Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

A neta, ainda pequena, mostrou-se tímida perante as fotografias, mas nada discreta no carinho pelo avô. Andou ao colo de Vítor Mira, agarrou depois no galardão que ele acabara de receber e percorreu o Parque do Lavradio a mostrar o troféu.

No palco, porém, ficou a assistir ao momento em que o avô recebeu a distinção, acompanhado pela esposa e pela família, num pequeno discurso de agradecimento em que a emoção acabou por falar mais alto.

As palavras foram poucas, como tinha antecipado ao mediotejo.net. Vieram os agradecimentos, a voz embargada e as lágrimas, antes de uma prolongada salva de palmas dos muitos amigos e alcanenenses presentes na cerimónia. Ao lado, a esposa não escondia o orgulho pelo reconhecimento público de um homem que sempre preferiu ajudar sem dar nas vistas e que, horas antes, tinha resumido essa forma de estar numa frase: “Gosto de fazer e não mostrar o que faço. As pessoas dirão depois o que é.”

Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

Aos 78 anos, Vítor Mira recebeu uma distinção que reconhece uma vida marcada pelo trabalho, mas também por uma disponibilidade continuada para apoiar pessoas e instituições do concelho. “A primeira imagem é toda uma vida a trabalhar, saber trabalhar e ajudar as pessoas. Contribuir para o bem das pessoas e ajudar no que eu podia. Foi sempre assim. A minha vida foi assim”, contou ao mediotejo.net.

Uma vida ligada aos automóveis

Nascido em Alcanena, em julho de 1948, Vítor Mira começou a trabalhar aos 10 anos, depois de concluir a quarta classe. “Os meus pais eram pobres, não tinham maneira de eu ir estudar e agarrei-me logo ao trabalho. A partir daí nunca mais parei na minha vida”, recordou. Passou alguns meses por uma fábrica de curtumes, mas encontrou rapidamente o ofício que o acompanharia durante décadas: bate-chapas e pintura automóvel.

Nem o serviço militar em Angola o afastou dos carros. Integrado numa estrutura de apoio e manutenção do Exército, trabalhou na reparação de viaturas militares e, depois de regressar a Portugal, partiu para França, onde viveu cerca de nove anos e meio, na região de Paris. Trabalhou numa empresa com cerca de 300 autocarros e chegou a assumir responsabilidades na área de bate-chapas e pintura. “Fui lá bem atendido, bem estimado, bem respeitado. Estava numa boa casa, tinha uma boa posição”, recordou.

Apesar disso, decidiu regressar a Alcanena. Tinha filhos pequenos e queria construir ali a vida. No final de 1982, início de 1983, começou a trabalhar por conta própria e a oficina que criou atravessaria mais de quatro décadas, até encerrar no início deste ano. “Foi uma vida aqui a trabalhar”, resumiu.

Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

A decisão de fechar, garante, nada teve a ver com falta de trabalho. Quando encerrou, tinha quatro funcionários e clientes suficientes para continuar. “Se tivesse dez homens para trabalhar, tinha trabalho para todos”, afirmou, admitindo que o mais difícil foi despedir-se das pessoas que o acompanharam ao longo dos anos. “Custou-me mais pelos clientes que eu tinha. Tinha bons clientes, tinha clientes amigos. Essa parte é que me custou um bocadito.”

Também nunca se habituou muito à ideia de ser patrão. “Os empregados para mim eram como colegas de trabalho. Nunca me considerei patrão. Considerei-me sempre um colega de trabalho”, contou, numa relação profissional que diz ter procurado manter próxima ao longo de toda a atividade.

“Sempre gostei dos bombeiros”

Foi precisamente através da oficina que uma parte importante da vida profissional de Vítor Mira se cruzou com a responsabilidade social agora reconhecida pelo município. Durante anos apoiou os Bombeiros Municipais de Alcanena através da disponibilização de serviços, reparação de viaturas e outros contributos, uma ligação que, garante, nasceu de uma decisão pessoal e não de qualquer obrigação empresarial.

“Foi uma decisão pessoal. Pelo gosto que tenho”, explicou. “Sempre gostei dos bombeiros”, acrescentou, justificando esse sentimento pela missão desempenhada pela corporação e pela importância do serviço prestado à população.

A documentação municipal regista vários desses contributos. Em 2016, Vítor Mira doou uma viatura de transporte de passageiros aos Bombeiros Municipais, avaliada em 10.500 euros. Em 2021, a empresa suportou a reparação e pintura dessa mesma viatura e, em janeiro deste ano, voltou a assegurar a reparação de um veículo destinado ao transporte de equipamentos da corporação.

Vítor Mira prefere, contudo, reduzir décadas de colaboração a poucas palavras. “Eu gosto de dar, de estar e de fazer tudo discretamente”, afirmou, acrescentando que “a minha pouca contribuição era essa”. A ligação ganhou também uma dimensão pessoal quando, num período difícil da vida familiar, precisou da corporação. “Precisei deles uma altura, quando tive o meu filhote doente, e eles serviram-me sempre com prontidão. Mas além disso já tinha sempre um certo carinho pelos bombeiros”, contou.

Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

A disponibilidade para ajudar não se limitou aos bombeiros. Ao longo dos anos, Vítor Mira manteve também uma relação próxima com o Centro de Bem-Estar Social de Alcanena, instituição que apoiou de diferentes formas e cuja direção chegou a integrar. “Também gosto do Centro de Bem-Estar Social porque acho que é uma instituição que deve ser ajudada”, afirmou.

“Se há Deus, Deus sabe”

A discrição repete-se quando fala de outros apoios que foi prestando ao longo da vida. “Muita gente nem sabe”, reconhece, acrescentando que prefere que assim seja. “Eu costumo dizer uma coisa: se há Deus, Deus sabe. E mais nada. Não é preciso que mais ninguém saiba.”

Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

Vítor Mira associa essa forma de estar à educação recebida dos pais, numa família com poucos recursos e habituada ao trabalho. “Educaram-me bem educado. É respeitar as pessoas, é lidar com toda a gente bem”, afirmou. Questionado sobre se, depois de uma vida inteira de trabalho, se sente realizado, começa por responder afirmativamente, mas depressa relativiza: “A gente nunca se sente realizado porque tem sempre a ambição de fazer mais qualquer coisa.”

E ainda há coisas que gostaria de fazer. “Gostava de ajudar a comunidade ainda mais”, afirmou.

Foi precisamente essa relação com a comunidade que Rui Anastácio destacou no Parque do Lavradio. “Todos nos habituámos à generosidade do senhor Vítor Mira para com a nossa comunidade. Para ele, a generosidade é tão natural como respirar”, afirmou o presidente da Câmara de Alcanena, considerando ainda que “felizmente, ainda há quem escolha a bondade e a generosidade como modo de vida” e apontando Vítor Mira como um exemplo dessa forma de estar.

Minutos depois, era essa generosidade discreta que recebia um reconhecimento muito público. Vítor Mira tinha antecipado que não gostava “muito dessas coisas” e que sentiria apenas “satisfação” pelo galardão, tendo até pedido à filha que lhe preparasse “meia dúzia de palavras” para o momento. “É simples e discreto”, explicara.

No palco, a emoção acabou por tornar o discurso ainda mais curto. Fora dele, enquanto a esposa acompanhava com orgulho o reconhecimento, a neta encarregou-se de lhe retirar toda a discrição possível: agarrou no galardão do avô, apreciou-o e andou pelo espaço a mostrá-lo, satisfeita, a quem se cruzava com ela.

Talvez seja também essa imagem que melhor resuma o reconhecimento de uma vida que Vítor Mira sempre preferiu manter longe dos holofotes e que ele próprio sintetizou numa última ideia: “O mundo devia e podia ser melhor. Se toda a gente se quisesse ajudar uns aos outros, o mundo era muito melhor.”

Vítor Mira distinguido em Alcanena por uma vida de trabalho e ajuda à comunidade. Foto: mediotejo.net

A cerimónia integrou o Regenerar Alcanena 2026 e teve como objetivo reconhecer pessoas, empresas e instituições pelo contributo para o desenvolvimento económico, social e comunitário do concelho. Foram atribuídos galardões nas categorias Carreira e Responsabilidade Social, a par das distinções PME Líder 2025 e PME Excelência 2024, valorizando percursos individuais, desempenho empresarial, criação de emprego, inovação e ligação à comunidade.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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