Encenação envolve cerca de 100 atores e figurantes. Foto: mediotejo.net

O renovado castelo de Ourém voltou a servir de cenário à Via-Sacra ao Vivo, após dois anos de interregno devido à pandemia. No “espetáculo” participam cerca de 100 atores e figurantes da comunidade local, mas a assistir estavam largas centenas de pessoas que vieram de vários pontos do país para apreciar esta encenação.

Se, por um lado há quem assista à Via Sacra como uma mera encenação teatral, outros vivem-na com profundo sentimento e devoção. Os atores e figurantes entregam-se aos seus papéis, vividos com intensidade.

Além da novidade das obras do castelo, resultado de um investimento superior a 2 milhões de euros, também na encenação foram introduzidas algumas mudanças e inovações, conforme nos deu conta o encenador e autor dos textos, Mário Catarino.

A principal novidade foi o novo ator que faz de Jesus Cristo e que constituiu a revelação artística da tarde, tal foi a intensidade e o realismo que imprimiu à sua personagem.

Anacleto Gonçalves, 44 anos, carpinteiro de profissão, fez o papel de Jesus Cristo pela primeira vez e recebeu muitos elogios pela sua interpretação tão realista.

O que é curioso é que Anacleto já, em anteriores edições, tinha feito o papel de soldado, depois fez o papel de Judas durante seis anos e agora encarnou a figura de Cristo. Sucede no papel ao seu primo António Gonçalves, que durante 21 anos representou o papel de Jesus.

De Judas a Cristo

Nervoso e ansioso, minutos antes de entrar no “palco” Anacleto, em declarações ao mediotejo.net, reconheceu ser “uma grande responsabilidade”. Diz que leva uma cruz às costas, a de madeira, mas a outra não é mais leve, a da responsabilidade do papel que representa.

“Estou um pouco nervoso, mas estou confiante que vai correr bem”, confessou o ator que faz teatro há 15 anos no grupo “Os Pépétos – Grupo de Teatro do Sobral”.

Há vários anos que Mário Catarino é o encenador e autor do texto da Via Sacra, um trabalho meticuloso que mistura artes como a música, a poesia e o teatro.

De ano para ano procura sempre introduzir inovações e mudanças. Os atores vão rodando e assumem papeis diferentes, a parte do texto do narrador passou a ser em escrito em verso. Este ano, à música cantada “a capella” juntou-se um organista e uma banda filarmónica.

“É uma renovação e uma saudade depois de dois anos sem fazer a Via Sacra. Primeiro estranha-se e depois entranha-se”, diz Mário Catarino satisfeito com o entusiamo dos cerca de 100 atores e figurantes que movimenta.

Numa tarde em que “S. Pedro ajudou” e as temperaturas subiram aos 28 graus, a Via Sacra começou no largo da Sé Colegiada onde ao som de cânticos religiosos Jesus Cristo chega montado num burro e é aclamado pelo povo.

À volta o público tenta arranjar os melhores lugares para assistir à encenação num espaço que se revela pequeno para tanta gente. Quem já conhece o espetáculo prefere instalar-se ao longo do percurso da Via Sacra até ao castelo.

São 14 as estações da Via Sacra até à crucificação de Jesus já no terreiro do Castelo. Ao longo das centenas de metros a subir, Anacleto desempenha o papel principal. Momentos carregados de dramatismo são aqueles em que acontecem as três quedas de Cristo com a cruz. Uma cruz que é feita em madeira, mas oca por dentro, de modo a que não seja pesada. Mesmo assim, Anacleto garante que pesa entre 10 a 15 quilos.

Na encenação marcou presença o Presidente da Câmara Municipal, Luís Albuquerque, o Presidente da Assembleia Municipal, João Moura, entre outros autarcas da Câmara, Assembleia e Juntas de Freguesia.

A Via Sacra ao Vivo na Vila Medieval de Ourém teve organização do Município de Ourém, Paróquia de Nª Sr.ª das Misericórdias e Junta de Freguesia de Nª Sr.ª das Misericórdias e contou com as participações da Sociedade Filarmónica Ouriense, Bombeiros Voluntários de Ourém, Forças de Segurança Pública, Agrupamento de Escuteiros das Misericórdias, entre outros parceiros.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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