Como diz o povo, “da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão”. E esta data, que no calendário cristão assinala a ascensão de Jesus ao Céu (e a vitória da vida sobre a morte), foi sempre celebrada de forma especial no Ribatejo, ligando-se intrinsecamente às preces de fertilidade e boas colheitas, com a apanha da espiga, no auge da primavera.
Na Chamusca, Quinta-feira de Ascensão é feriado municipal e há festa rija durante uma semana. Nos dias de hoje, poucos locais preservam a pureza destas celebrações como este município ribatejano: as famílias continuam a vestir os seus fatos domingueiros para as procissões religiosas, os campinos trajam a rigor e a vila enche-se de flores e de gente a cavalo.

Como não podia deixar de ser, há também touros – e a entrada dos mais bravos animais pela Rua Direita de São Pedro, em corrida até à centenária praça, é um dos pontos altos destes festejos.

À noite celebra-se a vida, cantando e dançando – já não à volta das fogueiras mas junto ao palco por onde desfilam alguns dos maiores nomes da música portuguesa. Este ano, e depois de dois anos de pausa devido à pandemia de covid-19, vai ser possível ouvir o fado de Sara Correia, as piadas de Herman José, o talento de Fernando Daniel e a cumplicidade das vozes de Áurea e Mariza Liz, entre outros (ver programa completo).
Origens da tradição
É a Páscoa, festa central do calendário cristão, que determina o dia de Carnaval (quarenta dias antes) e o da Ascensão (quarenta dias depois). No cristianismo, sendo importante a festa do nascimento de Cristo (o Natal), a celebração maior é aquela que assinala a sua ressurreição, símbolo da vitória da vida sobre a morte. Na Quinta-feira de Ascensão, que este ano se celebra a 26 de maio, recorda-se a subida de Jesus ao Céu, uma vez cumprida a sua missão na Terra, para salvar a Humanidade.
A celebração da Ascensão teve origem em Jerusalém, começando por realizar-se em simultâneo com a festa de Pentecostes. Existem registos de, no séc. IV, serem feitas procissões com tochas e estandartes, após a benção dos primeiros frutos.
Mas o carácter sagrado desse dia tem bem mais de dois mil anos. Já os romanos o celebravam, pedindo bênçãos à deusa Flora, e no judaísmo o mesmo dia ficou marcado pela subida de Moisés ao monte Sinai, onde recebeu as Tábuas com os Dez Mandamentos. Se o povo cumprisse a sua parte, seguindo os conselhos de Deus, estaria garantida a prosperidade da vida agrícola.
“Por onde maio passou tudo espigou”, diz-nos a sabedoria popular. Tudo desabrocha e amadurece, os dias crescem, a temperatura sobe e floresce também em nós um estado de espírito mais alegre.
“Trata-se de um dia especialmente significativo para as sociedades agrárias tradicionais, como até há pouco tempo foi a nossa, que tanto dependiam da agricultura, da fertilidade da terra, da cadência das chuvas, do favor dos deuses”, explica o historiador António Matias Coelho, natural da Chamusca.
“Para os conseguir, sempre os agricultores praticaram rituais, fossem quais fossem as divindades invocadas. A apanha da espiga, em Quinta-feira de Ascensão, é um sinal que resta desse gesto antigo que tinha por intenção providenciar, simbolicamente, a fartura de pão para o ano inteiro.”

Esta é também a Quinta-feira da Espiga em Portugal e, apesar da crescente descaracterização do mundo rural, continua a ser um dos dias mais sagrados do calendário de quem vive no interior do país.
“É um dia fasto, um dia favorável, como o são também, por exemplo, a Segunda-feira de Páscoa (dia da Senhora da Boa Viagem em Constância), a Segunda-feira de Pascoela (dia de sestas na freguesia da Chamusca) ou o 1.º de maio que, muito antes de ser Dia do Trabalhador, já era dia de levantar cedo para não deixar entrar o maio, que seria sinal de sono e mau presságio para todo o ano. Todos eles são dias de ir passear ao campo, festejar a primavera e louvar a natureza”, lembra António Matias Coelho.
“Em muitos sítios do país, mas em especial no sul, que é zona de mais vastos trigais e de mais vincadas tradições mediterrânicas, o povo chama ao dia da Ascensão a Quinta-feira da Espiga – e este nome assenta-lhe bem. De facto, mais do que a festa religiosa da ascensão de Cristo, o que o povo espontaneamente celebra é o amadurecimento das searas, colhendo espigas e outros elementos vegetais para compor um ramo que, guardado em casa, há de dar fartura de pão e outras importantes venturas até à Ascensão que vier.”

Espiga
O ramo de espiga colhe-se nos campos na Quinta-feira de Ascensão, que este ano se celebra a 26 de maio. A tradição tem origem pagã e está associada aos rituais que se realizavam na Primavera, pedindo bençãos à mãe Natureza (e no período romano à deusa Flora), mas desde os primórdios do Cristianismo ficou associada à Ascensão de Jesus, símbolo do triunfo da vida sobre a morte.
A sua composição varia nalguns pontos do país, mas há elementos simbólicos comuns, que devem ser sempre em número ímpar.
No Ribatejo juntam-se habitualmente três espigas de trigo, três malmequeres amarelos e três papoilas, a que se junta um raminho de oliveira em flor, um esgalho de videira com o cacho em formação e um pé de alecrim ou de rosmaninho florido. As espigas significam a fartura de pão (sustento da família); os malmequeres, riqueza e prosperidade; as papoilas, amor e vida; a oliveira, paz e luz; o alecrim (ou rosmaninho), saúde e força; a videira, vinho e alegria.
Podem juntar-se ao ramo outras flores que se encontrem pelo caminho, para embelezar. Pendura-se atrás da porta de entrada de casa, onde deve ficar até ao ano seguinte, substituindo-se então por outro ramo novo e viçoso.
A apanha da espiga, ainda hoje, quase nunca é um ato solitário, nota o historiador. “Até há cerca de meio século, saía-se para o campo em ranchos, sobretudo de rapazes e raparigas, mas que integravam também gente de todas as idades, incluindo crianças e idosos. Levava-se o farnel que se partilhava à sombra das árvores mais frondosas e então colhiam-se as várias espécies para compor, com arte e afeto, o raminho benfazejo.”

Para muitos este ainda é “o dia mais santo do ano”, um dia em que não se deve trabalhar. Os antigos chamavam-lhe o “dia da hora” porque havia uma altura em que tudo parava: pelo meio-dia, nalgumas localidades, pelas três horas da tarde, noutras.
E, como refere Matias Coelho, “a ocasião era propícia ao despontar de sentimentos entre moços e cachopas, trocas de espigas e de olhares em tarde de maio quente, que depois davam namoro e, muitas vezes, ligações para a vida inteira. Fazia-se roda, contavam-se histórias, desfiavam-se cantigas e dançava-se ao toque da concertina, da gaita-de-beiços ou de outro instrumento que alguém levasse e soubesse tocar”.
O carácter sagrado deste dia tem bem mais de dois mil anos. Já os romanos o celebravam, pedindo bênçãos à deusa Flora.
Hoje, a festa continua a fazer-se na Chamusca, com as adaptações que a contemporaneidade exige, mas partindo sempre da tradição enraizada nestas terras férteis de borda d’água. A Quinta-feira de Ascensão é feriado municipal – ainda assim é em 30 concelhos do país, tendo a data deixado de ser feriado nacional em 1952 –, mas os festejos duram nove dias, entre a segunda-feira que a antecede e o domingo seguinte.
O convite fica feito pelas gentes da Chamusca: celebre-se a Ascensão, colhendo a espiga nos campos e dançando pela noite fora. Depois de dois anos de recolhimento e de uma difícil travessia no deserto, bem precisamos de alegria nas nossas vidas, e de bênçãos para o futuro.

