Valamatos quer Urgência de Obstetrícia de Abrantes sempre aberta após novos constrangimentos. Foto arquivo: mediotejo.net

O presidente da Câmara de Abrantes defendeu o funcionamento permanente da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Dr. Manoel Constâncio e anunciou que vai pedir informação detalhada sobre os constrangimentos do serviço, que voltou a registar períodos de encerramento nas últimas semanas.

“Nós faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para fazer parte das soluções e tentar, obviamente, que este serviço nunca encerre”, afirmou Manuel Jorge Valamatos (PS), na reunião do executivo municipal de 8 de setembro.

A posição surgiu em resposta ao vereador Nuno Serra (Chega), que questionou o município sobre o futuro da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia de Abrantes e pediu dados concretos sobre os períodos em que o serviço esteve indisponível, os encaminhamentos de grávidas para outros hospitais e os recursos humanos existentes.

O eleito recordou que a nova Rede de Referenciação Hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia mantém o Hospital de Abrantes como unidade de Nível I e considerou que “não basta dizer que o serviço está aberto”, sendo necessário assegurar “uma resposta contínua, previsível e segura”.

A rede aprovada este ano pela Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) integra efetivamente o Hospital de Abrantes no Nível I da resposta de Obstetrícia e Ginecologia em Lisboa e Vale do Tejo, a par dos hospitais das Caldas da Rainha, Santarém e Vila Franca de Xira.

Quando o novo modelo foi conhecido, em março, a Unidade Local de Saúde (ULS) Médio Tejo garantiu ao mediotejo.net que a urgência de Abrantes se manteria aberta.

“Nada muda no sistema que já está implementado”, assegurou então a administração da ULS, explicando que os casos de maior complexidade continuariam a ser referenciados para hospitais com níveis superiores de diferenciação.

O serviço tem, no entanto, registado constrangimentos pontuais relacionados com a disponibilidade das equipas. No final de agosto, a Urgência de Ginecologia-Obstetrícia e o Bloco de Partos voltaram a sofrer alterações de funcionamento, tendo a indisponibilidade chegado a prolongar-se durante vários dias.

Foto: mediotejo.net

O acesso à urgência integra atualmente o projeto de pré-triagem telefónica através da Linha SNS Grávida-Ginecologia, que avalia as situações e encaminha as utentes para a resposta disponível e adequada, não se aplicando o contacto prévio a situações de risco iminente de vida ou previamente referenciadas por profissionais de saúde.

Chega quer números dos encerramentos e transferências

Perante os constrangimentos, Nuno Serra perguntou quantas horas a Urgência de Ginecologia e Obstetrícia esteve encerrada durante 2025 e quantas acumulava em 2026 até à data da reunião.

O vereador quis igualmente saber quantas grávidas foram encaminhadas para outras unidades devido aos encerramentos, quais os hospitais de destino e os tempos médio e máximo de transporte.

Às questões sobre o funcionamento juntou as relativas aos recursos humanos, perguntando quantos médicos especialistas em Ginecologia e Obstetrícia estão atualmente ao serviço, quantas vagas permanecem por preencher, quantos enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica estão disponíveis e se existe um plano para reduzir ou eliminar os períodos de indisponibilidade.

Nuno Serra questionou ainda se a Câmara recebeu alguma comunicação formal da ULS Médio Tejo, da Direção Executiva do SNS ou do Ministério da Saúde sobre o futuro da urgência e pediu a disponibilização aos vereadores de eventuais documentos existentes.

O eleito perguntou também pela existência de estudos sobre o impacto dos encerramentos temporários na saúde materna e neonatal.

Recorde de 823 partos em 2025

Nuno Serra contrapôs os constrangimentos ao crescimento da atividade da maternidade de Abrantes, que em 2025 registou o maior número de partos de sempre.

Foram 823 nascimentos, mais 68 do que os 755 contabilizados em 2024, correspondendo a um crescimento de cerca de 9% e à primeira vez que a maternidade ultrapassou os 800 partos num ano.

Do total, 40% dos partos corresponderam a utentes do concelho de Torres Novas, 30,7% de Abrantes e 14,7% de Tomar.

A maternidade reforçou também a sua dimensão suprarregional: cerca de 14% dos nascimentos, correspondentes a 115 bebés, foram de utentes provenientes de fora da área de abrangência da ULS Médio Tejo, principalmente dos concelhos de Santarém, Leiria e Caldas da Rainha.

Na altura da divulgação dos números, o presidente do Conselho de Administração da ULS Médio Tejo, Casimiro Ramos, reconheceu as dificuldades existentes, mas considerou que o crescimento demonstrava a confiança das famílias na maternidade e a capacidade das equipas para manterem a resposta.

A própria ULS atribuiu parte do aumento à chegada de grávidas provenientes de outras unidades hospitalares, considerando que os números reforçavam a relevância regional da maternidade.

Valamatos destaca importância para o Médio Tejo e Beira Baixa

Na reunião de Câmara, Manuel Jorge Valamatos considerou particularmente relevantes as questões colocadas pelo vereador e anunciou que solicitará informação mais detalhada sobre o funcionamento da urgência.

O presidente da Câmara salientou o crescimento do número de nascimentos e defendeu que a importância do Hospital de Abrantes ultrapassa os limites do concelho e do Médio Tejo.

Valamatos quer Urgência de Obstetrícia de Abrantes sempre aberta após novos constrangimentos. Foto arquivo: mediotejo.net

“O Hospital de Abrantes tem aqui um papel muito relevante, não no contexto apenas do Médio Tejo, mas do interior e da Beira Baixa”, afirmou.

“Temos aqui um serviço importantíssimo aos cidadãos. Os cidadãos não podem ficar desprotegidos deste serviço que tem o epicentro aqui em Abrantes, que é o serviço de Ginecologia e Obstetrícia”, acrescentou.

Valamatos reconheceu que existem dificuldades na constituição das escalas hospitalares, apontando a falta de médicos nesta área e de anestesiologistas como um problema que não se limita a Abrantes.

Segundo o autarca, os constrangimentos verificam-se também noutras unidades hospitalares de Lisboa e Vale do Tejo e tendem a agravar-se nos períodos de férias e aos fins de semana.

O presidente da Câmara referiu ainda a existência de um trabalho de articulação entre as várias unidades hospitalares para responder às dificuldades de recursos humanos.

“Eu vou pedir uma informação mais detalhada sobre esta matéria que nos preocupa a todos”, garantiu Valamatos, comprometendo-se a procurar trazer posteriormente ao executivo municipal mais dados sobre a situação.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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