Escultura de homenagem a Paulo Gonçalves, piloto que morreu em 2020 no Rali Dakar, foi construída em Montalvo. Foto: mediotejo.net

Uma escultura de homenagem ao piloto Paulo Gonçalves, com oito toneladas e cinco metros de altura e construída com peças mecânicas, vai ser inaugurada dia 10 de fevereiro face à EN13 em Esposende. Em comunicado, a Câmara de Esposende refere que o monumento escultórico ficará instalado no chamado Souto Citadino, na cidade, entre as rotundas da Senhora da Saúde e da Solidal, espaço que passa a designar-se “Parque Paulo Gonçalves”.

Trata-se de um investimento próximo dos 50 mil euros, totalmente financiado pela Câmara de Esposende. “A peça representará o piloto e a sua moto em ação, em plena corrida numa duna no deserto, na Arábia Saudita, onde o piloto viria a morrer”, acrescenta. O mediotejo.net esteve na fábrica da HJDP, em Montalvo, onde a escultura foi produzida ao longo de três meses.

Escultura gigante com peças mecânicas, um trabalho de artesanato industrial

Grandiosa na sua dimensão e estrutura, apesar da azáfama que a rodeia, a escultura de homenagem a Paulo Gonçalves mantém-se imperturbável perante o nosso olhar. São cinco metros de altura e oito toneladas de peças mecânicas em fim de vida. A forma de uma moto em corrida numa duna no deserto, é moldada com técnicas de serralharia e soldadura, juntando e encaixando milhares dessas peças, sem polimento ou limpeza, apenas domadas pela imaginação, pela destreza e algumas pelo fogo. O piloto português morreu no Rali Dakar, em 2020, na Arábia Saudita.

Paulo Maria, responsável pelo projeto, explica tratar-se de uma escultura de realidade aumentada – de dois para um, no dobro da volumetria – e trabalhada de uma forma artística. Profissionalmente, Paulo conhecia bem o piloto. É fotojornalista de desporto motorizado, fotografou muitos Dakar, acompanhou Paulo Gonçalves em várias provas, e é artista, desenvolvendo alguns projetos de artes plásticas, como o mural que existe em Constância, no Jardim Cabral Moncada. Ali uma representação da identidade do concelho que elaborou também em parceria com a HJDP. Foi dessa primeira ligação que surgiu este novo trabalho.

Paulo Gonçalves destacou-se como motociclista de rali, tendo acumulado 23 títulos nas modalidades de motocross, supercross e enduro, correu por várias equipas, participou em sete edições do Rali Dakar, tendo terminado um deles na segunda posição, foi campeão do mundo de ralis todo-o-terreno em 2013 e vice-campeão em 2014.

“Era um piloto muito querido e com grande carisma. Para além de ser um extraordinário piloto era muito ligado a causas sociais, reconhecido por todos, idolatrado por muitos”, afirmou Paulo Maria.

Escultura de homenagem a Paulo Gonçalves, piloto que morreu em 2020 no Rali Dakar. O fotojornalista e artista plástico Paulo Maria. Créditos: mediotejo.net
ÁUDIO

A técnica de reutilização criativa que o artista aplica na escultura, de homenagem ao piloto, um projeto da autarquia de Esposende, construído em Constância, “é de serralharia, utilizando a soldadura, o metal, utilizando sobretudo peças mecânicas, metálicas, em fim de vida”. Obrigou a estudo, alguma pesquisa e inspiração noutras obras de arte espalhadas pelo mundo.

“A nossa intenção, através do conceito upcycling, que está muito em voga, fazendo a reciclagem de matérias ou de materiais dando-lhe uma valorização, passa por reproduzir o Paulo Gonçalves em ação”. No fundo com o objetivo de “eternizar” a vida do piloto. “É uma forma do Paulo regressar à terra onde nasceu.”

Portanto, esta ideia juntou-se à vontade do Município de Esposende de realizar uma homenagem ao piloto, que devido ao seu gosto por velocidades elevadas, recebeu a alcunha de ‘Speedy’, em alusão ao personagem animado Speedy González. E conta com a colaboração da Associação Speedy Forever, “composta por amigos e companheiros do Paulo que quiseram continuar o seu legado; pilotos, pessoas da terra, familiares, jornalistas ligados ao mundo das motas, que apresentou o projeto à autarquia de Esposende”, tendo escolhido esta peça como tributo a Paulo Gonçalves.

Conhecendo Daniel Pereira e a sua equipa da HJDP, empresa com sede na zona industrial de Montalvo, Paulo Maria, residente em Lisboa, colocou de lado opções de proximidade, como Mafra ou Sintra, e desde 16 de novembro que, de segunda a sexta-feira, vem até Constância, para trabalhar com os técnicos que considera artistas.

“São muito engenhosos, muito habilidosos e encontram sempre solução para as dificuldades. Costumo dizer por graça que começamos a trabalhar com a HJDP quando o projeto é impossível”. Neste caso “pelo tempo curtíssimo – 3 meses -, pela imprevisibilidade do material que iríamos trabalhar – não sabíamos o que iríamos receber – pela forma de trabalhar e se iria resultar”, afirma.

Quando visitámos os trabalhos, a gigante mota estava praticamente concluída e a escultura do piloto em execução, envolvendo uma equipa de quatro pessoas a tempo inteiro, nove horas por dia, cinco dias por semana. “Apesar de estar a hora e meia de casa, esse tempo dilui-se muito no que ganho em ter aqui esta equipa. É a realidade!”, afirma o artista que aproveita o trajeto diário, da capital a Constância, para pensar no planeamento do dia.

A HJDP iniciou a sua atividade em 2016. As áreas de intervenção com maior destaque são o fabrico de máquinas e equipamentos para indústria alimentar e manutenção industrial. Por de pé uma obra de arte é quase uma novidade.

Um desafio que Daniel Pereira aceitou. “Não viramos as costas a desafios. Evoluímos, aprendemos, e a equipa é multifacetada e bastante competente devido aos diferentes desafios, nunca fazemos o mesmo. É o nosso espírito, é como funciona a empresa”, refere o empresário.

As peças surgiram através de uma petição lançada pela autarquia de Esposende que no fundo ganhou o formato de convite, convidando as pessoas a participar na produção do tributo em homenagem ao piloto. Assim, dando continuidade às iniciativas evocativas já realizadas sobre o legado de Paulo Gonçalves, o Município, em colaboração com a Associação Speedy Forever e o fotojornalista convidaram todas as pessoas a integrar o processo de construção da escultura com peças mecânicas com a finalidade de eternizar e representar a vida de ‘Speedy’.

Pretendeu-se que esta fosse uma obra participada, integrando todos os que com ele trilharam a estrada da vida. E assim conseguiram, até 31 de outubro de 2023, um incontável número de peças e materiais metálicos que integram o universo mecânico, todo o tipo de componentes e ferramentas de metal, já sem uso e em fase de reciclagem. Uma recolha que se fez de Norte a Sul do País, desde Esposende, passando por Constância até Faro.

“Tivemos o apoio de alguns parceiros como a Honda – o Paulo foi campeão do mundo pela Honda, correu muito nas suas asas -, o Automóvel Clube de Portugal e a BP – o Paulo participou em muitas provas do ACP e da BP – que contribuíram com apoio logístico”, revela Paulo Maria.

Só após a triagem das peças e de saber com o que contava é que Paulo conseguiu, mentalmente, construir a escultura, por exemplo para o banco da mota utilizou pastilhas de travão, que mesmo sendo esta uma arte “alternativa” transmite a mesma sensação de realidade.

“Esse é o meu trabalho mental diário, ou seja, recorrer ao stock que temos em armazém e decidir o que faz sentido. A ideia é replicar de forma artística, com aqueles materiais, a mota e o Paulo”, explica. Como a escultura será instalada no exterior, junto à Estrada Nacional 13, classificada como Rota do Norte, num Parque Urbano reabilitado e batizado de Paulo Gonçalves, no final a escultura levará um acabamento, uma espécie de verniz, que permitirá a sua preservação, ao ar livre, ao longo do tempo.

A escultura possui ainda a particularidade de contar, na sua construção, com peças de motas de outros pilotos, designadamente que correram no Dakar, como Hélder Rodrigues, Pedro Bianchi Prata, Bernardo Villar, Jorge Gonçalves, Joaquim Rodrigues Jr. e da mota do próprio Paulo Gonçalves.

“Essas peças considerámos relíquias, elementos que pertenceram às motas que os pilotos correram que ficam dentro da mota escultura, ou seja, no coração da mota e no coração do piloto. Na escultura do piloto está uma peça vermelha da mota de Paulo Gonçalves”, detalha.

A ideia passa por “dar valor e dignificar mais a peça. Apesar de ser o autor do projeto, isto é um trabalho de equipa: meu, da HJDP, de todos os parceiros envolvidos, e de todos os familiares e amigos do universo motorizado que acompanhou o Paulo”, diz Paulo Maria acrescentando que “nada na escultura é fabricado, a não ser a estrutura que suporta a peça, tudo é adaptado” à obra de arte.

Daniel Pereira confessa que aquando da apresentação da ideia “não tínhamos bem a noção da perfeição que ali está. Todos os detalhes que o Paulo imaginou para o projeto… está perfeito! E não se encontra em lado nenhum. É a economia circular que dá vida a sucata. Uma peça única”, considera o empresário.

Uma escultura “pioneira”, só o capacete tem 60 cm por 80 cm, “uma peça gigante que vai ser muito marcante” elaborada com velas incandescentes que vai remeter para o branco.

Escultura de homenagem a Paulo Gonçalves, piloto que morreu em 2020 no Rali Dakar. Créditos: HJDP

“Só com grande habilidade técnica é que se interpreta uma peça destas. No fundo é fazer artesanato em formato industrial. Estamos contentes. Está a progredir, ainda falta o piloto, que é uma parte muito sensível, muito emotiva que vamos guardar para mostrar na apresentação”, refere Paulo Maria, que tem o trabalho de “pesquisar, pensar em avanço e testar para que não se perca tempo. Não há tempo a perder! Ainda há muitas surpresas por aparecerem mas ficam para a inauguração”.

A inauguração está agendada para sábado, dia 10 de fevereiro, em Esposende, anunciou aquele município de onde o piloto era natural, especificamente da freguesia de Gemeses.

Homenagem a Paulo Gonçalves, piloto que morreu em 2020 no Rali Dakar. Créditos: Agência Lusa

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Paulo Gonçalves um desportista que comecei a admirar na pista de motocross de Ponte de Sor. Infelizmente deixou-nos muito cedo e quando tinha o mundo à sua frente. Obrigado pelo artigo pois dá a conhecer uma obra/homenagem que está a nascer numa jovem empresa da nossa região.

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