Festival de Filosofia de Abrantes. Foto: mediotejo.net

A Filosofia e a Democracia de mãos dadas no debate sobre a arte de pensar, posicionamento e argumentação em matérias importantes como a extinção da biodiversidade, a mudança na paisagem e a sustentabilidade do património, numa praça que tem reunido jovens, filósofos e especialistas de diversa ordem onde mais do que perguntas se lançam desafios ao pensamento.

O festival arrancou no Dia Mundial da Filosofia, e o presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, deu conta da aposta neste “encontro anual de pensamento livre” que procura “afirmar Abrantes como um território cultural e pensador”, sendo o Festival de Filosofia “um ponto de encontro e uma praça aberta à reflexão sobre “A cidade como marca”.

Deixou um desafio para que “unidos no debate pelo papel da Cidade, pensando na sua identidade, mas sem esquecermos os seus valores; refletindo sobre a importância da sua paisagem, agindo na sua valorização; perspetivando um futuro moderno, mas assente na tradição que nos caracteriza, por forma a darmos respostas aos anseios da nossa comunidade”.

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“Não tenho dúvida que está em cada um de nós o poder de capacitarmos, estimularmos e desenvolvermos a criatividade e a inovação na nossa cidade, à medida das aspirações que nos vão permitir construir o nosso futuro coletivo”, disse.

Referindo-se às diferentes linhas de ação que o município pretende desenvolver na cidade, sublinhou que “não só é o povo quem mais ordena, mas onde é o povo quem mais conta”, apontando à dinamização e desenvolvimento da cidade enquanto “um espaço de fraternidade, solidário e capaz de se afirmar como local privilegiado para se trabalhar, investir, estudar e viver. Onde nos sentimos bem e onde somos genuinamente felizes”, concluiu.

O primeiro dia arrancou com a reflexão sobre “Património, sentimento e silêncio”, de Paulo Lima, antropólogo, responsável pela coordenação a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO do Fado, o Cante Alentejano, a arte chocalheira e a Morna de Cabo Verde.

Colabora com o projeto supramunicipal Artes e Ofícios do Ribatejo Interior, liderado pela TAGUS, que pretende valorizar o saber-fazer ancestral, as vivências e as identidades enquanto elementos diferenciadores da paisagem da região.

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Dedicou a sua intervenção, desde logo referindo que muitos dos temas abordados no festival lhe são estranhos enquanto antropólogo e não filósofo ou geógrafo ou arquiteto – a “gente que pensa o mundo de outra forma”, nomeadamente ao amigo Adivinha, de Portel, apicultor em dificuldades para alimentar as suas abelhas e aos trabalhadores da SIFAMECA, em Mouriscas, com quem tem trabalhado no âmbito do projeto Artes e Ofícios, e que são responsáveis pelo fabrico de seiras e capachos, tendo papel determinante na produção de azeite e exploração tradicional da oliveira galega, tipicamente portuguesa.

VÍDEO Abertura pelo presidente de Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, e conferência inaugural com o antropólogo Paulo Lima

Tem feito parte de equipas que têm “patrimonializado” artes, ofícios e saberes que são “fatias da identidade” portuguesa, mas fá-lo a partir da sua aldeia, a sua “janela para o mundo”. Diz que veio até Abrantes também por António Botto, uma das razões que o convenceram perante um convite que aceitou por muita insistência da organização e por consideração à forma como Abrantes o tem acolhido.

Diz-se refém do texto “Pretérito Presente”, do historiador de arte Jorge Henrique Pais da Silva, que coloca questões: “conservar o quê, porquê, para quem e como?”.

Fez menção à “mercantilização e financeirização” do património, com o património a ser assumido como produto, numa cronologia que envolve as organizações que o deveriam proteger e preservar.

Referiu-se à paisagem como “aquilo que depende na nossa ação na natureza”, sendo também património, e “um corpo vivo e cheio de vida, que se vê, se toca e se sente. Que se acarinha ou magoa”.

“A paisagem está em perigo, e com ela tudo o que nos envolve; a culpa não pode ser dada à natureza ou ao que dela restar, a culpa não é das alterações climáticas, antes da emergência climática em que mergulhámos. E é nossa”, disse, acrescentando que “a humanidade transformou a natureza em paisagem, e agora, com vista à rentabilidade, estamos a matar a paisagem. Um destino trágico soma-se ao facto se o país ser destino turístico”.

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Paulo Lima referiu-se à “gentrificação sustentada na cidade pela falta de estratégia” onde “quem vive e vota nas cidades é depois expulso por aqueles que a governam. Onde está então a polis?”, questionou, referindo-se à polis, a cidade dos cidadãos

Referiu-se às ações de protesto por parte dos jovens, mencionando casos recentes em Portugal, cuja temática em causa são os combustíveis fósseis. “Não se pode pedir a jovens que apresentem propostas, mostram-se preocupados, partilham os seus medos, precisam de respostas políticas”, crê, fazendo referência ao facto de em Portugal, os diretores e ministros dizerem estar alinhados com a luta dos jovens, mas entenderem que “a escola não deve ser espaço para estas ações… é estranha esta afirmação, acho”.

“Aprendi há muitos anos, na universidade, que a escola deve ser um espaço de futuro, não fabrico de gente com cartões de cidadão, um número”, disse, relevando o papel dos jovens nas lutas do que se quer para o espaço público. Essas passam por reinventar a democracia, trazer novas pessoas para o espaço público de decisão.

“Se percorrermos Portugal temos uma grande cidade entre Braga e Setúbal. Uma fina linha no litoral, ali mais a sul no Algarve outra linha. O Interior está despido”, mencionou ao longo da sua conferência inaugural, referindo que “o património para mim é um ato político, muitas vezes de indignação”.

Quando trabalhou sobre o cante alentejano o que lhe interessou foi ser “fator de coesão e de combate à exclusão social”; sobre a Feira do Chocalho, de Alcáçovas, o que lhe suscitou interesse foi a biodiversidade; e na Morna, em Cabo Verde, as questões de género, como a morna em forma de canto pode empoderar as mulheres.

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Vê o património, em particular o imaterial, como “fator de autonomia das comunidades e onde podemos aprender muito. Até ver o património como cimento da democracia, existem valores em que a Europa se construiu que o património é a voz. Importa redescobri-lo”.

“Temos que voltar a encontrar e inventar a polis, onde vive e onde viver a cidadania, não confundo a polis com a arquitetura e o urbanismo. Nós somos a polis e hoje o areópago é o nosso corpo. Hoje o combate faz-se pela sobrevivência da humanidade”, defende.

Para Paulo Lima “é um erro pensar que estamos a salvar o planeta. Temos que salvar a humanidade e ao salvar a humanidade, salvamos o planeta. Matámos a biodiversidade e cegamente estamos a morrer. Importa recuperar a paisagem”.

Por outro lado, refletiu sobre o papel da Filosofia e da Democracia, sendo que “ambas têm que voltar a ser pilares do nosso viver”. Num plano em que uma interroga, questiona, e a outra outra procura o bem. “Pelo menos entendo que o ato político é a procura do bem”, comentou.

Outra homenagem que incluiu no seu discurso foi à Oliveira do Mouchão, com mais de 3350 anos, em Cascalhos, freguesia de Mouriscas (Abrantes). Árvore com história e por isso património e que o tocou pessoalmente, e lembrou que “importa voltar a ser humano, importa que o pensamento volte aos nossos dias. Temos que, sem qualquer cedência, amar a paisagem”.

Partilhou no final o poema “À Espera dos Bárbaros”, do poeta grego Konstantínos Kaváfis, escrito em 1911. E seguiu-se o debate sobre o pensamento, a capacidade de argumentação, o papel da escola e a maturidade do pensamento para vida, bem como o posicionamento dos jovens perante uma emergência.

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Abordou-se ainda a extinção da paisagem humana e da biodiversidade, numa discussão aberta à plateia, com moderação de Francisco Lopes. Falou também Paulo Lima na abordagem ao património enquanto produto turístico e que alavanca outros produtos, e o conceito partilhado por um amigo seu, o “etnotráfico” e a necessidade de trazer a ética de volta ao património.

“O que me interessa no património material e imaterial é um ato político, uma chamada de atenção para questões que importaria não tanto corrigir, porque são impossíveis, mas chamar a sua atenção para elas”, frisa.

Dando como exemplo a paisagem olivícola tradicional em Abrantes e a icónica Oliveira do Mouchão, Paulo Lima referiu-se ao potencial de “um projeto ético” que poderá dar continuidade ao património identitário abrantino que é o olival tradicional antigo (oliveira galega), a indústria das seiras e capachos da SIFAMECA, e os lagares tradicionais, como caminho da sustentabilidade desse mesmo património.

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Seguiu-se a discussão do “futuro” e pelas vozes do futuro, com quatro jovens de escolas de Abrantes, do Agrupamento de Escolas nº1, do nº2 e da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA).

Lara Domingos, 17 anos, Lara Matos e Matilde Rosado, 16 anos, e Martim Machado, 18 anos, fizeram apresentações num discurso filosófico sobre as cidades com futuro e o futuro das cidades, sobre o que aguarda os jovens, sobre as preocupações e problemas que afetam a biodiversidade, referindo-se às premissas que norteiam para uma cidade de futuro, com envolvimento dos cidadãos num futuro que se queira desenhar sustentável.

Pensaram a paisagem humana no futuro e com futuro e a evolução da cidade, bem como o impacto do envolvimento da comunidade no pensar a cidade e o que se pode propor para que, numa altura de exaustão e colapso de recursos, cada gesto conte individualmente, numa altura em que “a mão de todos faz a diferença”, como defendeu Martim.

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Falou-se da questão do trabalho, da competitividade, do futuro sem internet e a necessidade de voltar atrás, reaprender os mecanismos tradicionais em caso de colapso do digital.

Os jovens revelam um espírito realista mas também otimista, ao mencionar a capacidade de adaptação do ser humano, exemplificando com o que sucedeu com as restrições trazidas pela pandemia e que levaram a reajustar a forma como se viveu em sociedade, além de defenderem que a necessidade aguça o engenho e que a mudança aconteceria, nuns casos rapidamente, noutros progressivamente, havendo sempre registo para situações de resistência.

Houve quem focasse o facto de a população jovem hoje estar inserida numa sociedade consumista e comodista, e que a mudança começa em cada um, sendo necessário voltar atrás.

Também os jovens se referiram aos protestos extremistas e radicalistas, não se revendo nessa forma de resistência e procura de mudança e manifestação.

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Por outro lado, frisaram que os pais têm a responsabilidade dos jovens que temos hoje e que a generalização é injusta.

Falou-se de um mundo de incerteza, que necessita uma reestruturação, lembraram-se as assimetrias, e relevou-se a importância de viver no presente, agir no presente e não tanto no futuro. Mas os jovens não são, por si só, símbolo de futuro? Como fazer isso? Lembraram a importância do amanhã, da ambição, dos objetivos.

Também se focou a competitividade, o trabalho e o consumo, e deixou-se o mote de que é preciso ser mais solidário e ouvir os outros. Os jovens defenderam a empatia como ferramenta-chave para a resolução de problemas.

Ficou o desafio para um mundo digital, feito de “aparato tecnológico”, que envolve e influencia tudo o que está à nossa volta, e que ao colapsar, provocaria dano não só no consumo, como na produção, sendo que num mundo global sustentado em diversas redes, onde a tecnologia é elemento facilitador do quotidiano, dá que pensar se, por estes dias, se desse um apagão. Afetaria os jovens da mesma forma que afetaria outras faixas etárias, gerações nascidas e criadas noutros contextos?

Os jovens aceitam os privilégios que têm nos dias que correm, mas não se culpabilizam por usufruírem deles. Admitem, sim, que seria importante alterarem a forma como pensam e agem, tornando-se vozes ativas e agindo perante a indiferença e a falta de tomada de posição por parte dos governantes quanto aos problemas que afetam a humanidade e a natureza, local e globalmente, tendo noção que os respetivos impactos são ameaças crescentes que lhes podem vir a hipotecar o futuro.

VÍDEO Conferência com Jovens Filósofos debatendo as “Cidades com Futuro”

Acompanhe os vários momentos deste festival em https://www.facebook.com/festivalfilosofiaabrantes

O sábado, dia 19, terceiro e último dia da iniciativa, contou com o seguinte programa:

Biblioteca Municipal António Botto

10h30
Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes

Luís Pedro Madeira

Um audiowalk pelas ruas da cidade: percurso sonoro que convida a descobrir a história através de várias narrativas que cruzam tempos sobre a cidade de Abrantes. Para realizar o percurso é necessário ter um telemóvel com leitor de scanner QRcode e acesso à Internet.

Produzido pela Casa da Esquina, com textos do ator Ricardo Correia que dá voz ao projeto, juntamente com Luís Pedro Madeira, elementos do Grupo de Teatro Palha de Abrantes e alunos do curso de Intérprete/Ator/Atriz da Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes. O Design e mapa é de Joana Corker e a Fotografia de Carlos Gomes. Desenvolvido no âmbito do projeto intermunicipal Caminhos Literários.

15h30
Cidade, paisagem e território

Helena Barranha
– As paisagens urbanas históricas no tempo da ubiquidade digital
Mariana Correia
– Paisagens Urbanas Históricas: um património a conservar, reabilitar ou regenerar?
Moirika Reker
– Uma cidade sem jardins?
Dirk Hennrich
– Cidades do presente, paisagens do futuro: reterritorializar a Terra
Moderação: Celso Silva

17h30
Aperitivo no MIAA
Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes

18h00
Transformar a cidade e o seu território

Miguel Abalroado
– Cultura e cozinha
José António Bandeirinha
– O espaço como recurso: o papel da cidade
Álvaro Domingues
– Natureza urbana
Jorge Gaspar
– A natureza da cidade: memórias e futuros
Moderação: Jorge Costa

Em paralelo:

Feira do livro de Filosofia, no átrio da Biblioteca Municipal, em parceria com a livraria Ao Pé das Letras

Oficinas de Filosofia com crianças e famílias, com a filósofa e perguntóloga Joana Rita Sousa

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Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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