A tempestade Kristin causou danos significativos no concelho de Abrantes, com especial incidência no norte do território, onde a violência do vento e da chuva provocou a destruição de infraestruturas, habitações, equipamentos públicos e vastas áreas florestais. A rede elétrica foi uma das mais afetadas, originando constrangimentos prolongados no fornecimento de energia, com impactos diretos no abastecimento de água e nas comunicações.
“O norte do concelho teve um impacto mais significativo de destruição, sobretudo na rede elétrica. Foi por isso que ainda hoje temos uma situação pontual ou outra com dificuldade na recuperação total da energia”, explicou hoje o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos.
Apesar disso, o autarca destacou, em reunião de executivo, o trabalho desenvolvido pela E-Redes. “Ao longo dos dias, a E-Redes tem feito um trabalho absolutamente extraordinário de recuperação da nossa rede elétrica e esse foi, de facto, um dos grandes problemas.”

A falta de energia teve efeitos em cadeia, afetando o sistema de abastecimento de água. “Sem energia, perdemos também o controlo da rede de abastecimento de água. Conseguimos, com recurso a geradores, recuperar relativamente rápido e também as comunicações”, referiu.
No plano habitacional, registam-se casas particulares destelhadas e situações de fragilidade social. “Temos muitas situações de casas com algumas fragilidades”, disse o presidente, sem quantificar. “Temos vindo a acompanhar essas famílias de perto, através dos nossos serviços sociais, e a encontrar soluções para aqueles que ficaram sem condições de habitabilidade”, assegurou.
Também várias estruturas públicas sofreram danos significativos. “Temos muitos monumentos, escolas, espaços desportivos, espaços sociais e um centro de saúde em particular que ficaram destelhados, e alguns telhados voaram literalmente”, acrescentou Manuel Jorge Valamatos.




A rede viária continua a apresentar constrangimentos, sobretudo devido à queda de árvores e material florestal junto às bermas. “Ainda temos muitas dificuldades na circulação, com zonas sensíveis, mas pouco a pouco temos voltado à normalidade”, disse, sublinhando que todas as escolas do concelho já se encontram em pleno funcionamento, com água, eletricidade e comunicações asseguradas.
O autarca alertou ainda para a situação hidrológica, face ao aumento do caudal do rio Tejo e à elevada pluviosidade prevista. “O Tejo tem aumentado um bocadinho o seu caudal. É verdade que Castelo de Bode tem permitido uma gestão ainda controlada, mas as nossas ribeiras deixam-nos grandes preocupações, porque os terrenos estão muito saturados e a previsão do IPMA aponta para dias difíceis.”
Manuel Jorge Valamatos sublinhou ainda a conjugação de fatores que continuam a representar risco nos próximos dias.
“Temos uma simbiose quase perfeita entre muita pluviosidade, rios e terrenos muito saturados e o rasto de destruição que a depressão Kristin deixou”, disse, referindo que a queda contínua de árvores, sobretudo pinheiros, permanece uma preocupação em todo o território, com maior incidência no norte do concelho.

“No Parque Urbano de São Lourenço, no restaurante, temos danos fundamentalmente pela queda das árvores, e as que não caíram manifestam preocupação, o que nos obriga a repensar a reflorestação e a reorganização florestal ali presente”, explicou, reconhecendo que este trabalho terá de ser desenvolvido numa fase posterior.
A floresta surge como uma das áreas mais afetadas pela tempestade, com muitos hectares destruídos. Segundo o autarca, o município já iniciou o levantamento dos prejuízos.
Perante os estragos nos telhados, o município lançou uma campanha de angariação de materiais. “O que mais faz falta neste momento são telhas e lonas, quer para Abrantes, quer para apoiar municípios vizinhos como Ourém e Ferreira do Zêzere”, referiu o presidente, pedindo que quem tenha estes materiais disponíveis os entregue nas juntas de freguesia, no estaleiro municipal ou contacte os serviços camarários.



Apesar do cenário de destruição, Manuel Jorge Valamatos destacou a solidariedade da população. “Quero registar o sentido de humanidade e de solidariedade do povo português e, em particular, de Abrantes. No meio de tanta dificuldade, a atitude das pessoas é absolutamente extraordinária.”
O presidente da Câmara sublinhou que, apesar da recuperação gradual, o concelho enfrenta ainda um longo caminho até à reposição total da normalidade.
“Queremos crer que nos próximos dias vamos voltar à normalidade, procurando restabelecer toda a nossa estrutura e todo o dinamismo da comunidade”, afirmou, destacando a necessidade de encontrar mecanismos de financiamento que permitam apoiar as famílias afetadas e a própria autarquia na recuperação de infraestruturas como a rede viária, pontões, estradas, taludes e linhas de água, fortemente afetadas pelas enxurradas.
O município encontra-se agora na fase de levantamento de prejuízos e preparação de candidaturas a mecanismos de financiamento.
“Estas situações vão-se repetindo cada vez mais também no nosso território e temos de estar cada vez mais bem preparados, apetrechados e com capacidade de antecipação”, defendeu, considerando que este é simultaneamente “um tempo de recuperação, de levantamento de prejuízos, mas também de análise global para percebermos o que temos de fazer melhor no futuro”.
