É um caminho por vezes sinuoso aquele que há a percorrer, num trabalho que exige cada vez mais colaboração e articulação entre entidades e instituições. A discussão em Abrantes incidiu sobre as medidas a trilhar para corresponder às necessidades reais e aos problemas que vão surgindo, sendo notado que a pandemia veio agudizar ou perturbar algumas das lutas que continuam a travar-se quanto ao abandono escolar precoce, ao bem-estar psicossocial dos alunos, o maior diálogo com as famílias e o acompanhamento e rastreamento de casos que devem ser sinalizados e contar com o apoio e cooperação da comunidade.
A educação afirma-se como essencial para a formação do ser humano, dos homens e mulheres de amanhã, e importa encontrar soluções para o abandono escolar, trabalhar para um maior e melhor acompanhamento do bem estar psicossocial dos alunos e famílias, e permitir a construção e desenvolvimento de competências para o futuro.
Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação na Câmara Municipal de Abrantes, pediu que a comunidade se deixe “desassossegar” e que colabore na sinalização e procura de soluções para os problemas que afetam as crianças e jovens do concelho. “Há ainda um longo caminho para andar”, sinalizou.
Foi numa base de diálogo e de reflexão, após a sessão de abertura, que se falaram nos desafios que se colocam à Educação, numa abordagem entre o passado, o presente e o futuro. Numa conversa conduzida pela docente Susana Domingos, debateu-se a construção e desenvolvimento de competências e o quanto isso importa para a construção do eu pessoal e profissional.
Numa passagem pelos múltiplos desafios, diferenças e problemas com que a Educação se tem debatido ao longo dos anos e cuja resolução não tem soluções mágicas e definitivas, foi hora de pensar o presente para melhor agir no futuro.

Pela voz de um professor que relatava aquela que foi “a pior experiência” que teve em 27 anos de docência, foi levantada a questão sobre a responsabilidade individual e das comunidades no que toca a travar problemas que se estão a verificar como recorrentes nas escolas, caso do abandono escolar, ausência das atividades letivas e desinteresse permanente dos alunos.
Dizendo que as comunidades não estão a resolver o problema, deu o exemplo de uma aluna adolescente que deixou de comparecer às aulas, e da qual haveria conhecimento de que teria problemas pessoais e familiares. Encontrou-a debilitada e com dificuldades após um período de ausência, e isso fê-lo questionar sobre o papel da comunidade e dos parceiros institucionais, crendo que se continua a falhar no acompanhamento e antecipação e resolução atempada de situações que podem pôr em causa o bem-estar das crianças e jovens e, consequentemente, a prossecução dos estudos.
O que falta fazer?, foi o ponto de partida para a reflexão.
Da parte da moderação do painel, reconheceu-se que a situação não é única e que, hoje em dia, se debatem duas frentes no pós-pandemia: o recuperar as aprendizagens e o recuperar o ser humano.
Questionando-se que tipo de trabalho está a ser planeado a nível de enquadramento do bem-estar psicossocial e motor, especialmente após dois anos de pandemia e após sucessivos confinamentos e distanciamento social, Susana Domingos, professora da ESTA, indicou que, nos últimos dois anos, os jovens, principalmente os rapazes, permaneceram fechados no quarto, em média, 9 a 12 horas por dia, algo que traz graves consequências a nível motor, a nível psicológico e a nível social.
Nuno Gomes, assessor da Câmara de Abrantes, chegou a dar conta de o município estar a trabalhar num programa para dar oportunidade de prática desportiva a crianças em idade pré-escolar com patologias associadas. A prática desportiva especializada, de acordo com a patologia, pretende tornar a criança num “adulto menos dependente”.

Na sessão, também Alcino Hermínio, diretor do Agrupamento de Escolas nº2 de Abrantes, falou na recuperação das vivências e socialização dos alunos que estiveram “em pausa” na pandemia.
O docente assumiu que a pandemia obrigou as escolas a reinventarem-se e levou à mobilização dos gabinetes do serviço de psicologia e orientação para identificação e acompanhamento dos casos sinalizados.
“Nunca sabemos se vamos chegar a todo o lado. Todos os dias descobrimos casos de alunos que não estão bem, que têm problemas, que estão deprimidos e que desmaiam nas aulas porque se estão a alimentar mal, que não sabem lidar com os problemas e começam a fazer disparates e a serem agressivos. Estamos a sentir isso nas escolas”, constatou.
Mencionando que a solução tem passado pelo reforço do diálogo com as famílias e disponibilização dos recursos ao máximo, não deixou de reconhecer que se está apenas a “detetar parte do problema” e que “o resto está escondido”.
Também presente na sessão esteve a vereadora com o pelouro da Educação da Câmara Municipal de Abrantes. Celeste Simão, fazendo referência à exposição do professor que participava na sessão das Jornadas, defendeu que estas situações detetadas devem ser “olhadas de frente”.
“Não estávamos preparados para a pandemia, e neste momento até tenho dúvidas que tenhamos as competências necessárias no sentido de agir, e agir bem, para evitar determinadas situações, dos efeitos colaterais da pandemia”, disse, acrescentando que o exemplo ali relatado seria “a ponta do icebergue”.

“É preciso denunciar mais estas situações, é preciso sinalizá-las mais, e é preciso chamar a atenção dos parceiros sobre o que já foi feito. É essa parte que eu penso que está a falhar, e que nós temos que ter a coragem suficiente de chamar quem de direito para falar das situações”, começou por apontar.
Celeste Simão falou, por exemplo, no trabalho de mediação que tem estado a ser feito com um grupo de alunos de etnia cigana que estão a faltar às aulas “e que é preciso que vão à escola”, porque esse é o caminho para “evoluir enquanto sociedade”.
A autarca entende que é necessário chamar parceiros à discussão, caso da CPCJ, Segurança Social, estruturas escolares, etc. “A partir do momento em que há jovens em situação de abandono escolar, todos temos que ter a ver com isso. É um problema de todos e de cada um de nós”, sublinhou.
“Tem de ser assim, falar de forma frontal uns com os outros, sem ter medo de melindrar a instituição A, B ou C (…) penso que a resolução de todas estas questões só tem a ver, penso eu, com colaboração. Ou nós colaboramos de uma vez por todas, e articulamos, ou então não chegamos lá”, afirmou Celeste Simão.
“Colaborar no verdadeiro sentido da palavra. Não é no sentido de passar a bola ao outro. Do género, eu agora já fiz a minha parte e agora passo a bola para o outro e desligo… Não! Tenho que ir atrás, tenho de seguir o rasto. É este passo que nos falta ter coragem de fazer, seguir o rasto da criança/jovem e ver onde anda. Temos de ser todos a fazê-lo”, defendeu a vereadora.
Celeste Simão disse que fóruns como as Jornadas de Educação de Abrantes servem “para falar abertamente, para aprender, para sairmos daqui mais desassossegados acerca daquilo que ainda temos para fazer e que nos impliquemos todos na solução dos problemas, porque nós temos problemas. Já fizemos muito, mas temos ainda tanto por fazer”.

Crendo que estas conversas e discussões devem criar desassossego para que os temas passem a fazer parte da agenda de cada um, defendeu que não se pode ter medo de colaborar nem de mostrar as fraquezas neste âmbito, para então debater e pensar numa estratégia.
“Que isto nos desassossegue e que, quando é necessário, nos sentemos todos à volta da mesa e temos de discutir os assuntos de forma clara, sem ter medo de estarmos a incomodar”, notou.
Referindo, por fim, que é natural existirem diferentes visões e opiniões entre os diferentes parceiros, a vereadora ressalvou a cooperação e o diálogo como forma de alcançar o principal objetivo que “é chegar a um consenso, é chegar a algum lado”.
“Não vamos mudar o mundo, mas se conseguirmos recuperar alguns destes alunos, penso que já nos podemos dar por muito satisfeitos”, concluiu.
Recorde-se que Abrantes aprovou a revisão da Carta Educativa em Assembleia Municipal de dezembro de 2021, documento que define a estratégia para o concelho de Abrantes na próxima década. Na ocasião foram reveladas preocupações pela deputada socialista e docente Isilda Jana, dando conta de dois problemas diagnosticados entre 2010 e 2018: a retração da procura escolar e a baixa taxa de ocupação dos estabelecimentos escolares em Abrantes.
Segundo a revisão da Carta Educativa, em Abrantes “os alunos reprovam mais e alguma coisa não está bem” disse na altura Isilda Jana, enquanto reconhecia os investimentos do município em edifícios e equipamentos educativos que “não se têm refletido na taxa de retenção” considerando que tal é “preocupante”.
A importância do currículo informal e da aquisição, construção e desenvolvimento de competências

As Jornadas de Educação tiveram este ano como mote “+ Sonhos, + Saberes”, relevando o papel da Educação e a importância de trabalhar o futuro por via da aquisição de competências, a aprendizagem ao longo da vida, o ensino profissional, a alimentação saudável ou as competências digitais.
Todos estes temas compõem também o traçado do Projeto Educativo Municipal, numa estratégia em torno do direito fundamental de todas as crianças e jovens à educação.
Procurando-se discutir e refletir sobre a Educação no concelho de Abrantes, com diversos painéis e de forma descentralizada, destacaram-se as competências como forma de saber mais para melhor desenvolver a ação, além da partilha de experiências da promoção do sucesso educativo, da qualificação da população adulta, por via da aprendizagem ao longo da vida, e partilha intergeracional e ainda a importância da “articulação institucional, para a construção de um território mais coeso e colaborativo que participe na construção de políticas educativas mais concertadas e ainda mais articuladas, mobilizadoras de alunos, associações de pais, instituições educativas e formativas”, citando Celeste Simão.
ÁUDIO | Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação na CM Abrantes
A par disto, também se teve em consideração a valorização educativa dos recursos, equipamentos e infraestruturas, mostrando equipamentos que estão ao dispor da comunidade, bem como a criação de canais de informação, a produção de conhecimento e a linha orientadora de promoção de investigação/ação, focada nas crianças e jovens, tal como é apontado nas revisões do projeto.
Celeste Simão referiu que ainda o facto de se “ouvir crianças e jovens, para perceber motivações e evitar cada vez mais a tomada de decisões sobre as suas vidas sem ter em conta o que pensam e o que sentem”.

A vereadora, crendo que “há ainda um longo caminho para andar”, citou ainda o professor Matias Alves, que acompanhou a revisão do Projeto Educativo Municipal, e reconheceu que “há condições para prosseguir este caminho da construção de possibilidades, de uma melhor educação no território de Abrantes”.
Nesta ótica a reflexão fez-se sobre a valorização das soft skills, as competências informais que se trabalham além do percurso escolar/académico.
Entre os convidados do painel, moderado pela docente Susana Domingos, esteve José Mingocho de Abreu, nome determinante no ensino profissional e fundador da Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (atual EPDRA), Nuno Gomes, assessor na área do Desporto na Câmara Municipal de Abrantes, Inês Pereira da Silva, jovem agricultora responsável pela empresa Horta Grande, Luís Lopes, da área de recursos humanos da empresa Mitsubishi Fuso Truck Europe.
Neste painel sublinhou-se a importância de aquisição e desenvolvimento de competências pessoais que se transportam para o plano profisisonal, como o saber estar, o trabalho em equipa, o poder de comunicação, a resistência física e psicológica e o compromisso, a auto-regulação e o saber colocar-se no lugar do outro, e a procura de soluções.
Falava-se das soft skills, desde a criatividade, coordenação, tomada de decisões, flexibilidade cognitiva, inteligência emocional, pensamento crítico, numa altura em que não basta ter uma Licenciatura ou Mestrado, e onde se valoriza a “capacidade de adaptação e procura de conhecimento”.

“Competências são saberes em ação”, disse José Mingocho de Abreu, responsável pela fundação da Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (atual EPDRA, em Mouriscas) e pelo desenvolvimento do ensino profissional em Moçambique, onde esteve dedicado cerca de 20 anos.
Abordando “um mundo em constante mudança, numa atualidade competitiva” falou na diferença entre o currículo formal e o currículo informal.
“Quem és tu? És aquilo que a escola te deu e que podes certificar? Ou és aquilo que a vida, as vivências e o dia-a-dia te deu?”, questionou, respondendo que, no seu caso, entende dever mais ao currículo informal ao longo dos 74 anos de vida, do que ao formal.
Falou-se ainda na valorização das competências práticas, onde as experiências são enriquecedoras e se tornam uma mais-valia além do currículo e média do curso. Situação que se verifica na valorização dos cursos profissionais e técnicos, em áreas cujas profissões fazem falta e que não têm sido tão atrativas (soldador, programador, etc).
O currículo agora vai muito além do percurso académico, correspondendo também a um processo de recrutamento que já não mantém as mesmas caraterísticas do passado e que se baseia muito na apresentação das competências adquiridas, situação que foi tida em conta na reflexão e debate no pontapé de saída da iniciativa, tendo como mote a frase de Malala Yousafzai, jovem paquistanesa, ativista na luta pela liberdade, pelos direitos humanos, pelos direitos das mulheres e do acesso à educação, e que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2014: “A educação é a única solução”.
Durante a abertura da iniciativa o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, reconheceu e agradeceu “a dedicação, competência e compromisso dos nossos professores que enfrentaram este momento histórico” de pandemia.
ÁUDIO | Manuel Jorge Valamatos, presidente da CM Abrantes
Manuel Jorge Valamatos salientou que “o futuro do nosso concelho está nos mais jovens e precisamos de lhes dar as necessárias ferramentas”, e enumerou investimentos em curso no setor da Educação que ultrapassam os 4 milhões de euros, nomeadamente na construção do novo Centro Escolar de Abrantes e nas requalificações da Escola de Alvega e da Escola Básica e Secundária Otávio Duarte Ferreira, em Tramagal.

Também destacou o investimento previsto de 5 milhões de euros para a construção da nova Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, no Parque de Ciência e Tecnologia em Alferrarede.
O autarca afirmou que “concluídos estes investimentos, Abrantes terá um dos melhores parques escolares do país”.
