Editores, autores e filho do homenageado (ao centro). Foto: DR

A obra biográfica “Francisco Fernandes (Chico Silva) – De visionário a empreendedor”, da autoria de Armando Cotrim e Sofia Ramos Miguel, foi apresentado no domingo, da sede da Fundação Maria Dias Ferreira, em Ferreira do Zêzere. Ao longo de 246 páginas. é retratada a vida do empresário que nasceu no seio de uma família humilde em Vila de Rei e criou um império no concelho do outro lado da albufeira de Castelo do Bode.

Editado pela Fundação Maria Dias Ferreira, a obra conta a história de vida de “Chico Silva”, como era tratado, fundador e impulsionador de empresas como a ZêzereOvo, Comave, Sicarze, Rações Zêzere, Agrozel, entre outras e que morreu em 2020, com 93 anos.

Francisco Fernandes “tornou-se uma referência incontornável na sociedade ferreirense, quer pelas mais de duas dezenas de negócios que desenvolveu, quer pelos muitos empregos que criou. A sua conduta como cidadão, chefe de família, trabalhador e empresário é de uma enorme riqueza”, destacou o presidente da Fundação, José Afonso Sousa.

Perante dezenas de pessoas intervieram, além do anfitrião, Jorge Fernandes, filho do homenageado e administrador daquelas empresas, Bruno Gomes, presidente da Câmara, bem como os autores Armando Cotrim e Sofia Miguel.

“Pessoas boas e empreendedoras, apostadas em criar riqueza e postos de trabalho, merecem ser recordadas para servir de exemplo às gerações futuras e para nos lembrar que, apesar de tantas dificuldades, é possível “fintar o destino” e construir uma vida melhor para os seus e para tantas outras pessoas com as quais se interage”, justificou José Afonso Sousa.

Para a Fundação Maria Dias Ferreira e para a Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, “tornou-se um imperativo divulgar e preservar a história de Francisco Fernandes, as suas inquietações e ambições, as lutas que travou e as conquistas que obteve, a forma como vencia as adversidades que a vida lhe trazia, bem como o seu espírito irrequieto e empreendedor que modificou o panorama empresarial do concelho”, acrescentou.

Para a realização do livro foram recolhidos testemunhos de cerca de duas dezenas de pessoas, entre familiares, amigos, colaboradores, clientes e fornecedores. Nas entrevistas realizadas, mais do que perguntas elaboradas, pretendeu-se estimular a memória dos entrevistados, pedindo-lhes para contarem histórias que viveram com Francisco Fernandes ou que lhes contaram sobre o mesmo.

É extensa a lista de adjetivos sobre Francisco Fernandes mencionados pelas pessoas que foram entrevistadas e que deram testemunho sobre o mesmo: abnegado, amigo, atento, ativo, austero, bondoso, confiável, conselheiro, corajoso, curioso, determinado, disciplinado, distante, empreendedor, equilibrado, estudioso, exemplar, exigente, frio, frugal, generoso, grato, honesto, honrado, humanista, humilde, inovador, íntegro, inteligente, metódico, observador, persistente, resistente, rigoroso, severo, simples, trabalhador, vanguardista e visionário.

O presidente da Fundação explicou a composição do livro, dividido em cinco capítulos, que retratam, na sua maioria, de uma forma cronológica, as várias fases da vida pessoal e empresarial de Francisco Fernandes.

Nos primeiros dois capítulos livro são abordadas as origens (capítulo 1) e a infância e juventude (capítulo 2) de Francisco Fernandes, que nasceu em 1927 na Aveleira, concelho de Vila de Rei, no seio de uma família numerosa (eram nove irmãos) e de origens humildes, que praticava uma agricultura de subsistência.

Por via do negócio do carvão, que produzia em fornos artesanais e depois vendia para obter mais algum rendimento, Manuel, o pai de Francisco, conheceu e apaixonou-se pelo local da Cabrieira, em Ferreira do Zêzere, onde havia água em abundância. Adquirido este terreno, mudou-se a família para uma casa (hoje em ruínas) entretanto edificada por Manuel neste local, onde Francisco, então com oito anos, ajudava a guardar um rebanho de cabras.

Aproveitando a ribeira, Manuel construiu uma azenha onde moía cereais dele e de vizinhos, sendo a água também aproveitada para regar as hortas que foram sendo construídas junto à ribeira. Foi assim neste enquadramento que Francisco cresceu e se desenvolveu, aprendendo a aproveitar e a valorizar tudo o que a natureza pode oferecer e observando como o pai continuamente procurava obter rendimento de vários negócios, como o carvão, a azenha, as hortas, os rebanhos ou a resina.

Francisco frequentou a escola primária nas Besteiras, que ficava a uma hora a pé do local onde vivia, mas não chegou a completar a 2.ª classe, pois o seu trabalho era necessário para apoiar a família nas lides agrícolas. Foi já em adulto que completou a 4.ª classe, requisito fundamental para obter a carta de condução.

Aos 15 anos, Francisco assumiu a responsabilidade pelo negócio da resina, que incluía o arrendamento de terrenos e toda a logística de extração e transporte da mesma para Pombal e Tomar. Ajudava também os pais na lavoura dos terrenos, a tratar dos animais e noutras tarefas sazonais como a apanha da azeitona.

O terceiro capítulo aborda o início da vida adulta de Francisco Fernandes, incluindo o seu casamento com Maria de Lurdes Rodrigues, o nascimento e a educação dos filhos Jorge e António e a tragédia que representou a morte deste último. Os mais de 20 negócios que Francisco desenvolveu ao longo da sua vida são detalhados no capítulo 4.

O negócio da azenha, na Cabrieira, veio a revelar-se pouco lucrativo e pior ainda ficou quando uma tempestade destruiu a azenha, deixando Francisco com uma dívida de 80 contos, e mulher e dois filhos para sustentar.

Seguiu-se o negócio da resina, extraída de vários milhares de pinheiros que Francisco alugava. Mas também este negócio teve problemas quando a fábrica de Tomar, que a comprava, entrou em falência, recebendo Francisco, como contrapartida, o telhado da fábrica, que utilizou para os primeiros pavilhões que construiu no Chão da Serra.

Estes pavilhões foram usados para o negócio de galinhas poedeiras, iniciado por Francisco na década de 60, com o primeiro bando constituído por 2000 animais. No entanto, as galinhas contraíram uma doença derivada de um vírus e o negócio saldou-se apenas por prejuízos.

Nenhum dos três negócios iniciais em que Francisco investiu (azenha, resina e galinhas poedeiras) correu bem, mas ele nunca desistiu de ser empreendedor e de tentar a sua sorte noutros negócios.

Francisco sempre foi curioso e, com humildade, antes de lançar um novo negócio, procurava aprender com aqueles que tinham uma boa experiência no ramo e com os fornecedores melhores no país. E depois tentava fazer melhor.

Explorou também o negócio da venda de madeira, em sociedade com Joaquim António. Compravam pinhais e eucaliptais no concelho de Ferreira do Zêzere e em concelhos limítrofes e vendiam a madeira a serrações deste concelho e a fábricas de Constância e Tomar. Nos finais da década de 80, os dois sócios decidiram terminar esta sociedade, por terem concluído que a mesma já não era rentável.

Em 1964, Francisco investiu também no negócio de óleo de eucalipto, usado, entre outros, para fins medicinais, construindo uma fábrica no Chão da Serra. Algum tempo depois, acabou por abandonar este negócio quando considerou que o mesmo já não tinha futuro.

Com o sócio Joaquim António e ainda com Maria José Folque de Gouveia, investiu também no negócio dos pomares (sete hectares de macieiras). Quando as macieiras começaram a ficar velhas, foram arrancadas e o terreno vendido para urbanização.

Francisco decidiu investir igualmente no negócio da produção de frangos de carne, mais tarde designado Aviário do Zêzere, também na localidade do Chão da Serra, e acabaria por dar sociedade nesta empresa aos sobrinhos Fernando Farinha, Manuel Ferreira e Carlos Ferreira.

Posteriormente Francisco acabou também por desenvolver um negócio de matadouro de frangos, para o qual deu sociedade ao seu sobrinho e afilhado Francisco Ferreira, já com o objetivo de servir a região de Lisboa, aumentando a produção para 4 mil frangos por semana.

Este mercado acabaria por ser abandonado por dificuldades de cobrança, voltando o foco das vendas a ser o concelho de Ferreira do Zêzere e arredores. Em 1973, as instalações do matadouro mudaram do Chão da Serra para Ferreira do Zêzere, passando a designar-se por Comave.

Entre 1969 e 1971, Francisco investiu no negócio de criação e engorda de bezerros, em sociedade com Manuel Narciso Amado e o seu sobrinho Carlos Ferreira.

No início dos anos 70, Francisco iniciou-se no negócio da suinicultura, para o qual foi necessário construir novos pavilhões a fim de albergar meia centena de animais, bem como estradas novas, casas para os tratadores, etc.

Com o tempo, Francisco percebeu que podia evoluir na cadeia de valor e montou o negócio de matadouro de porcos, para o abate e transformação destes animais. Assim, nasceu, em 1978, a empresa Sicarze, vindo os primeiros trabalhadores especializados de uma empresa concorrente. Trabalhavam também nesta empresa os sobrinhos Rafael Fernandes (parte administrativa) e Leonel Fernandes (distribuição). Mais tarde, foram convidados por Francisco a serem sócios desta empresa os sobrinhos Francisco Ferreira, Carlos Ferreira, Manuel Ferreira e Fernando Farinha. Esta sociedade chegou a ter mais de 100 trabalhadores e hoje é administrada pelo grupo GlobalFer, SA.

Em 1982, aproveitando a experiência do seu sobrinho e afilhado Leonel Fernandes, Francisco investiu no negócio da construção civil, constituindo, em sociedade com este, a empresa Piram – Construções e Turismo, Lda., sendo também sócios o seu filho Jorge e o sobrinho Rafael Fernandes. Através desta empresa foram construídos cerca de vinte prédios em Tomar, no Entroncamento e em Torres Novas.

Em 1981, Francisco iniciou-se no negócio da criação de coelhos, construindo para o efeito um pavilhão no Chão da Serra, com elevados níveis de segurança sanitária. A produção era aproximadamente de 120 coelhos por semana e este negócio durou 14 anos, sendo encerrado em 1995, com a venda das jaulas dos coelhos, aproveitando-se os pavilhões para outros fins.

Em meados da década de 80, já perto dos 60 anos de idade, Francisco continuava “irrequieto”. Não procurava o descanso e o conforto que a estabilidade dos negócios então lhe proporcionava, antes continuava sempre a pensar em novas oportunidades de negócio. Em 1986, iniciou o negócio da produção de ovos, para o que constituiu a empresa Zêzerovo – Produção Agrícola e Avícola do Zêzere, S.A., tendo os filhos Jorge e os sobrinhos Leonel e Rafael Fernandes como sócios. Os dois pavilhões construídos na Frazoeira funcionavam com 15 000 galinhas cada um, tendo Francisco investido numa máquina de calibração de ovos que lhe permitiu ganhar novos clientes. Um marco importante ocorreu em finais da década de 90, quando a Zêzerovo passou a fornecer ovos às grandes superfícies (Intermarché, Modelo, Continente, Pingo Doce, Minipreço, Lidl, Recheio, Auchan, etc.). Hoje a Zêzerovo tem mais de 150 trabalhadores, 20 pavilhões, 1,7 milhões de galinhas e produz cerca de 500 milhões de ovos por ano, cerca de 1,3 milhões de ovos por dia.

Jorge Fernandes, filho de Francisco, para além de trabalhar nos negócios do pai, era por este incentivado a desenvolver também alguns projetos autónomos, como a Upezel, em parceria com os primos Farinha, que mais tarde veio a dar origem às Rações Zêzere, SA.

Em 1988 foi constituída a Agrozel – Agropecuária do Zêzere, SA, com vista a agregar os vários negócios de Francisco Fernandes nas áreas da floresta, da agricultura e da pecuária, tendo aqui ele também desenvolvido o negócio da criação de gabo bovino, para a produção de leite.

Em meados da década de 90, com o apoio do seu sobrinho Nuno Gaspar, licenciado em medicina veterinária, Francisco constituiu a sociedade Sagrimonte – Sociedade Agro-Pecuária de Monte da Pedra Lda., para o negócio de criação de porcos ao ar livre.

Este negócio foi também desenvolvido no âmbito da Agrozel, onde Francisco construiu duas explorações nas localidades do Souto e Charneca da Peralva cada uma com 150 porcas parideiras. Mais tarde, construiu um novo edifício na Asseiceira, concelho de Tomar, devidamente equipado e licenciado, que vendeu ainda antes de entrar em produção, quando pressentiu que o negócio da suinicultura se tornava cada vez mais exigente em termos ambientais, ao mesmo tempo que o preço da carne baixava de valor nos mercados.

No âmbito da Agrozel investiu também no negócio da criação de perus, com a construção de dez pavilhões em três explorações distintas (Alqueidão, Souto e Charneca da Peralva), dotados de uma capacidade anual de 150 mil perus.

O negócio da produção de eucaliptos, com cerca de 700 hectares nos concelhos de Ferreira do Zêzere, Tomar, Barquinha, Abrantes, Sardoal e Sertã, maioritariamente destinados à indústria do papel, constituiu uma das principais atividades da Agrozel.

Até ao fim da sua vida, Francisco nunca deixou de ter iniciativa e de se lançar em novos projetos empresariais e, aos 87 anos, afetou 80 hectares ao negócio da produção de nozes, atividade cuja exploração ficou a cargo do seu neto Maurício. Dois anos depois o negócio foi ampliado com mais 25 hectares de nogueiras em modo biológico.

Também 10 hectares foram afetos ao negócio da produção de azeite, bem como 40 hectares dedicados ao negócio de produção de castanhas.

Aos 78 anos, Francisco decidiu fazer negócios em Angola, para o que desafiou o sobrinho António Cotrim. Esteve lá por três períodos, contra a vontade do filho Jorge que achava que ele não tinha idade para aquela aventura. A ideia inicial era investir numa rede de farmácias, mas rapidamente o projeto foi abandonado e trocado pela construção de um armazém. Ao fim de dois assaltos ao armazém e de armas de fogo apontadas à cabeça dos seus colaboradores, Francisco decidiu sair de Angola, sendo o terreno e o armazém arrendados a outra empresa.

O capítulo 5, com o título “Uma vida simples mas compensadora”, aborda as rotinas familiares de Francisco Fernandes, o seu gosto por juntar a família, a sua relação com a nora Leonor, os netos Maurício e Cristiana e com o bisneto Tomás, os problemas de saúde que se agravaram no fim da vida, bem como a forma tranquila com que ele encarava a morte, que acabou por ocorrer a 30 de março de 2020.

Após esta descrição dos vários capítulos do livro, o Presidente da Fundação Maria Dias Ferreira, afirmou que “Francisco Fernandes tornou-se uma referência incontornável na sociedade ferreirense, quer pelas mais de duas dezenas de negócios que desenvolveu, quer pelos muitos empregos que criou. A sua conduta como cidadão, chefe de família, trabalhador e empresário é de uma enorme riqueza”.

José Afonso Sousa destacou a humildade e discrição do homenageado, que “nunca procurou o reconhecimento”, com um estilo de vida austero, desapegado de luxos e bens materiais, “foi inspirador para muitos que com ele se cruzaram”.

O livro agora publicado enquadra-se no propósito conjunto da Fundação e da Câmara de divulgar a vida e a obra de destacadas figuras do concelho de Ferreira do Zêzere. Surge na sequência de outras obras biográficas publicadas, nomeadamente: “António Baião – De Ferreira do Zêzere à Torre do Tombo”, “Guilherme Soeiro – Fragmentos de uma vida exemplar”, “José Martinho – Do sonho à obra” e “José Cristóvão – O construtor de sonhos”.

Através da leitura do livro, os promotores convidam os leitores a conhecer “a trajetória de um homem singular, de origens humildes, que, partindo do nada mas seguindo sempre a sua intuição, construiu uma obra assinalável”.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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