Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco. Foto: mediotejo.net

Com a entrada em vigor das 35 horas de trabalho semanal, a Ordem dos Enfermeiros alerta que a situação nos hospitais do Centro Hospitalar do Médio Tejo pode agravar-se durante o verão, se não forem contratados os profissionais necessários. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, esteve no Hospital Dr. Manoel Constâncio, em Abrantes, e lembrou ao mediotejo.net que já em março eram necessários 150 enfermeiros para aquele centro hospitalar. A administração do CHMT contesta e fala em 58 enfermeiros para que os serviços funcionem dentro da normalidade. Esta segunda-feira foram contratados 19 enfermeiros e 17 assistentes operacionais.

Uma semana depois da entrada em vigor das 35 horas de trabalho semanais para milhares de profissionais de saúde, Ana Rita Cavaco prevê que as dificuldades nos hospitais portugueses, nomeadamente no Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT), se mantenham por todo o verão, caso não sejam contratados os enfermeiros necessários. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros esteve esta segunda-feira no Hospital de Abrantes e lembrou que já em março faltavam 150 enfermeiros naquele centro hospitalar, que abrange ainda as unidades de Tomar e Torres Novas.

“A falta de enfermeiros é por todo o País, Abrantes não é exceção”. No CHMT, disse, “em março faltavam 150 enfermeiros e agora com a passagem às 35 horas são necessários mais 58. Sendo que 40 estão por substituir com licenças prolongadas”.

E do CHMT, continuou, “saíram enfermeiros para o concurso de cuidados de saúde primários que não foram substituídos e têm, como os outros hospitais, milhares de horas a mais que fazem sistematicamente por falta de enfermeiros. Hoje chegaram 16 novos enfermeiros [dos 19 contratados] para a urgência que têm de fazer a sua integração, e encerraram o serviço de ortopedia para fazer face à falta de enfermeiros”, disse Ana Rita Cavaco.

Em todo o País, a representante dos enfermeiros refere que seriam necessários pelo menos 1.700 enfermeiros, apenas para cobrir a passagem das 40 para as 35 horas, alertando que os serviços estão há muito com défice de enfermeiros. Para o CHMT fala então em mais de uma centena, número contestado pelo presidente do concelho de administração do CHMT, Carlos Andrade.

“Não sei onde foi buscar o número 150”, disse ao mediotejo.net, acrescentando que o centro hospitalar “tem 730 enfermeiros” considerando um número “muito expressivo” no conjunto de profissionais da casa, indicando “58” o número de enfermeiros necessários.

“Demos prioridade às dotações dos serviços de urgência e vamos estabilizar agora” ao longo do mês de julho. Durante este mês o CHMT conta também ter “as necessárias autorizações para contratar em substituição os profissionais que estão em casa” por doença ou por licença de maternidade”.

Carlos Andrade garantiu ainda a inexistência de serviços encerrados.

Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo, Carlos Andrade. Foto: mediotejo.net

“Estamos a encerrar o plano de contingência do período da gripe. Houve aqui [na região] algumas variações térmicas fora do comum, nomeadamente durante o mês de junho, mantivemos alguma capacidade do plano e estamos a encerrar essa componente”, explicou, justificando a falta de reforço de enfermeiros para o período de plano de contingência do calor com “uma abordagem diferente” do plano de inverno.

“Cada coisa a seu tempo, no seu tempo próprio, e é nisso que estamos a trabalhar para responder o melhor possível aos cidadãos que recorrem a este centro hospitalar”, afirmou.

O ministro da Saúde tem anunciado que vão entrar este mês dois mil novos profissionais de saúde por causa das 35 horas de trabalho, sem especificar quantos são enfermeiros, quantos são técnicos, farmacêuticos ou assistentes. Adalberto Campos Fernandes tem dito ainda que até maio entraram no Serviço Nacional de Saúde cerca de 1.600 profissionais já a contar com as 35 horas.

No Hospital de Abrantes, a presença da bastonária da Ordem dos Enfermeiros, onde visitou os Serviços de Urgência, Cardiologia e Medicina 2, teve como objetivo explicar aos enfermeiros do CHMT que “os turnos escalados em horário, tal como já tínhamos feito sair para os conselhos de administração, são falsos turnos extraordinários que não estão obrigados a cumprir por uma questão de proteção do doente e deles próprios, porque enfermeiros exaustos, a trabalhar mais horas do que devem, cometem mais erros e portanto, por uma questão de segurança do doente devem recusar esses turnos”, afirmou, defendendo “mais contratação”.

Na cardiologia indicou “existir um único enfermeiro à noite”, situação que considerou “inaceitável”, e no serviço de medicina interna deu conta da existência de “3 enfermeiros para 26 doentes e uma taxa de absentismo de 50%”.

Sem mais autorização do Ministério da Saúde de contratação para o CHMT “provavelmente terá de se encerrar mais algumas camas para fazer face à falta de enfermeiros”, acrescentou, dizendo que os enfermeiros “percebem a atitude que devem ter e precisam das equipas reforçadas para terem condições para exercer os seus cuidados de uma forma segura”.

A bastonária lembrou ainda que os enfermeiros que entram, além de serem em número insuficiente, “não contam logo como elementos”, visto que têm de fazer a sua integração na equipa.

Ana Rita Cavaco relata que todos os dias tem conhecimento de “encerramento de camas e fecho de alguns serviços”, fruto do que os profissionais têm considerado como a falta de planeamento adequado com a passagem às 35 horas de trabalho semanais por parte de milhares de profissionais de saúde a 1 de julho.

O ministro da Saúde tem reiterado que o Governo e os hospitais estão a fazer um planeamento “como nunca foi feito”, mas não se compromete com a contratação adicional de profissionais depois do verão e indica que não deverá haver margem financeira para contratar o número desejável de profissionais.

Por seu lado, o presidente do conselho de administração do CHMT deu conta de “um processo dinâmico com o Ministério da Saúde procurando substituir os enfermeiros que saem, ou técnicos, ou médicos ou assistentes administrativos”.

Admitindo que o número (19) agora contratado fica “aquém” olhando para as necessidades reais e para o “desgaste” dos enfermeiros que trabalham no CHMT, Carlos Andrade reconheceu “o enorme contributo e empenho que todos os profissionais de enfermagem e todos os profissionais de saúde dão às suas instituições”.

“Na saúde estamos habituados a trabalhar com 100% de empenho, com 100% de presença. Quem vem para a saúde sabe que está na profissão que escolheu mas que é muito exigente”, vincou.

O administrador desvalorizou os alertas da bastonária e lembrou que esta “não é a primeira vez que nos adaptamos às 35 horas, defendendo uma “adaptação gradual” em cerca de um mês. “É algo que está na predisposição de todos os profissionais, saber que casas que funcionam 365 dias por ano, 24 horas por dia nenhuma adaptação se faz entre as 17h00 de um dia e as 09h00 do dia seguinte. Há turnos, escalas, horários…”.

Falando das contratação do CHMT ao abrigo das autorizações da tutela, além dos enfermeiros e dos assistentes operacionais, esta semana começará a contratar “técnicos de farmácia, técnicos de radiologia e técnicos de laboratório”.

Recorde-se que em abril último, oitenta e dois enfermeiros e assistentes operacionais do serviço de Urgência do hospital de Abrantes pediram transferência de serviço. Manifestaram-se “à beira do colapso” pela falta de profissionais de saúde naquele serviço do Centro Hospitalar do Médio Tejo que abrange cerca de 250 mil utentes, e receavam falhar na prestação de cuidados de saúde aos doentes.

Presente na visita ao Hospital de Abrantes, a acompanhar a bastonária do Ordem dos Enfermeiros, esteve também o presidente da Administração Regional de Saúde.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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