Rui Reis, cervejeiro fundador da cerveja artesanal "Ermida". Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

Foi no coração de Portugal, em plena cidade de Abrantes, que nasceu a cerveja artesanal Ermida. Criada e produzida por Rui Reis, a Ermida encontra-se no mercado desde 2014. Na cidade que o viu crescer, o cervejeiro começou a dar os primeiros passos enquanto produtor artesanal de cerveja e é hoje um ponto de paragem obrigatória para apreciadores desta “nova forma” de consumir a bebida.

Da licenciatura em Engenharia Zootécnica à consultadoria, passando pela segurança alimentar e pelo controlo de pragas urbanas, o cervejeiro contou ao mediotejo.net que a aventura de produzir cerveja, na garagem da casa dos pais, começou de uma forma espontânea.

Engenheiro alimentar de profissão, foi num dia em que realizava um trabalho de pesquisa e de estudo para um novo produto que o cervejeiro teve contacto com uma reportagem sobre os primórdios da cerveja Sovina, situada no Porto e pioneira em Portugal no conceito de cerveja artesanal.

Após tomar conhecimento de que iria ser realizado um workshop no Porto, sobre a produção desta secular bebida, Rui Reis não hesitou e inscreveu-se de imediato. O entusiasmo foi tanto que motivou também o pai a acompanhá-lo nesta aventura.

“Achei interessante a produção de cerveja em casa e disse cá para mim… olha vou-me inscrever num workshop e vou começar a fazer cerveja em casa. Já tinha provado outras cervejas especiais, já tinha estado no estrangeiro, bebido e apreciado outros tipos de cerveja. Achei interessante poder ser eu próprio fazer a minha cerveja”, explicou.

Realizado o workshop o “bichinho” pela produção ficou e o engenheiro começou por adquirir os equipamentos necessários à atividade que realizava enquanto hobbie na garagem da casa dos pais, em Abrantes. “Às vezes saía melhor, outras vezes saía pior… honestamente é mesmo assim e com o tempo fui afinando as minhas fórmulas, a minha maneira de fazer a cerveja”.

O resultado das suas produções era posto à prova em momentos de convívio e jantares entre amigos que se revelaram os seus primeiros “júris”, destacando a qualidade da sua cerveja. “Começaram a pedir-me garrafas para oferecer a familiares ou para oferecer no Natal e diziam que isto é diferente, isto é bom”.

Dados os primeiros passos e após o incentivo de amigos e familiares, Rui Reis teve de aumentar a capacidade de produção. Dos 20L passou a produzir 40L e rapidamente atingiu os 80L, que se revelaram insuficientes. Com o aumento da produção tornou-se necessária a legalização da atividade, conta o cervejeiro.

“Fiz a legalização da pequena unidade de produção, na Câmara de Abrantes e fiz também a legalização na Autoridade Tributária e Aduaneira. Para a produção de álcool tenho um imposto acrescido à produção. Portanto, eu sou o depositário autorizado e tenho entreposto fiscal”, explicou ao nosso jornal.

O sucesso da atividade estava garantido, tendo Rui Reis começado a produzir 200 litros de cada vez. No Natal de 2014 a Cerveja Ermida faz a sua primeira aparição legal no concelho abrantino. “Passei a vender em algumas mercearias e alguns restaurantes, coisa pouca, mas foi em 2014 que foi a primeira aparição legal da Ermida”.

Por trás do nome da marca existe também um importante significado, revela o profissional. “Havia que vestir a garrafa e vestir a garrafa era criar uma marca. A Ermida nasce do nome da rua onde ela começou a ser produzida, na casa dos meus pais, que está situada na Rua Ermida de Santo André, em Abrantes”.

Foto: Cerveja Ermida

Sinónimo de local de culto, o nome da cerveja artesanal está associado a uma imagem de marca. Pensado ao pormenor, o logótipo da cerveja Ermida está repleto de simbolismo, explica Rui Reis.

“Fiz uns arabescos no papel, o meu pai também fez mais uns desenhos e pedi ajuda a um amigo meu designer gráfico. Assim nasceu o logótipo da Ermida com a capelinha e o nome da marca”.

Quanto às cores, o branco representa a “pureza da produção, portanto é uma cerveja artesanal, feita basicamente com a água que corre nas torneiras de Abrantes, o malte o lúpulo e a levedura, não há adição de conservantes, corantes, nada de aditivos. Portanto é uma cerveja artesanal pura”. O dourado espelha a “riqueza dos aromas e sabores” que o produtor afirma serem identificativos da sua produção.

Comercializada em feiras e eventos, foi com o surgimento da pandemia que a Ermida ganhou o seu próprio espaço. Seis anos após o início da atividade e com a emergência dos primeiros casos de covid-19, Rui Reis sentiu a necessidade de escoar o stock de cerveja.

Rui Reis, produtor da cerveja Ermida. Foto: mediotejo.net

“Com a pandemia não houve eventos nem festivais e surgiu a necessidade de escoar o produto. Eu produzia normalmente durante o inverno para vender no verão e tinha a casa cheia de cerveja, porque tinha preparado o meu stock antecipadamente para o verão. Era um projeto que tinha para 2023 ou 2024, ainda queria fazer mais uns anos festivais e feiras, mas tive que antecipar”, conta.

Foi no “Crispean’s”, um espaço de referência na noite abrantina, que o cervejeiro encontrou o espaço ideal. Com um renovado nome, o “Crispean’s By Ermida Craft Beer” abriu portas em agosto de 2020, na Rua da Fonte de São José, em Alferrarede.

Contando com diversos estilos de cerveja, o estabelecimento possui uma localização estratégica. Situada em plena N2, a cervejaria é uma atração para os amantes da estrada que têm a oportunidade de provar uma cerveja produzida na cidade de Abrantes.

A cervejaria integra o roteiro da N2, sendo um ponto de paragem para aqueles que a percorrem

“Como passo aqui com alguma regularidade, um dia olhei aqui para o Crispean’s e pensei: isto se calhar até tem o ambiente para a Ermida. Acaba por ser no estilo de um pub inglês e a cerveja artesanal também está ligada também aos pubs, com muitas torneiras, com muita variedade de cerveja e achei interessante. Pensei que poderia vir a ser um recurso para o produto que eu tinha em casa”, recorda Rui Reis.

Quatro anos após a inauguração, o cervejeiro faz um balanço positivo da aposta feita. “Correu bem porque eu vendi a cerveja toda que tinha e ainda comprei alguma cerveja a alguns amigos para comercializar”, indicou.

No entanto, com o avanço da pandemia e o regresso das restrições à circulação, bares e cafés foram um dos setores mais afetados. Obrigado a fechar portas, Rui Reis rapidamente arranjou uma solução para dar continuidade às vendas que passaram a ser realizadas, sobretudo, por intermédio do Facebook.

Contudo, o cervejeiro aponta algumas dificuldades relacionadas com os custos de manutenção do espaço e que dificultaram a consolidação da sua presença física.

“O início de 2021 foi um pouco desastroso. Devido à pandemia tive dois meses e meio com o bar fechado. Mas o verão foi animado e tivemos muito trabalho, foi bom porque deu para equilibrar as contas, porque isto de fechar tem custos fixos, nomeadamente a renda, internet e água. Tudo bem que há coisas que decrescem, mas há muitos custos fixos, mas posso dizer que até correu bem e acho que até está a correr bem”.

Rui Reis faz um balanço “extremamente positivo”, sublinhando anos “trabalhosos” mas que lhe trouxeram uma clientela, na maior parte, fidedigna. “A probabilidade de encontrar as mesmas pessoas aqui no espaço é muito grande. Como eu costumo dizer, são poucos mas são bons. Vão-se criando laços de amizade”.

Em termos económicos e mais de três anos volvidos, o bar “já está a responder com algum rendimento”, constata. “A pouco e pouco, com o aumento da afluência conseguimos criar mais condições para a sua sustentabilidade. Passados estes anos já começamos a ter algum retorno do investimento que fizemos”.

ÁUDIO | Rui Reis, produtor da cerveja artesanal Ermida

“Na altura não foi fácil aguentar, durante a pandemia também não foi fácil, mas há-que dar o agradecimento aos clientes que acreditaram no projeto, ao passa palavra, porque traziam os amigos e iam ficando (…). Tem sido bastante bom, é preciso ter a porta aberta, há dias melhores e há dias piores, mas tem sido bastante agradável. Acho que foi um bom investimento”, destaca o produtor.

Com uma produção em torno dos 2500 litros anuais, o que o produtor descreve como uma “nanocervejeira”, a cerveja Ermida não dispõe de uma loja online. No entanto, as garrafas podem ser encontradas em diversos estabelecimentos na zona de Abrantes e arredores e no Museu da Cerveja em pleno Terreiro do Paço (Lisboa).

No final de 2022, a TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior e os municípios de Abrantes, Constância e Sardoal lançaram uma plataforma digital – a Praça Ribatejo Interior – para promoção e venda de produtos locais produzidos na região. O convite foi lançado a Rui Reis que, com agrado, o aceitou, e tornou possível, num só clique, o acesso à cerveja Ermida a partir de qualquer parte do país.

“Sempre tive uma ligação forte à Tagus, sempre foram parceiros no apoio da promoção da Ermida. (…) A Ermida não tinha uma loja online de venda dos produtos e o convite da Tagus à Ermida a entrar na Praça foi ouro sobre o azul. A loja do “Cá da Terra” (Sardoal) acaba por ser o armazém físico da Ermida e depois são eles que fazem a expedição e a venda para quem consulta a loja da Praça. É uma plataforma bastante boa para as pessoas chegarem à Ermida e para a Ermida chegar às pessoas”, sublinha.

cerveja Ermida distingue-se pela “qualidade e criatividade”, afirma Rui Reis, fator que justifica a criação da “Cidade Florida”, uma cerveja alusiva à cidade de Abrantes e que é comercializada, sobretudo, no período de verão.

Produzida com ingredientes locais, com sabores e odores a tília, laranja e limão, o produtor procurou transpor para a cerveja os aromas da região, dando provas da criatividade e inovação que caracterizam a sua produção de cerveja artesanal.

O “Crispean’s By Ermida” conta com 12 torneiras de cerveja, possuindo cores, sabores e aromas para todos os gostos. Para além da cerveja em barril, a Ermida é também comercializada em garrafas de 33cl e 75cl. Da Dunkel Weizen à Wheat Wine, da Strong Scotch Ale à APA, passando pela Black Ipa e pela Imperial Ipa, os consumidores têm ainda a oportunidade de ficar a conhecer cervejas de produtores convidados.

“Aqui no Crispean’s temos 12 torneiras de cerveja, portanto há variedade de cerveja. Há alturas do ano que até são todas Ermida, outras vezes temos cervejas convidadas. Mas temos sempre vários aromas, vários sabores, cervejas mais doces, cervejas mais amargas, escuras, loiras… uma grande diversidade”.

“A cerveja artesanal dá largas à criatividade do cervejeiro. O primeiro impacto pode não ser o de uma cerveja comum, uma lager comum, mas também cá a temos. As pessoas às vezes procuram a cerveja artesanal também por cansaço das cervejas mais comerciais, procuram outros aromas e sabores, experiências gastronómicas e é aqui que a cerveja artesanal está, para colmatar essa falha da continuidade e das lagers mais comerciais”, explicou Rui Reis.

Em declarações ao mediotejo.net, o engenheiro de profissão explica que é importante que o cervejeiro saiba “ler” os próprios clientes e sugerir um produto adequado aos seus gostos e expectativas, de forma a permitir uma ambientação à cerveja artesanal naqueles que visitam o estabelecimento para um primeiro contacto.

É na grande diversidade que reside mesmo o trunfo da marca. Distinguindo-se das cervejeiras tradicionais pela grande quantidade de torneiras, Rui Reis afirma que nos arredores não se encontra nenhum bar com as mesmas características, concentrando-se principalmente nas grandes cidades, o que leva os apreciadores a procurar o que a Ermida tem para oferecer.

Se a cerveja é o prato principal, no menu do estabelecimento há ainda para oferecer tábuas de tapas composta por queijos e enchidos, salgadinhos e, a mais recente novidade, as tostas que têm já sido um sucesso, dispondo de opção mista, serrana e até uma opção vegan/vegetariana.

“A tapa tem sido um sucesso aqui do bar (…). Do ponto de vista da conservação é muito fácil, praticamente não há confeção nenhuma. Quanto aos queijos e enchidos, normalmente procuro ter aqui coisas diferentes (…). Após três anos de tapas, é natural que possa haver algum cansaço e, também para responder a outro tipo de público, lançámos as tostas”.

“São tostas também diferentes”, conta o cervejeiro. A tosta mista, para além do fiambre, é feita com três tipos diferentes de queijos, tal como a tosta serrana, à qual é acrescentado o queijo da serra e o presunto serrano. Para responder à diferente procura, o fundador da cerveja Ermida criou ainda uma opção vegetariana/vegan que, tal como as anteriores, é acompanhada por batatas.

Sendo um fenómeno relativamente recente em Portugal, os pequenos produtores e aqueles que se iniciam neste mundo nem sempre encontram um caminho fácil pela frente. Quem trabalha com o setor depara-se com algumas dificuldades, que passam pela indisponibilidade de matérias-primas e até a falta de apoios e subsídios à produção, aponta o profissional.

Apesar das dificuldades, Rui Reis agradece à cidade de Abrantes e aos abrantinos. Inserido numa cidade com cerca de 17 500 habitantes, o “Crispean’s By Ermida” tem tido uma recetividade positiva junto dos residentes. “Eu tenho a agradecer à cidade de Abrantes e aos meus clientes, que na sua maioria são de Abrantes”, refere o cervejeiro.

Para além da adesão por parte dos munícipes abrantinos, o produtor destaca o sentimento de gratidão decorrente do contacto com o público. No entanto, Rui Reis relembra que se trata de um nicho de mercado e, por isso, nem todas as pessoas se encontram familiarizadas com a cerveja artesanal.

No entanto, embora o movimento da cerveja artesanal seja recente, tem registado uma progressiva expansão e são cada vez mais os adeptos desta nova forma de consumir cerveja.

Quanto ao futuro, o produtor abrantino mostra-se bastante positivo e com novos lançamentos nos planos: “Há novos produtos a serem criados, aliás, este tipo de setor vive muito de novos produtos. Não gosto de estar sempre a repetir as mesmas cervejas, gosto de inovar”, conclui Rui Reis.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

Entre na conversa

2 Comments

  1. Fui dos primeiros a beber, no Tramagal, com lançamento da Ermida pelo Rui.
    Óptima para o meu gosto dado a não beber cerveja.
    Brevemente passarei pelo Crispean,S.
    Parabéns Rui.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *