O Serviço de Urgência de Ginecologia-Obstetrícia do CHMT, instalada em Abrantes, num centro hospitalar que integra ainda as unidades de Tomar e Torres Novas, volta hoje a estar condicionado, por um período de 24 horas (21.00 de terça-feira até às 21:00 de quarta-feira) com o bloco de partos a encerrar por um período de 24 horas (21:00 de hoje até às 21:00 de quarta-feira), entre isto depois de já ter estado em contingência esta semana, nos dias 20 e 22 de agosto, igualmente em dois períodos de 24 horas.
Durante estes períodos de contingência, que se têm feito sentir em diversas ocasiões desde o mês de julho, a UGO de Abrantes “não receberá doentes urgentes transportadas por ambulância”, sendo que os caos inadiáveis e urgentes na maternidade serão encaminhados para o hospital de Leiria, hospital de referência no âmbito de um protocolo firmado no início do mês entre as duas instituições hospitalares.
O hospital de Santarém, que seria o mais perto de Abrantes, também apresenta planos de contingência esta semana no Serviço de Urgência Obstétrica/Ginecológica e no bloco de partos, nomeadamente entre as 8h30 de quarta-feira e as 8h30 de sexta-feira, ou seja, um período seguido de 48 horas, o que obriga o hospital de Abrantes a transferir para Leiria, a cerca de uma hora de distância.
“As grávidas e utentes com patologia ginecológica urgente que se desloquem ao Serviço de Urgência de Ginecologia-Obstetrícia do CHMT serão transferidas para outras unidades do SNS da região, num quadro de articulação e funcionamento em rede, que envolve o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo”, e, agora também, o hospital de Leiria, deu conta o CHMT.
Nos períodos de contingência, o CHMT deu conta que “irá garantir o transporte das utentes em ambulância, com toda a segurança e o acompanhamento de um enfermeiro especialista da instituição”.
“Durante todo o período de contingência, o Serviço de Urgência de Ginecologia-Obstetrícia do CHMT será assegurado por uma equipa de profissionais de saúde, constituída por um médico obstetra, três enfermeiros especialistas, entre outros elementos (como assistentes operacionais e técnicos de diagnóstico e terapêutica), contando também com o apoio dos Serviços de Cirurgia Geral e de Anestesiologia, que prestarão cuidados de saúde circunscritos a situações de risco de vida iminente”, sublinha.
Segundo o CHMT, “esta equipa está preparada para dar resposta pronta a situações de emergência inadiável – que incluem, por exemplo, a realização de uma cesariana de emergência, ou outra condição de risco de vida iminente, como um parto prematuro, ou uma hemorragia pós-parto”.
Ordem antevê agravamento nos serviços de obstetrícia se Governo não tomar medidas
O bastonário da Ordem dos Médios disse hoje que os constrangimentos que desde junho têm afetado os serviços de ginecologia e obstetrícia de alguns hospitais deverão agravar-se no próximo mês se o Governo não tomar medidas.
“Temo que, pelo facto de o Ministério da Saúde ainda não ter tomado decisões nesta área, setembro possa ser pior do que agosto e que, se calhar, o resto do ano não corra assim tão bem”, anteviu Miguel Guimarães.
O bastonário falava aos jornalistas no final de uma reunião com 20 dos cerca de 150 médicos internos de ginecologia e obstetrícia que, no início deste mês, enviaram uma carta à ministra da Saúde sobre a crise atual enfrentada pela especialidade.
“Quando os médicos mostram preocupação em identificar as questões que estão menos bem e é necessário corrigir com urgência, não terem sequer uma sinalização da receção da carta ou, mais grave ainda, não existir uma reunião [com a tutela] é lamentável”, disse o bastonário.
Sublinhando que desde junho se assiste a constrangimentos nos serviços ginecologia e obstetrícia de alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e que desde o início do ano os médicos alertavam para essa situação, Miguel Guimarães considerou que o problema vai agravar-se “se nada for feito” com consequências a diferentes níveis.
“A própria formação está a começar a ser prejudicada nesta matéria”, referiu, explicando que em muitos casos os médicos internos “estão a ser desviados para fazerem serviço de urgência em detrimento de fazerem a sua formação em áreas especificas da obstetrícia e ginecologia”.
Por outro lado, o bastonário sublinhou também o excesso de horas extraordinárias realizadas pelos médicos internos, sendo que na carta enviada à ministra da Saúde esses profissionais reiteram a indisponibilidade de fazer mais de 150 horas extraordinárias por ano.
De acordo com Miguel Guimarães, uma das médicas presente na reunião relatou que no seu hospital, que o bastonário não identificou, todos os médicos internos já tinham feito mais de 600 horas extraordinárias entre janeiro e agosto.
“É quase uma escravatura”, disse o representante dos médicos, alertando que o excesso de horas extraordinárias tem também impacto na qualidade da prestação dos cuidados de saúde.
O problema, acrescentou, não é exclusivo da obstetrícia e ginecologia, estendendo-se a várias especialidades, e tem resultado, nos últimos anos, na saída de profissionais do SNS.
“Os médicos, em vez de estarem a protestar, a fazer manifestações e greves, estão a sair do SNS e o facto de haver muitos médicos especialistas a sair do SNS é o sinal de alerta mais forte que existe”, disse, afirmando que não se trata de falta de médicos, mas da dificuldade em captar e manter médicos no setor público.
Questionado sobre que medidas são necessárias, por parte do Ministério da Saúde, para resolver a situação, o bastonário referiu a necessidade de alterações estruturais e a revisão da carreira médica,
“Para rever uma carreira, não são precisos meses, nem anos. É preciso motivação, interesse em resolver os problemas e andar para a frente. No fundo, é preciso fazer acontecer”, resumiu, considerando que, em vez disso, o executivo tende a “empurrar para a frente com a barriga”.
