Foto: Pixabay

Uma crónica escrita num 25 de Abril não me permite ignorar a data que marcou a mudança de regime neste país e “obriga-me” a partilhar a minha reflexão sobre os valores de Abril.

Obriga-me, mas não me dá certezas em relação à minha vontade sobre essa partilha, porque faz-me recuar a tempos em que vivi com algum desconforto e muitas dúvidas. Tentarei contextualizar para facilitar o entendimento.

Cresci num núcleo familiar que defendia e tinha orgulho nos valores de Abril. Em simultâneo, social e escolarmente, senti o estigma de pertencer a essa família que defendia esses valores. Confesso que esses foram tempos de antagonismo e muitas dúvidas sobre o lado da razão, essencialmente porque não tinha, nem maturidade nem profundidade de conhecimento para poder ter mais certezas.

Se quiser ser honesto, apesar de ter “crescido” intelectualmente, de poder afirmar sem falsas modéstias que atingi uma maturidade aceitável e de ter aumentado exponencialmente o meu conhecimento sobre a história e o tema, hoje, continuo a ter muitas dúvidas sobre os valores de Abril. Não sobre a sua legitimidade ou sobre o seu contributo para o desenvolvimento deste país, mas sobre o “excesso” de liberdade que me faz questionar se o objetivo foi de facto atingido.

Podemos e devemos refletir sobre o que éramos e o que somos enquanto país. Parece-me não haver dúvidas que o saldo entre o que perdemos e o que ganhámos depois do 25 de Abril de 74 está claramente inclinado para o lado do benefício. É evidente que hoje temos mais desenvolvimento, mais formação e mais conhecimento do que teríamos se não tivéssemos tido esta revolução há mais de 40 anos, mas depois de nos últimos anos estar a assistir à destruição de muitos dos valores que Abril libertou, volto às minhas dúvidas sobre a revolução dos cravos.

Abril libertou, mas nem todos têm estado à altura dessa liberdade que devia rimar com responsabilidade mas que tem rimado mais com impunidade. Quarenta e quatro anos depois tenho dúvidas que os capitães de Abril se revejam naquilo que Portugal se transformou, porque, por mais que me esforce, tenho dificuldade em vislumbrar hoje os valores que a revolução libertou.

Mas apesar de tudo e de todas as dúvidas, hoje tenho orgulho no orgulho e na defesa dos valores que aprendi no seio do meu núcleo familiar. Naqueles que estiveram na essência e na origem da revolução. E se outro exemplo não conseguisse dar, esta crónica é o paradigma mais importante dessa mudança. Pensar e partilhar. E esta liberdade é um privilégio só entendido por quem conheceu o outro lado desta realidade.

Vasco Damas

É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.