Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes em 2022. Créditos: mediotejo.net

Nas palavras proferidas pelos representantes de cada força política representada na Assembleia Municipal fizeram-se soar os valores de Abril, feitos de luta, de democracia, liberdade, de igualdade e de fraternidade com exceção do Chega que preferiu evocar o 25 de novembro, tecer críticas à atuação da “extrema-esquerda” nos tempos que se seguiram à Revolução e apontar o dedo às falhas do atual regime democrático. Também o PSD referiu o 25 de novembro, considerando que “assegurou a manutenção” da liberdade que chegou a 25 de Abril de 1974.

O presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, António Mor, falou sobre “o dia histórico que o Movimento das Forças Armadas quebrou as amarras de um povo preso à pobreza e ao conformismo” que “sofria em silêncio pelos filhos que via partir para a guerra”, e saudou o 25 de Abril de 1974 celebrado hoje “em paz, sem receios”.

António Mor saudou ainda os capitães de Abril que “deram ao povo português o direito do exercício da democracia” e desse exercício nasceu também “o poder local democrático”, lembrou.

Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Após dois anos de pandemia, António Mor sublinhou a importância de ter sido criado o Serviço Nacional de Saúde, tendo feito notar que “não podemos olhar para estas conquistas de Abril como se tivessem acontecido lá muito longe, na história do tempo” porque “aconteceu apenas há 48 anos”.

E admitiu que “as preocupações estão a avolumar-se” porque “enquanto na sociedade ocidental se discute e avança pela igualdade do género, noutros pontos do mundo as mulheres voltaram a perder o direito ao trabalho e à educação, entre muitas outras privações”.

E “graças às novas tecnologias”, afirmou, “vivemos ao momento, via transmissão televisiva, a guerra”, acrescentou, admitindo que “as guerras têm acontecido em muitos locais do mundo e não lhes temos dado importância como estamos fazendo neste momento”.

Justificaria com as “tecnologias de comunicação” ou “com a ausência de liberdade de expressão existentes nesses locais”, que “não nos têm permitido avaliar na mesma dimensão e preocupação as consequências devastadoras da morte, destruição total e violação dos direitos humanos”.

António Mor, presidente da Assembleia Municipal de Abrantes

Da parte da Câmaras Municipal, o presidente Manuel Jorge Valamatos (PS) começou por dizer que “as celebrações deste ano ficam marcadas pelo momento histórico concretizado há pouco mais de um mês, quando o período de liberdade e de democracia conquistado a 25 de Abril de 1974 ultrapassou em longevidade o período de ditadura iniciado em 1926”, deixando uma palavra de gratidão aos capitães de Abril ao mesmo tempo que apelou às novas gerações que não viveram em ditadura para que “defendam e preservem” a democracia, “garantindo Abril para sempre”.

Lembrou que, devido à pandemia da covid-19, pela primeira vez no pós 25 de Abril “algumas das garantias e dos direitos fundamentais” dos cidadãos “foram pela primeira vez suspensos, num regime transitório que visava garantir a segurança de todos”.

Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Manuel Jorge Valamatos referiu ainda a guerra na Ucrânia, afirmando que o dia 24 de fevereiro “ficará na história mais triste para a Humanidade. A guerra em grande escala voltou à Europa através da invasão das forças militares russas à Ucrânia”, lamentou.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes

Da parte do grupo municipal do Partido Socialista, o deputado Paulo Lourenço sublinhou que o PS “faz parte desta história”, ou seja da Revolução dos Cravos, “uma data marcante para o povo português, pelas mudanças que causou” na sociedade portuguesa.

O PS escolheu o poder local como centro da sua intervenção nesta sessão solene do 25 de Abril em Bemposta dizendo que “a história do PS confunde-se com a história da democracia portuguesa” enquanto que “a história do PS de Abrantes confunde-se com a história do poder local no concelho de Abrantes”, ou seja, o PS governa o concelho desde 1976 até à atualidade à exceção de um mandato (nas eleições de 1989) em que governou o PSD.

Referiu alguns desafios futuros, nomeadamente as alterações climáticas, a discriminação de género, questões demográficas e a sociedade digital, desafios agravados pelo contexto de pandemia e pelo cenário “altamente condenável” que se vive na Ucrânia.

Paulo Lourenço, deputado do PS

Falando das dificuldades dos tempos, presentes e futuros, a felicidade foi, contudo, expressa pelo deputado municipal do PSD, João Salvador Fernandes, por a Assembleia Municipal “estar de portas abertas” à comunidade. Enalteceu também a opção de ser realizada em Bemposta, numa sessão descentralizada.

Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Salvador Fernandes referiu, ainda, a “gloriosa Ucrânia”, país que desde 24 de fevereiro está em guerra com a Rússia, manifestando “solidariedade” do PSD de Abrantes para com o povo ucraniano e consequentemente para com um país invadido, classificando o presidente da Federação Russa de “facínora”.

Notou que tal “deve levar-nos à conclusão que é nosso dever proteger e acarinhar a democracia, a liberdade, a igualdade e a solidariedade”, ao mesmo tempo que “deve consciencializar das fragilidade do nosso querido Portugal no que diz respeito ao planeamento”.

Segundo o deputado eleito pelo PSD, “confiamos demais no desenrascanço e no deixa andar”. Por isso, apelou a uma sociedade mais proativa e previdente, mais disponível “para refletir sobre o futuro” alertando para as “complicações e contrariedades vindouras”, considerando que dessa forma “estamos a contribuir para a materialização do último dos três D do 25 de Abril de 1974: o desenvolvimento”.

João Salvador Fernandes, deputado do PSD

Na celebração do 48º ano do Dia da Liberdade, o movimento ALTERNATIVAcom, pela voz do deputado José Rafael Nascimento, começou por defini-lo como “um dia tão persistentemente e duramente conquistado, um dia sempre frágil e incompleto, um dia que precisa de ser continuamente defendido e melhorado, pois, como repetidamente dizemos, as imperfeições da democracia só se ultrapassam com mais e melhor democracia”.

Na sua intervenção, José Nascimento recordou palavras ditas em 2021, ou seja: “o direito e o dever que a Liberdade conquistada em abril nos proporcionou, de vivermos de forma adulta e responsável, escolhendo livremente os caminhos que queremos trilhar”.

Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Segundo o ALTERNATIVAcom, “a questão da liberdade de opinião e expressão só se coloca quando ela é crítica, discordante, contrária ou simplesmente diferente da ‘verdade’ oficial ou da opinião conformista ou maioritária. Porque, como é óbvio, a opinião concordante e elogiosa, e mais ainda a bajuladora e situacionista, não precisa da Liberdade para se expressar”.

Mas a Liberdade, acrescentou José Nascimento, “nunca é uma condição meramente individual (ou de fação) e local, nem isenta de ameaças ou garantidamente adquirida. Ela é, por um lado, eminentemente social e solidária, e, por outro, universal e sistémica, precisando de ser defendida e, quando deteriorada ou perdida, de ser regenerada e readquirida”.

José Rafael Nascimento, deputado ALTERNATIVAcom

Já José Silva, deputado eleito pelo Bloco de Esquerda, começou por lembrar que a Revolução desencadeada pelos capitães de Abril foi “fortemente apoiada pelo povo”. Considerou ser tempo de “lembrar a história da resistência à ditadura e ao colonialismo, convocar a memória à atualidade dos dias da Revolução, de transformação e de esperança que deram origem à democracia portuguesa”, disse, sublinhando as conquistas do Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e os direitos dos trabalhadores.

Também o deputado bloquista incluiu na sua intervenção o poder local democrático. “As conquistas e os direitos de cidadania alcançados com a Revolução de Abril não são irreversíveis e devem ser defendidos e protegidos contra a exploração laboral, discriminações e contra a violência”, defendeu.

José Silva indicou o momento como sendo aquele em que o “neoliberalismo e a extrema-direita lançam a sua sombra de regressão política, social e civilizacional, promovendo um ataque frontal às conquistas de Abril”, tendo defendido que “manter viva a celebração é continuar a defender a Constituição da República de Abril e fazê-lo em solidariedade com os povos europeus e de todo o mundo”.

José Silva, deputado do Bloco de Esquerda

Por seu lado, o deputado da CDU, Luís Lourenço, afirmou que “a Revolução foi no seu desabrochar imediato uma explosão de liberdade, é certo, mas não perduraria se não incluísse todos os demais aspetos da vida, a marca que lhe garantiu e garante sustentação”.

Luís Lourenço destacou a ação dos capitães de Abril que “desarmou o Regime opressor” e o povo que naquele dia expressou livremente o que pensava organizando-se na “luta por mais pão, por saúde, educação e justiça para todos”.

Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. Capitão de Abril Maximiliano Chaves. Créditos: mediotejo.net

Segundo Luís Lourenço, comemorar Abril é “afirmar o que a Revolução representa e expressa, enquanto processo libertador, profundas transformações da sociedade portuguesa e um dos mais altos momentos da vida e da história do povo português e de Portugal”.

Celebrar Abril é, também de acordo com o deputado da CDU, “evidenciar o que foi o fascismo e combater o seu branqueamento, é destacar a luta antifascista pela liberdade e pela democracia. É assinalar o seu sentido transformador e revolucionário, não rasurar a memória coletiva que o envolve”, frisou, apontando o dedo a “décadas de política de direita” como tendo contrariado os ideais de Abril.

Luís Lourenço, deputado da CDU

Manuel Lopes Silva, do Chega, começou por dizer que o 25 de Abril trouxe a Portugal “o sonho da liberdade manchado desde o início pelas forças da extrema-esquerda usurparem o poder e quererem implantar em Portugal uma república socialista à boa maneira soviética”.

Falou na “ilegalidade de quase todos os partidos de direita” no pós 25 de Abril e afirmou ter existido “impunidade contra esses terroristas, assassinos e usurpadores de poder”.

Contudo, afirmou Manuel Lopes Silva, “graças a Deus tivemos o 25 de novembro, pois foi com este contra ataque que Portugal entrou no verdadeiro caminho da democracia”.

Manuel Lopes Silva, deputado do Chega
Sessão evocativa do 25 de abril, Assembleia Municipal de Abrantes. António Moutinho. Créditos: mediotejo.net

Durante a cerimónia evocativa do 25 de Abril de 1974 tomou posse, na Assembleia Municipal, o atual presidente da União de Freguesias de Alvega e Concavada, José Moutinho. A sessão contou com a presença do capitão de Abril, Maximiliano Chaves, residente em Vale de Horta, na freguesia de Bemposta.

A cerimónia, que foi aberta pelo anfitrião, o presidente da Junta de Freguesia de Bemposta, Manuel João Alves, encerrou com um momento musical pelo Quarteto de Saxofones da Escola Dr. Manuel Fernandes e pelo Tributo aos Cantores de Abril pelos Trovadores de Abrantes.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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