e regeneração urbana. O poder central deu-nos razão. O investimento que está a ser feito nos centros históricos e nas zonas urbanas mostra que identificámos corretamente um problema que era fundamental ser corrigido, no sentido de a médio e longo prazo podermos olhar com outra tranquilidade. Mas é algo que emana do poder central e temos criticado várias vezes, apesar de nos dizerem o contrário, que quem nos governa localmente governa-nos de forma impulsiva e não de forma estratégica, com um plano a médio e longo prazo. Pergunto: se não houvesse esse dinheiro através do IHRU e do governo central se o centro histórico ia sofrer a regeneração tão necessária e já defendida por nós em 2019? Parece que as coisas vão avançar.

Será uma mais valia quando essas obras estiverem terminadas e eventualmente aquilo que for feito em Alferrarede e no Rossio ao Sul do Tejo é muito importante para se recuperar essas freguesias urbanas e para dotar a cidade e o concelho daquele pulsar que tinha quando era menino. Falámos e defendemos também política de fixação da juventude para estancar a hemorragia demográfica. Em 2021 tivemos acesso aos censos e confirmámos que Abrantes foi dos concelhos de média dimensão aquele que mais população perdeu. Abrantes perdeu seis vezes mais do que a média dos concelhos com a mesma dimensão, Abrantes perdeu 12,6% de população. Esta hemorragia tem estado a ser parcialmente estancada por estes ciclos migratórios que têm entrado na cidade e no concelho, algo que também é transversal ao resto do País (estes ciclos migratórios têm de ser bem integrados dentro de uma lógica de segurança para quem chega e para quem está).

Precisamos das pessoas, queremos que as pessoas venham, porque nos permitem que, no médio prazo, não nos tornemos irrelevantes social e economicamente. Mas não nos podemos esquecer que estas pessoas são desenraizadas, se ao fim de algum tempo chegarem à conclusão que afinal Abrantes não lhes oferece aquilo que elas vinham à procura, da mesma forma que chegaram voltam a sair. É um alerta que deixo.

Vasco Damas (ALTERNATIVAcom). Imagem: mediotejo.net

E gosta de ser autarca, mais especificamente vereador?

Gosto do sentimento de utilidade, principalmente nas interações que vou tendo com muitos munícipes, alguns que já conhecia. outros que não conhecia, mas que até se tornaram pessoas próximas. Alguns deles até me fazem chegar algumas sugestões e também algum tipo de conselhos. E não são pessoas que me dizem sim a tudo, as pessoas que estão sempre de acordo comigo não me acrescentam valor, aquelas que me acrescentam valor são aquelas que me põem a pensar, e aquelas que me põem a pensar e a refletir sobre os assuntos são aquelas que normalmente não concordam comigo. Se alguma vez for presidente de Câmara as pessoas que vou ouvir com mais atenção são aquelas que me dizem, com argumentos sólidos, que não.

Porque são essas que podem acrescentar valor e contribuir para o desenvolvimento da cidade e do concelho. Essa capacidade de audição não quero perder. Há uma coisa que não posso ignorar: sozinho valho muito pouco se tiver a humildade e a capacidade de ouvir os outros, certamente, poderei contribuir para deixar o mundo um bocadinho melhor.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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